sexta-feira, janeiro 05, 2007

Sincronicidades

Sérgio, quantas estranhas coincidências nos cercam e ainda fingimos que tudo é assim mesmo. Que coisa!

Peguei seu recado no celular, quase que acidentalmente, pois nunca ouço recados eletrônicos. Mas essa não seria a primeira coincidência estranha que acontece entre nós. V. me faz ter engraçadas e surpreendentes reações, como as emoções adolescentes, pois fiquei ouvindo e re-ouvindo sua mensagem. Reconhecendo sua voz e isso me transportou a outro tempo. Assim como a foto que recebi por email. Lembro-me que era seu aniversário, em Franca. V. recebia vários amigos. Pensar que já se vão nove anos... Tempo, tempo, tempo, tempo...

Ele pode mudar tudo, assim como pode trazer toda emoção vivida em outra época com a mesma intensidade intocada. Recordar, como diz Galeano, é passar duas vezes pelo coração.

Mas me achei tão menina na foto. Estou mudada, por dentro e por fora. Dez anos são sempre transformadores. Estranhei minha imagem. Achei enfants. Mas que bom que v. eu reconheci. Achei o mesmo amigo guardado na memória, o mesmo rosto de santo renascentista, com barba (só te reconheço de barba), é essa a imagem que guardo.

Curiosamente, em meados de novembro retrasado eu também estava na Bienal de Artes e também quase nos falamos... Novembro é um mês que nossa estranha sincronicidade se reveste de nostalgia. Uma saudade frágil, cultivada e sábia. Mas é sempre nesse mês que tentamos romper esse cordão de isolamento, de proteção silenciosa.

Muitas vezes penso que v. é um amigo imaginário. Desse que as crianças conversam para intrigar os que se limitam ao que enxergam. Muitas vezes converso com v. e imagino as respostas. Quase sei o que diria nesses diálogos internos. Quase nunca concordo, mas são sempre assuntos que gostaria de compartilhar, em tantos temas que gostaria de ouvir sua opinião e sua aguçada percepção que fico imaginando as respostas como em um jogo de adivinhação.

Completamos em dezembro cinco anos sem nos encontrarmos, nem casualmente. O que é estranho. Mas algumas situações na vida são inexplicáveis. Acho que escolhemos essa ausência física, muito embora sinta que emocionalmente nunca houve um desligamento entre nós. Mesmo que muitas vezes tenhamos desejado isso.

Por que nunca conseguimos esconder do outro nossa essência, nossa interioridade. E isso muitas vezes era incômodo.

Mas, sempre carreguei você comigo. Sempre. Nem sempre de forma leve e nem sempre conscientemente. Mas sempre inevitavelmente.

De certo modo, acompanhei de longe sua trajetória e fiquei feliz com cada criança que chegava em sua vida. Porque eu sabia que teria outros filhos e quando te dizia isso, v. ria e dizia que não era possível. Lembra-se?

E v. hoje tem quatro filhos... Isso parece mágica. Quando penso fico intrigada com esse mistério da vida. O mistério fundamental, intocado. A reprodução da vida. A continuidade. Isso é muito forte.

Novembro é mesmo um mês especial, sobretudo dia 13. E esse é mais um mistério, pois é aniversário do meu pai e do meu irmão. Duas pessoas tão fundamentais em minha vida. Por isso, embora tenha ficado muito feliz com seu convite, com o cuidado que percebi em sua voz translúcida de uma emoção verdadeira, o mesmo cuidado que tenho ao escrever para você. Não poderei ir ao aniversário do seu filho Pedro, pois estarei com meu pai.

Mesmo assim fiquei feliz em ouvir seu recado. Fiquei feliz com o convite. Mas não iria, embora queira muito te rever e conhecer seus filhos. Não seria em uma festa, porque só sei ser íntima. Ficaria deslocada no tempo e na circunstância.

Preciso, antes de conhecer os seus, te reencontrar, retomar o fio da nossa amizade, reconviver. Entender alguns processos e assim depois conhecer seus filhos: Helena, a chilli pepper, com toda sua energia exuberante e sua aguda percepção que herdou de v. Ela é um espírito inquieto e questionador. Também ao Pedro, calmo e introspecto, sutil e desconfiado como todo bom escorpiano e Thiago que ainda não sei ler.

Antes de conhecê-los queria ouvir v. falar deles. Queria compartilhar as melhores histórias...
E conhecê-los em uma ambiente informal, cotidiano. Em uma cozinha, ou em um quintal, num dia bonito.

Muitas vezes penso em te visitar em sua sala de trabalho, passar pelo seu gabinete e te convidar para tomar uma chuva pelo quarteirão. Ou para conversarmos sobre nossas vidas, nossos amores, nossos caminhos,vocações, decepções, buscas, projetos. Enfim, nossos rascunhos e resumos.

Porém, sempre desisto, pois quando idealizamos algo o risco de decepção é grande. Não conviveria bem com a sua indiferença, não saberia lidar se no lugar do meu querido amigo eu pudesse te encontrar num dia que v. estivesse sendo outro. Por isso sempre preferi não arriscar. Por cuidado. Cuidado em manter intacta a imagem e a lembrança de uma pessoa especial que quero muito reencontrar.

Mas teremos outro dia. Assim espero.

Um beijo.
D.

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