quinta-feira, março 29, 2007

Baca: uma estrela peregrina

Querida Célia, certa feita, estava eu já em Franca, numa noite sem estrelas, uma daquelas madrugadas de sobressaltos no grande Edifício da Acif, despertei após um sonho tumultuado com o Sérgio Baca Cândido. Fiquei estático e em silêncio. Nessa semiconsciência, vinham em graves soluços imagens partidas, vertidas nesse caleidoscópio da alma. A pele eriçada por um vento que não havia... sei lá! Era uma sensação muito estranha. Custei a ferrar no sono.

Logo pela manhã, já no trabalho, recebi uma ligação de um amigo comum - o Paulo Barreto - que me dava a triste notícia do passamento do Baca.

"Jênkis!" - dizia Sérgio candidamente... ainda o vejo empunhando a bíblia e o violão -, "se prepare... se prepare!" e logo desatava um riso generoso que iluminava o semblante de santo monacal.
Hoje a frase ganha uma nitidez profética. A barba, o cabelo, um blâiser caramelo que era sempre menor que o manequim, tudo se harmonizava naquele homem singular. Era como se aquela alma peregrina jamais tivesse se acomodado no corpo e tendia, como uma estrela trânsfuga, à partida repentina.

Uma estrela da manhã, querido Sérgio, v. foi uma linda estrela da manhã! Prenunciava-nos uma luz que, certa como a noite retinta, se apresenta pontual para cumprir o movimento eterno de mudanças.

Ah! Célia, ambos amamos esse homem, Mas de diferentes maneiras. Eu o queria como um irmão que jamais tive; nutria por ele um indizível amor fraternal. Selamos uma aliança de militares de Cristo. Formávamos uma soldadesca singular, legião estelar, guerreiros do arco-íris, congregados numa Família forasteira. Todos nos saciávamos de um sei-lá-o-quê prometéico, aninhado na sua bolsa de couro, que sempre trazia a tiracolo. Havia algo de divino no Sérgio, que repartia generosamente entre todos nós.

Minha querida Célia, pranteamos a sua partida, é certo. Mas tenha a certeza, contudo, de que o Sérgio cumpriu seu itinerário iluminado de Argonauta das galáxias. Foi-se com uma estrela ligeira, deixando-nos um rastro de luz e sabedoria.

Bye, bye, Baca! distribua esse fogo sagrado entre os povos daqui e de acolá. E até breve!

(E a você, querida Célia, meu agradecimento pela oportunidade de (re) conhecê-la. Cumprimos assim nosso destino naquele encontro imponderável. Desate os nós que ainda possam tê-la presa ao pó das estrelas e mergulhe no coração da luz, onde tudo é. E não é).

Com meu amor, SJ

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