sábado, abril 28, 2007

Sr. Lupus e a toponímia portuguesa

No closet da casa há o desdobramento de um mundo misterioso. Muito antes das Crônicas de Nárnia profanarem o sentido mais profundo dos mistérios que se aninham nas reentrâncias de um bom armário, já explorávamos os fantásticos seres que habitam o móvel lotado de roupas e coisas do pápzi e da mámi.

No closet vive um habitante que é conhecido de todos nós aqui de casa, um antigo amigo da Lelê. Trata-se do Sr. Lupus, um velho e tranqüilo lobo solitário, que tem hábitos noturnos e, ao que parece, freqüenta todas as noites a biblioteca do pápzi, lendo compulsivamente os livros de filologia dispostos na estante superior. (Suspeito que agora se dedique aos substanciosos volumes de Etnografia Portuguesa, de José Leite de Vasconcelos).

Como foi que o encontrei? Bem, um certo dia deparei-me com a cauda do Sr. Lupus estirada, despontando de uma gaveta escura, alçada à altura do meu rosto. Levei um enorme susto! A Lelê saiu aos berros pela casa, os cabelos acobreados agitando-se ao vento, a espantar o pequeno Pepo.

Refeito, pensava ter encontrado um chapéu antigo, regalo de um registrador do interior da Bahia - inúteis lembranças dos encontros registrais do Irib. Qual o que! Tratava-se do Sr. Lupus, o velho lobo tímido que distraidamente agitava a sua calda solta no ar.

Hoje sabemos de sua faina intelectual e de seus silenciosos hábitos de leitura. Ainda agora o vi, obsequioso e esquivo, entretido com a etimologia de Espiche, onde se acharam algumas lápides que atestam a passagem dos judeus na Península na alta idade média portuguesa.

Lavradio de estrelas

Ainda agora há pouco participei da cerimônia noturna que nos tem a todos, família e anjos, diante dos misteriosos portais de Hypnos. É a hora de dormir, tempo de recolhimento e silêncio. Acende-se o candeeiro sagrado da família, as palavras sussuram os segredos profundos das histórias infantis e se faz um momento de profunda compreensão. Lá fora sopra um vento outonal.

Meus pequenos embarcam na caminha aconchegante. A Helena enovela-se em meus braços e se prende à história com os olhinhos cerrados. Sinto o toque cálido de seu hálito nos meus braços e compreendo que a vida é uma grande bênção. O Pepo, meu querido soldadinho de Têmis, senta-se num canto da cama e contempla na penumbra a mãe, deusa magnífica que nos inspira e reconforta.

Para muitos, ainda é muito cedo para se recostar. São quase oito horas da noite, a casa aquieta-se, os cantos se tornam difusos, a luz reflete complexos arabescos no jardim sombrio. Não há televisão, nem a zoada caótica de um mundo que se desfaz em fragmentos de sentidos. Há somente a voz maviosa da mãe que nos diz os mistérios da infância.

O lavradio insinuante de palavras suaves vai iluminando o caminho de volta às estrelas. Depois dos Sete Cabritinhos, Blyan entoa tranquila: "Senhor / quem entrará / no santuário / pra te louvar? Quem tem as mãos limpas / e o coração puro / quem não é vaidoso / e sabe amar".

E lá vai a nave de anjos azuis, desliza suave e tranqüila numa longa estrada cravejada de pequenas luas, sereias e estrelas.

sexta-feira, abril 27, 2007

Mais do Cândido Sérgio


Outono

Acordei com o outono batendo em gotas da minha janela e senti saudades do eu que ainda há em mim: são bernardo toda nublada e fria e eu ainda aqui, firmando os pés no chão e dizendo: sim, estou vivo!

Uma história dentro da outra. E pensei no dom das palavras que, sem sentido algum, constróem a gente e o mundo e pensei na devastação da morte. Não a nossa particular e egoísta, comum, corriqueira, na verdade fugaz quando acontece. Mas na morte dos outros. A morte que nos indica que o nosso mundo está morrendo.

O que fazer quando não tiver mais a Sonia, o George, o Sérgio, o Adilson, a Irene, a Márcia, a Cristina, o André, a Solange. O que fazer quando, pouco a pouco, de modo inexorável, se for toldando o horizonte? Quando esses olhares não mais trouxerem a alegria e a imensidão desse mundo e suas incríveis visões?

Então uma fúria, uma festa, uma irracional alegria silenciosa, como um vulto feroz andando no escuro se apossa de mim e fico saboreando cada partícula de ar que respiro, cada pedacinho de lembrança que tenho e sigo pelo outono, feliz, quase liberto, sabendo que vocês estão por aí.
Respirem, respirem e respirem!

Beijos, Waldir Martins

segunda-feira, abril 23, 2007

Cartas rubianas - ou o significado de EPW´s

Dos mistérios dos acrônimos.

É disso que o Sr. Dr. José Ruben deveria cuidar precipuamente. Uma certa semiologia do inconsciente que identifica nesses troços mal-traçados o perigo de Tânatos travestido de Eros.

O altar moderno, o sítio em que deitamos nosso sémen burramente desperdiçado, caverna de onde é possível divisar, em parte, mui toscamente, os mistérios de Elêusis (e não sabemos o que fazer com isso), eis os motéis modernos! Ou simplesmente EPW´s.

Nossos romances encardidos de certa humanidade, alienada de si mesma pela poeira de silício, se transformam, pela magia erótica, em sublime conjunção. Mysterium conjunctionis. Em átimos de segundos, nossas secretárias, amantes eventuais, companheiras de fainas des-desejantes (em que nos metemos por pura distração patrocinada por la loca de la casa), se transformam em Deméter e Perséfone.

EPW´s. Francamente...

O mais curioso é que os acrônimos ou essa técnica - que haverá de ter um nome, Dr. José Ruben - de extrair as vogais e manter as consoantes, forçando uma leitura que se apóia na memória de significantes, essa acronímia imperfeita resgata nomes estranhos para um motel. Olhe a palavra de soslaio; desdenhe do vocábulo. Trate-o com adrede desprezo (a ver se se abre, como uma flor perfumada de sentidos).

Palavras... estão para nós como as rosas para os sóis de nossos olhos. Revire-a, apalpe-a, boline-a. O que surge, então?

terça-feira, abril 03, 2007

Rainbow bridge