segunda-feira, dezembro 26, 2005

nau de garotos tristes


Ao lado direito do pequeno claustro havia uma sala de TV. Sim, me lembro de concertos para juventude, não sei como me recordo, mas havia uma arena, lá pros fundos, em que treinávamos luta-livre inspirados nos telecatchies da TV Excelsior.

Ah! o tempo voou nas tesouras e voadouras de Ted Boy Marino, deixando lá pra trás Fantomas, o Tigre Paraguaio, Aquiles, Hércules, Múmia, Índio Saltense e Rasputin...

Um dia longinquo, numa manhã festiva - fim de ano, sei lá! - o ICC armou-se em comemorações e resolveram projetar um filme na dita sala de TV. Não me recordo o nome da película, lembro-me vagamente de algumas cenas.

Era um filme dos três patetas. O projetor instalado lá atrás de nós e sua maquinação ruidosa furtava a atenção. À frente, uma enorme tela branca de plástico, descerrada e enfunada de sonhos e fantasias, movia uma nau de crianças alegres que deixava lá fora, no claustro, todas as tristezas e angústias.

Lembro-me de uma enorme aranha perseguindo os palhaços. Fulminava os traseiros com um jato certeiro de fogo. Ríamos à solta. Uma alegria sincera, verdadeira. O tempo parava suas rodas implacáveis, penetrávamos nos mistérios de uma alegria essencial. Jamais pude regozijar-me com tamanha plenitude.

O ICC nos deixou marcas indeléveis.

quinta-feira, dezembro 15, 2005

Íris - return again


Fiquei realmente impressionado com as questões que permeiam as aventuras filosóficas que alimentaram o TCC da minha filha. Espaçotempo - como reduzir essa complicadíssima discussão filosófica e conceitual a uma obra concreta de arte?

Ela tentou, a corajosa Íris! E conseguiu resultados muito surpreendentes.

Em primeiro lugar, optou pelo discurso fragmentado. Ou seja, contou uma história que se desencadeia com apoio no recurso da fragmentação multifária - uma explosão de sentidos com objetivos muito claros de desnudar a visão traída, essa pobre enganada, obnubilada pelo embotamento de nossas experiências ordinárias.

Como superar o véu - aquele famoso véu da consciência? Uma viagem no tempo nos libertaria?

A percepção de um homem comum é fruto de uma visão integradora e reordenadora de sentidos. Não gostaria de fazer aqui referência ao filme Matrix, mas me ocorreu justamente isso: agente e paciente desse fenômeno de reprodução de sentidos, a realidade se lhe apresenta como um tecido primorosamente urdido pela consciência coletiva. Indestrutivelmente construída. Afinal, é a realidade!

Ok, ok, ok. Os realistas dirão que nunca viram alguém transpor as paredes ou sair pelas janelas voando... Talvez não fosse possível mesmo - ainda que se considere que as experiências da física contemporânea estejam chegando bem perto disso!

Pois é a isso mesmo que a Íris se propõe - apresentar-nos um estranho mundo onde as coisas mais comuns perdem o sentido. E com isso nos causa um incômodo, uma certa vertigem, e o faz quando realiza a multiplicação e superposição de imagens naquelas salas de ambiência. Sua experiência é perturbadora justamente por induzir a concomitância de fenômenos, por fazer avançar e retrogradar a experiência do personagem, como se pudesse, com a deliberada fragmentação, despedaçar também a idéia de pessoalidade e singularidade. Caindo já nos domínios da transpessoalidade, destrói habilmente a idéia de personagem. De quantas personas estamos tratando nessas salas? Se radicalizarmos as idéias que se acham no núcleo da física quântica, qualquer resultado seria possível. Somos um e vários!

Outro recurso muito interessante foi abandonar o foco posto na estrita "objetividade", de modo que não só em relação às "coisas" poderíamos intentar subverter a regra do tempo - por outra: não só em relação à famosa experiência das bolas de bilhar que partem e já estamos antes do golpe - mas pricipalmente em relação aos sentimentos envolvidos.

As coisas têm alma? Será possível que os ambientes guardem a memória dos fatos? Os sentimentos das pessoas ficam gravados nas paredes? É possível o sentimento desencarnado? Essas coisas estranhas se tornam pertubadoramente próximas quando experimentamos abandonar, ainda que como mero exercício especulativo, a firmeza de nossas certezas arraigadas e construídas a partir de nossa percepção média. Sonhos, coincidências significativas, as experiências místicas e o arrebatamento pela expansão da consciência. Enfim, esses temas estão ali como um jogo de dados.

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Lila, não pude surrupiar um exemplar do TCC das suas mãos. Quero ler atentamente o que expôs e comentar aqui. Espero um exemplar!

Íris, eu fiquei muito emocionado com a sua apresentação. Senti-me realizado de certa e muito particular maneira. Vê-la completando esse ciclo tão importante, percebi que nossas vidas estão repletas de significados e maravilhosos sentidos. Espero que esses sentimentos cristalinos sejam realmente indestrutíveis, como o mais puro, raro e perfeito diamante.

Minha querida filha. Ainda que não mais existisse, que as paredes pudessem dar o testemunho desse meu grande amor!

quarta-feira, dezembro 14, 2005

Isso são outros treze

Mais um 13 na minha vida!

Foi no dia 13/12/2005 que a minha filha Íris superou um importante desafio: terminou o curso de design gráfico, que ela fez com muito gosto e aproveitamento.

Ali estava ela, linda, com aquele seu ar de "distraídos venceremos", jogando um jogo de dados para uma platéia cativa, os olhos postos na profusão de imagens fragmentadas da exposição. A sorte estava lançada! Um Rubicão a mais - entre tantos outros obstáculos afinal superados.

A Íris retém o detalhe. Com as pinças agudas de uma inteligência vigorosa, descerra aqueles estranhos mistérios que calham na trama ordinária de nossas experiência cotidianas.

A sua procura é pungente. Revisita a sua própria experiência, busca chegar no limiar do seu instante zero - quando os mistérios afinal se revelariam pela superação das cadeias espaço-temporais.

A Íris terá chegado afinal antes mesmo de partir.

Prigogine, Eistein, Zappa. Simultaneidades. Volto ao assunto, pois a série de pensamentos que o seu trabalho desencadeou é fato digno de registro e nota.

Íris, por hora: parabéns! Além de me ter emocionado às lágrimas - "velho chorão", os professores terão pensado - deixou-me a certeza de que, afinal, entre tantos erros e acertos, entre alegrias e canseiras, afinal "distraídos vencemos".

sábado, dezembro 03, 2005

as fadas habitam o coração dos que amam

Hoje tive uma experiência assaz interessante com a Helena, minha querida Lelê. E merece ser contada.

Fui a uma livraria na sexta-feira; tinha um compromisso mais à tarde e resolvi espiar as prateleiras infantis nas vésperas de um encontro chato e burocrático. Remexendo a montanha de livros, à cata de ilustrações deslumbrantes como as de Gustave Doré (ao lado), encontrei dois lindos volumes de contos dos Irmãos Grimm, ilustrados pela artista russa Anastassija Archipowa.

Belíssimos! Fui imediatamente transportado para aquelas paragens mágicas, enlevado pelo traço elegante, delicado e absorvente de Archipowa.

Comprei num impulso os dois volumes, traduzidos por Maria Heloisa Penteado. Imaginei que seriam lindos presentes para a pequena Helena, que já se interessa por contos de fadas.

À noite, naquela horinha de passagem, em que os bichos do dia se recolhem e os da noite põem as patinhas prá fora - horário em que a Lelê já está embarcando à Terra do Pirlim-pim-pim -, resolvi ler as histórias e comecei logo pela sua predileta: chapeuzinho vermelho.

A história é uma síntese bem-feita da original e se mantém relativamente fiel àquela que conheço, traduzida por Íside M. Bonini e que foi publicada pela Edigraf, de São Paulo, em 1961, sob o título Contos e lendas dos irmãos Grimm, em 8 volumes. "Coletânea essencial", na avaliação de Karin Volobuef em sua página. O final difere um pouco. Mas não é disso que quero tratar aqui.

Já havio lido e decorado a história e sempre a contava de memória à Lelê - que a ouvia antentamente e temerosa da parte do lobo-mau. Quando chegava àquela passagem, cobria os olhos com suas mãozinhas, como se pudesse com isso deixar de "ver" o que só os olhinhos do coração enxergavam.

Certa noite, na passagem citada, quando Chapeuzinho se dirigia pelos caminhos da floresta rumo à casa da Vovó, pouco antes do encontro com... vocês sabem quem! Lelê, de um salto acrobático, escorregou para baixo da cama, carregando o lençol e o ursinho debaixo do braço. Eu ouvia a vozinha assustada, pedindo-me que continuasse a história - que esta não deve nunca parar!

E assim tem sido. As histórias dos irmãos Grimm nunca param.

Mas a novidade trazida da livraria mostrou-se um desacerto. O pai se encantou com as imagens de Archipowa, realmente magníficas - como havia se encantado com as majestosas ilustrações de Doré. Mas essas imagens oníricas e arquetípicas se por um lado têm a virtude de despertar a fantasia neste velho pai, evocando imagens arcaicas e infantis, por outro lado parecem limitar a imaginação da Helena, que passou a enxergar uma redução inaceitável dos entes que a sua imaginação criara (ou percebera).

- "A boca desse lobo é pequena! Como vai comer a vovó?" - perguntou intrigada, analisando escrupulosamente as proporções do maxilar do lobo. Cara à cara com a representação do ente malévolo de sua imaginação, o medo essencial que nutria, sabe-se lá de que figuração fantástica, se esvaiu diante dessa empobrecida caracterização.

- "Onde está a pia?" - disparou, apreciando a imagem que orna o frontespício. (A imagem retrata chapeuzinho e sua mamãe diante de uma mesa onde se acham o vinho e o bolo da vovó).

- "Que pia, meu amor?" - fiquei sem entender bem a pergunta.

- "A da cozinha, oras! Está aqui, ó..." - apontando com o seu dedinho um quadrante da página em branco. "Embaixo do branco", explicou enfadada, declarando o óbvio para este pai desatento.

Embaixo do branco? Francamente... A imaginação ultrapassa sombraceiramente os limites materiais do livro e alcança o inusitado, o livre, o incontido, transitando um universo mágico. Olhando para o nada do continente que acolhe delicadamente letrinhas e figuras, mergulhou novamente para dentro de si mesma. No branco do livro cabe tudo! E logo deixou de lado o volume e se entrincherou debaixo das cobertas. "Vem para o 'círculo', papai!". (Ah! ela se nega a considerar o picadeiro e seus personagens como integrantes do "circo". O palhaço, a equilibrista, a macaca Monga representada pelo bilheteiro que ela logo identificou, todos esses personagens fazem parte de outra dimensão que não a do mero circo. São habitantes do "círculo").


Há um livro imaterial muito mais importante. Existe em nossa alma um poderoso conjunto de imagens e símbolos que os livros, quando genialmente ilustrados, conseguem recuperar de modo muito imperfeito. Já não temos, muitos de nós, a pureza de coração para ver como vêem os pequenos. Descobri que os livros são muito importantes para nós, pais dedicados, mas não servem, ainda, para estimular a fantasia que nessa idade se forra às duras reduções. Capazes de tocar o ouro puro, oferecemos, em substituição, a palheta imperfeita de nossas representações. "She’s walking through the clouds / with a circus mind that’s running round"... (Jimi Hendrix).

Minha Lelucha. Estou nesta noite depositando os ricos exemplares num setor secreto da biblioteca, com a esperança de que amanhã de manhã, quando os bichinhos do dia saudarem o sol, sejam esquecidos. Por ora, somente por ora. À noite, aboletadados na caminha com véu, e sob a luz titubeante da vela de cera de abelhas que você tanto ama, voltaremos à terra mágica das histórias de fadas, percorrendo o caminho do conto, embalado pela voz calorosa deste pai que te ama profundamente e repete as histórias que você já conhece desde sempre.

sexta-feira, dezembro 02, 2005

Íris azuis atitós

Minha querida filha.

O que os seus olhos brilhantes divisam?

Vejo-a daqui deste claustro fortificado, distanciado no tempo e no espaço, e procuro o sentido desse arrebatamento.

Me pergunto onde estivemos esse tempo todo. Esse foco precioso e raro que rouba seus devaneios não pode ser unicamente a contemplação de um pai distraído e encantado com a beleza singela desse olhar. É muito mais.

Ah! Íris. Calo em dúvidas e certezas, que é tudo que um pobre homem pode levar dessa árdua peregrinação.

Se pudesse prestar maior atenção a esse olhar; se pudesse atingir as profundezas desse lago escuro e misterioso; ah! se eu pudesse...

Meu amor. Como eu te amo!