segunda-feira, julho 23, 2007

O céu, a terra e o não-é

A história que vou relatar aqui não aconteceu. Mas tentarei ser fiel ao fato em seus impressionantes e significativos detalhes.

Foi assim: num post anterior, nos comentários que fiz sobre ascendência e ritos de passagem, anotei o terrífico sonho que tive com a Lê e a minha mãe. Mal poderia imaginar que o sonho era de alguma forma premonitório.

Estávamos em Lins. Vocês sabem, a Lelê é artista. Artista do circo. Está confiada que é exímia acróbata. Eu estupidamente consenti que se lançasse a um exercício de arvorismo seguido de uma descida vertiginosa na tirolesa. Deus meu! Minha linda macaca de fogo despencou de uma altura absurda, sem freios e anteparos, vindo a chocar-se violentamente com um poste de madeira. Um duro e estúpido poste de madeira.

Estarrecido com a cena, caí de joelhos e clamei aos céus. Naquele instante decisivo não pude mais do que rogar clemência e chorar convulsiva e desesperadamente. Senti meu coração ser transpassado por um dardo certeiro, imediatamente fiquei tomado por uma dor lancinante, transido de um sentimento de perda que mal consigo superar até hoje. Parece que minha alma ainda pranteia.

Fomos parar no hospital de Lins com suspeita de traumatismo craniano. A Lelê ficou em observação por 7 horas consecutivas, horas de aflição e angústia que passamos a mãe, a Lê e eu.

Ainda não entendi muito bem o sucedido; mais importante ainda, não pode compreender o que realmente não ocorreu - se é que me podem entender. Digo-lhes tão-somente que a Lelê não sofreu um único arranhão. Inexplicavelmente saiu ilesa do episódio.

O fato é que, naqueles bilionésimos de segundos, onde a trajetória de um se torna inapelavelmente irreversível para tudo e todos, em que o futuro se toldaria numa triste sina, de alguma maneira pude compreender que também o passado se transforma e se torna tão imprevisível quanto o futuro. Nessa passagem dos tempos algo significativo ocorreu. Nesse precioso momento, em que tudo pára e se suspende numa vacuidade inexprimível, fez-se uma ponte em que os fatos simplesmente não são.
Um dia, quem sabe mais à frente, volto ao assunto. Se puder. Basta que termine dizendo que os peixinhos da Lê, que se achavam no escritório nas férias, entre eles havia um, que se fez inexplicavelmente torcido, revoluteando pelo aquário como se padecesse de uma paralisia mortal. Fiquei horas a fio observando o peixe e procurando debalde controlar os pensamentos absurdos que me assaltavam e ainda assaltam nas noites insones.
Dei gratia!

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