segunda-feira, novembro 28, 2005

Gus in the sky with diamonds

Rememorando as passagens maravilhosas vividas com o meu querido amigo Gustavo Pena, El Principito, achei que deveria publicar algo que somente pude compartilhar com alguns poucos amigos. Render uma sincera homenagem ao grande amigo - esse era o desejo que sempre alimentei ainda quando ele estava entre nós. Talvez me reste publicar as fotos que tenho em meu arquivo... sei lá! Quem sabe editar as músicas produzidas na década de 70 e que também conservei em grandes rolos de fita. Acho que sou um conservador mesmo. Pura vocação. Aqui vão, ao menos, as notas, com um adendo de um homem peregrino.

Acho que agora - somente agora - descobri porque passei a esquecer o nome do homem.Por incrível que pareça, a minha resistência às perdas (o olhar demorado de abismo que todos experimentamos na vida) é tão grande e tão presente em mim que por contaminação de sentidos acabei por fazer com que o nome do homem fosse para o fundo do lago plácido da alma.

Gustavo é um grande amigo. Irmão, pai, filho, espírito que me animou às belas coisas da vida.

Jazz? Digamos que "ouvi" pela primeira vez acompanhando seu gesto elegante no movimento de suas mãos inteligentes. Gizava no ar um complexo fraseado de John Coltrane; ou então tocava delicadamente o ar com a ponta dos dedos e assim me traduzia o fraseado de El mar. Assim compreendi a profunda arquitetura da música.

A Frank Zappa fui formalmente apresentado nas ruas eternas de Montevidéu. Quantas vezes nos embrenhamos em infindáveis jam sessions, madrugada adentro, percorrendo os caminhos musiciais que foram abertos por Hendrix, Almendra, Pescado Ravioso, Led Zeppelin e Zappa... Coltrane, Benson, Wes Montgomery,Jean-Luc Ponty, la salsa maravillosa de centro-america y... El blues deCris.

Sim, one size fits all, little wing!

Sua incessante procura, sua loucura, sua alucinada busca de si mesmo, nos mobilizava a todos, seus amigos e discípulos, numa urgência de delicadas solicitudes.

De alguma forma nos achávamos num mundo estranho. Reconhecíamos, um pouco assustados, os contornos familiares agora transfigurados pela magia da música. Como eu o amo! Como levo em minha alma as suas delicadas preces! Meu querido niño de Dios, principito de las alturas, deixa-me embalar-te em minhas orações, confortá-lo no seio generoso da vida eterna.

Deixe-me beijá-lo com todo o meu Amor e agradecimento!


Essas mutações em nossas vidas, tão abruptas, tão profundas, tão definitivamente definitivas... Como lidar com isso?Lembro-me de uma tarde - uma tarde como tantas outras tardes; todas ignoradas simplesmente - sentado nesta cela confortável quando, de repente, alguém irrompe em prantos e me informa que mamãe havia partido.

Nunca vou esquecer a Eliane com a rosto transfigurado em dor, uma dor reflexa, dizendo-me que tinha uma notícia grave. Não chorei, não desesperei, não sofri uma dor profunda e inconsolável. Não. O que aconteceu foi que a minha resposta à morte foi a vida. Note: na noite da partida de Dna. Amélia a Helena foi gerada. Não sei como pude. Nem sei como aconteceu. Nem sei se deveria... Se eu te falar que não pude chorar, ainda, até hoje, a morte de minha mãe, v. me acreditaria? Somente agora, passados tantos anos, a sua imagem me vem inesperada, forte, como uma grave notícia da alma. Não sei como lidar com isso!

Meus sentimentos implodiram como estrelas negras, com fagulhas centrípetas, recolhendo para si cada migalha, cada lágrima, absorvendo definitivamente cada pensamento, como se fosse possível exaurir-me de toda a humanidade em silêncio, até não restar mais nada.

Não pude chorar a partida de Nadir. Não pude chorar. Não pude chorar a partida da Bete. Não pude chorar. Não pude chorar a partida do Sérgio Santos, do Mário. Não pude chorar. A partida do Gustavo. Não pude chorar. Talvez não tenha querido ou podido chorar a partida de meu pai.

Todos se foram e eu, aqui, reúno os cacos para reformar o sentido da minha própria vida.

Às vezes me sinto como a alma do deserto, varrido pelos ventos frios das lembranças, numa noite sem sonhos. Um deserto que não é de desesperança, mas instruído da profunda compreensão do nada, da insignificância de nossas existências; um deserto cuja única substância é a certeza de que afinal já não resta nada. Pulva et umbra.

As minhas alegrias são só passageiras. Vejo a tarde com os olhos de quem já partiu. Observo a graça, que se manifesta nos meus filhos, nos lampejos que denunciam a eternidade em dança e movimento; transpassa-nos, com fluidez sublime, imponderável, fugidia. Ali está a Verdade! Mas já se me escapa, não está ali; estará acolá? Mais adiante? Que fez Deus de nós, seres frágeis e indefesos? Que esperança nos alimenta? E no entanto, continuamos a viver e a reviver, como se pudéssemos, afinal, vencer a última, a mãe das batalhas. Mas que derradeira peleja poderá existir quando já não há lembrança essencial da primeira?

Não tenho nome, não tenho idade, não tenho cidade, não tenho lágrimas.

"Mas quando mais nada subsistisse de um passado remoto, após a morte das criaturas e a destruição das coisas - sozinhos, mais frágeis porém mais vivos, mais imateriais, mais persistentes, mais fiéis - o odor e o sabor permanecem ainda por muito tempo, como almas, lembrando, aguardando, esperando, sobre as ruinas de tudo o mais, e suportando sem ceder, em sua gotícula impalpável, o edifício imenso da recordação"Proust, No Caminho de Swann.

Para o Sérgio, homem de cujo nome eu me lembro, com o carinho. Londres, 15 de julho de 2004El mar.

domingo, novembro 27, 2005

Tanto faz quanto se desfaz


É por isso que eu gosto tanto da Vi. Ela não se importa com estereótipos. Por que não aceitaria ser 21 no HotMail, quando se sabe que só ali somamos, os humanos, aos milhões?

Certo! Como as estrelas, não nos contamos pela mão. E no entanto, uma mão pode tocar outra, e outra, e este círculo se fecha. Ou não? Ah! que importam certos detalhes dessa geometria inútil?
O importante é que dois e dois são João. Ou Maria? Tanto faz quanto se desfaz. O certo mesmo é ser feliz! Por um triz, enfiar o nariz no chafariz... O que me diz?

Vi, é preciso ter olhos para ver e eu Vi. Eu vi você, menina. Eu vi, sim, mocinha. Eu vi a mulher que desperta entre espinhos e algodão (que estamos debaixo do sol).

Vi seu blog; e a blague. Sinceramente... enquanto duro? Mas às vezes é preciso ser dúctil! Por nós passam os camelos e os cabelos. Ficam os rabichos de letrinhas: http://www.quesejaeternoenquantoduro.flogbrasil.terra.com.br/

Beijos desde sempre e até (muito) mais!

sábado, novembro 26, 2005

ICC de novo - Pó de estrelas

Estive lá, quase não acredito. Acho que foi o ano 64, 65. Não sei. Sentíamos uma nova e estranha onda, as mensagens nos chegavam em garrafas, despertavam uma euforia inexplicável. Admirável mundo novo aquele que se anunciava.

Lembro-me das descidas ao pátio no intervelo das aulas, pela manhã, onde convivíamos com os alunos do externato - uma zuada de crianças correndo e comendo. Uma convivência digamos... desejante. Eles nos traziam notícias do front - uma revista com a foto do John Lennon, ou um brucutu, uma calça saint-tropez... Que era aquilo, meu Deus, que era aquilo que anunciava um novo tempo? Eu me aboletava nos cubos de ferro e desejava os acepipes dessa legião quase-estrangeira. Como o mundo era estranho lá fora... mas como o desejava! Ele nos vinha como soluços intermitentes.

Numa daquelas tardes eternas - essa luz dourada ainda tarda na memória - lembro-me de que os alunos atearam fogo numa planta e excitados diziam, "é peido de velha, é peido de velha"... e todos nos púnhamos a rir deliciosa e despreocupadamente. Éramos livres... Isto é, mais ou menos; sempre nos rondava a ameça da visita compulsória ao grande-dormitório-grande onde nos esperava, depois das orações de praxe, o velho Molhão.

Não é incrível que só agora, muito recentemente, vim a descobrir que o santo nome do Molhão era León? Irmão Leão = Mo Leão = Molhão. O velho leão rugia e se assentava ao trono de vime solenemente, com pompa e circunstância, a batina desbotada mas digna, o discreto sinal clerical no pescoço, repartindo a justiça e distribuindo as bênçãos de um domingo eterno que ainda embala a molecada ruidosa e travessa que habita minha memória.

Aquele pó de estrelas douradas, vermelhas, amarelas, ocres, polvilhadas pelo chão de ladrilhos corais, de onde vinha? A serragem úmida penetrava as narinas tenras do menino e encardia a alma com uma fragrância indelével. Quantas vezes não empunhei heroicamente uma vassoura levando adiante aquele pó de estrelas castanhas?

Por falar em estrelas, havia um telecópio. Eu não me lembro quem o trazia de alguma sala misteriosa, instalava o instrumento, ajustava, mirava, focava e nos oferecia o espetáculo do firmamento. Acho que era o Padre Pedro Zamberlan. Estranho objeto! A noite nos cobria com seu manto de mistérios. As estrelas, tão distantes, que segredos guardavam? Via à direita o cruzeiro iluminado por uma covarde luminiscência. Quantas vezes não pedíamos que o Padre Pedro desviasse o foco para lá, para resdecobrir as formas conhecidas da torre, tornadas estrangeiras pela luz fugidia; à esquerda advinhavámos o galpão e suas oficinas abrigados pelo manto da dama noturna. E fazíamos fila, os olhos arregalados, as pupilas dilatadas, nervosas como tímidas dançarinas.

Assim como as estrelas eram arrancadas de seu caldo escurecido, tragadas por aquele instrumento poderoso, assim éramos arremesados a um mar de aventuras arcaicas, embalados num carrossel de galáxias espiraladas e luzes fugidias.

Ah! essas estrelas meus filhos ainda as vêem em meus olhos!

Norma fundamental

[Mosaico em Hagia Sophia, Christus Pantokrator e Imperador Leão VI, O Sábio (886-912)] . Detalhe.

Norma fundamental! Nada mais, nada menos do que isso. E pronto!

Norma Wimmer foi um anjo em minha vida. Desde o primeiro momento que a vi na escola, logo naquele instante essencial - flagrado pela lâmina da alma -, imediatamente me apaixonei. Um amor terno, delicado e sincero, um sentimento raro, idílio - imagino-o dourar o coração de crianças quando são capturadas pelo encanto do verdadeiro Conhecimento.

Assim foi. Vejo-a claramente transitando entre as carteiras dos alunos - quase diria flutuando, com uma leveza indizível, diáfana, sempre elegante... Sustentava os olhares e corações aflitos. Alunos que éramos uma nova era, uma raivosa geração de work class heroes, expulsos da família, degredados do convívio dos pequenos compatriotas da infância, nós que logo seríamos aproveitados nas engrenagens do sistema.

Norma foi o meu esteio emocional. Disse-o, ela mesma, ainda ontem, quando nos debruçamos diligentes sobre velhos alfarrábios de antigos reis. [Ela trata de traduzir o Livro do Eparca, provavelmente um édito de Leão VI, O Sábio, vertido ao francês em 1846 por Jules Nicole, o erudito suíço].

Disse mais, que recebia a delegação diretamente de outra gema preciosa do Amor: Mitie Konishi, minha querida Mestra de Vida (e de língua portuguesa também). Esta teria recebido a delegação em primeira mão de minha própria mãe. (Minha mãe: sobre esta entidade misteriosa de poder e graça me calo em reverência e respeito).

O coração apertado, os sentimentos em revoluteio, vejo que o caminho do coração se perdeu nas brumas, prisioneiro da tirana, dissimulada e distraída, "la loca de la casa"... Eis que surge um fio dourado, a fita enovelada de minha própria história que parece desenrolar-se e expandir-se com a fúria duma galáxia que desperta de um sono sem sonhos. Sua luz banha as câmaras e reentrâncias desse labirinto que se contrói de muros e portas que se abrem e fecham para cada um de nós. A memória da Norma dá-me sentido. Nesse trânsito de sentidos, me reconstrói. Liga o futuro com o meu passado - e com isso ilumina esse instante mágico de reecontros.

Enfim, meus pais, minhas mães - Arys, Normas, Mities, Rubens - parece que vivi unicamente para reconstruir um estado de harmonia essencial, lá longe perdido, e que agora, depois de Franca e chegado afinal ao ponto de partida - minha Paulicéia Desvairada -, posso dizer que reencontro já meus frutos, amados rebentos simbólicos e naturais, os funcionários do Segundo de Franca e do Quinto em São Paulo, além de meus queridos Íris, Helena, Pedro e Thiago.

Flores partidas

Não posso terminar sem antes contar-lhes que ontem fomos ao cinema - eu e minha filha Íris. Fomos ao cine ao que parece tão-somente para cumprir o desígnio de me ver confrontado com mais um perturbador signo. Uma entre tantas estranhas e mágicas coincidências, como terá dito Jung.

Don Johnston, já no final do filme, declara para o jovem candidato a filósofo que não há trânsito possível entre as portas do futuro e do passado: "o passado já passou, o presente está aí e o futuro... ainda não chegou!”.. Talvez aí a chave. Don foi um bem-sucedido empresário de computadores. Mas nada mais se sabe desse cinqüentão vazio, vizinho de Winston - um etíope que se dedica a descobrir os laços de uma trama complexa e é simplesmente incapaz de resolver um pequeno problema de conexão na Internet. Não deixa de ser curioso o fato de que a procura de Don, que revolve os relacionamentos mal-resolvidos do passado, seja guiado pelas mãos imperitas de Winston - que lhe proporciona, de quebra, a trilha sonora dessa busca, o som exótico de Mulatu Astatke.

Winston, um etíope-americano será o contraponto essencial de Don. O negro que emprestará ao cinqüentão um sentido que ele próprio é incapaz de apanhar. E o faz por caminhos tortuosos, como a música africana, que pulsa como um coração poderoso sob a sucessão de imagens de uma América alucinada e perdida. Aliás, tudo pulsa na casa ao lado - a mulher negra, graciosa e sensual, cozinheira alquímica daquela calderada de filhos, sentimentos e música afro, o marido que fuma um baseado diante da filha e sinceramente se justifica e se absolve dizendo não se tratar de cigarros...

Os pontos de contato entre o meu encontro com Norma e o filme são pouco evidentes, já advinho o desconforto de quem me leu até aqui. Mas o que quero registrar, afinal, é que para mim se abrem as portas do conhecimento; minha biografia torna-se perfeitamente nítida. Há um passado e um futuro e entre essas culminâncias, retesado sobre o abismo, existe um presente, que se constrói com equilíbrio e elegância.

domingo, novembro 20, 2005

Este que fala por mim, quem sou?


Que estranho fascínio exerce a Internet nos espíritos inquietos. O que nos inspira a lançar garrafas nesse mar eletrônico? Inscrever nas estrelas, deixar um fio de ouro neste labirinto sem portas... Mensagens grafando nossos sonhos, apreensões, reflexões insones, perplexidades... Nótulas lavradas para tão poucos, quem sabe quem? Para quê?

Falamos para nós mesmos na esperança de que nossa voz sobreviva na memória dos outros? Potência de cognoscibilidade? Publicidade organizada de sonhos?

A Internet é o registro que gera presunção de conhecimento de nossa existência. Afinal, quod non est in retes non est in mundo, diria um amigo querido, recuperando os sinais da tradição.

Essa presunção de vida e sonhos é relativa, como sei! Quantos de nós não perambulamos pelas paragens eletrônicas exauridos de espírito - fastasmagorias, simulacros de vida projetados em bilhões e bilhões de elétrons zunindo em redes pós-neuronais, pocurando, à imagem e semelhança de seu criador, recriar-se e armar-se de espírito e virtude... Este que fala por mim, quem sou?

"Por acaso, surpreendo-me no espelho:
Quem é esse que me olha e é tão mais velho que eu? (...)
Parece meu velho pai - que já morreu!"

(...)

Como pude ficarmos assim?
Nosso olhar - duro - interroga:
O que fizeste de mim?! "

[a imagem é do Dr. Julien Clinton Sprott - http://sprott.physics.wisc.edu/sprott.htm, Professor de Física da Universidade de Wiscosi. O Excerto do poema Espelho é de Mário Quintana]

sexta-feira, novembro 18, 2005

Pedro - velvet note


Este blog tomou um rumo inesperadamente intimista. Acabei confidenciando a amigos que isto parece um diário. Acho que é mesmo! Estou aqui exercitando a postagem de mensagens em garrafas, na esperança de que os olhares não ultrapassagem a bruma deliberada que pretende distrair a vista nesta viagem.

Gostaria de registrar um depoimento sobre o Pedro, já que sobejam fotos da Helena e agora também do Thiago - além de algumas imagens que os meus poucos leitores consideraram um tanto quanto extravagantes.

O Pedro era esperado há muito tempo. Posso dizer com certeza que fui um homem de muitos sonhos. Encontrei uma mulher que me acompanhou em todos e hoje, numa mirada retrospectiva, vejo que realizamos muitos de nossos desejos sinceros de alegria e felicidades. Foi assim com o próprio relacionamento - algo impensável nos inícios. Afinal, a diferença de idade, de temperamento, de experiências, tudo apontava para uma aventura sem conseqüências.

Mas não foi assim. Achamo-nos nesta busca intensa e os frutos vieram, um após o outro.

Não posso deixar de apresentar-lhes o Pedro, meu querido Pepo. Com sua suavidade foi conquistando aos poucos o coração do pai e hoje tem um lugar só seu, com garantias reais.

quinta-feira, novembro 17, 2005

Helena & Pedro


Esta pequena nota é para justificar a minha ausência ontem. Terminava de escrever o texto e o caos se instaurou em casa. Deixei prá depois...

A Dra. Patrícia Ferraz registrou severamente que eu sou complacente com a Helena - estaria "mimando a menina...". Hum... Será? Duvido.

A chegada do Thiago tumultuou a casa, já disse. Mas o fez de uma maneira distinta, muito particular, dependendo da perspectiva dos envolvidos.

O Pedro parece ignorar o colega de teto. Parece... Na verdade está ligadíssimo nos movimentos suaves do Thiago. Ele se parece muito com a mãe: introspectivo, silencioso, suave, observador... coleciona sentimentos e os entesoura sabe-se lá onde. Quando irrompem, se torna enérgico, quase colérico, para logo aquietar-se, vergando-se timidamente. Sempre que chegava do serviço, estivesse onde estivesse, era o Pedro que primeiro me flagrava, o atento Pepucho.

Já a Helena é o inverso. Escancara o bocão e desfralda os sentimentos; dilacera cada situação, elevando dramaticamente o tom,ateando fogo às vestes e grita, chuta, irradia uma energia envolvente e quando menos esperamos, estamos já todos vibrando naquela mesma freqüência de estridências.

Eu mimo a Helena? - me pergunto sinceramente. Não sei... Ontem, pela madrugada, experimentei uma situação delicada. Ela enfrenta a mim e à Tânia e eu compreendi que não há luta que valha a pena, não há combate que se justifique, não há contenda que se mantenha. E aí, no paroxismo do ciúme, compreendendo seu drama, me recolho em oração, esperando que tudo se recomponha com a manhã que ainda tarda.

quarta-feira, novembro 16, 2005

cada estrela é todas as estrelas

O tempo escorre pelas mamas generosas da mãe. Cada segundo corre à caça do outro; este se foi... e logo outro vem. É a dança dos sentidos que distraem a consciência. Mas as dobras do tempo não são uniformes para nós dois - Thiago e eu - que convivemos esse instante mágico do nascimento.

A chegada desse menino coincide com a irrupção de sentimentos raros. E de sonhos. As imagens me vêm assim, inesperadamente. Lembro-me que foi uma prima - acho que foi a Elza - que pela primeira vez descerrou-me a largueza do abismo. Uma simples pergunta levou-me a uma sucessão de angustiantes paradoxos. "Quantos anos você tem?" - perguntou-me diretamente. Cinco, seis... sei lá! Devo ter apelado para os dedos de uma só mão. Ela replicou: "tão pouco... e no entanto parece que é muito... Não é?".

De fato. Nunca mais pude me esquecer do triste episódio. Realmente, parecia-me ter já vivido muito tempo, um tempo incontável, indizível, intratável, irredutível, tanto faz para um pequeno ser humano sem passado e sem futuro...

Aliás, a casa da Tia Dirce, com seu abacateiro, sua triste figueira, e a pessegueira seca no fundo do quintal, foi o meu refúgio nos momentos mais tristes da perda de meu pai.

O Thiago chegou e logo pôs os termos de nosso relacionamento: compreenda-me! A fragilidade de estrelas em gema. Ser testemunha de sua chegada, dar-lhe o primeiro banho, emocionar-me com o peitinho armando-se com os fogos do ar, encheu-me de uma alegria incontível. Por que choramos nessas ocasiões de pura alegria?

Aprender a respirar parece ter sido tão simples... e no entanto aquele instante representou o momento mais decisivo daquela vidinha que pulsava no colo da mãe.

Ah! Thiago... Já não sou o mesmo e agora me pergunto: o que fazer da minha própria vida? Compreenda-me! Aspira a um novo homem! Logo eu, um velho homem, tão antigo como cada estrela é todas as estrelas...



Registro de autoria: "cada estrela é todas as estrelas" é um rabicho de um discurso onírico gravado nas paredes da estância de Francisco Brennand (http://www.brennand.com.br/). Caminhar naqueles amplos espaços, átrios misteriosos, pontilhados de figuras arcaicas e arquetípicas, é, também esta, uma experiência de arrebatamento. "Não interrompam este silêncio,não interrompam este sonho", FB.

segunda-feira, novembro 14, 2005

rês pública

Ao historiador SJ e ao Thiago J

Nasceu o THIAGO, filho de meus amigos Dr. SÉRGIO J*** e Dra. TÂNIA.

É um fato que me deixa feliz e, assim, me faz suportar um pouco menos amargo a idéia de que o Brasil pára todo dia 15 de novembro (e amanhã pára mais um pouco) com o escopo oficial, assim se diz, de comemorar a proclamação da forma republicana de governo.

E a pretexto de superar o amargor do dia, vou dar-me o gosto de algum ócio e pôr-me a reler trechos de “Os Bestializados –O Rio de Janeiro e a República que não foi”, de JOSÉ MURILO DE CARVALHO (ed. Companhia das Letras), e, da mesma editora, freqüentar as competentes páginas de “As Barbas do Imperador”, de LILIA MORITZ SCHARCZ.

Ao Dr. SÉRGIO J***, que, tendo apurada vocação de historiador, não pode por agora entregar-se a símile ócio (ao menos enquanto é de seu dever embalar o THIAGO), sugiro com o devido respeito que aproveite a ocasião para uma visita sumária e nada confortante à permanente crise desta enfadonha república: a tanto, basta folhear os jornais de amanhã, os de depois de amanhã, os de depois de depois de amanhã, ou incorrer nos semanários desta semana, da semana que vem, da semana depois da semana que vem etc. Isso só está assim desde 1889. Que são cento e quase vinte anos de rotineiras crises numa Terra tão abençoada?

Confira o blog de Vítor Pradera (neto): http://uni.zip.net/

nasce uma estrela!



Thiago chegou. Só para registro (afinal, quod non est in retes non est in mundo).

Thiago, 51 centrímetros e 3,400k., veio ao mundo às 7:18h. aterrisou no colo da mamãe, sob o olhar atônito do pai, que a tudo acompanhou com castra determinação. Cabelos castanhos-claros, tez clara e altura jacomina: : sette ginocchia, como diria a Tia Marucha Jacomino.

Tânia Mara Correa de Andrade, prontuário 968395, passagem 1935770, leito N812-1. Esse o registro hospitalar.

O pai imaginava não poder chegar a tempo na maternidade. A mãe, com a tranqüilidade serena (e uma leitura desaconselhável para essa novel cidadina paulistana - do ventre ao berço - parto sem dor em casa...) já estava com 8 centrímetros de dilatação e em pleno trabalho de parto, com contrações regulares. Surfando na dobló alucinada, cruzando o Pinheiros na manhã cinzenta, irrompemos no Einstein tresloucadamente, à busca de uma maca para acomodar a mãe-em-fruto. Ufa!

O Thiago só poderia chegar no dia 13. A mãe pode se gabar de ter planejado, com semanas de antecedência, o dia exato do parto natural. O médico não acreditava... Quem nos conhece sabe o valor dessa data (que traz outra curiosidade: 1+3+1+1+2+0+0+5=13!) Santo Deus!

A primeira visita foi dos padrinhos Ricardo e Regina Dip. Bênção para todos, a conversa fluida, as comadres falando dos filhos, os padrinhos de livros...

À noite o Pedro e a Helena visitaram o irmão. O Pedro a uma distância pra lá de cautelosa; a Helena tocando e experimentando com o toque e um beijo furtado o gosto da novidade. Na volta o Pedro se encantando com as estrelas e a Helena chorando a falta da mãe.

Ah! o bebê marrudo e chorão, só quer saber de mamar... e de colo! Quantas diferenças entre os rebentos, que se tornam ainda mais nítidas com a maternidade (e paternidade) sucessivas em tão pouco espaço de tempo. Cada um dos filhos é um mundo de particularidades.

Este é um registro histórico, com abonação e a fé pública de George Takeda e Francisco Ventura de Toledo.

sábado, novembro 12, 2005

A chegada do Thiago


Dizem que os selvagens salvaram-se do tsunami arrasador porque os membros de algumas tribos, de cultura milenar, apercebem-se da iminência do perigo por meio de indicações e sinais observados no canto das aves e alterações no padrão de comportamento dos animais marinhos.

É possível que nós estejamos perdendo a capacidade de ver e ouvir. Afinal, vivemos um século de congestionamento de informações. Abrimos um plexo de canais, procurando apreender o output do sistema, e nos distanciamos com isso dos pequenos sinais, das coisas simples do coração.

Mas nem todos nós, com certeza! Alguns poucos ainda não fazem parte dessa estranha civilização que pouco a pouco se desumaniza. Falo especificamente do Pedro e da Helena, meus anjos que ainda têm olhos e ouvidos para ver - "bem-aventurados os vossos olhos, porque vêem, e os vossos ouvidos, porque ouvem" (Mt. 13:16).

Digo-lhes isso porque a casa amanheceu diferente. Os objetos implicavam, as crianças acordaram indóceis, era possível identificar alguns sinais de desordem e caos. Mas o que quer significar essa mudança nas tramas interiores de nossas vidas? Os elementos revelam o desacordo: a noite mal-dormida, o trânsito na madrugada, os pequenos acidentes, a precipitação de sonhos tumultuados... O que querem revelar?

Sonhei que a minha querida Helena - a inventora da casa, meu anjo acróbata - se equilibrava perigosamente num cabo altíssimo. Cabo de alta-tensão. Acordei aflito, o coração apertado... Noutra seqüência onírica eu despencava de uma montanha de seixos e me surpreendia com a queda segura, em pé, firme e rijo. O que descerram esses símbolos?

Gostaria de escusar-me da obviedade dessa psicologia analítica ligeira. Claro está que todos nós estamos percebendo a chegada do Thiago e cada um, à sua maneira, procura equilibrar-se como pode, numa reacomodação da nossa complexa orquestra familiar. E isso envolve riscos. Toda transformação sempre representa oportunidades e riscos.

Ah! Lelê, V. faz o que pode... equilibra-se perigosamente. Mas segue corajosamente, e eu te amo por isso. O Pedro, os olhos postos na aventura aérea, enamorado de seu pai, simplesmente chora. Meu Pepo, o seu choro haverá de ser compensado com muitas alegrias que seu irmão haverá de lhe proporcionar. Eu estou ao seu lado nessa quadra, lindo menino.

Já eu, em plena queda, me sustento e me admiro que nesta altura da vida, em que ultrapassamos há pouco o cúspide (de novo!), já encaro o descenso. É possível, contudo, descer firmemente e amparar a mim mesmo e a todos que de mim dependem. A queda envolveu sabedoria e compreensão. Uma sabedoria que se sabe sabida e que nessas horas se revela como renascimento. Chegar ao chão firme e seguramente, na viagem desde as alturas, é pouco mais pouco menos do que simplesmente voar. Desses paradoxos é preciso tirar algumas lições que põem em xeque os cânones que recomendam uma vida esterelizada pelos padrões médios. Certamente, como os pequenos, é preciso estar unplugged.

Por fim, impassível nisto tudo estava a Tânia, meu amor. Transitando soberana, doadora de um fruto maduro a este mundo tumultuado e intranqüilo, segue sua trajetória de generosidade, alegria e bem-aventurança. Eu te amo, minha querida. Sou o seu parceiro nessa maravilhosa caminhada, Dei Gratia!

Eu saúdo meu pequeno Thiago, homologando o nome na etimologia que descerra um mistério familiar, eu te dou as boas vindas, meu anjo, desejando que possa chegar tranqüilo e saudável.

sexta-feira, novembro 11, 2005

Cúspide & cusparadas


Aqui conto uma história incrível. Vivi-a no Instituto Cristóvão Colombo, no Ipiranga. Pena que não me recorde do nome dos envolvidos. Mas não importa. Foi assim... em algum momento daquele tempo - agora uma dimensão perdida da memória, encravada num profundo vale que parece não ter início nem fim -, comecei a participar do grupo coral.

Havia me esforçado bastante, esganiçando notas incertas, como impoderáveis são os registros pueris, exercitando-me nas fileiras que se faziam para o concurso vocal e para a escolha dos melhores (ou menos piores, suspeito).

Havia algumas vantagens em fazer parte do coral - como ensaiar nas horas das aulas, por exemplo.

Muito bem, um dia, depois de vários ensaios (eu fazia a segunda voz), fomos todos à frente do Instituto para receber uma autoridade religiosa, que além de trazer a sua aura inconsútil de autoridade, traria também medalhinhas do Papa. Suponho que voltasse de Roma.

Estávamos à frente da entrada principal, ansiando a chegada, quando alguém nos advertiu que lá do alto, nas alturas aeronáuticas e azuladas, de dentro do avião, nossa autoridade teria saudado aqueles meninos ansiosos por sua chegada.

Sim! Ele nos teria mandado um sinal, uma marca, um aviso, enfim, uma prova inequívoca de seu carinho e generosidade: a autoridade cuspiu! Havia nos mandado uma saraivada de saliva da aeronave e todos nós começaríamos a procurar as provas espraiadas no jardim.

Ah! como nos esvaíamos em delírios e fantasias esperando em pé toda uma tarde modorrenta de verão. Voávamos muito além de Roma, Nairóbi, passando pela Barroca, resvalando os sinos de uma igreja, o cúspíde do edifício em chamas, superando os eucaliptos desta e de outras paragens.
Essa história é adornada com as roseiras que ainda perfumam minhas tenras lembranças infantis.

O ICC foi uma viagem, com tudo de apavorante, triste, deslumbrante, e definitivo que uma verdadeira viagem proporciona.

Volto um dia com as lembranças de outros dias.

Por um fio...

O Instituto Cristóvão Colombo era uma microcosmo, um continente encravado num ponto qualquer do Ipiranga, entre a barroca - soberana, única, indisputada referência! - e um seminário carlista misterioso, enovelado em ondas de roseiras, rosários e rostos de figuras tristes, aos fundos limitado pelos altos muros que nos separavam de uma terra incógnita. Como os marinheiros grafaram em suas cartas marítimas: hic sunt leonis!

Pois havia ali, perdido no quadrante localizado entre lavanderias, refeitório e cozinha, um espaço místico, habitado por duendes, coelhos, fadas, pássaros, gafanhotos e uma infinidade de pequenas e delicadas plantas que vicejavam à sombra de um arvoredo.

Abel reinava em seus domínios: cidadela fortificada de madeira, guarnecida por galinhas, porcos e cachorros, fazendo costada com o prédio dos dormitórios.

Lembro-me que certa noite, tomado pelo medo, atormentado pela solidão e ferido por um sentimento que jamais me abandonaria - a perda do calor materno - caí em um transe profundo, esvaindo-me, perdendo completamente o sentido de mim mesmo.

Havia ao lado da cama um armarinho de madeira, onde minha roupa e alguns poucos pertences - a pasta de dentes, a escova, o par de sapatos Verlon - ainda confirmavam minha existência. As coisas clamam por seu dono! E só isto me bastaria para me recobrar e aí resistir, eu e minhas pequenas propriedades. Tão cedo compreendia que a propriedade tem, ela mesma, certas propriedades...

Tinha nos bolsos da calça um carretel de linha Corrente e rapidamente, antes que me esgotasse em transes e ondas de medo, engastei a pasta de dentes no fio da linha e fiz descer pela janela esse estranho pedido de socorro. E ali fiquei, imóvel, ligado ao exterior por um tênue fio de linha Corrente, experimentando que o mundo pesava exatamente o peso de um tubo de pasta de dentes.

Lá fora os cães ladravam na noite perturbadora. Eram as feras de Abel. À porta assomava um vulto escuro, cuja silhueta se conformava pela luz tíbia que preguiçosamente lambia os ladrilhos. Quem seria? Quem me visitava na noite?

E assim adormeci, com a certeza de que enfim despertava de um pesadelo! SJ

A tabeliã curte Janis... e o registrador imobiliário só se acalma com Frank Zappa e Jimi Hendrix.

Ah! adorei a história contada aqui: http://acontrariosensu.blogspot.com/2005/10/culpa-do-cartrio.html. Bem sei como é esse troço de concurso. Eu mesmo enfrentei um e agora sei o porquê das neuroses profissionais que acometem esses peculiares profissionais do direito que só se acalmam com rock´n´roll.

Sabe, direto do subúrbio paulistano, fui aterrisar nas franjas de São Paulo, às margens pantanosas do grande Rio Grande, entre paturis, restingas, paus-santos (ôpa!) gabirobas, sucupiras et coetera.

Na praça alguns lunáticos; um carro de som anuncia vez por outra o falecimento de um cidadão. Vai ziguezagueando pela cidade numa impressionante reminiscência da publicidade registral de proclamas.

E este escriba foi se instalar no único hotel da cidade, disputando com as baratas um lugar ao sol na fechada sociedade local...

Nada me consolava! A não ser as modorrentas tardes que faziam arder as cercas em tons rosáceos e fúcsias, purpúreas gemas, rubis ensangüentados que explodiam em festa e alegria.

No velho roadstar do Jeep rolava purple haze e o bom, velho e imbatível Frank Zappa.

Afinal, o que faz um registrador arder ao sol da restinga e uma tabeliã enfronhar-se na comunidade quatrilha? "We`re only in it for the money", poderia dizer e disse nosso blogger.

Sei não... Acho que rola vocação na parada! SJ