A Lelê esteve à busca de um conforto essencial nesses dias de implacável detergência espiritual.A cada tanto, com o rostinho aflito, me questionava: "pápizi, v. conta uma historinha?".
Percebi que essa era a maneira que encontrava para ligar-se à profunda fonte cristalina que um dia foi o nosso refúgio e que olvidamos nalgum lugar do jardim.
Já no acalanto do quarto, aninhou-se no colo e se pôs a descrever Moncra, um formidável ser que brotou de sua fantasia inesgotável e alcançou o papel alvo de intenções.
- "A Moncra engole pessoas...", explica.
- "O quê?" - replico perplexo.
- "Não, não... Só se ela quiser".
Ufa! menos mal. É sempre reconfortante saber que existe uma vontade que se dobra sabe-se lá a que razões imponderáveis.
Diz-me que ao cavalo não aborrece - pois o cavalo pode tirar um pedaço do monstro... "E ela fica morta". Ela, a Moncra.
- "Veio da terra do gelo e chega até o céu". Diz, ainda, que a Moncra veio da noite tenebrosa:
- "Uma noite tão escura, tão escura, mas tão escura... que fez sol!".
O desenho mostra a Moncra expandindo-se e roçando a lua, o céu, a árvore, a estrela. Os cães ladram. Os filetes que se vêem abaixo da cabeçorra não são mais que seus dentes afiados, cravados na relva transfigurada.
- "Pápizi... No céu tem céu?" - dispara, mudando aparentemente de assunto.
Fico em silêncio e emocionado, acompanhando o paciente desenrolar dos anéis que compõem o formidável arco da Moncra.
[Os cães e a árvore de frágil penugem foram esboçados pelo pápizi. A relva e os pequenos frutos vieram a seu tempo por insistência, diligência e apuro da Lê. "Toda boa árvore dá frutos"].
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