segunda-feira, maio 14, 2007

Uma noite de 2006 (ou manhã de 2007)

Meu amor, são tantas as incertezas, tão grandes as dúvidas que me assaltam quando o silêncio nos colhe na boca da noite.

Estou aqui, bem ao seu lado, tocando de leve sua mão, abraçado ao Pepo, ouvindo atento a voz maviosa da Mami que entoa canções de ninar. Vêm de muito longe as cantilenas recebidas do pai querido e pranteado. Penso que ainda lhe pode ouvir, bem no fundo de seu despenhadeiro, a voz tranqüila e serena que ultrapassa as franjas da serra, se esparrama preguiçosamente pelas reentrâncias de uma São Tomás de Aquino que brota num cantinho da cama forrada de algodão e amor.

Repasso no écran da alma o dia vivido às voltas com atribulações mundanas, preocupações ociosas, sobressaltos, temores, apreensões. Todas as coisas estão cheias de cansaço. Tudo passa, tudo sara, socorre-me a idéia de que já logo não haverá lembranças, nem noites, nem dias. E no entanto, outras lembranças virão, outros dias e noites, maiores ou menores certezas... O rio segue sempre seguro ao encontro do mar.

Aqui de longe, advinho as belezas do caminho e a minha alma se enche de alegrias e esperanças. Feliz natal a cada novo dia!

terça-feira, maio 01, 2007

Beth Gotto

Sérgio.
Eu acho que você não vai me responder....

Mas eu preciso te dizer uma coisa. Eu não te entendo bem. Sabe, quando a gente era criança você era especial, um vulcão de sentimentos, de paixões, capaz de chorar, de rir, de ser muito gentil... Foi por isso que eu guardei as tuas fotos e a tua carta com muito carinho.

Porém, hoje eu não te entendo, parece que tua vida é o cotidiano. Mas, e a tua poesia? O que você escreve é forte, parece ser a reflexão de um viver cheio de coisas boas, mas (espero conseguir me exprimir bem), o teu relacionar é cauteloso, reservado a poucos.

Mesmo que não te lembres de mim, não quer dizer que eu não tenha sido importante em tua vida. De tua formação eu também participei, do que é hoje também... Os nossos papos, a tua música, os discos de Alice Cooper que você me deu de presente, quando você não tinha nada e um presente era mais do que você podia... Eu, como você para mim, fomos bases pequenas, que se refletiram no nosso presente, mesmo que a gente não as percebamos.

Eu sei que você hoje é um homem muito importante. Mas, o que isso quer dizer? Que você não é mais o Sérgio? Pena eu não ter uma grande capacidade de traduzir as minhas sensações com um português perfeito, mas estou tentando entender o que lhe ocorre: você usa a lembrança como uma história que não mais te pertence, isso para se defender do tempo distante demais?

Sabe, quando te deixei, rezei tanto para que você vencesse na vida, pois o que você era não deixava um bem esperar. Graças a Deus você é o máximo do que podemos desejar para um irmão!
Mas, é que sinto falta do Sergio... Aquele que sabia ser gentil, mesmo quando uma pessoa não fosse do seu interesse. Betty Gotto