Naquele breve período de tempo, conversando intensa e interminavelmente com a amiga Iêda Roberto, procurava desvelar o que intuia e suspeitava ínsito no discurso da amiga.
Ficava assim atento quando relatava, com fidelidade canina, o dia passado juntas; procurava, vamos dizer assim, um sinal, um brilho... na verdade uma incerteza — sim, porque de nada me serviriam aquelas certezas que caem como cansados meteoros negros.
Verifiquei — surpreso de início, já logo inquieto em seguida — que muito antes já me flagrara observando seu trabalho. Proficiente. Competente. Expediente. Mas era muito mais do que isso: o retraço daquele gesto delicado, a eficiência discreta de quem sabe das coisas (“eu / quando olho nos olhos / sei quando uma pessoa / está por dentro / ou está por fora // quem está por fora / não segura / um olhar que demora”), a fina inteligência, que se expressa assim, enevolada, teia delicada e sensível, finamente entretecida de tal arte que meus olhos não decifram a justa mandala: lã na teia! Mas, acima de tudo, sempre e imbatível, o estilo. A Mulher é o seu estilo!
Enfim, procurei, talvez insensatamente, as trilhas, os senderos dilucidados da topografia acidentada dos desejos e afetos. Perscrutar estes caminhos é arqueologia. É pura descida. Vertigem.
Como um estranho fogo que arde e a tudo incendeia tão-só pela força irresistível de seus elementos, este raro sentimento penetra e contamina em mim todos os meus sonhos e desejos: decifra-me para o puro mistério; torna-me desconhecido, selva fechada, fulmina a solidez de minhas certezas tão-só pelo toque diáfano e sutil de seus encantos. “For all that beauty that doth cover thee / Is but the seemly raiment of my heart”.
Já exasperado, constelei-me de livros. Poesias e poetas; filosofia e direito. E dicionários, sempre os dicionários. Tranquei-me naquela sala da UNESP e cai num sono profundo de sonhos em que me via mergulhado nos velhos e inexcedíveis alfarrábios, procurando diligentemente encontrar uma chave que pudesse descerrar algumas daquelas portas. Assim como naquela passagem em que o poeta encontrou um lugar, um sítio insuspeito nas entrelinhas de uma enciclopédia, desesperei-me ao descobrir que os dicionários não registram o seu nome!
Eis-me percucientemente examinando as amareladas páginas daquelas obras imorredouras, à caça de um sentido, um significado, um miserável signo que fosse e que pudesse traduzir um tanto deste mistério que me faz Mérlin, rendido e prostrado diante deste encanto maior, que é ainda mais explêndido que todos os encantos e feitiços deste ou de qualquer outro mundo... Me vem à cabeça a trilha sonora de Bewitched, Ella Fitzgerald interpretando finamente Rodgers & Hart. A caça deste nome, cujo som faz percutir outros tantos, raros acordes em mim, e que além de tudo é o mais belo e gracioso, não me está sendo tarefa fácil.
O seu rastro perdeu-se na algaravia dos dicionários que insistem em azurrar!
Como um cão que fosse colhido de surpresa pela chuva (a apagar e malbaratar todos os sentidos) sinto-me perdido! Dispersaram-se-me todos os rastros, todos os caminhos. Seu rosto já é o semblante de todas as gerações, pesando como um poderoso mito, uma nesga de luz na floresta, um tímido feto, multiplicação multifária de sentidos, constelação de sentidos, explosão de sentidos — como se pudesse reconhecer-me em cada um deles, e verificar paralizado que também meu nome desconheço!
Vestis distinticta aureis stellis
(ou de como pude perceber o quanto meu desejo era complexo !)
Dissipo na cintilação furtiva das estrelas
a fulguração de meu desejo.
Mas, constelar-me de tantos astros
— A que serve ? —
Acaso não pude reconhecer
— ainda (dis)traído —
a flama de teu corpo-vestido
semeado de estrelas de ouro?
segunda-feira, dezembro 31, 2007
Assinar:
Postar comentários (Atom)
Nenhum comentário:
Postar um comentário