sexta-feira, fevereiro 27, 1998

Todos os caminhos levam ao Amor


Às vezes nos perguntamos como tudo acontece como acontece quando acontece. Tudo parece ocorrer ao seu modo e ao seu tempo.
E se fizéssemos diferente? Ou antes? Ou num lapso pequeno de tempo depois?

Um segundo de hesitação e tudo se desfaria como um futuro para sempre esquecido...

Não estaria aqui escrevendo sobre você, pequena Helena.

A foto que v. vê ao lado é significativa e expressa um pouco do sentimento que temos – eu e a mamãe – sobre o nosso encontro e os desafios que chegariam até nós do futuro.

O registro foi feito pela Tia Renata Braz de Faria, na Serra da Canastra, num dia qualquer de 1998.

Naquele exato instante, parecia se desenhar um lindo futuro no qual v. se faria presente.

Hoje, visto em perspectiva, vejo que o meu passado estava já grávido deste lindo presente da vida: você!

Às vezes me flagro pensando que, afinal, descontados os erros humanos, as nossas vidas são movimentos de uma grande sinfonia: acordes perfeitos, justa harmonia, profundo silêncio, tudo no tempo certo. Nossos caminhos se cruzam no exato instante em que as notas se combinam em originais desenhos, tessituras, em tramas complexas, misteriosas, insondáveis.

Vim ter a Franca em busca de mim mesmo. Era então um homem vocacionado em busca de sua plena realização – não só profissional, mas afetiva e emocionalmente, como perceberia muito tempo depois.

Não me tendo desviado um só milímetro do exercício de meu nobre ofício, acabei por realizar uma obra que haveria de se concretizar e irradiar em todas as outras dimensões pessoais.

Aportei nesta cidade em busca de Justiça, Amor e Arte. Ao cabo de sete anos, cumprida essa importante etapa profissional de minha vida, volto a São Paulo completamente transformado. Trazia comigo a certeza de um grande amor, revelado em um sem-número de sinais maravilhosos, confirmado pelas estrelas e pelos elementos.

Meu coração já se achava preparado para a sua vinda, pequena Helena.

A etapa francana se encerrou, os portais se desfizeram ao cabo de uma impressionante sucessão de coincidências cuja razão, sentido e significado se revelariam nítidos ao meu coração.

Outras portas se abriram e no momento certo realizamos o exato acorde. Despertamos a pequena Helena de seu berço de estrelas.

A pequena sementinha confirmava que os caminhos do coração nos conduzem, sempre, ao tempo certo, ao verdadeiro Amor.

Querida Helena. Você é o fruto de um grande Amor.

quinta-feira, fevereiro 26, 1998

Carta a meu pai


De: íris Jacomino
Para: Sérgio Jacomino
Data: Quarta-feira, 25 de Fevereiro de 1998 22:47
Assunto: Fase Barroca

Oi pai,

Quanto tempo não nos falamos. Agora mesmo, escutando Hendrix lembrei-me de vc (por que será, né?). Saudades. Como estão as coisas aí? Em SP tudo está bem. A escola senti que será puxada, mas enfim, consigo acompanha-la. Vc não sabe, estou começando a me interessar por desenhos, não consigo mais parar de desenhar, todos falam que ando com a cabeça nas nuvens, mas acho que é uma fase. Eu não sei, fiquei muito chateada por não ter entrado no Teatro, mas as possibilidades não favoreceram. Aquele sentimento confuso e angustiante me perturba, mas não é algo anormal, talvez seja "carne que tá crescendo". O sentimento exato é de impotência, não tem nada mais triste em não saber o que se quer na vida, ficar a mercê de Deus. Sinceramente não acredito em destinos, sabe. O futuro se faz hoje, mas tem tanta coisa legal, tanta coisa que acho interessante, que gostaria de absorver.

Ando me interessando por filosofia, sociologia, feminismo, história, e por ai vai. Sabe aquela vontade tremenda de ler, se informar, de absorver conhecimentos. O único problema é falta de tempo, 24 horas não é o suficiente, conciliar tudo escola, desenhos, leituras não é fácil. É uma fase muito difícil. Ah, estou lendo agora Ensaios de Amor, Allan de Button, conhece? Outra escritora que me identifiquei bastante é a Fernanda Young, escreveu Vergonha dos pés, e Sombra das vossas asas. Vou comprar os dois

Entrei naquele programa de amigos virtuais, na uol, conheci muita gente legal. Bom é assim que se encontra minha vida atualmente, poderia chama-la de fase Barroca. Dualidade, razão e emoção, carpe diem, conflito espiritual, morbidez.  gosto pelo mórbido e raciocínios complexos, intrincados ... AAHHH!!!

A Brevidade dos gostos da vida
E a inconstância dos bens do mundo

Nasce o sol; e ñ dura mais que um dia,
Depois da luz se segue a noite escura,
Em tristes sombras morre a formosura,
Em contínuas tristezas e alegria.

Porém, se acaba o sol, por que nascia?
Se é tão formosa a luz, por que não dura?
Como a beleza assim se transfigura?
Como o gosto da pena assim se fia?

Mas no sol, e na luz, falta a firmeza,
Na formosura não se de constância,
E na alegria sinta-se tristeza.

Começa o mundo, enfim pela ignorância,
E tem qualquer dos bens, por natureza,
A firmeza somente na inconstância.
Gregório de Matos

Beijos pai

Iris Jacomino
irisgj@mandic.com.br

26/02/98