No closet da casa há o desdobramento de um mundo misterioso. Muito antes das Crônicas de Nárnia profanarem o sentido mais profundo dos mistérios que se aninham nas reentrâncias de um bom armário, já explorávamos os fantásticos seres que habitam o móvel lotado de roupas e coisas do pápzi e da mámi.
No closet vive um habitante que é conhecido de todos nós aqui de casa, um antigo amigo da Lelê. Trata-se do Sr. Lupus, um velho e tranqüilo lobo solitário, que tem hábitos noturnos e, ao que parece, freqüenta todas as noites a biblioteca do pápzi, lendo compulsivamente os livros de filologia dispostos na estante superior. (Suspeito que agora se dedique aos substanciosos volumes de Etnografia Portuguesa, de José Leite de Vasconcelos).
Como foi que o encontrei? Bem, um certo dia deparei-me com a cauda do Sr. Lupus estirada, despontando de uma gaveta escura, alçada à altura do meu rosto. Levei um enorme susto! A Lelê saiu aos berros pela casa, os cabelos acobreados agitando-se ao vento, a espantar o pequeno Pepo.
Refeito, pensava ter encontrado um chapéu antigo, regalo de um registrador do interior da Bahia - inúteis lembranças dos encontros registrais do Irib. Qual o que! Tratava-se do Sr. Lupus, o velho lobo tímido que distraidamente agitava a sua calda solta no ar.
Hoje sabemos de sua faina intelectual e de seus silenciosos hábitos de leitura. Ainda agora o vi, obsequioso e esquivo, entretido com a etimologia de Espiche, onde se acharam algumas lápides que atestam a passagem dos judeus na Península na alta idade média portuguesa.
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