segunda-feira, julho 15, 2024

As estações do meu Titi


Há exatos dez anos eu escrevia um pequeno poema para você, querido Thiago, a pedido de sua professora, D. Almut Lenk. Durante toda uma semana eu acordava pela madrugada e ficava cofiando a barba, pensando, pensando, pensando... O que poderia escrever para tocar suavemente a alma de artista naquela primavera?

Alçapão sombrio.
No coração da casa,
pulsava um quasar.

Veio-me então um poema, depois a série de haicais imperfeitos que remanesceram nalgum cantinho da sala... Quem sabe depositada naquele alçapão onde se acham todas as coisas perdidas na vida. Lembra-se dele, filho? 

Thiago, um dia eu fui menino. Deslumbrava-me o tapete achocolatado do Parque Dom Pedro II depois da chuvarada de verão; deixava-me estar ao rés do chão, quieto, entre besouros e moedas perdidas por gente esquecida.

A madrugada
lança gotas e alcança
a primavera.

Mas eis-me aqui novamente, meu querido filho.  Uma década se foi, lavada pelas chuvas de verão. Lá atrás eu lhe falava do viço de um botão em flor, de um menino arrojado, suave, criativo, sonhador; hoje, quando você entra nas tórridas regiões da vida, eis que uma nova estação se inaugura e com ela uma nova etapa de sua jornada nesta Terra dos Homens.

Lembra-se daqueles pequenos e delicados vasos de ouro a respeito dos quais lhe falei um dia? Pois é, eles já se romperam, liberaram o misterioso elixir que nos eleva e fortalece, nos torna aptos para os novos e importantes desafios da vida. Aventuras, um mundo novo por descobrir, batalhas gloriosas a vencer, amores e paixões, fortes sentimentos... São as tormentas da larga travessia que o aguardam no horizonte.

Contudo, não é possível lançar-se às novas aventuras sem contar com a sabedoria daquele menino gentil, suave, criativo e sonhador. Ele nos inspira, doa-nos sua intuição, a doçura, a criatividade e forja o coração de homens sábios. Sem ele podemos nos tornar violentos e impiedosos, homens de dura cerviz e de alma empedernida.

Lembre-se sempre dele, Thiago. Não o deixe à margem de sua vida. Resgate-o de onde o deixou um dia. Talvez este retorno ao Reino Unido possa significar um reencontro consigo mesmo, um reate com a sua parte mais elevada e inspiradora. Somente somos fortes quando inteiros, íntegros e verdadeiros.

Eu, um velho-menino, sigo cofiando, cofiando, sempre desconfiado, mas fiado na sabedoria dos anjos.

De seu pai, que te ama,

SJ

quarta-feira, julho 03, 2024

 


Lila, meu amor. 

Hoje é seu dia - "Íris azuis atitós, só podiam ser de você"... Lembro-me nesta manhã fria da música cuja letra é do João Miguel Valencise. Ensaio entoar a melodia, ainda é muito cedo, todos dormem na casa, e ela é doce, alegre, feita de um fraseado franco que o caminhante solitário assovia na madrugada, descendo a ladeira rumo ao seu futuro. 

Hoje é seu dia, sempre será o seu dia, o primeiro dia de toda uma era do pai-menino que acorda um dia com um bebê lindo no colo. Um bebê doce, frágil, feito a pétala no sereno, a teia de prata na luz da manhã, o broto de feijão no colo de algodão feito pelo menino. 

"Íris azuis atitós, só podiam ser de você". 

Você é única, a primeira, até o fim dos fins será a primeira, única, indisputada, vitoriosa, suave. 

Nós viemos a esta terra para cumprir sabe-se lá o quê, mas chegamos com força, vontade, amor. 

Eu te amo princesa linda e doce. Eu te amo desde sempre e para todo o sempre. Amém.