segunda-feira, maio 29, 2006

Eu poderia fazer tanta coisa...

Eu poderia fazer tanta coisa...

Poderia sair e ver um filme fosse lá bom ou ruim, poderia tocar guitarra para os amigos fosse lá músico ou não, sair com esses mesmos amigos e tomar um porre, sentar na soleira da porta e ver a chuva cair. Fazer um curso na Europa. Ficar quieto. Poderia ficar quieto, imóvel e de olhos fechados. Quieto, imóvel e de olhos fechados durante uma hora inteira. O dia todo. Não, a semana toda. Mas, às vezes, eles tossem à noite. Ou melhor, um tosse e a outra chora. Outra vezes é ele que tem pesadelo e ela acorda com o choro. Muita coisa para deixar só a cargo da mãe. E não é só durante a noite. Basta pensar em sair para o trabalho e vem uma vozinha: Volta logo...

Poderia visitar Istambul, descobrir Constantinopla, desvendar os mistérios do Oriente, mas teria que esquecer que sou o herói que põe o mundo em harmonia, o pégaso que ganha as estrelas com dois cavaleirinhos na garupa — upa, upa, cavalinho —, a ponte que flutua sobre o nada, apenas para ser atravessado por pezinhos que afundam na minha barriga e provocam risadinhas intermináveis nos seus pequenos donos.

Poderia estudar a fundo a história dos povos da Mesopotâmia: babilônios, caldeus, sumérios e assírios. O código de Hamurabi, a arte e cultura dos mesopotâmicos, tudo isso é muito importante, mas teria que dizer não a criaturinhas que pensam que sou o céu sem limites. Teria que ignorar a sedução daqueles olhares e sorrisos, teria que resistir bravamente ao aperto urgente daquelas mãozinhas minúsculas: vamos brincar?

Bem, eu poderia fechar a porta e ouvir Schoenberg ou Mahler, assim não ouviria ainda que eles batessem muito. Talvez pudesse sair de cavalete e tintas em punho para pintar umas aquarelas. Puxa, eles iam gostar dos pincéis! Não, não, esse seria o meu momento, esqueci que não estariam comigo. Também poderia visitar amigos e sentar calmamente para conversar sem ter que interromper o pensamento a cada minuto com — não mexe aí.;Cuidado, você vai cair. Tenho até um amigo cujo jardim eles adoram. É, mas desta vez não brincariam no balanço porque não estariam lá, seria o meu momento. Tudo bem, entendo que começaria tendo que reaprender a pensar sem topar com as artimanhas daquelas carinhas cândidas a cada vacilo do cérebro. Não sei como fazem isso, são tão pequenos para dominar um metro e noventa de treinado autocontrole! Não tenho a menor idéia de como conseguem, tão pequenos, mas parecem posseiros instalados em posse legítima — eu — ainda que ninguém lhes tenha outorgado qualquer título.

Poderia andar de bicicleta, descer novamente a ladeira em desabalada carreira, sentir o vento e a liberdade. Mas teria que me desprender daqueles bracinhos ao redor do pescoço, daqueles risos no pensamento, daquele calor no coração. E na volta, então? Na volta seria o diabo, teria que encarar um par de olhões azuis: V. disse que ia voltar logo. Pior e direto no alvo: Eu não gosto de você.

Eu poderia fazer tanta coisa...

... se eles já me não tivessem aliciado com engenhosos planos de amor a longo prazo e eterno querer bem. Como fizeram isso? Eu estava lá e não sei como se desvencilharam dos meus projetos mais secretos, como invadiram o recôndito dos meus pensamentos, como dominaram meus quereres mais íntimos. E, mesmo um pouco envergonhado, devo confessar: as únicas armas que usaram foram uns passinhos miúdos e incertos em minha direção, alguns poucos centímetros de perninhas bambas atravessando meu caminho e aqueles bracinhos abertos para mim.

a) O pai

Esse texto não é de um pai concreto, logo se vê. É de uma mulher. Uma linda mulher. Alguém que soube bordar com delicadeza e sensibilidade os contornos de um pai essencial, primordial, quase arquetípico. Sempre me emociono com crianças e com bons textos. E com os amigos, cujo olhar atento e generoso vê e nos revela os pequenos mistérios de nossa vida.

domingo, maio 28, 2006

Olhinho, doisolhinhos, tresolhinhos...

Faz uns 20 anos. Minha filha Íris tinha então seus tenros três, quatro anos. Por essa altura da vida, trabalhando num registro público na periferia, aproveitava as viagens ao centro de São Paulo para ir à busca de uma coleção que vocês provavelmente conhecerão — Contos e Lendas do Irmãos Grimm, uma linda coleção editada pela Edigraf, com tradução de Íside M. Bonini.

Sempre a buscava pelos sebos paulistanos — que então freqüentava com gosto e regularidade à caça de livros de Direito. Era um jovem estudante de Direito que amava os livros e os Rolling Stones.

Numa das travessas da Praça da Sé, havia — e ainda há — um alfarrabista tradicional que dispunha suas coleções em bancas generosas, com os livros espalhados à própria sorte. Havia estantes lotadas de romances baratos, história das civilizações, enciclopédias ilustradas, dicionários e tratados de filosofia perene. Era preciso paciência e diligência naquele mar de letrinhas e poeira.

Entrei na livraria como sempre fazia e de repente, estranhamente, meu coração disparou. Experimentei uma sensação numinosa, prenunciando um encontro singular. Com os olhos embaciados perpassei paredes repletas de lombadas multicores e títulos dourados, caminhando às tontas até um enorme armário de livros de história, sabendo que os livros têm, eles mesmos, sua própria história.

Por um instante pensei que os livros permanecem num limbo, numa dimensão em que não há qualquer sentido revelado. Despalavram-se. Enovelam-se. Ensimesmam-se. Permanecem em silêncio absoluto até o exato dia em que nos escolhem. Sim, somos eleitos por certos livros! Sabem-nos. Aguardam-nos. Velam-nos. Vêm aos sebos como nós à terra: para renascer. Recebem o dom maravilhoso de se revelar ao coração de um novo leitor. Adquirem — como posso lhes dizer? — uma nova alma. Manifestam-se para certos leitores, acompanham-no até a morte — ou o abandono, quando então se fecham novamente num mutismo obscuro e misterioso e retornam discretamente ao sebo, à espera de um novo dia, um novo leitor.

Tratados de filosofia, teologia e história, amor e ódio, tragados pelo silêncio de um livro cerrado. O drama da vida registrado em milhões de letrinhas garamound, glosados pela mão trêmula que resiste aos séculos, tudo se liga a um fio dourado que se perde no inconsciente coletivo em intrincados círculos de conhecimento.

De repente, divisei a coleção de oito livros que imediatamente alcancei com as mãos ansiosas e o coração aos saltos. Não sei de onde tiro esta certeza — de que dou fé! Mas naquele instante mágico soube, com a certeza absoluta de um adotado, que aquela coleção, uma linda edição de 1961, era a mesma obra que a professora manuseava nas tardes douradas do Parque D. Pedro II, lendo-nos, à sombra de guapuruvus e jacarandás, as histórias de Olhinho, doisolhinhos, tresolhinhos...

Aberto ao acaso o primeiro volume, das páginas amareladas saltaram redivivas as palavrinhas: Linha cabrinha, põe a mesinha!

Uma chama iluminou-me as entranhas e o sentido da vida se fez novamente.

domingo, maio 07, 2006

Mundo pênsil

Um dia instalaram uma roda, um brinquedo de girar, na vasta relva que existia nos interiores do Parque D. Pedro II.

Cimentaram a base, calçaram a haste, ancoraram o bólido que ameaçava alçar vôo com um mundo de crianças excitadas a bordo.

As professoras advertiam: Não subam na roda! É preciso secar o cimento! — repetiam numa linguagem incompreensível.

Qual o quê! Era impossível ver a roda estática. Tão natural quanto o desejo de voar era a vocação da roda de rodopiar, ora bolas!

E assim os meninos embarcaram no admirável disco que pendia manco, adejante, carregando para cima e para baixo, em movimentos irregulares, os pequenos passageiros e seus sonhos.

Fecho os olhos e tudo gira, revoluteia, volta, e na circularidade desses movimentos chego a acreditar que aquelas manhãs cristalinas no Parque D. Pedro II serão mesmo para todo o sempre eternas!

sábado, maio 06, 2006

Parque Dom Pedro II

Lá pelos costados do Parque D. Pedro II, onde os torrões bordavam os delicados xadrezes achocolatados deixados pela chuva, havia uma relva juncando um tapete de pequenas flores amarelas e brancas.

Ali imperava um silêncio absoluto, singular, essencial.

Pensando bem, acho que naquele sítio se achava um portal que me permitia transpor as dobras do tempo e do espaço.

Sempre retornava àquele ponto. Buscava um reencontro com os elementos arcaicos que ainda tingiam de eternidade a alma do pequeno menino que colecionava moedas.

Aprendiz de numismatógrafo, tinha uma especial, de bronze, que a prima ruiva havia me presenteado.

Não sei bem por que permiti a moeda rolar no tapete fresco de ervas. Não caiu de minhas mãos inadvertidamente. Não! Deixei-a experimentar o solo úmido, aninhar-se na terra que recendia a chás e cortiça.

Traído naquele instante magnífico, me dei conta, de repente, de que amava aquela moeda e que era preciso recuperá-la imediatamente, custasse o que custasse. Minha vida se resumia simplesmente em reconquistá-la, tomá-la de volta de quem a detinha de modo tão perito e solerte.

Mas as moedas se perdem na relva... Esse parece ser o seu destino.

Eu não pude encontrar em toda a minha vida razões suficientes que me permitissem afirmar que para outra coisa existissem!