domingo, setembro 13, 2026

Fruta do Conde — Onde se Esconde?


I
Passeie no dorso de um camelo.
Em Cabul, se despenteie.
Fotografe-se; encabule-se.

II
Tire os chinelos na China.
Plante estrelas na axila.
Sente-se, relaxe-se, espirre-se.

III
Conte um conto e se encante
em qualquer canto recôndito.
Onde o meu amor se esconde?
No encanto de meu canto!

IV
O que se esconde
na fruta do conde?
Esconde-esconde
no arco do meu pente.

V
Na onda do meu cabelo,
mascando caramelos,
tomo café do bule,
no coração de Cabul.
Em Cabul, encabule-se.
Enca-bule-se; e-bule-se.

VI
No vento do oriente,
antes que o sol levante.
Em Cabul, Encabule-se.
Enca-bule-se. E-bule-se.

♪ Ouça: Fruta do Conde — Onde se Esconde? ♪

995, Jurubatuba Valley

995, Jurubatuba Valley

Schizoid Struts (2026)

Desce a noite sobre o quarto,
sonhos, memórias, sobressaltos.
Reparto o sonho tanto quanto possa.
Soa triste a melodia no armário.

Office-boy, sua alma é tão antiga.
O queixo repousa sobre a mão fria.
A escrita se estende na longa via.
As coisas se movem no retrato.

De lá um velho me olha de soslaio:

Dê-me perguntas!
Dê-me perguntas!
Há mais respostas
do que perguntas.
Muito mais do mais,
do mais que é tão pouco: ainda.

Dê-me perguntas!
Melhores perguntas.
Dê-me as entradas!
Esqueça saídas.

Um homem velho reconhece o caminho
que o leva de volta ao destino.
Do fim já o sabe o início.
Retine o fino tino,
a estrela-guia, o brilho.

Dê-se às perguntas... as certas.
Dê-se ao silêncio... na noite rara.
Na lavra incerta... o verbo aquieta.

No quarto escuro da casa,
sob as entranhas da sala,
vive um homem estrangeiro – não fala.
Revela-se quando cala.

Dê-me perguntas!
Dê-me perguntas!

Ouça: 995, Jurubatuba Valley — Schizoid Struts (2026)

Acesso: https://youtu.be/I2lSDhS-LYk

quarta-feira, julho 15, 2026

sábado, maio 23, 2026

Gárgula

Era uma casa ampla, mas sombria. Tinha algo das construções antroposóficas, endurecida pelo concreto armado, aparente, quase brutalista. Havia movimentos na casa. Entes esquivos, de algum modo sensíveis.

Não os temia. Parei diante da parede fria e tive o impulso de atravessá-la. Sabia que podia. Atravessei. Vi-me do outro lado, parado, fitando o muro. Levitava. Não havia gravidade.

Então surgiu da parede espessa: um jovem de peito nu, tez marmórea, semblante sereno. Parecia desprender-se da matéria. Arrojava-se no éter. No meio de sua fronte, cravada, desabrochava uma pequena flor carmim. "Rubi sagrado", uma voz sussurrou aos meus ouvidos.

A casa era ampla,
fria, vazia.
Nas salas se ouvia
o ar vibrar nas cortinas.

Entes esquivos,
discretos, sensíveis,
espreitam o silêncio,
nos átrios da sala vazia.

Não os vejo,
mas não os temo.
Toco a parede
grave, sereno.

Sabia atravessar.
– Atravessei.

Do outro lado,
sem peso
contemplei.

Não há gravidade,
só o silêncio da tarde.
Do muro branco e informe
desponta seu rosto de mármore.
Lindo e forte,
flor carmim na fronte.
Num jarro de barro
brota água na fonte.

Sonho que sonho
de novo acordado.
Na fronte do anjo
a flor carmim:
rubi talhado.

fina flor carmim:
Rubi sagrado.

Ouça: Rubi Sagrado

Acesso: https://youtu.be/72Ax06jNKlQ

Um Homem Só

Um homem só,
em busca de si mesmo,
é difícil de se encontrar.

Um Homem raro.
Erra por aí.

E acerta.

No coração, o mapa secreto.
Caminha a longa estrada:
quieto, lento, desperto.

O outro lado do registro
é o verso do reverso, veio aberto.
Ponte sobre o abismo,
estrelas no deserto.

Tarde-me a partida.
Sem pressa, sem alarde.
Venha. Nobre Senhora.
Numa tarde qualquer,
estrela vespertina,
a iluminar a derradeira sina.

No outono, passe.
Trespasse dourado.
Tudo se apague.
Tudo se esqueça.

Um homem só, caminha.
Nobre, altivo, venerável,
suave. Como a brisa no prado.

Um homem só
atravessa o outro lado de si mesmo,
alcança a palavra secreta,
a chave encoberta.
Sob o manto sagrado,

No coração de pedras.


terça-feira, abril 14, 2026

De onde veio? Para onde foi?

A gente não sabe nada a respeito deles. De onde vêm? Para onde vão ao fim desta jornada?

O que fica é a história comum da família, entretecida na diuturnidade de uma convivência amorosa na Casa Amarela.

Chiara se foi. Dormiu um sono sem sonhos. Profundo. Derradeiro. Ao seu lado, no momento terminal, a nossa família uniu-se a ela para um adeus amoroso e agradecido.

Foram 14 anos de pura alegria, traquinagens, reinações e artimanhas. Nossa cachorrinha linda se foi às estrelas.

Tutu. Tutuila. Ismuleca. ⁠Isminina. ⁠Ismu. ⁠Ismuzinha. Kiaretmann...

Quantos nomes, tantos apelidos, carinho e ternura. Ainda ouço a Blyan chamando-a: "Tutu... Vem Tutuila...". Ela já estava surda, nada ouvia, batíamos palmas para chamar-lhe a atenção e ela vinha de mansinho, abanando o rabo, solicitando carinho e petiscos de naine (carne).

Chiara foi uma cachorrinha levada. Arteira. "Fazia artita", como dizia a minha pequena Nena. Ela aprontava das suas. Lembro-me dela correndo atrás das crianças e mordiscando suas canelas. Era ágil, ninguém lhe vencia nos cercos estratégicos que fazia. Ela "pastoreava" as crianças, certamente um comportamento ancestral da espécie.

Nunca soube a razão pela qual surrupiava e enterrava as meias dos meninos no jardim da Casa Amarela. Acho que entesourava o perfume da matilha — um velho instinto, desses que o tempo não apaga, confundindo afeto, posse e memória.

Outra feita, acho que foi num desses natais da Casa Amarela, dias perdidos num canto feliz da memória, e a Tutu conseguiu abrir as janelas da cozinha para abocanhar o peru que dormitava no canto da mesa. Danada. A vovó teve que ajeitar o acepipe para servi-lo mais tarde à família. Jantar americano, dizia a Blyan sem declinar o motivo da reforma.

Ela adorava abrir portas, janelas, e quando não conseguia, roía os beirais, o que deixava a mamãe enfurecida. Fazia isso nas tempestades. Ela odiava os trovões e ficava apavorada em dias de borrascas. Sempre tínhamos que acolhê-la nessas ocasiões. Tremia de medo, a Tutuila.

Tutu adorava bolas. Era goleira. Disputava com os meninos da rua. Postava-se junto à parede e saltava de forma ágil, abocanhando a pelota em pleno ar. Era perfeita goleira. Não deixava passar uma. Ah. Tutu, que saudades.

Os filhos do Antônio, nosso guarda da rua, Leonardo e Caíque (o Faísca), passavam horas com ela. Passeavam pelo bairro de bicicleta, ela os seguia sempre atenta, sempre curiosa. Chiara foi a cachorrinha que os entretinha durante os dias de férias.

Quantas vezes foi conosco para o nosso sítio em Patrocínio Paulista. Ia tranquila, nunca nos dava trabalho, adorava passear, pedia para beber água e fazer xixi.

No dia 11/4/2026 ela amanheceu tristonha. Não se levantava do cantinho dela. Não aceitava comida, não pudemos lhe dar os remédios. Resolvemos levá-la a um hospital veterinário, precisava fazer uma tomografia. Aproveitamos para lhe dar um certo conforto. Respirava com dificuldade, estava abatida e triste. Colocamos a Chiara na sua caminha e fomos no Civicão — eu, o Pedro e o Thiago — ao Hospital Veros, na Brigadeiro Luis Antônio. Ela foi em silêncio. Diz o Thiago que a Tutu lançou um olhar para ele e lambeu sua mão. Era sua matilha, despedia-se do Titi... Ele chorou.

Chegamos ao Veros e, ao levá-la para o pronto-socorro, ainda abanou o rabo para nós. Não lhe faríamos mal, ela sabia. Ficou internada. Passou a noite toda entubada. Sentia falta de ar, o sistema respiratório já estava irremediavelmente comprometido por um mal insidioso, e os veterinários resolveram abreviar sua estada entre nós.

No dia 12/4/2026, quando completaria 14 anos, 3 meses e 22 dias (ela nasceu 21/12/2011), reunimo-nos ao seu redor e vimos a estrelinha se apagar lentamente, deixando-nos tristes e vazios. Todos saímos do hospital transformados. Algo mudou profundamente em nossas vidas. Não sabíamos ainda o quê.

A Blyan escreveu num canto qualquer da internet:

A Chiara já estava velhinha e cumpriu o seu ciclo com muito amor. Despedimos dela juntos, mas cada um de nós sentiu e viveu a partida à sua maneira. Para mim a partida encerra uma fase muito especial — a infância e até mesmo a adolescência dos nossos filhos. São tempos que não voltam mais. As brincadeiras, o bolo quentinho no final da tarde… a confusão em forma de alegria. As crianças correndo atrás dos cachorros, os cachorros correndo atrás das crianças... O mais importante é que sejamos gratos pelos ciclos que se encerram. Quando um ciclo se fecha, abre-se outro novinho para sentirmos e nos alegrarmos. Que a vida possa ser celebrada todos os dias!

A Nena disse:

"Chiara. Crescer ao seu lado foi um privilégio raro. Você foi amor em forma de presença, de olhar e de silêncio que conforta."

O Pepo encerrou-se num silêncio hermético, profundo, doloroso. O Nini chorou. Não imaginava o quanto sofreria a falta da cachorrinha.

Eu sou imensamente grato à Chiara. Ela nos alegrou e doou um amor incondicional à familhinha da qual fazia parte, sempre junta e vibrante, a bordo desta nau. Com ela singramos o grande mar da vida.

Este livro se encerra no exato momento em que a Chiara se despediu da familhinha da grande Casa Amarela. Demo-nos conta de que a sua partida encerrava um ciclo de aventuras, alegrias, reinações, em que a infância e a adolescência completavam uma bela etapa de nossas vidas. Abrem-se as portas e janelas para novas aventuras, renovados desafios, tantas chegadas, outras partidas.

Assim é a vida, meus queridos filhos: um novo capítulo se inaugura no grande Livro da Vida.