terça-feira, fevereiro 12, 2008

Sétima Sala


Salas, Eu sempre imaginei que pudesse tocar piano sem dever-ser jamais um... pianista!

Pobre de mim, simples mortal, posto em cadeias técnicas, condenado a ser músico em potência!

Às favas a música perfeita das esferas! À quadratura o ouvido obtuso! Aos bicos a terra firme da técnica!

Aborrecia-me, à morte, o Bona compassivo, que me fita agora e sempre de rabo-de-olho, desconfiado de minhas síncopes essenciais.

Para que servirá uma arritmia absoluta para os cânones estabelecidos da música funcional? Rumor cósmico, entropia musical, todas as músicas do universo no ruído informe.

Arrrghh! Sou um ser super-sônico!

Ah! Salas, sou um músico comum. Qualquer um. O que me dá certo conforto é saber que: qualquer um pode! (em resposta ao Blogue do Salas em Ventriloquia).

Descobri que tinha uma cara feia na época da ditadura.

Confirma-o comentário oblíquo de uma ilustre cinéfila, cujo nome não calha, nem lembra. Tempos de chumbo aqueles, lá pelos idos de 73, 74. A ditadura militar nos impunha um manto de terror e ali embaixo, bem quietinhos, nos confortávamos por um código rebarbativo, nos entendíamos e compreendíamos. A bem dizer, sobrevivíamos pela linguagem!

Lembro-me de ter caído bêbado, como um meteoro negro da fala de Neruda, preso à cadeirinha azul do Teatro Cacilda Becker.

Logo me perdi de vista, tragado pelo écran numinoso que explodia a face em preto e branco. Disse a cinéfila que eu correspondia à sucessão de imagens interiores terríficas do Sétimo Selo, de Bergman. Minha cara era horrenda: “como era feio aquele cara estranho que se sentou à minha frente” - confidenciou a um amigo comum.

O amigo ria às largas, seu riso branco e afônico reverbera ainda nalguma câmara secreta.

Sabia-me um lindo feio, um crédulo leitor de Susan Sontag, para quem a doença e a fealdade serão simplesmente metáforas.

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