sábado, janeiro 13, 2007

Eu veio!

- "Eu veio, mãmi, ainda bem que eu veio..." - assim o meu Pepo saudava o gesto bem-pensado de buscá-lo no conforto do quarto para ver o buldôzer movimentar a capa barrenta e acidentada das estradas por onde caminhávamos no final da tarde.

O Sítio transformou-se num pântano neste verão. As chuvaradas ocorrem mais concentradas, abundantes, caem como cortinas espessas. Parecem querer saciar a sede da terra e dos homens.

A relva virou pasto de anuros. Os grandes sulcos deixados pelas rodas do jeep abriram uma janela para os ínferos - o que deixou a Lelê de sobreaviso, advertida dos grandes seres que se movimentam abaixo da pele frágil e barrenta da terra.

Um sapo ousou chegar até a cozinha, rompendo os domínios de seu reino e se refugiou abaixo da geladeira. De lá coaxava para desespero da vovó e excitação das crianças. As mulheres se escondem fugindo do símbolo, os pequenos saltam excitados e logo aprisionam o rugoso para libertá-lo em seguida a custa de um justo resgate: a acrobacia de saltos desajeitados do bufonídeo em fuga. Ainda nos lembramos de lhe dizer, ao anfíbio, que deveria seguir o seu caminho. Vá!

Na estrada acidentada, o Pepo exulta. Salta como um passarinho que simplesmente não sabe que voa. E canta, canta a plenos, o doce Pepo.

- "Eu veio! Eu veio!" - rejubilava com energia na tarde plúmbea. "Ainda bem que eu veio!", completava, como a nos ensinar que de fato Deus existe, revelado num único, especial e insubstituível ato de amor. Caimos em silêncio, Dona Blá e eu, entreolhando-nos com o respeito que o momento suscitava.

O Pedro nos chegou assim, de mansinho, como o resultado de um lindo sonho do casal, ornado de um bosque, um rio, tesouros e um belo jardim.

Você veio com a missão de encarnar-se Pedro, um menino-pássaro há muito esperado. Tudo se concretizou a seu tempo, meu pequeno Pepo, tudo se cumpriu - como na bela promessa de uma terra dos homens, abundante de leite e mel.

Ainda bem que você veio, Pepo. Ainda bem!

Um comentário:

Sérgio Jacomino disse...

É mesmo, ele passarinho como o Quintana e v. como o Quintana poeta, não passará!

Lindo!

Depois da devida consulta ao dicionário pude perceber que v. falava de um trator - primeiro pensei que se tratasse da raça do seu cachorro!

De onde virá a paixão mágica das crianças por esse estranho veículo? Ao ver o entusiasmo do Pepo, recordei uma das nossas próprias histórias.

Lidia, irmã mais velha, ainda era a única princesa da casa - as três filhas, cada uma a seu tempo, foram majestades para aquele apaixonado pai de meninas.

Todas as tardes o pai levava a pequerrucha de dois aninhos para ver um trator em trabalho de terraplenagem numa rua próxima. Era o ponto alto do dia, a menina era fascinada pelo gigante mecânico e suas operosas habilidades.

Natália nasceu meses depois e foi recebida com entusiasmo pela irmãzinha Lidia. Com entusiamo e com a mais admirável, enfática e amorosa das interjetições: "Parece um tratorzinho!"

Beijinhos nas crianças...

F.