quinta-feira, dezembro 23, 2010
Vésperas
sábado, maio 01, 2010
Pedro e nós
quarta-feira, março 10, 2010
Eu, ela, ele: nós
domingo, março 08, 2009
Encolhendo-me

Revolta a manhã iridiscente!

A Botica se fechou
em séculos de mistérios.
A torre transubstanciou
suas entranhas.
Pedras rumoram um código indecifrável.
Encontrei-me por aí!
Algo ocorre nas esferas de El Escorial
D. Felipe II dorme um sonho de perros negros
Sofre no azufre!
Algo de nós fica quando partimos:
nos outros, nos campos frios, na Botica,
na biblioteca que se ordena ao revés.

Uma estrela sempre brilha antes de nascer!
Sou um livro sendo escrito desde a minha morte.
Volto valente para diante
e recolho o diamante
que brilha e significa.
Dialógico:
- Quem sabe nos encontremos ontem?
- Para você está bem às 8h?
Leio-me desde o futuro
e encontro o passado imprevisível.
No início era o vírus.
Própolis e enclisópolis.
Um grande felino se acomodou na garganta.
Própolis é próprio da cidade gutural!
Madri se acende com candeias tímidas.
A noite se fecha
como a barriga de um burro.

segunda-feira, março 02, 2009
D. Martina
Escolhendo-me
esqueci-me do que não se (esquece e lembra)
como uma só nota grávida de todas as soltas.
Cármen lembra carma que lembra calma
que lembra o que não se lembra
e me põe assim:
cálmico.
Deus sabe como sou homem o suficiente para respeitá-la.
Mas haverá de se abrir
erra entre os muros tardios.
Minhas cãs resistem!
Sinto muito: estou suspenso no ar...
errar é a maior empresa humana!
Melhor seria:
Vejo o velho que me vê e diz:
que cara de nenê!
terça-feira, fevereiro 03, 2009
Portal
domingo, dezembro 14, 2008
Sombra branca
Sempre subo a escadaria apressurado.
Toc, toc, toc, toc - ouço passinhos que me alcançam numa graciosa dança imitativa. Buscam-me na penumbra do quarto.
Espio de soslaio e vejo que me olha desconfiado - o meu pequeno Nini.
Está escuro. Seus olhinhos brilham e como que para afastar seus temores essenciais pergunta:
- Pappi, a luz é sombra branca, né?
Respondo que sim e o tomo nos braços com todo o carinho e amor. Meu precioso Nini.
Aquidance
Ainda muito pequenina, íamos freqüentemente à fonte que se acha no costado do lindo Hotel Maksoud Plaza, na São Carlos do Pinhal.
Ali ficávamos completamente absorvidos, encantados pela revolução contínua das águas que brotavam generosas entre jatos e borbotões.
Era um espetáculo que me furtava as palavras.
"Aquidance" - assim o fenômeno foi logo batizado pela língua afiada da pequena Lelê. Água-que-dança > aqüidança > aquidance; simples assim.
Pensando bem, a palavra é linda. Já esquecida, como tantas outras, dormitou alguns anos, jazendo tranqüila no veio insondável dos aqüiferos da alma.
Hoje, contudo, irrompeu cristalina, como num lance de chafariz, colhendo-nos na cerimônia do banho vespertino da pequena Nena.
Logo fui arrebatado. Sentei-me ao seu lado, senti o piso molhado e assim me deixei lavar, por dentro e por fora, pelas águas que ainda dançam coloridas na infância que se avista nas profundezas do lago.
Lá do fundo, minha mãe me observa tranqüila e serena. Sabe que o seu pequeno haverá de percorrer ainda um longo caminho até o Mar.
segunda-feira, dezembro 08, 2008
Cláudio de Sá
Esse cara ao lado é meu irmão. Gosto dele praca.
Devo-lhe a apresentação dos Beatles, do místico Donovan, da alucinação púrpura de Jimi Hendrix e do blues de sotaque insular de John Mayall.
Tudo corria solto nos tardos 60´s.
Esventrei os interiores de uma aphaniptera, conheci o cabelo acobreado ao microscópio, esmiuçei os complexos vitrais modernos da asa de uma mosca-da-fruta.
Casa 2 da Estudantes. Ali tudo acontecia: música, doces, natais, guaranás, crushs, grapettes, cerejinhas, fotografia e teatro.
E humor, muito bom humor!
Antes havia a guitarra gentil de George Harrison. Depois a genialidade de Frank Zappa. Assim caminha a humanidade! (Tá certo, ele apresentou o outro lado do lado B - Nazareth, Genesis, Yes e outras esquisitices de noivas ou de bolos. Ou ambos. Eu o perdoo e absolvo por isso. Não sabia o que fazia).
O que nunca entendi mesmo, um verdadeiro mistério para mim, foi ter mandado construir um contrabaixo à imagem e semelhança do de Paul McCartney. Nunca entendi essa extravagância tipicamente britânica.
Cláudio de Sá, seu humor beira a genialidade, toca a sublime loucura dos Cronópios. V. é do tipo de gente como Quino, Quintana, Quintinos, Gustavo "Principito" Pena, Eric Idle, Oswald de Andrade...
Na verdade, devo-lhe mais do que ter aprendido a assoviar com os dois dedos e de ter riscado o single Help! dos Beatles.
Por tudo isso, e muito mais, devo lhe dizer hoje, ontem e sempre: muito obrigado!
sábado, outubro 25, 2008
Somos tão racionais quanto não se pode ser
Uma foto, um lance de dados, as seis faces refletidas da tarde radiosa. Advinho um número e o rosto de alguém que não existe, revelo o nome que a sorte dispõe ao acaso e perco moedas na relva úmida de hortelãs.Somos um livro aberto, meu anjo. Mas as páginas solares escondem uma trama inexpugnável, um mundo de pequenas letrinhas mágicas que se armam em galáxias infinitas e inextrincáveis, serpentes espiraladas de fogo e poder.
Deixo-me estar a ser pensado como um livro mágico que nunca se lê e se compreende.
Onde tudo começa e ainda antes termina
Os sonhos começam onde tudo termina.Mas, qual o lugar dos sonhos, minha pequena?
Tênue lâmina que nos separa do mundo cerzido pela trama da memória, a fronteira final é a palavra que não foi dita, uma foto furtada, um gesto distraído.
Eis-nos aqui, Íris. A nossa tradução nítida e perfeita.
Não busque além dessa manhã perdida: o mundo pode dissolver-se além da linguagem.
Importante nesta noite é dizer que simplesmente te amo.
Amélia Jacomino
Faz apenas sete anos que v. partiu. Deus sabe que um setênio pode representar um grande salto.
Neste mesmo ano, faz apenas sete dias, seu sobrinho Pedro partiu.
Partidas e chegadas. Noites de sonhos e manhãs ensolaradas.
Revisitando os lugares pelos quais nós passamos - na São Bernardo cinza e deformada, nas ruas que um dia conheceram sua caminhada decidida e corajosa, no rosto de algumas pessoas que ainda resistem - em cada um desses lugares sua imagem se dissolve na irrelevância de outros tempos. Seu rastro se perde pouco a pouco na multidão que povoa esse admirável mundo novo, enclave que desconheço e muito menos compreendo.
Novos tempos.
Sei que não significamos para além de nossa memória afetiva.
Estou aqui, minha querida mamãe. Com o coração agradecido pela obra que pude concretizar e pelos sonhos que ainda nutrem minha peregrinação nesse grande e cansado mundo.
Epifanias
terça-feira, outubro 07, 2008
Íris - seta certeira de cores

quarta-feira, agosto 27, 2008
Carolina
terça-feira, julho 01, 2008
tempo controverso
Não pude deixar de me lembrar, instantaneamente, do Leminski:
"um homem com uma dor
é muito mais elegante
caminha assim de lado
como se chegasse atrasado
andasse mais adiante".
A sua prosa está leminskiana.
Ou será bem o reverso? O tempo é controverso!
De seu amigo,
confuso honorário.
segunda-feira, junho 09, 2008
Junia - o relâmpago é azul
Sim, havia as estrelas vespertinas, em eterna disputa no vasto nankin celestial.
Uma delas, por sinal revelado, era uma pequena e tímida guria. Era bailarina. Figurava no corpo de baile do Municipal. Na última vez que a vi, já casada, emprestei-lhe um livro enigmático (O-Que-Sabe: Eclesiastes: = Qohelet, de Haroldo de Campos) e ela mo devolveu com uma pequena, delicada, misteriosa folha em branco.
Até hoje leio em sua alvura a multidão de mensagens cifradas que cabem na pequena folha. Sei que foi um silêncio eloqüente!
Alice
Meu deus, que foi aquilo? Parece que desço agora, sem peias, nesse transbus da memória que me leva a uma profunda Feira de Ciências.
A madrugada gélida ainda está lá atrás, numa são bernardo que já não existe aqui fora.
"If I were a swan, I'd be gone. If I were a train, I'd be late. And if I were a good man, I'd talk with you more often than I do".
Lembro-me da noite fria que tornava a melodia de Waters penetrante.
Jorge Odara
Conheci-o pelas ruas de São Bernardo, sorrindo para as estátuas, dormindo com as estrelas, sonhando com o amanhã.
Chegando sempre atrasado, ele é que estava à frente!
Partiu como chegou, suave como a brisa de uma tarde esquecida.
Ariel Dennis Denstone
Como ele pode inventariar meu passado num lance de olhar?
O Ariel está muito além dele mesmo. Transpôs o arco das aparências confortáveis e padece no calabouço interior. Seus olhos continuam uma porta aberta à terra do fogo, uma patagônia imemorial que resiste ao tempo nalgum ponto entre a São Bernardo embaciada e as estrelas fulgurantes da segunda galáxia.
Transbus e transístor: transido pela trampa de memória!
Memórias & marmitas
Deus sabe que não estou louco o suficiente.
Mas um dia, quem sabe, alguém lançará uma pergunta ao Google_Universe com as tags - Taquara .AND. Marinho .AND. Marmita - e a minha história será contada. Minha e a de minha mãe também.
Que labirinto minóico! Do Minho ao Minhoca, tudo é terrinha da memória!
terça-feira, fevereiro 12, 2008
Portmanteau
Está sempre testando os limites, propondo charadas mágicas e dando respostas que são sempre outras perguntas.
É como se o sentido do mundo devesse ser construído pouco a pouco, sem pressa, tranquila e serenamente como serão os eternos vales de São Tomás de Aquino.
O mundo adulto? Ele que se contente com suas pobres metáforas, ora bolas!
Na volta de Juqueí, enfrentando a desconcertante inteligência da Lelê - imbatível do jogo de adivinha e formação de palavras -, o Pepo constrói uma linda palavra que se inicia com "do".
O desafio, na verdade insuperável, era descobrir nomes de animais que se iniciam com "do".
- Do, de domelo, respondeu lesto e lampeiro.
- Domelo? - todos se entreolharam surpresos.
- Os domelos vivem no mar... Abaixo do cavalo marinho - explicou serenamente.
Os domelos desde então passaram a embarcar nas alegres e ruidosas viagens que se sucedem na viatura Cyrimin.
Sétima Sala
Pobre de mim, simples mortal, posto em cadeias técnicas, condenado a ser músico em potência!
Às favas a música perfeita das esferas! À quadratura o ouvido obtuso! Aos bicos a terra firme da técnica!
Aborrecia-me, à morte, o Bona compassivo, que me fita agora e sempre de rabo-de-olho, desconfiado de minhas síncopes essenciais.
Para que servirá uma arritmia absoluta para os cânones estabelecidos da música funcional? Rumor cósmico, entropia musical, todas as músicas do universo no ruído informe.
Arrrghh! Sou um ser super-sônico!
Ah! Salas, sou um músico comum. Qualquer um. O que me dá certo conforto é saber que: qualquer um pode! (em resposta ao Blogue do Salas em Ventriloquia).
Descobri que tinha uma cara feia na época da ditadura.
Confirma-o comentário oblíquo de uma ilustre cinéfila, cujo nome não calha, nem lembra. Tempos de chumbo aqueles, lá pelos idos de 73, 74. A ditadura militar nos impunha um manto de terror e ali embaixo, bem quietinhos, nos confortávamos por um código rebarbativo, nos entendíamos e compreendíamos. A bem dizer, sobrevivíamos pela linguagem!
Lembro-me de ter caído bêbado, como um meteoro negro da fala de Neruda, preso à cadeirinha azul do Teatro Cacilda Becker.
Logo me perdi de vista, tragado pelo écran numinoso que explodia a face em preto e branco. Disse a cinéfila que eu correspondia à sucessão de imagens interiores terríficas do Sétimo Selo, de Bergman. Minha cara era horrenda: “como era feio aquele cara estranho que se sentou à minha frente” - confidenciou a um amigo comum.
O amigo ria às largas, seu riso branco e afônico reverbera ainda nalguma câmara secreta.
Sabia-me um lindo feio, um crédulo leitor de Susan Sontag, para quem a doença e a fealdade serão simplesmente metáforas.
terça-feira, janeiro 15, 2008
Saint-Exupéry, oliveiras e o tempo
"Tal como acontece com a árvore, não podes saber seja o que for do homem se o desdobras pela sua duração e o distribuis pelas suas diferenças. A árvore não é semente, depois caule, depois tronco flexível, depois madeira morta. Para a conhecer, é bom não a dividir. A árvore é essa força que desposa a pouco e pouco o céu. É o que acontece contigo. Deus faz-te nascer, faz-te crescer, enche-te sucessivamente de desejos, de pesares, de alegrias e de sofrimentos, de cóleras e de perdões, até que te faz ingressar de novo n´Ele. E, no entanto, tu não és aquele estudante, nem aquele esposo, nem aquela criança, nem aquele velho. Tu és aquele que se cumpre. E, se sabes ver em ti um ramo que balança, bem pegado à oliveira, nos teus movimentos hás de gozar da eternidade. E tudo à tua volta se tornará eterno. Eterna a fonte que canta e soube matar a sede de teus pais, eterna a luz dos olhos quando a bem-amada te sorrir, eterno o frescor das noites. O tempo deixa de ser uma ampulheta que vai gastando a areia, e faz lembrar um ceifeiro que ata a sua gavela." (Antoine de Saint-Exupery - Cidadela)
Um abraço terno e o desejo de que "se possa cumprir" e que se embeba desta eternidade...
Aline e Thiago
sexta-feira, janeiro 04, 2008
Ainda a árvore genealógica
Pelo post de Heitor Felipe, fiquei sabendo que
"Vitor Scagliusi era irmão de meu avô, José Scagliusi, pai de minha mãe, Maria Scagliusi Felippi.
Sua avó Rosa tem mais dois irmãos: Crescencia e Jacomo.
Infelizmente, com o tempo fomos perdendo contato. agora, com a internet parece que estamos reencontrando alguns parentes.
Realmente seu bisavô veio de Bari, mais precisamente de Polignano Al Mare e sua bisavó tinha o nome de solteira de Maria Carrieri.
Eles moraram durante muitos anos, na Rua Catumby, no Belenzinho, em SP".
Realmente... a Internet reatou alguns fios perdidos...
Scagliusi - os avós paternos
segunda-feira, dezembro 31, 2007
Blyan
Ficava assim atento quando relatava, com fidelidade canina, o dia passado juntas; procurava, vamos dizer assim, um sinal, um brilho... na verdade uma incerteza — sim, porque de nada me serviriam aquelas certezas que caem como cansados meteoros negros.
Verifiquei — surpreso de início, já logo inquieto em seguida — que muito antes já me flagrara observando seu trabalho. Proficiente. Competente. Expediente. Mas era muito mais do que isso: o retraço daquele gesto delicado, a eficiência discreta de quem sabe das coisas (“eu / quando olho nos olhos / sei quando uma pessoa / está por dentro / ou está por fora // quem está por fora / não segura / um olhar que demora”), a fina inteligência, que se expressa assim, enevolada, teia delicada e sensível, finamente entretecida de tal arte que meus olhos não decifram a justa mandala: lã na teia! Mas, acima de tudo, sempre e imbatível, o estilo. A Mulher é o seu estilo!
Enfim, procurei, talvez insensatamente, as trilhas, os senderos dilucidados da topografia acidentada dos desejos e afetos. Perscrutar estes caminhos é arqueologia. É pura descida. Vertigem.
Como um estranho fogo que arde e a tudo incendeia tão-só pela força irresistível de seus elementos, este raro sentimento penetra e contamina em mim todos os meus sonhos e desejos: decifra-me para o puro mistério; torna-me desconhecido, selva fechada, fulmina a solidez de minhas certezas tão-só pelo toque diáfano e sutil de seus encantos. “For all that beauty that doth cover thee / Is but the seemly raiment of my heart”.
Já exasperado, constelei-me de livros. Poesias e poetas; filosofia e direito. E dicionários, sempre os dicionários. Tranquei-me naquela sala da UNESP e cai num sono profundo de sonhos em que me via mergulhado nos velhos e inexcedíveis alfarrábios, procurando diligentemente encontrar uma chave que pudesse descerrar algumas daquelas portas. Assim como naquela passagem em que o poeta encontrou um lugar, um sítio insuspeito nas entrelinhas de uma enciclopédia, desesperei-me ao descobrir que os dicionários não registram o seu nome!
Eis-me percucientemente examinando as amareladas páginas daquelas obras imorredouras, à caça de um sentido, um significado, um miserável signo que fosse e que pudesse traduzir um tanto deste mistério que me faz Mérlin, rendido e prostrado diante deste encanto maior, que é ainda mais explêndido que todos os encantos e feitiços deste ou de qualquer outro mundo... Me vem à cabeça a trilha sonora de Bewitched, Ella Fitzgerald interpretando finamente Rodgers & Hart. A caça deste nome, cujo som faz percutir outros tantos, raros acordes em mim, e que além de tudo é o mais belo e gracioso, não me está sendo tarefa fácil.
O seu rastro perdeu-se na algaravia dos dicionários que insistem em azurrar!
Como um cão que fosse colhido de surpresa pela chuva (a apagar e malbaratar todos os sentidos) sinto-me perdido! Dispersaram-se-me todos os rastros, todos os caminhos. Seu rosto já é o semblante de todas as gerações, pesando como um poderoso mito, uma nesga de luz na floresta, um tímido feto, multiplicação multifária de sentidos, constelação de sentidos, explosão de sentidos — como se pudesse reconhecer-me em cada um deles, e verificar paralizado que também meu nome desconheço!
Vestis distinticta aureis stellis
(ou de como pude perceber o quanto meu desejo era complexo !)
Dissipo na cintilação furtiva das estrelas
a fulguração de meu desejo.
Mas, constelar-me de tantos astros
— A que serve ? —
Acaso não pude reconhecer
— ainda (dis)traído —
a flama de teu corpo-vestido
semeado de estrelas de ouro?
sábado, dezembro 29, 2007
Carta ao Waldir
respirar como as galáxias,
inspirar como John Coltrane,
transpirar como Mike Tyson,
pirar como hendrix...
Meu caro amigo-menino.
Tantas travessuras
mundo afora,
noves fora,
naves fora
nessa louca viagem
bem aqui:
dentro.
Tanta poesia
a concretizar
nessa encruzilhada da vida.
Meu amigo.
Como a palavra fere os sentidos
e anima o coração cansado do argonauta!
Saiba que a coalhada seca na marechal deodoro
embaciada de vapores e frio
ficará como um som dos beatles.
4 ever!
sexta-feira, dezembro 21, 2007
O hipopótamo e a fome do infinito
Que novidade haverá neste alfarrábio ocluso? Como resistiu até a sua chegada na Medicina Anima?
Diz o historiador e sociólogo n´O occaso do império que seu método, para colmatar as lacunas e buscar as razões da sideração e queda do último Gabinete, tal empresa o levaria às causas primeiras projetadas na larga praia do passado. Diz que a lógica do historiador é como o hipopótamo de Machado: "tem a fome do infinito e tende a procurar a origem dos séculos".
Descubro-me nas apreensões de Vianna. Busco o fio condutor que nos ampara desde a Reforma Pombalina até o Regulamento Hipotecário de 1846. Que percurso! Está lá na summa hipothecaria.
O texto de Oliveira Vianna fala-me desde a Teresópolis de 1925 e repercute nesse instante em que o ano se dissolve na irrelevância das imagens que já não apontam para os seus objetos, nem necessitam. Os signos furtam a substância dos entes.
quarta-feira, outubro 17, 2007
Klempsberger
Ela logo dirá que estou klêmps. Ou Bergulino. Tanto faz. Algumas pérolas de neologismo que fazem parte de nosso particular vocabulário sentimental.
Caminhamos céleres para um longo valle, onde os caídos somos todos nós que acreditamos um dia no sonho.
segunda-feira, julho 23, 2007
O céu, a terra e o não-é
domingo, julho 01, 2007
Mamãe e papai juntos
Nesta última sexta-feira, dia 29 (Dia de S. Pedro) concretizei um desejo que minha mãe alimentou ao longo de seus 40 anos de viuvez: unir-se enfim ao papai falecido no longinquo ano de 1961.Ambos estão depositados agora num lindo jardim.
Não sei exatamente o motivo interior, mas tocado por essa idéia, procedi à exumação de ambos e os levei para um cemitério em São Paulo (da Paz), onde foram sepultados numa tarde radiosa, iluminada por uma cerimônia discreta e solitária. Deitei vinho sobre a relva e orei agradecido.
A viuvez de minha mãe foi um celibato. Ter podido realizar esses traslados, poder ver o esgotamento das virtudes que o corpo sumido anuncia e ter a certeza de que lhes devo a minha vida, com a graça de Deus, fez desse ritual um marco de respeito, amor e dedicação familiar.
Que descansem em paz.
segunda-feira, junho 25, 2007
Perguntas que calam II
Nestes últimos dias a Estrelinha entregou, para ser repartida entre os pequenos, a história de Rapunzel. Todas as noites nos encontramos com os desejos da mamãe pelos rapôncios proibidos. E sempre o mesmo interesse se renova pela história que se repete e não tem fim. (Os contos infantis são eternos).
Certa noite, tendo conseguido ultrapassar o arco do conto, debaixo do edredón de lã, a Lelê pergunta bem baixinho:
- Mãmi, quem cuidou da primeira criança que houve no mundo?
A mamãe logo cuidou de depositar a magna responsabilidade nas mãos do Grande Papai do Céu, que tudo provê.
- Mas... e quem ficou cuidando do céu?.
Sem dar tempo à aflita mamãe, dispara:
- E quem deu de mamá ao nenê?
domingo, junho 24, 2007
Perguntas que calam
Na volta da Festa da Lanterna, de onde recortei as lindas fotos, viajando a bordo da bicicleta tripulada pelos meninos, provavelmente impressionanda com o itinerário feito às escuras, a Lelê nos colhe em perplexidades. Mirando o firmamento, dispara:
- Pápzi, por que o céu na cai na terra?
A única coisa que me ocorre nestas horas é fechar os olhos e confiar na intuição. Logo devolvo desajeitadamente:
- É por que tudo tem uma ordem natural. Foi o Papai do Céu que pôs as coisas em seus lugares.
Olhando a noite estrelada emenda:
- E por que as estrelas não caem?
O silêncio nos envolve a todos. Conto-lhe a história de uma linda estrelinha que pergunta ao seu papai:
- Pápzi, por que a terra não cai nas estrelas?
Ficamos um longo tempo em silêncio debaixo do firmamento.
domingo, junho 10, 2007
segunda-feira, maio 14, 2007
Uma noite de 2006 (ou manhã de 2007)
Estou aqui, bem ao seu lado, tocando de leve sua mão, abraçado ao Pepo, ouvindo atento a voz maviosa da Mami que entoa canções de ninar. Vêm de muito longe as cantilenas recebidas do pai querido e pranteado. Penso que ainda lhe pode ouvir, bem no fundo de seu despenhadeiro, a voz tranqüila e serena que ultrapassa as franjas da serra, se esparrama preguiçosamente pelas reentrâncias de uma São Tomás de Aquino que brota num cantinho da cama forrada de algodão e amor.
Repasso no écran da alma o dia vivido às voltas com atribulações mundanas, preocupações ociosas, sobressaltos, temores, apreensões. Todas as coisas estão cheias de cansaço. Tudo passa, tudo sara, socorre-me a idéia de que já logo não haverá lembranças, nem noites, nem dias. E no entanto, outras lembranças virão, outros dias e noites, maiores ou menores certezas... O rio segue sempre seguro ao encontro do mar.
Aqui de longe, advinho as belezas do caminho e a minha alma se enche de alegrias e esperanças. Feliz natal a cada novo dia!
terça-feira, maio 01, 2007
Beth Gotto
Mas eu preciso te dizer uma coisa. Eu não te entendo bem. Sabe, quando a gente era criança você era especial, um vulcão de sentimentos, de paixões, capaz de chorar, de rir, de ser muito gentil... Foi por isso que eu guardei as tuas fotos e a tua carta com muito carinho.
Eu sei que você hoje é um homem muito importante. Mas, o que isso quer dizer? Que você não é mais o Sérgio? Pena eu não ter uma grande capacidade de traduzir as minhas sensações com um português perfeito, mas estou tentando entender o que lhe ocorre: você usa a lembrança como uma história que não mais te pertence, isso para se defender do tempo distante demais?

Mas, é que sinto falta do Sergio... Aquele que sabia ser gentil, mesmo quando uma pessoa não fosse do seu interesse. Betty Gotto
sábado, abril 28, 2007
Sr. Lupus e a toponímia portuguesa
Lavradio de estrelas
sexta-feira, abril 27, 2007
Outono
Uma história dentro da outra. E pensei no dom das palavras que, sem sentido algum, constróem a gente e o mundo e pensei na devastação da morte. Não a nossa particular e egoísta, comum, corriqueira, na verdade fugaz quando acontece. Mas na morte dos outros. A morte que nos indica que o nosso mundo está morrendo.
O que fazer quando não tiver mais a Sonia, o George, o Sérgio, o Adilson, a Irene, a Márcia, a Cristina, o André, a Solange. O que fazer quando, pouco a pouco, de modo inexorável, se for toldando o horizonte? Quando esses olhares não mais trouxerem a alegria e a imensidão desse mundo e suas incríveis visões?
Então uma fúria, uma festa, uma irracional alegria silenciosa, como um vulto feroz andando no escuro se apossa de mim e fico saboreando cada partícula de ar que respiro, cada pedacinho de lembrança que tenho e sigo pelo outono, feliz, quase liberto, sabendo que vocês estão por aí.
Beijos, Waldir Martins
segunda-feira, abril 23, 2007
Cartas rubianas - ou o significado de EPW´s
É disso que o Sr. Dr. José Ruben deveria cuidar precipuamente. Uma certa semiologia do inconsciente que identifica nesses troços mal-traçados o perigo de Tânatos travestido de Eros.
O altar moderno, o sítio em que deitamos nosso sémen burramente desperdiçado, caverna de onde é possível divisar, em parte, mui toscamente, os mistérios de Elêusis (e não sabemos o que fazer com isso), eis os motéis modernos! Ou simplesmente EPW´s.
Nossos romances encardidos de certa humanidade, alienada de si mesma pela poeira de silício, se transformam, pela magia erótica, em sublime conjunção. Mysterium conjunctionis. Em átimos de segundos, nossas secretárias, amantes eventuais, companheiras de fainas des-desejantes (em que nos metemos por pura distração patrocinada por la loca de la casa), se transformam em Deméter e Perséfone.
EPW´s. Francamente...
O mais curioso é que os acrônimos ou essa técnica - que haverá de ter um nome, Dr. José Ruben - de extrair as vogais e manter as consoantes, forçando uma leitura que se apóia na memória de significantes, essa acronímia imperfeita resgata nomes estranhos para um motel. Olhe a palavra de soslaio; desdenhe do vocábulo. Trate-o com adrede desprezo (a ver se se abre, como uma flor perfumada de sentidos).
Palavras... estão para nós como as rosas para os sóis de nossos olhos. Revire-a, apalpe-a, boline-a. O que surge, então?
terça-feira, abril 03, 2007
quinta-feira, março 29, 2007
Baca: uma estrela peregrina
Logo pela manhã, já no trabalho, recebi uma ligação de um amigo comum - o Paulo Barreto - que me dava a triste notícia do passamento do Baca.
"Jênkis!" - dizia Sérgio candidamente... ainda o vejo empunhando a bíblia e o violão -, "se prepare... se prepare!" e logo desatava um riso generoso que iluminava o semblante de santo monacal.
Uma estrela da manhã, querido Sérgio, v. foi uma linda estrela da manhã! Prenunciava-nos uma luz que, certa como a noite retinta, se apresenta pontual para cumprir o movimento eterno de mudanças.
Ah! Célia, ambos amamos esse homem, Mas de diferentes maneiras. Eu o queria como um irmão que jamais tive; nutria por ele um indizível amor fraternal. Selamos uma aliança de militares de Cristo. Formávamos uma soldadesca singular, legião estelar, guerreiros do arco-íris, congregados numa Família forasteira. Todos nos saciávamos de um sei-lá-o-quê prometéico, aninhado na sua bolsa de couro, que sempre trazia a tiracolo. Havia algo de divino no Sérgio, que repartia generosamente entre todos nós.
Minha querida Célia, pranteamos a sua partida, é certo. Mas tenha a certeza, contudo, de que o Sérgio cumpriu seu itinerário iluminado de Argonauta das galáxias. Foi-se com uma estrela ligeira, deixando-nos um rastro de luz e sabedoria.
terça-feira, março 20, 2007
Helena Saracotena
Helena Saracotena. De onde será que meu Amor tira esses nomes tão sonoros? O mundo é uma grande palavra. Saborosa, revoluteia entre estrelas no céu da boca.Arvada = bosque
Capibel = carrinho de boneca
Artita = reinação, traquinice
Votita = vovó
Papizerland = papai
Zerland = papai
Moncra = monstra
Defeu = travesseiro
WaWaPa = cachorrinho. Pode se escrever ua-ua-pa.
Paripunga = "Você pula e cai no paripunga". Acho que é algo como um travesseiro que arrefece a queda desde o alto da cama.
Afocrévita. Hein? A-fo-cré-vi-ta! Acredite se quiser: é balanço. A Lelê entrou no quarto e disparou: "Zerland, me empurra na afocrévita?". Ainda arrisquei olhar no Google, pobre de mim!
Quadraquinca - caderno hachurado.
Camícula - cama.
Desobedessura. Ato de desobediência. Parecido com travessura.
Ah! meus queridos filhos. Acho que sou um homem comum. Pleno de sentimentos raros aos quais não lhes posso nomear.
domingo, janeiro 21, 2007
Assomo, logo existo
Um pequeno flagrante - antes de afeitar-me por amor a Blyan. Esse homem que assoma, quem será? Não assumo que seja outro - além ou aquém de outros tantos que desde sempre fomos.
Almas judias, estrelas antigas, peregrinas, que falam a lingua dos anjos e dos homens; pequenas e delicadas criaturas, encardidas do pó e da dor dessa longa jornada.
Chuvas de mau presságio
Esta manhã acordamos no silêncio da profunda fadiga de uma tempestade amainada. Na véspera, as águas chegaram em rodopios impetuosos, surpreenderam os homens, levaram os cães, tragaram os cavalos e as pequenas criaturas da noite.O Rio devorou com raiva e violência a criação assustada e desamparada.
As pontes desabaram, as ruas foram inundadas e Patrocínio Paulista se transformou em uma província de lama, barro e lamentações.
A Lelê dormiu sobressaltada. Testemunhou a família agarrada às telhas de sua casinha miserável, ilhada pelo furor das águas.
Chuvas de maus presságios.
Pepo (by Fernando Passos)
Ao Pedro, com amor.Queria ter o dom dos poetas para dizer que Pedro veio, veio, porque esperado era.
Pássaro que passa e fica, deixa sua marca que já era no todo, a marca que se esperava e que se sabia: viria porque conseqüência lógica da leveza já existente, ali existente e talvez pouco percebida.
Veio, veio para demonstrar a síntese, não passou, pousou, porque ali era seu ninho.
Ali? Não, aqui, em nós mesmos, em cada um de nós e essencialmente em nós. Mas o que é esse nós? Um interior indesbravável, tânico/jacomínico, cuja essência só pode voar para de lá nos ver em nossa insignificância tão esplendorosa que nos faz irradiar luzes para aquilo que do nada voa, mas que do tudo reluz, pois luz própria produz e quando pensamos ser a nossa que nele reflete é na verdade um mero jogo da dialética própria do amor entre os homens.
Eu veio, veio, graças a Deus, eu veio veio continuar a saga de um amor intenso, mami. Eu veio ser eu, ser você, ser papi, ser o mundo, o pássaro e como diz papi ... ser simplesmente um menino.
Mas eu veio também para ver amigos do papi finalmente chorar ... essa emoção boba, ingênua, verdadeiramente brega de me ver pela primeira vez. Já não me conheciam os babacas pela essência?
Chorei...
Fernando Passos
sábado, janeiro 13, 2007
Um pássaro, que nada!
Eu veio!
- "Eu veio, mãmi, ainda bem que eu veio..." - assim o meu Pepo saudava o gesto bem-pensado de buscá-lo no conforto do quarto para ver o buldôzer movimentar a capa barrenta e acidentada das estradas por onde caminhávamos no final da tarde.O Sítio transformou-se num pântano neste verão. As chuvaradas ocorrem mais concentradas, abundantes, caem como cortinas espessas. Parecem querer saciar a sede da terra e dos homens.
A relva virou pasto de anuros. Os grandes sulcos deixados pelas rodas do jeep abriram uma janela para os ínferos - o que deixou a Lelê de sobreaviso, advertida dos grandes seres que se movimentam abaixo da pele frágil e barrenta da terra.
Um sapo ousou chegar até a cozinha, rompendo os domínios de seu reino e se refugiou abaixo da geladeira. De lá coaxava para desespero da vovó e excitação das crianças. As mulheres se escondem fugindo do símbolo, os pequenos saltam excitados e logo aprisionam o rugoso para libertá-lo em seguida a custa de um justo resgate: a acrobacia de saltos desajeitados do bufonídeo em fuga. Ainda nos lembramos de lhe dizer, ao anfíbio, que deveria seguir o seu caminho. Vá!
Na estrada acidentada, o Pepo exulta. Salta como um passarinho que simplesmente não sabe que voa. E canta, canta a plenos, o doce Pepo.
- "Eu veio! Eu veio!" - rejubilava com energia na tarde plúmbea. "Ainda bem que eu veio!", completava, como a nos ensinar que de fato Deus existe, revelado num único, especial e insubstituível ato de amor. Caimos em silêncio, Dona Blá e eu, entreolhando-nos com o respeito que o momento suscitava.
O Pedro nos chegou assim, de mansinho, como o resultado de um lindo sonho do casal, ornado de um bosque, um rio, tesouros e um belo jardim.
Você veio com a missão de encarnar-se Pedro, um menino-pássaro há muito esperado. Tudo se concretizou a seu tempo, meu pequeno Pepo, tudo se cumpriu - como na bela promessa de uma terra dos homens, abundante de leite e mel.
Ainda bem que você veio, Pepo. Ainda bem!
sexta-feira, janeiro 05, 2007
Sincronicidades
Sérgio, quantas estranhas coincidências nos cercam e ainda fingimos que tudo é assim mesmo. Que coisa!Peguei seu recado no celular, quase que acidentalmente, pois nunca ouço recados eletrônicos. Mas essa não seria a primeira coincidência estranha que acontece entre nós. V. me faz ter engraçadas e surpreendentes reações, como as emoções adolescentes, pois fiquei ouvindo e re-ouvindo sua mensagem. Reconhecendo sua voz e isso me transportou a outro tempo. Assim como a foto que recebi por email. Lembro-me que era seu aniversário, em Franca. V. recebia vários amigos. Pensar que já se vão nove anos... Tempo, tempo, tempo, tempo...
Ele pode mudar tudo, assim como pode trazer toda emoção vivida em outra época com a mesma intensidade intocada. Recordar, como diz Galeano, é passar duas vezes pelo coração.
Mas me achei tão menina na foto. Estou mudada, por dentro e por fora. Dez anos são sempre transformadores. Estranhei minha imagem. Achei enfants. Mas que bom que v. eu reconheci. Achei o mesmo amigo guardado na memória, o mesmo rosto de santo renascentista, com barba (só te reconheço de barba), é essa a imagem que guardo.
Curiosamente, em meados de novembro retrasado eu também estava na Bienal de Artes e também quase nos falamos... Novembro é um mês que nossa estranha sincronicidade se reveste de nostalgia. Uma saudade frágil, cultivada e sábia. Mas é sempre nesse mês que tentamos romper esse cordão de isolamento, de proteção silenciosa.
Muitas vezes penso que v. é um amigo imaginário. Desse que as crianças conversam para intrigar os que se limitam ao que enxergam. Muitas vezes converso com v. e imagino as respostas. Quase sei o que diria nesses diálogos internos. Quase nunca concordo, mas são sempre assuntos que gostaria de compartilhar, em tantos temas que gostaria de ouvir sua opinião e sua aguçada percepção que fico imaginando as respostas como em um jogo de adivinhação.
Completamos em dezembro cinco anos sem nos encontrarmos, nem casualmente. O que é estranho. Mas algumas situações na vida são inexplicáveis. Acho que escolhemos essa ausência física, muito embora sinta que emocionalmente nunca houve um desligamento entre nós. Mesmo que muitas vezes tenhamos desejado isso.
Por que nunca conseguimos esconder do outro nossa essência, nossa interioridade. E isso muitas vezes era incômodo.
Mas, sempre carreguei você comigo. Sempre. Nem sempre de forma leve e nem sempre conscientemente. Mas sempre inevitavelmente.
De certo modo, acompanhei de longe sua trajetória e fiquei feliz com cada criança que chegava em sua vida. Porque eu sabia que teria outros filhos e quando te dizia isso, v. ria e dizia que não era possível. Lembra-se?
E v. hoje tem quatro filhos... Isso parece mágica. Quando penso fico intrigada com esse mistério da vida. O mistério fundamental, intocado. A reprodução da vida. A continuidade. Isso é muito forte.
Novembro é mesmo um mês especial, sobretudo dia 13. E esse é mais um mistério, pois é aniversário do meu pai e do meu irmão. Duas pessoas tão fundamentais em minha vida. Por isso, embora tenha ficado muito feliz com seu convite, com o cuidado que percebi em sua voz translúcida de uma emoção verdadeira, o mesmo cuidado que tenho ao escrever para você. Não poderei ir ao aniversário do seu filho Pedro, pois estarei com meu pai.
Mesmo assim fiquei feliz em ouvir seu recado. Fiquei feliz com o convite. Mas não iria, embora queira muito te rever e conhecer seus filhos. Não seria em uma festa, porque só sei ser íntima. Ficaria deslocada no tempo e na circunstância.
Preciso, antes de conhecer os seus, te reencontrar, retomar o fio da nossa amizade, reconviver. Entender alguns processos e assim depois conhecer seus filhos: Helena, a chilli pepper, com toda sua energia exuberante e sua aguda percepção que herdou de v. Ela é um espírito inquieto e questionador. Também ao Pedro, calmo e introspecto, sutil e desconfiado como todo bom escorpiano e Thiago que ainda não sei ler.
Antes de conhecê-los queria ouvir v. falar deles. Queria compartilhar as melhores histórias...
E conhecê-los em uma ambiente informal, cotidiano. Em uma cozinha, ou em um quintal, num dia bonito.
Muitas vezes penso em te visitar em sua sala de trabalho, passar pelo seu gabinete e te convidar para tomar uma chuva pelo quarteirão. Ou para conversarmos sobre nossas vidas, nossos amores, nossos caminhos,vocações, decepções, buscas, projetos. Enfim, nossos rascunhos e resumos.
Porém, sempre desisto, pois quando idealizamos algo o risco de decepção é grande. Não conviveria bem com a sua indiferença, não saberia lidar se no lugar do meu querido amigo eu pudesse te encontrar num dia que v. estivesse sendo outro. Por isso sempre preferi não arriscar. Por cuidado. Cuidado em manter intacta a imagem e a lembrança de uma pessoa especial que quero muito reencontrar.
Mas teremos outro dia. Assim espero.
Um beijo.
D.
terça-feira, janeiro 02, 2007
Moncra
A Lelê esteve à busca de um conforto essencial nesses dias de implacável detergência espiritual.A cada tanto, com o rostinho aflito, me questionava: "pápizi, v. conta uma historinha?".
Percebi que essa era a maneira que encontrava para ligar-se à profunda fonte cristalina que um dia foi o nosso refúgio e que olvidamos nalgum lugar do jardim.
Já no acalanto do quarto, aninhou-se no colo e se pôs a descrever Moncra, um formidável ser que brotou de sua fantasia inesgotável e alcançou o papel alvo de intenções.
- "A Moncra engole pessoas...", explica.
- "O quê?" - replico perplexo.
- "Não, não... Só se ela quiser".
Ufa! menos mal. É sempre reconfortante saber que existe uma vontade que se dobra sabe-se lá a que razões imponderáveis.
Diz-me que ao cavalo não aborrece - pois o cavalo pode tirar um pedaço do monstro... "E ela fica morta". Ela, a Moncra.
- "Veio da terra do gelo e chega até o céu". Diz, ainda, que a Moncra veio da noite tenebrosa:
- "Uma noite tão escura, tão escura, mas tão escura... que fez sol!".
O desenho mostra a Moncra expandindo-se e roçando a lua, o céu, a árvore, a estrela. Os cães ladram. Os filetes que se vêem abaixo da cabeçorra não são mais que seus dentes afiados, cravados na relva transfigurada.
- "Pápizi... No céu tem céu?" - dispara, mudando aparentemente de assunto.
Fico em silêncio e emocionado, acompanhando o paciente desenrolar dos anéis que compõem o formidável arco da Moncra.
[Os cães e a árvore de frágil penugem foram esboçados pelo pápizi. A relva e os pequenos frutos vieram a seu tempo por insistência, diligência e apuro da Lê. "Toda boa árvore dá frutos"].
domingo, dezembro 31, 2006
E o concreto... é abstrato!
Vi o seu blog, lindo. Sabe, você sofre de um mal incurável: poesia.Coitado do meu amigo cartorário imobiliário! Apaixonado por palavras, elas se deixam enlaçar por você, fluem lépidas e fagueiras por seus dedos... Drummond sofria mais - "lutar com palavras é a luta mais vã, enquanto lutamos, mal rompe a manhã".
Tentei deixar um recado no seu blogue, mas não consegui; tentei, tentei, desisti e pedi para o Marco Aurélio dizer para você que estive lá e achei lindo, as crônicas perfeitas.
Fiquei pensando: como pode uma pessoa que lida com coisas tão concretas (imóveis) sofrer de poesia? Ter alma de poeta? Isto não tem cura, não tem jeito não...
É isso que me encanta em você: sua sensibilidade, sua coragem em voltar à época das jabuticabas, da criançada de pé no chão. Agora as crianças gostam? Você precisa escrever um ensaio sobre isto. Sugiro um título "De como um concreto e abstrato provou que os antigos tinham razão."
Mirtes Crosara.
domingo, dezembro 17, 2006
Lugar no coração
Dona Paula,
chegamos ao encerramento de mais uma etapa de nossas vidas, e somos gratos por termos tido você em nosso caminho. Sua missão, que cumpriu com doação, nos adotou a todos que temos essa mágica lembrança da primeira professora. Muito obrigado por tornar cada momento em que nos encontramos em momentos de fantasia e amor. Um grande beijo. Segue o poema que a Laiz entregou em suas mãos.
Lugar no coração
Há um lugar em nossos corações
Que por fora parece pequeno
Mas por dentro é imenso
E nessa imensidão
Guarda tesouros valiosos
Tesouros de amores inesquecíveis
De mãos de fadas
Sorrisos generosos
As primeiras e eternas lembranças
Guarda alguém que se doa
Se entrega
Multiplica a dimensão materna
Sem se dar conta
Abre as portas do mundo
E distribui amor que se multiplica profundo
Divide a vida em duas partes
Uma de lembranças
Outra que renasce
Das coisas mais importantes da vida
Nunca esqueceremos da primeira professora de nossa filha
--
Com muito amor da familia Motta
sábado, dezembro 16, 2006
Sol da terra
quinta-feira, dezembro 14, 2006
Um estranho dia desses...
Peewoods, meu amor, Você é o pai que eu sempre quis ter. Aliás, nessa vida v. é meu pai, noutras já trocamos tanto os papéis... Já fomos irmãos, viajantes, fotógrafos, desenhistas, músicos, poetas, monjes, advogados... e nos amamos tanto!Às vezes eu me sinto uma estranha no ninho, daí lembro de v., um estranho no ninho, da mãe, uma bruxa no ninho (rs rs rs)... o bom é que não somos estranhos um para o outro... E toda vez que as pessoas me olham como se eu fosse um alien, eu me lembro que sou fruto de uma combinação de alienígenas... Sérgio e Solange... desceram à Terra por alguns momentos... Ainda enganam muita gente, passando por respeitáveis pais e mães normais... Eu amo v., amo a mãe e amo os dois, por terem me emprestado esse corpitcho estranho! E por terem me passado tanta referência de vida. Sem vcs eu não seria nada. Somos todos um só, não é possível ser diferente.
te amo te amo te amo,
um beijo na alma,
íris




