segunda-feira, janeiro 30, 2006

Murilando o indizível


Murilo Mendes registrou em Poliedro (1972) que os meninos gostam mais de desmontar do que montar coisas.

Acho que tem razão.

A montagem sempre foi algo muito aborrecido. É como se caminhássemos a ré, recompondo tudo o que a curiosidade desvelou, com sua arte perita de insinuar-se delicadamente nos mistérios de todas as coisas.

Quando criança gostava de desmontar os velhos rádios a válvulas. Cheguei a ter uma coleção apreciável de quinquilharias imprestáveis - rádios que não radiam, eletrolas que não oram, televisores míopes, receptores distraídos, transmissores ensimesmados, amplificadores tímidos. Abria excitado as velhas caixas de madeira empoeirada, delicadamente esventrava o corpo inanimado de cátodos, resistores, bobinas, ímãs. Selva de cobre e estanho, quantos mistérios não encerra?

Não me importava o funcionamento ordinário de todas essas coisas - afinal é para isso que existem, ora bolas! Jamais consegui consertar qualquer uma delas. Muito mais excitante, isto sim, era o deslumbre com as minúcias, subtrair pequenas peças de um jogo inexpugnável, acomadá-las em caixinhas de charuto, cada qual integrando uma família, um gênero, um ente enfim, despojos para a derradeira decifragem que tarda afortunadamente.

Assim foi com as palavras. Desde muito pequeno deitava-me com uma coleção de revistas emboloradas, escritas em vários idiomas - que isso, sabido que era, eu sabia, embora não soubesse ainda ler. Ou passava horas folheando um livro que até hoje permanece inextrincável para mim: hagerups illustrerede konversations leksikon. Ainda o tenho às mãos; ele me flerta agora, sombranceiro, em silêncio obsequioso. Eu o amo por conter os desenhos e garatujas de minha infância. Carreguei-o por toda a minha vida.

Lembro-me de palavras soltas, de sons desmembrados, seccionados, segregados, desgarrados, e ainda assim como eram lindos! Recordo-me de "cãs de um lente", uma história que dorme nalgum livro aborrecido de gramática e cujo contexto ignoro solenemente. Palavrar fúcsias, sebes rosáceas, dobra inconsútil, irisado, crisálida, pipoca era uma aventura arriscada.

Assoviava com todos os dedos, com cada um, aos pares, sem eles, e me parecia bom que cada silvo sibilasse de um jeito ou de outro. Mais interessante do que a função do assovio era o som do atito. E cantava a plenos pulmões em "outras línguas", o que sempre municiava de receios irracionais o meu tio kardecista.

Um dia, uma bela manhã, tendo saído mais cedo da escola, armei-me de um velho gravador portátil de rolo e, apetrecho em punho, pleno de coragem, saí a campo. Posicionei a geringonça no ponto exato de vociferar qualquer coisa em inglês - uma palavra rara (bem sei qual era!) que me soava especialmente agradável. Ali quedei-me, gravador em riste, à espreita da criatura mais apavorante, mais aterradora, mais irresistivelmente linda e sedutora... Sim, a palavra me vem fácil... Márcia!

Ah! pequena Márcia, quis dar-te um regalo inefável, um pequeno bouquet sonoro, um objeto que fizesse vibrar suas cordas interiores, tão concreto e instantâneo como terá sido o meu indizível amor.

Murilo Mendes - ora pro nobis!


Poesia ou prosa - o que é superior? Nem o amor, nem a amizade, nem os nomes, nem os pronomes: Murilo Mendes, ora pro nobis!

Murilo Mendes me foi apresentado formalmente pelo Zé Ruben. Entregou-me cuidadosamente um exemplar de Transístor e logo deitou falação sobre as qualidades que eu já pressentia no poeta. O Zé é assim: simplesmente categórico. Seu discurso envolvente, sua sabedoria e intuição profundas, a erudição de um médico que se dedica aos livros, o Zé tem o dom de arrancar-nos dessa terra ignota e nos depositar seguros nas culminâncias. (Meu querido Zé Ruben, suas etimologias ilustradas me despertaram para os segredos inscritos desde sempre no coração das palavras).

Verdade é que o livro dormitou na biblioteca, esperando-me sábia e pacientemente. Os livros sabem o mistério do Tempo.

Falando de Tio Lucas, o médico das almas e dos povos, Murilo Mendes evoca uma idéia que me toca profundamente. "As pessoas e os fatos são contagiosos". Pois Zé, tu me contagiastes de uma encardida humanidade! Homem que se dedicou ao Homem (e aos livros) esse meu amigo médico realiza generosamente o talento da multiplicação do verbo. E de quebra me presenteia com as Confissões, de Agostinho. Medicina anima acabou sendo meu ex-libris...

A obra muriliana é aberta. Ilumina e dá sentido às minhas ruminações. Uma prosa que toca a gema preciosa da poesia. Lembra que o "reino de Deus pertence aos que consentem na sua própria morte", como se acha na Epístola Jacobi. O Bonfim é o senhor dos bons fins e dos melhores começos. Talvez resida aí o segredo do Zé. Ele traz gravado nas entranhas de sua verba generosa uma sabedoria indestrutível.

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Nesses dias chuvosos de Patrocínio Paulista, entre o choro essencial do Thiago e o desaforo do Pedro, me vêm essas lembranças entremeadas com as inovações e invenções da Helena.

- "Eu entendo a língua dos grilos", garantiu-me ao ouvir a cantoria de um ortóptero apaixonado.

- É mesmo? E o que dizem os grilos?

- "Cri-cri-cri...".

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A pintura acima é de Flávio de Carvalho. Retrato de Murilo Mendes, 1951, óleo sobre tela,100 x 70, Coleção Gilberto Chateaubriand



domingo, janeiro 29, 2006

sp-lisboa-amsterdão-alcobaça-lisboa-sp

sp-lisboa-amsterdão-alcobaça-lisboa-sp, post by Íris Jacomino.

A viagem em quatro shots:


1. Voando: sin city - lisboa. PRATiCAMENTE carreguei esse avião capenga da TAP, a única companhia aérea que passa novela de época pra gente assistir.

2. Viajando nos campos devastados de Van Gogh. Ele quase me deu um tiro na orelha...

3. Íris het rembrandt´s daughter. At the rembrandt´s plein = a praça onde tudo acontece...

4. Finalmente de volta a Portugal em Alcobaça, chacoalhando a Inês no bar da nana (foto)

Bjo, Íris

Obs. Fotografias pb de Miro Svolík

segunda-feira, janeiro 16, 2006

Uma visita ao poeta


Abro um parêntese para revelar a visita da historiadora Adriana Gianvecchio.

Eu recebi a carta na altura em que tentava romper a parede de água que caia sobre a Quinta da Regaleira, em Sintra. Há tantos mistérios nesse encontro quantas foram as gotas caídas na relva.

Querida amiga, sua prosa está deliciosamente pontilhada de referências pessoais; o texto se abre como um fruto maduro. Eu a conheço e confirmo. Agradeço a visita da poetiza. (SJ)

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Recebi a chave de um templo, uma senha de memória para visitar um tempo em suspenso. Um tempo em mim que não se desfaz.

Um código de Alice, Clarice, ou será de Borges? Talvez Quintana ou Poe, ou essas ‘buscas proustianas’ que nos levam aos recônditos de nossa alma. Nossos porões. Ou seja, ao lugar- nenhum de todo abismo da reflexão que nos faz constatar o vazio.

Espelhos. Portas. Entremundos.

No início, tive receio de voltar a esse tempo. Até deixar o olhar passear pelos espaços da memória e encontrar uma nave que me levaria ao poeta.

O medo (dos fantasmas), se desvaneceu naquele sentimento de quando se reconhece a imagem de alguém tão querido que nunca mais se viu. Deixei-me levar pelas linhas claras, dissipando as nuvens de esquecimento cultivadas pelo olhar apressado e pela ilusão de tempo. No caminho encontrei um menino de alma antiga e olhos translúcidos que olham com curiosidade sobre todas as coisas. Criança hiperativa, hipersensível, perceptiva. Criança que cria mundos e brinca com o som e com o vazio. Silêncio...

Eis que surge o homem. Ele tem pressa. O homem cartesiano que não tem tempo, não tem hora, só tem razões. Homem hiper-eficiente, hipertenso, a colecionar papéis, letras mortas e inventários. Coisas dos homens. Legados. Lacunas. Labaredas...

Fez-se noite.

Um ser passeia por nós: anima/animus. O ser invade o Ser e revela constelações. O menino adormece. O homem procura lógicas. Procura sílfides. O poeta procura revelações. O homem dorme pouco, pois tem medo de encontros.

Estamos em um templo de pedras frias, antigas, cheias de poeira e versos. O velho sábio adverte que na República Ideal os poetas não podem entrar...Solidão.

O menino desperta do sonho acalentado por uma nota fina. Consciente da transição que virá pela necessidade da superação.

A Revelação

- Os políticos são os homens do presente, mas os artistas são os homens do retorno... Diz o profeta ao menino. E o homem encarcera o poeta e desperta. Ilusão.

O poeta gosta da água doce e de flores grandes e amarelas com gosto de quintal com terra molhada, gosta de doces frutos e de mato. O homem não. Não tem tempo para esses gostos.

Dorme o poeta por imensos setênios de exclusão na alma abandonada. Mas não morre, não. Vive na esguelha de um olhar que escapa ao trágico, da memória de uma paixão, de uma curiosidade, de um acorde. Soul. Vive nas coisas simples, na rede de dormir, naquela rua de paralepípedos, no barulho dos cascos dos cavalos do leiteiro, na casa pobre, na cortina de flores gastas, na colcha de retalhos coloridos. Vive no céu aberto, na chuva fria, nos pés cansados, nas lembranças proibidas, na dor cultivada. Jazz. Dessa dor que chora a seco, porque se esconde na seca árvore do longínquo quintal para onde o menino corre quando alguém se vai.

Mas é o poeta que não consegue verter lágrimas. O homem apenas acha que não chorou. Exclui memórias, escolhe os caminhos certos, as pessoas ideais. Mas o poeta não, prefere os duvidosos, os insensatos e escolhe os cantos e passagens que o homem não recomenda. O homem queima os diários que revelam o poeta. O homem é sério, tem pressa. Não pode se perder com delírios...

Já o poeta escolhe outros caminhos, ruas antigas, histórias poeirentas de velhos livros folheados por outros tantos poetas... Busca o poeta a aura mágica do toque que partilha a emoção retida no desvelar da alma feminina. Mas o homem não. O homem tem responsabilidades, contas, agendas, horários. O poeta tem um pôster de um músico com um rosto árabe, uma caixa de fotografias amarelecidas de outros poetas que está perdida no canto de um armário ao lado de um velho guarda-chuva e de um relógio parado. Testemunha ocular desse tempo que o homem acordou e fez adormecer o poeta.

Mas, o poeta resiste e desperta no espaço sideral em silêncio porque o homem acorda cedo.

O homem do retorno – ou, percepções desérticas.

Choro em cada parágrafo de lagrimas secas. Choro sem verter lágrimas, choro num silêncio que evoca o que não mais se atinge. Num abismo-eco. Árido. Desértico.

Um choro em pó, pasteurizado, introjetado. Choro sem chorar e dessas não-lágrimas produzo palavras. Choro letras, memórias, imagens desvanecidas, esquecimentos programados. Mas não assumo o choro. Quero verter o pranto mas não consigo. Retenho a água, salgada, sofrida, a expressão corpórea, a emoção na fonte.

E por não verter é que verbalizo a dor que para tantos não tem palavras não tem não tem... Choro pelo avesso. Cintilo perdas, petrifico, calcifico distâncias e negações. Mas não choro porque não posso ou será que não derramo a perda por que contê-la é ainda ter a dor? Não a deixo...

Por isso, retorno aos filhos, fragmentos, pedaços, pais, projetos, desafios, confrontos, completude, fractais, continuum, ancestralidade, múltiplos, entendimentos, dissonâncias, ciclos.

Agora sim: plural.

Sabendo que “procurava a inteira” como nas veredas de Rosa ***

Um convite à memória do poeta,

Chá de tília em tardes de chuva rala. Memórias cultivadas em caixas de uvas vermelhas e terra úmida nos pés. Pirilampos. Experiência metafísica. Meta-carne. Tempo.

Não pára, não pára, não pára....

E ainda me escondo naquele quintal, atrás de pés de conhecimento, silêncio e perdas cultivadas pelo não chorar. E empilho velhos livros para que me protejam dessa insana guerra.

Mas, onde estão aqueles dias nossos? Ah, ainda estão Lá... No percurso que leva ao não-lugar, no entremeio, na fresta, no abismo em que descobrimos que existe mais além do que podemos (queremos) perceber.

Nos vaga–lumens, nas vagas horas de nossas vagas lembranças.

Mensagens (de)cifradas – ou, te devoro.

Reconheço sua alma – dos lugares de outrora. Mas com os olhos bem abertos choro pelo poeta.

Mas saiba, procuro perder-te todas as manhãs. Só que não posso. E não entendo.

Sei que um dia encontrarei o poeta, quando ele superar o homem. Nesse dia, poderemos chorar em vidros, colecionar conchas, flores, árvores e estrelas. E escrever segredos para enviar em garrafas ao mar sem fim de nossas almas antigas e inquietas. (Adriana Gianvecchio)

quinta-feira, janeiro 12, 2006

serraia & amor de mãe



Vez por outra serviam uma comida intragável no ICC. Vocês se lembram de uma tal serralha ou serraia? Uma verdura amarga, plantinha de uma textura áspera, verde escura, parece com a danada ao lado. Ainda me vem o seu amargor que trava.

Eu me lembro de não tolerar esse complemento alimentar - que algum valor nutricional haverá de ter e parece mesmo que era da predileção daqueles cozinheiros da alma.

Minha mãe, querida Dona Amélia, contava uma história triste. Dizia que num belo dia, um ensolarado domingo de visita, dia de ritual, em que o mundo nos vinha em quanta pela voz fanha do falante metálico, pois meu amor me encontrou com as bochechas arroxeadas. Investiga daqui, pergunta dali, questiona um pouco mais... e eis que descobre que a tal verdura me foi socada goela abaixo, sob os protestos veementes e a resistência heróica do órfão revoltado. O grande algoz foi o empedernido Molhão! Sempre o Mo´Leão.

Fiquei revoltado. Deus meu! Ouvirei essa palavra pelos outros 40 anos que se seguiram - revoltado... francamente! Que outra coisa poderia ser, no calor de uma luta afinal vencida pela afirmação corajosa num mundo hostil e entristecido?

Essas e tantas outras palavras ficaram pelo caminho. Serraia, paquinha, Barroca, Molhão... A luta contra a ração diária de serralha é já passado. Um passado que me pesa, às vezes, e me visita com movimentos incontroláveis. Volta como um soluço de montanhas e vales profundos... me assombro com algo que se movimenta lentamente nas entranhas! Que raro descobrir que esse amontoado de carbono se estremeça com uma inesperada epifania!

Manuseando uma caixinha de madeira em que estão depositados fotos e outros estranhos seres, deparo-me com uma cartinha que este pequeno que me olha assustado enviou à sua querida mamãe.

Tudo ocorreu num longinquo dia das mães - um tempo esquecido do qual a única prova visível é uma carta amarelada guardada ao longo dos anos numa caixinha de madeira. Por que terá guardado isso por tanto tempo, mamãe?

Dizia a letrinha miúda e sofrida: Mamãe hoje dia das mães ofereço minha glória hoje neste dia glorioso ofereso com tando o amor e fé esta carta que quero a senhora, dizia o menino. E continua: Mehor eu no possa que se compre esta promesa que eu tanto amei por tanto... mamãe uma grande lembrança e uma grande felisidade ofereço esa carta e essa emensa gloria e maus coisas quero quando sair deste colegio uma sempre lembrança que eu fiz todas todas mais todas que eu feiz lembro lá em casa e na rua e que tanto fiz perdõe todas as coisas e de todos amores que tanto gostei da senhora que tanto amei que tanto gostei um coração sempre aberto. Mamãe desejo essa grande felizidade a senhora que tanto quiz que esta marcado no meu coração então mostra a emesa gloria que tanto amei que ofereço esta mamãe quero oferecer tudo iso que lhe gatanhar e resa o maior o maior que tanto amei a Deus que abençoe eu e a senho e nossa familia ajudai me a ler ea escrever.

Hoje não choro a passagem da D. Amélia neste terra de degredo. Tenho saudades vendo as suas fotos, minha querida mamãe. Aquietou-se em mim um choro miúdo que não se ouve no coro desafinado da multidão. Se eu pudesse dizer alguma coisa a respeito dessa cartinha seria certamente que o tempo verbal denuncia uma profunda irresignação e incompreensão. Apartado de minha amada, só podia lamentar o tanto que amei...

Mamãe, eu a amo verdadeira e integralmente. Com todas as forças de minha vida!

de seu filho, SJ.

domingo, janeiro 01, 2006

5th dimension


V. percebeu que anda esquecendo aquele telefone importante de uma pessoa querida? Percebeu que não se lembra mais do nome daquele filme... qual era mesmo? E o nome de um amigo da infância? O número de sua casa lá em Santana? O número da placa do primeiro carro?

Pois é. Tenho vivido situações semelhantes. Esse apagamento está associado com a destruição ou obsolescência de setores de minha memória afetiva. Como assim? Vamos lá, obsolescência: com o surgimento das agendas eletrônicas, "transferi" para os bancos de dados externos esse tipo de informação. As redes neuronais já se estendem para além dos limites físicos do meu cérebro. E a destruição? bem, voltemos ao ICC.

Outro dia estive no Instituto. Entrei por uma de suas portas, entre outras... sei lá, no mundo do ICC há tantas... E dei de caras com O Pátio. Aquele Pátio que todos vocês um dia conheceram. Aquele que, ao centro, disputando eternamente em importância e dignidade, estão Mo Leão e o velho ficus - ambos fincados no centro dos nossos corações.

Mas será mesmo aquele Pátio que os meus olhos agora divisavam?

Duvido!

De alguma forma a arquitetura de uma cidade, com suas praças, árvores, ruas e edifícios, são como células de uma incrível, variada e multiforme base de dados, à qual se liga a nossa memória afetiva. Nossas redes neuronais alcançam a cidade e estabelecem com ela vínculos profundos de reconhecimento e certeza e nela fixam elementos tão próprios e singulares, como é a essência de nossa memória. Destruída, puft!, somem, como que por encanto, as emoções que as paredes e edifícios guardavam.

E aí, então, tornamo-nos fantasmas. E passamos a sonhar...
Sonhei que percorria aqueles corredores do ICC e reencontrava os caminhos da minha infância nas câmaras e vestíbulos que se acham ainda mantidos. Quem são aquelas pessoas com quem me encontro nos sonhos? Estranho... a arquitetura se transformou, mas ainda reconheço cada caminho, cada recanto daquela formidável construção, o grande Instituto Cristóvão Colombo!

As imagens me vêm e me tomam de assalto. O ICC transluz. Suas paredes, o pátio, o ficus secular plantado no centro de nossa alma, em cujas profundas raízes as paquinhas dormiam, tudo isso me vem agora como um mar voluptuoso e irresistível. Ah! tudo está projetado nalguma inaudita dimensão. Uma vida que se mantém intocada com os sentidos próprios, em infinitas combinações. Tenho certeza que está lá, onde algo não está!

Lembro-me que um dia, num domingo ensolarado, deitei-me numa roda infantil instalada defronte ao Pátio. Os olhos postos no teto, pus-me a rodar, rodar e rodopiando, vestiginosamente, num sobrevôo de reconhecimento de uma terra incognita, vi abaixo de mim as coisas inatingíveis: me tornava afinal impossível às coisas impossíveis... E num relâmpago azul e luminoso, vi um velho pensativo, os olhos embaciados postos em mim, o que quer de mim, esse velho?

E logo acordo. Deus meu! O que quer de mim essa criança que não dorme?

A imagem: Next Stop: Immortality: http://www.futurehi.net/docs/RAW_Immortality.html.