Ainda agora há pouco participei da cerimônia noturna que nos tem a todos, família e anjos, diante dos misteriosos portais de Hypnos. É a hora de dormir, tempo de recolhimento e silêncio. Acende-se o candeeiro sagrado da família, as palavras sussuram os segredos profundos das histórias infantis e se faz um momento de profunda compreensão. Lá fora sopra um vento outonal.
Meus pequenos embarcam na caminha aconchegante. A Helena enovela-se em meus braços e se prende à história com os olhinhos cerrados. Sinto o toque cálido de seu hálito nos meus braços e compreendo que a vida é uma grande bênção. O Pepo, meu querido soldadinho de Têmis, senta-se num canto da cama e contempla na penumbra a mãe, deusa magnífica que nos inspira e reconforta.
Para muitos, ainda é muito cedo para se recostar. São quase oito horas da noite, a casa aquieta-se, os cantos se tornam difusos, a luz reflete complexos arabescos no jardim sombrio. Não há televisão, nem a zoada caótica de um mundo que se desfaz em fragmentos de sentidos. Há somente a voz maviosa da mãe que nos diz os mistérios da infância.
O lavradio insinuante de palavras suaves vai iluminando o caminho de volta às estrelas. Depois dos Sete Cabritinhos, Blyan entoa tranquila: "Senhor / quem entrará / no santuário / pra te louvar? Quem tem as mãos limpas / e o coração puro / quem não é vaidoso / e sabe amar".
E lá vai a nave de anjos azuis, desliza suave e tranqüila numa longa estrada cravejada de pequenas luas, sereias e estrelas.
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