sábado, abril 22, 2006

Patrocínio Paulista, luar, crianças e cachorros às baciadas

A Lela na rede mundial da preguiça

Patrocínio Paulista ficará para sempre gravada nas teias da minha memória. As crianças esparramadas pela sacada, misturadas às galinhas, limoeiros, mangueiras, pitangas, carambolas, cães, pintinhos, Elizetes, Terezas, Cremildas, que invadem o espaço para uma singular e harmoniosa convivência.

Esta viagem foi muito particular. Andamos de Jipe pelas estradas esburacadas, cantando a plenos — o rio tem cachoeira, e a cachoeira é um barato... ô, ô, ô!.
O Pedro é o cantor da trupe, com sua vozinha desafinada soletra cada palavra com gosto e satisfação.

Tudo-ao-mesmo-tempo-agora: descemos ao rio, rolamos pedrinhas às águas, a Bilé enfim concertou-se com a Helena, o Pedro chorou e o Nini riu. Enquanto isso, a mãe deita um doce olhar complacente e certifica-se que a prole é mesmo uma generosa dádiva da Vida.

À noite, esparramados na rede xadrez tingida de tons violeta e púrpura, divisamos uma coroa de luzes iridescentes furtadas há pouco ao grande astro. Eis que irrompe sobre o Sítio, soberana, indisputada, a lua plena, hóstia de prata e madrepérola servida ao olhar desarmado no altar de seda nanquim.


A sua repentina chegada nos encheu de um certo temor arcaico. A Helena enrosca-se, aninhada ao meu colo. Sem tirar os olhos do espetáculo, comenta baixinho:

— Pápi, na lua moram o dragão e São Jorge, né? E o ratinho que come o queijo... e a minhoca!
— Minhoca, filha? Só se for a minhoca selenita! — emendo, os olhos vidrados no prato magnífico.
— Minhoca selenita? — interrogou-me. Seus olhos buscam os meus no lusco-fusco. Logo torna, fisgada pelo disco nácar que flutua na sala escura do prado. Fez-se um silêncio de perfeita compreensão.

Ali ficamos apreciando a revolução de luzes e nomes que a Helena repetia e repetia e repetia...

— Minhoca selenita! — ainda a ouvi concluindo antes de varrer a lua com sua lanterna mágica amarela.

sábado, abril 08, 2006

Eliana, serpentes e galáxias

Ela morava na Vivaldi. Seu andar era suave e silencioso. O olhar oblíquo divisava a luz rebatida, furtava a alma de pobres mortais desatentos.

Acho que era selenita; aborrecia a nitidez estúpida das formas. Parava num outro centro de gravidade, agarrava-se em qualquer lugar imponderável. Imperava o princípio da incerteza.

A Eliana era misteriosa. Acho que tinha uma alma antiga, tingida de traços incompreensíveis. Fazia lindos desenhos como mosaicos, figuras espiraladas, lembravam galáxias, serpentes e cabelos.

Acho que ainda caminha sobre a superfície do planeta.
À sua moda, é claro.

Fonte: Arte bizantina. Mosaico. Convento de S. Adriano, S. Demétrio Corone, Cosenza.

segunda-feira, abril 03, 2006

Mundo macaco

Minha querida macaca de fogo.

O mundo é lindo de qualquer maneira, eu sei.

Conhecer, revirar, cheirar, tocar, saborear, essa ação contínua e inesgotável de assomar-se não nos deixa tempo para pensar.

Mas, para que cogitar, não é mesmo?

Experimentar os tamancos no assoalho de madeira é bom.

Pula-pular na cama do papai é bom.
Apavorar-se do lobo na boca-de-lobo é bom.
Olhar a coruja na árvore à noitinha é muito bom.
O som de pedrinhas no pneu é bom.
A água que corre e canta é bom.
Ouvir histórias de fadas é bom.
A chuva copiosa na tarde de sábado é boa.
O colo da D. Paula é bom.
Dormir quando se tem sono é sempre bom.

Ah! minha macaca de fogo. Como posso deixar de admirá-la o tempo inteiro? Subverte-me! Revira-me o mundo concertado! Toca-me a alma empedernida de pai avoado e me consuma em fogos de alegria e amor!

Eu te amo, Helena!