quarta-feira, agosto 30, 2006

Nini

Atibaia foi um enlace harmonioso entre uma semana desgastante e um porvir misterioso e instigante. Um interregno pleno de significados.

Saimos na sexta-feira, às 4 da tarde, o bus lotado de crianças e agregados, enfrentando uma longa e penosa peregrinação na Marginal Tietê infestada de ambulantes, paulistanos azafamados, bueiros, carros e rios.

A Lelê logo se impacienta. É muito próprio dela impacientar-se. Quer chegar logo à piscina, mas quer ao mesmo tempo experimentar a montanha russa ao lado; quer afagar o gatinho à margem oposta do Tietê, mas quer também caminhar no interior do bus; quer ouvir historinhas e quem sabe bulir com o pai - a esta altura já aborrecido com o trânsito e a poluição.

Mas logo despenca como uma estrela distraída na boca da noite e adormece.

O Pepe cruza as pernas. Aguarda com estilo e paciência. O Nini dorme tranqüilo um sonho de anjos azuis e dourados.

Navegamos. Atravessamos o trecho infernal e alcançamos enfim a rota direita rumo a Atibaia.

A única coisa que não foi possível vencer (ainda) é essa estranha sensação de que algo termina e algo mal começa. Me ocorre simplesmente que 7 x 7 = 49 e que algo haverá de significar a combinação tão justa de setênios.

O amanhã

Meu amor. Quantas coisas realizamos juntos! Quantos sonhos concretizamos, quanta vida repartimos, quanto Amor! Nossa família é um quadro de perfeita harmonia e amor.

Olhando atentamente para essa foto, me vem a certeza de que o mundo se fez de verdade, bondade e amor, num claro sinal de que Deus existe e que nos toma a todos, generosamente, num movimento de graça e beleza.

Justiça, Amor & Arte.

Ali está a luz. Logo ali o nosso futuro. Esse momento é sublime.

Quero registrar que sou um homem realizado e profundamente feliz.

Pedro-pássaro

Meu querido Pedro.

Vê-lo correndo, com tanta graça e harmonia, faz-me lembrar que um dia, há muito tempo, também tinha o gosto de voar. Sonhando meus sonhos mais preciosos, tinha a certeza de que sabia voar, sempre soube!

- Papi, olha meu corridão!

E lá vai o Pepo, voando sobre o prado sem outro obstáculo que não meus olhos incréus. Ainda penso por instantes que não voe. Mas "pensar é estar doente dos olhos", não é mesmo?

Ah! Pepo, nossos sonhos são misteriosos. De repente despertamos num mundo estranho sabendo que somos essencialmente diferentes, que recuperamos um conhecimento que é em si mesmo um poder eficaz de realizar as coisas impossíveis. Voar, por exemplo.

- Papi, olha meu corridão!

E lá vai o Pepo, cerzindo o real com o indizível, entretecendo nossos tempos imemoriais.

Leão da Verdade

Diz a lenda urbana que um certo dia, há muito tempo, um caçador destemido abateu um grande leão dourado, decepando-lhe a cabeça rutilante.

Desprezado o corpanzil, o troféu foi logo pendurado na parede da grande mansão do cavaleiro, ornando os costados da rica morada.

A carcaça infundia medo. Todos conheciam a cabeça do Leão da Verdade e evitavam-na, principalmente nas noites claras.

Ocorre que aquele leão era um animal sagrado. Ao cair da noite, quando o silêncio deita seu manto aveludado sob as estrelas, e a lua descansa um lençol de prata sobre as ruas desertas, o Leão desperta, perguntando a quem quer que passe sob sua juba de ouro e nácar:

- aonde você vai?

E era necessário responder à pergunta, sem medo nem falsidades. O leão exigia que se dissesse sempre a verdade.

- Pápzi, o que é verdade? - fulmina a Lelê interrompendo a história.

- Bem, verdade é o que não muda. Por exemplo, seu nome é Helena, não é? E ele não muda, certo? Esse é seu nome verdadeiro - respondi sem medir muito as palavras e querendo logo reatar a história. Ela atalha:

- Mas... E se eu morrer, como vou me chamar então?

Alguns segundos se passaram - pareciam toda uma eternidade - até que finalmente pude balbuciar que todos nós temos um nome secreto e verdadeiro - "e está guardado bem aqui", apontei o peitinho protegido de flanela e ursinhos coloridos.

Apalpando cuidadosamente com a ponta do dedinho o local indicado, comentou:

- Ah! Sei...

sábado, agosto 05, 2006

círculos

O tempo nos envolve em círculos e nos leva a uma viagem sem volta e sem fronteiras. A roda infantil leva meus melhores anos e me arrasta entre sonhos e pesadelos.

A íris tão pequenina experimenta essa força que parece nascer do nada e de repente nos toma de assalto, arremesando-nos sabe-se lá a que o qual dimensão ou ordem. Então agarramo-nos a qualquer coisa, aqui uma barra, mas bem pode ser uma imagem, um perfume, uma palavra bendita, posta no mundo como uma flor sem forma, gosto ou cor.

Ah querida íris, minha querida filha. Agarro-me a qualquer coisa para tentar compreender essa estranha viagem que nos tem a todos. Eu a amo!