domingo, dezembro 14, 2008

Sombra branca


A Casa Amarela tem alguns lances de escada que nos alça à parte mais aconchegante e menos iluminada da casa.

Sempre subo a escadaria apressurado.


Toc, toc, toc, toc - ouço passinhos que me alcançam numa graciosa dança imitativa. Buscam-me na penumbra do quarto.

Espio de soslaio e vejo que me olha desconfiado - o meu pequeno Nini.

Está escuro. Seus olhinhos brilham e como que para afastar seus temores essenciais pergunta:

- Pappi, a luz é sombra branca, né?

Respondo que sim e o tomo nos braços com todo o carinho e amor. Meu precioso Nini.

Aquidance

Não sei de onde vem o fascínio da Lelê pelas águas.

Ainda muito pequenina, íamos freqüentemente à fonte que se acha no costado do lindo Hotel Maksoud Plaza, na São Carlos do Pinhal.

Ali ficávamos completamente absorvidos, encantados pela revolução contínua das águas que brotavam generosas entre jatos e borbotões.

Era um espetáculo que me furtava as palavras.

"Aquidance" - assim o fenômeno foi logo batizado pela língua afiada da pequena Lelê. Água-que-dança > aqüidança > aquidance; simples assim.

Pensando bem, a palavra é linda. Já esquecida, como tantas outras, dormitou alguns anos, jazendo tranqüila no veio insondável dos aqüiferos da alma.

Hoje, contudo, irrompeu cristalina, como num lance de chafariz, colhendo-nos na cerimônia do banho vespertino da pequena Nena.

Logo fui arrebatado. Sentei-me ao seu lado, senti o piso molhado e assim me deixei lavar, por dentro e por fora, pelas águas que ainda dançam coloridas na infância que se avista nas profundezas do lago.

Lá do fundo, minha mãe me observa tranqüila e serena. Sabe que o seu pequeno haverá de percorrer ainda um longo caminho até o Mar.

segunda-feira, dezembro 08, 2008

Cláudio de Sá


Parece gravidez, mas é charminho. Ou flatulência, sei lá!

Esse cara ao lado é meu irmão. Gosto dele praca.

Devo-lhe a apresentação dos Beatles, do místico Donovan, da alucinação púrpura de Jimi Hendrix e do blues de sotaque insular de John Mayall.

Tudo corria solto nos tardos 60´s.

Esventrei os interiores de uma aphaniptera, conheci o cabelo acobreado ao microscópio, esmiuçei os complexos vitrais modernos da asa de uma mosca-da-fruta.

Casa 2 da Estudantes. Ali tudo acontecia: música, doces, natais, guaranás, crushs, grapettes, cerejinhas, fotografia e teatro.

E humor, muito bom humor!

Antes havia a guitarra gentil de George Harrison. Depois a genialidade de Frank Zappa. Assim caminha a humanidade! (Tá certo, ele apresentou o outro lado do lado B - Nazareth, Genesis, Yes e outras esquisitices de noivas ou de bolos. Ou ambos. Eu o perdoo e absolvo por isso. Não sabia o que fazia).

O que nunca entendi mesmo, um verdadeiro mistério para mim, foi ter mandado construir um contrabaixo à imagem e semelhança do de Paul McCartney. Nunca entendi essa extravagância tipicamente britânica.

Cláudio de Sá, seu humor beira a genialidade, toca a sublime loucura dos Cronópios. V. é do tipo de gente como Quino, Quintana, Quintinos, Gustavo "Principito" Pena, Eric Idle, Oswald de Andrade...

Na verdade, devo-lhe mais do que ter aprendido a assoviar com os dois dedos e de ter riscado o single Help! dos Beatles.

Por tudo isso, e muito mais, devo lhe dizer hoje, ontem e sempre: muito obrigado!

sábado, outubro 25, 2008

Somos tão racionais quanto não se pode ser

Uma foto, um lance de dados, as seis faces refletidas da tarde radiosa. Advinho um número e o rosto de alguém que não existe, revelo o nome que a sorte dispõe ao acaso e perco moedas na relva úmida de hortelãs.

Somos um livro aberto, meu anjo. Mas as páginas solares escondem uma trama inexpugnável, um mundo de pequenas letrinhas mágicas que se armam em galáxias infinitas e inextrincáveis, serpentes espiraladas de fogo e poder.

Deixo-me estar a ser pensado como um livro mágico que nunca se lê e se compreende.

Onde tudo começa e ainda antes termina

Os sonhos começam onde tudo termina.

Mas, qual o lugar dos sonhos, minha pequena?

Tênue lâmina que nos separa do mundo cerzido pela trama da memória, a fronteira final é a palavra que não foi dita, uma foto furtada, um gesto distraído.

Eis-nos aqui, Íris. A nossa tradução nítida e perfeita.

Não busque além dessa manhã perdida: o mundo pode dissolver-se além da linguagem.

Importante nesta noite é dizer que simplesmente te amo.

Amélia Jacomino


Minha querida mamãe.

Faz apenas sete anos que v. partiu. Deus sabe que um setênio pode representar um grande salto.

Neste mesmo ano, faz apenas sete dias, seu sobrinho Pedro partiu.

Partidas e chegadas. Noites de sonhos e manhãs ensolaradas.
Pesa-me a memória, mamãe. Responsabilizo-me por manter acesa a chama do sentido, latente na memória de cada uma de minhas células.

Revisitando os lugares pelos quais nós passamos - na São Bernardo cinza e deformada, nas ruas que um dia conheceram sua caminhada decidida e corajosa, no rosto de algumas pessoas que ainda resistem - em cada um desses lugares sua imagem se dissolve na irrelevância de outros tempos. Seu rastro se perde pouco a pouco na multidão que povoa esse admirável mundo novo, enclave que desconheço e muito menos compreendo.

Novos tempos.

Sei que não significamos para além de nossa memória afetiva.
A cidade é uma grande mãe!

Estou aqui, minha querida mamãe. Com o coração agradecido pela obra que pude concretizar e pelos sonhos que ainda nutrem minha peregrinação nesse grande e cansado mundo.

Epifanias

Íris.
Nada como estar plenamente outonal na primavera!
Já se vão tantos verões e nada se viu, nem se verá o que de fora é somente ton-sur-ton enovelado no desvão da alma.
Ah! As cores têm uma alma, sabia?
Estou dentro e fora.
V. sabe, os pais reconhecem os filhos como um dia a si mesmos se descobrem em pleno mistério.
Beijos nesta tarde de outono de minha vida.

terça-feira, outubro 07, 2008

Íris - seta certeira de cores

De 1990 a 1991, formou-se um arco de pequenas iluminuras bordadas com carinho e esmero no meu coração solar.
Coração paterno, lugar de sobrados ensolarados e espaçosos.
Essas pequenas gravuras, eu as carrego diligentemente por toda a parte. Acham-se agora depositadas nos escaninhos do scriptorium. Sou um escriba ancestral. Ao lado das penas, sempre tenho os desenhos ao alcance das vistas.
Um talismã? Uma confirmação do Amor Divino? Uma roboração dos pequenos acertos desta trilha cansada?
Uma coisa é certa: v. foi a alma peregrina que conquistou pela primeira vez essa mansão de muitos quartos e recantos.
Eu te amo, minha pequena Íris.


quarta-feira, agosto 27, 2008

Carolina

Essa Carol é doce, como o mel; é delicada como uma folhinha de hortelã. Tem um jeito distraído e displicente, mas esconde uma beleza interior que se irradia pelos olhos tímidos e curiosos.
Mas não é qualquer um que a percebe: é preciso ter olhos para ver!
A pequena e doce menina desabrocha numa manhã como uma formosa mocinha, com seus sonhos e perigos. É preciso estar atenta, amor. O mal espreita!
Quem conquistar seu coração encontrará um tesouro. Nele repousa um lindo arco-íris.
É uma estrelinha peregrina! Ilumina com seu brilho tímido a noite fria e distante. Nela está o futuro e o passado, a tristrza da partida e a alegria da chegada.
Só as estrelas têm luz própria, Carol.

terça-feira, julho 01, 2008

tempo controverso

Salas.

Não pude deixar de me lembrar, instantaneamente, do Leminski:

"um homem com uma dor
é muito mais elegante
caminha assim de lado
como se chegasse atrasado
andasse mais adiante".

A sua prosa está leminskiana.

Ou será bem o reverso? O tempo é controverso!

De seu amigo,

confuso honorário.

segunda-feira, junho 09, 2008

Junia - o relâmpago é azul

A paixão é como um relâmpago azul

Sim, havia as estrelas vespertinas, em eterna disputa no vasto nankin celestial.

Uma delas, por sinal revelado, era uma pequena e tímida guria. Era bailarina. Figurava no corpo de baile do Municipal. Na última vez que a vi, já casada, emprestei-lhe um livro enigmático (O-Que-Sabe: Eclesiastes: = Qohelet, de Haroldo de Campos) e ela mo devolveu com uma pequena, delicada, misteriosa folha em branco.

Até hoje leio em sua alvura a multidão de mensagens cifradas que cabem na pequena folha. Sei que foi um silêncio eloqüente!

Alice

Um pouco antes da bailarina mórmon, havia a Alice.

Meu deus, que foi aquilo? Parece que desço agora, sem peias, nesse transbus da memória que me leva a uma profunda Feira de Ciências.

A madrugada gélida ainda está lá atrás, numa são bernardo que já não existe aqui fora.

"If I were a swan, I'd be gone. If I were a train, I'd be late. And if I were a good man, I'd talk with you more often than I do".

Lembro-me da noite fria que tornava a melodia de Waters penetrante.

Jorge Odara

O Jorge era ator e autor de si mesmo, o que no fundo faz dele um impenetrável mistério.

Conheci-o pelas ruas de São Bernardo, sorrindo para as estátuas, dormindo com as estrelas, sonhando com o amanhã.

Chegando sempre atrasado, ele é que estava à frente!

Partiu como chegou, suave como a brisa de uma tarde esquecida.

Ariel Dennis Denstone

Vim de Pindamonhagaba pensando... rádios velhos, válvulas, som, o quartinho úmido da casa modesta situada nos Antares...

Como ele pode inventariar meu passado num lance de olhar?

O Ariel está muito além dele mesmo. Transpôs o arco das aparências confortáveis e padece no calabouço interior. Seus olhos continuam uma porta aberta à terra do fogo, uma patagônia imemorial que resiste ao tempo nalgum ponto entre a São Bernardo embaciada e as estrelas fulgurantes da segunda galáxia.

Transbus e transístor: transido pela trampa de memória!

Memórias & marmitas

Deitando nomes ao léu: Taquara, seus olhos marinhos não cabem na marmita.

Deus sabe que não estou louco o suficiente.

Mas um dia, quem sabe, alguém lançará uma pergunta ao Google_Universe com as tags - Taquara .AND. Marinho .AND. Marmita - e a minha história será contada. Minha e a de minha mãe também.

Que labirinto minóico! Do Minho ao Minhoca, tudo é terrinha da memória!

terça-feira, fevereiro 12, 2008

Portmanteau



O meu querido Pepo tem um sentido muito particular de realidade.

Está sempre testando os limites, propondo charadas mágicas e dando respostas que são sempre outras perguntas.

É como se o sentido do mundo devesse ser construído pouco a pouco, sem pressa, tranquila e serenamente como serão os eternos vales de São Tomás de Aquino.

O mundo adulto? Ele que se contente com suas pobres metáforas, ora bolas!

Na volta de Juqueí, enfrentando a desconcertante inteligência da Lelê - imbatível do jogo de adivinha e formação de palavras -, o Pepo constrói uma linda palavra que se inicia com "do".

O desafio, na verdade insuperável, era descobrir nomes de animais que se iniciam com "do".

- Do, de domelo, respondeu lesto e lampeiro.

- Domelo? - todos se entreolharam surpresos.

- Os domelos vivem no mar... Abaixo do cavalo marinho - explicou serenamente.

Os domelos desde então passaram a embarcar nas alegres e ruidosas viagens que se sucedem na viatura Cyrimin.

Sétima Sala


Salas, Eu sempre imaginei que pudesse tocar piano sem dever-ser jamais um... pianista!

Pobre de mim, simples mortal, posto em cadeias técnicas, condenado a ser músico em potência!

Às favas a música perfeita das esferas! À quadratura o ouvido obtuso! Aos bicos a terra firme da técnica!

Aborrecia-me, à morte, o Bona compassivo, que me fita agora e sempre de rabo-de-olho, desconfiado de minhas síncopes essenciais.

Para que servirá uma arritmia absoluta para os cânones estabelecidos da música funcional? Rumor cósmico, entropia musical, todas as músicas do universo no ruído informe.

Arrrghh! Sou um ser super-sônico!

Ah! Salas, sou um músico comum. Qualquer um. O que me dá certo conforto é saber que: qualquer um pode! (em resposta ao Blogue do Salas em Ventriloquia).

Descobri que tinha uma cara feia na época da ditadura.

Confirma-o comentário oblíquo de uma ilustre cinéfila, cujo nome não calha, nem lembra. Tempos de chumbo aqueles, lá pelos idos de 73, 74. A ditadura militar nos impunha um manto de terror e ali embaixo, bem quietinhos, nos confortávamos por um código rebarbativo, nos entendíamos e compreendíamos. A bem dizer, sobrevivíamos pela linguagem!

Lembro-me de ter caído bêbado, como um meteoro negro da fala de Neruda, preso à cadeirinha azul do Teatro Cacilda Becker.

Logo me perdi de vista, tragado pelo écran numinoso que explodia a face em preto e branco. Disse a cinéfila que eu correspondia à sucessão de imagens interiores terríficas do Sétimo Selo, de Bergman. Minha cara era horrenda: “como era feio aquele cara estranho que se sentou à minha frente” - confidenciou a um amigo comum.

O amigo ria às largas, seu riso branco e afônico reverbera ainda nalguma câmara secreta.

Sabia-me um lindo feio, um crédulo leitor de Susan Sontag, para quem a doença e a fealdade serão simplesmente metáforas.

terça-feira, janeiro 15, 2008

Saint-Exupéry, oliveiras e o tempo

Em seu aniversário, ofereço-lhe a linda cena de Antoine de Saint-Exupéry, quando o narrador conta, de seu pai o desejo de que os homens sejam como o ramo de oliveira a sentir o balançar de Deus:

"Tal como acontece com a árvore, não podes saber seja o que for do homem se o desdobras pela sua duração e o distribuis pelas suas diferenças. A árvore não é semente, depois caule, depois tronco flexível, depois madeira morta. Para a conhecer, é bom não a dividir. A árvore é essa força que desposa a pouco e pouco o céu. É o que acontece contigo. Deus faz-te nascer, faz-te crescer, enche-te sucessivamente de desejos, de pesares, de alegrias e de sofrimentos, de cóleras e de perdões, até que te faz ingressar de novo n´Ele. E, no entanto, tu não és aquele estudante, nem aquele esposo, nem aquela criança, nem aquele velho. Tu és aquele que se cumpre. E, se sabes ver em ti um ramo que balança, bem pegado à oliveira, nos teus movimentos hás de gozar da eternidade. E tudo à tua volta se tornará eterno. Eterna a fonte que canta e soube matar a sede de teus pais, eterna a luz dos olhos quando a bem-amada te sorrir, eterno o frescor das noites. O tempo deixa de ser uma ampulheta que vai gastando a areia, e faz lembrar um ceifeiro que ata a sua gavela." (Antoine de Saint-Exupery - Cidadela)

Um abraço terno e o desejo de que "se possa cumprir" e que se embeba desta eternidade...
Aline e Thiago

sexta-feira, janeiro 04, 2008

Ainda a árvore genealógica

Minha avó foi ROSA SCAGLIUSI (JACOMINO), filha de Vitor Scagliuisi e Maria Scagliusi.

Pelo post de Heitor Felipe, fiquei sabendo que

"Vitor Scagliusi era irmão de meu avô, José Scagliusi, pai de minha mãe, Maria Scagliusi Felippi.

Sua avó Rosa tem mais dois irmãos: Crescencia e Jacomo.

Infelizmente, com o tempo fomos perdendo contato. agora, com a internet parece que estamos reencontrando alguns parentes.

Realmente seu bisavô veio de Bari, mais precisamente de Polignano Al Mare e sua bisavó tinha o nome de solteira de Maria Carrieri.

Eles moraram durante muitos anos, na Rua Catumby, no Belenzinho, em SP".

Realmente... a Internet reatou alguns fios perdidos...

Scagliusi - os avós paternos

Sempre penso em deixar elementos para os meus filhos conhecerem a origem da sua família. Por parte de pai, minha avó tinha o sobrenome Scagliusi.
No site da Casata Scagliusi no Brasil, retirei o texto abaixo:
Nome de família típico da Região da Apúlia, sul da Itália.
Sua incidência mais expressiva e quase exclusiva se registra na cidade de Polignano a Mare, Província de Bari.
Suas origens etimológicas são controversas.
Alguns recorrem ao termo latino "scala" escada, degrau, com o seu sentido transferido para a conformação do solo, indicando patamar, degrau, terraço em encosta, em escarpa rochosa ou penhasco. Outros invocam o termo germânico "skalja, skalia", vagem, fragmento, escama, lasca, laje, com o mesmo sentido aplicado também à topografia. Com o acréscimo do sufixo latino "-osus", ambos os termos realizam em "scaliosus", que evoluui para "scagliosu, scagliusu", nos dialetos meridionais.
O sobrenome é, pois, um toponímico e indica cidadão residente num terraço de encosta de montanha, de uma escarpa rochosa.
Há um patriarca dos séculos XII-XIII, assim chamado em razão de sua procedência, ao legar este seu cognome como apelativo específico e comum a todos os seus filhos, deu origem à "Casata [família, clã] delli Scagliusi".
O sobrenome recorda a origem geográfica e a figura do fundador desta Casata, o "capostípite Scaliosus, Scaliosu, Scagliusu, Scaglioso".
[O estudo, brasão etc. foi obtido no site de Domenico Scagliusi.