domingo, dezembro 31, 2006

E o concreto... é abstrato!

Vi o seu blog, lindo. Sabe, você sofre de um mal incurável: poesia.

Coitado do meu amigo cartorário imobiliário! Apaixonado por palavras, elas se deixam enlaçar por você, fluem lépidas e fagueiras por seus dedos... Drummond sofria mais - "lutar com palavras é a luta mais vã, enquanto lutamos, mal rompe a manhã".

Tentei deixar um recado no seu blogue, mas não consegui; tentei, tentei, desisti e pedi para o Marco Aurélio dizer para você que estive lá e achei lindo, as crônicas perfeitas.

Fiquei pensando: como pode uma pessoa que lida com coisas tão concretas (imóveis) sofrer de poesia? Ter alma de poeta? Isto não tem cura, não tem jeito não...

É isso que me encanta em você: sua sensibilidade, sua coragem em voltar à época das jabuticabas, da criançada de pé no chão. Agora as crianças gostam? Você precisa escrever um ensaio sobre isto. Sugiro um título "De como um concreto e abstrato provou que os antigos tinham razão."

Mirtes Crosara.

domingo, dezembro 17, 2006

Lugar no coração

Abaixo pequena carta e um belo poema de lavra do Flávio Motta, papai da Lalá. Vale a pena ler e eu os publico e mantenho aqui para registro e referência futura de um período muito rico de nossas vidas. (SJ).
Dona Paula,
chegamos ao encerramento de mais uma etapa de nossas vidas, e somos gratos por termos tido você em nosso caminho. Sua missão, que cumpriu com doação, nos adotou a todos que temos essa mágica lembrança da primeira professora. Muito obrigado por tornar cada momento em que nos encontramos em momentos de fantasia e amor. Um grande beijo. Segue o poema que a Laiz entregou em suas mãos.

Lugar no coração

Há um lugar em nossos corações
Que por fora parece pequeno
Mas por dentro é imenso
E nessa imensidão
Guarda tesouros valiosos
Tesouros de amores inesquecíveis
De mãos de fadas
Sorrisos generosos
As primeiras e eternas lembranças
Guarda alguém que se doa
Se entrega
Multiplica a dimensão materna
Sem se dar conta
Abre as portas do mundo
E distribui amor que se multiplica profundo
Divide a vida em duas partes
Uma de lembranças
Outra que renasce
Das coisas mais importantes da vida
Nunca esqueceremos da primeira professora de nossa filha
--
Com muito amor da familia Motta

sábado, dezembro 16, 2006

Sol da terra

As manhãs são luminosas em casa. As crianças acordam cedo e, mais cedo ainda, nasce a minha estrela rútila. Ah! Lelê. Quanto amor, querida, em seus delicados gestos. Essa flor me acompanha há tão pouco e eu me pergunto agora e sempre: como pude? Como pude viver sem você? Eu te amo, Lelê!

quinta-feira, dezembro 14, 2006

Um estranho dia desses...

Peewoods, meu amor, Você é o pai que eu sempre quis ter. Aliás, nessa vida v. é meu pai, noutras já trocamos tanto os papéis... Já fomos irmãos, viajantes, fotógrafos, desenhistas, músicos, poetas, monjes, advogados... e nos amamos tanto!
Às vezes eu me sinto uma estranha no ninho, daí lembro de v., um estranho no ninho, da mãe, uma bruxa no ninho (rs rs rs)... o bom é que não somos estranhos um para o outro... E toda vez que as pessoas me olham como se eu fosse um alien, eu me lembro que sou fruto de uma combinação de alienígenas... Sérgio e Solange... desceram à Terra por alguns momentos... Ainda enganam muita gente, passando por respeitáveis pais e mães normais... Eu amo v., amo a mãe e amo os dois, por terem me emprestado esse corpitcho estranho! E por terem me passado tanta referência de vida. Sem vcs eu não seria nada. Somos todos um só, não é possível ser diferente.

te amo te amo te amo,

um beijo na alma,
íris

Don ratón se esconde-esconde

Na cena ao lado, Don Ratón, em suas perambulações esquivas e manhosas pela casa, se apresenta entre cores e rabiscos.

Saía de mansinho, pela manhã, quando a Lelê me alcança, ágil e lépida, e me entrega um inexcusável regalo.

- Pápsi! É para levar pro cartório... Lembra de mim!

Eis-me aqui agora, diante da enigmática personagem. Ele e eu, eu e ela. Esse Don Ratón, essa Dona Lelê!

segunda-feira, dezembro 11, 2006

Avoantes e depois


A manhã rumora nos alvores. Despertamos com o feroz bramido de monstros que se agitam furiosos nos angares. O caos aeroportuário nos chega por acordes intestinos.

As crianças estão despertas e imediatamente entram em consonância com essa zoada matutina. Consonância? Talvez fosse melhor dizer que, às vezes, a casa se torna uma concha de complexas dissonâncias. Tempos modernos.

O Pedro é pássaro e é sobre as metáforas aviárias que me sustento nas alturas da labuta diuturna. Querido Pepo, deixo-o à míngua, perdido no quintal.

Disse-lhe - e à irmã que teve uma noite de trânsitos - que estaria saindo alçado por uma corte de pássaros verdes, vermelhos e laranjas que ruidosamente tomariam a mim pelas axilas e me transportariam pelos ares, mundão afora. Mas para isso era preciso ficar em silêncio; escondidinhos na casa. Afinal - explico - "os pássaros são seres assustadiços...".

Dito e feito. Os pequenos se refugiaram embaixo da mesa e aquietaram-se num mutismo de expectativas e curiosidade. Os olhinhos distraídos postos na porta entreaberta. Assim dei a meia-volta no corredor lateral da casa, ultrapassei o canteiro de hortelãs e por trás agora diviso confortavelmente a cena: A Lelê se esforça para ver para além das nuvens o pai sustentado pelas aves da manhã. O Pedro chora.

"Meu Deus! Como posso fazer isso?" - penso. Não resisto e recolho meus preciosos no colo e ainda ensaio uma explicação - "o pápi tem que trabalhar"...

O Pedro chora. A Lelê quer ver o táxi à porta. O NiNi, saliente e sorridente, diz: "Eeeeehh!".