
domingo, junho 10, 2007
segunda-feira, maio 14, 2007
Uma noite de 2006 (ou manhã de 2007)
Estou aqui, bem ao seu lado, tocando de leve sua mão, abraçado ao Pepo, ouvindo atento a voz maviosa da Mami que entoa canções de ninar. Vêm de muito longe as cantilenas recebidas do pai querido e pranteado. Penso que ainda lhe pode ouvir, bem no fundo de seu despenhadeiro, a voz tranqüila e serena que ultrapassa as franjas da serra, se esparrama preguiçosamente pelas reentrâncias de uma São Tomás de Aquino que brota num cantinho da cama forrada de algodão e amor.
Repasso no écran da alma o dia vivido às voltas com atribulações mundanas, preocupações ociosas, sobressaltos, temores, apreensões. Todas as coisas estão cheias de cansaço. Tudo passa, tudo sara, socorre-me a idéia de que já logo não haverá lembranças, nem noites, nem dias. E no entanto, outras lembranças virão, outros dias e noites, maiores ou menores certezas... O rio segue sempre seguro ao encontro do mar.
Aqui de longe, advinho as belezas do caminho e a minha alma se enche de alegrias e esperanças. Feliz natal a cada novo dia!
terça-feira, maio 01, 2007
Beth Gotto
Mas eu preciso te dizer uma coisa. Eu não te entendo bem. Sabe, quando a gente era criança você era especial, um vulcão de sentimentos, de paixões, capaz de chorar, de rir, de ser muito gentil... Foi por isso que eu guardei as tuas fotos e a tua carta com muito carinho.
Eu sei que você hoje é um homem muito importante. Mas, o que isso quer dizer? Que você não é mais o Sérgio? Pena eu não ter uma grande capacidade de traduzir as minhas sensações com um português perfeito, mas estou tentando entender o que lhe ocorre: você usa a lembrança como uma história que não mais te pertence, isso para se defender do tempo distante demais?

Mas, é que sinto falta do Sergio... Aquele que sabia ser gentil, mesmo quando uma pessoa não fosse do seu interesse. Betty Gotto
sábado, abril 28, 2007
Sr. Lupus e a toponímia portuguesa
Lavradio de estrelas
sexta-feira, abril 27, 2007
Outono
Uma história dentro da outra. E pensei no dom das palavras que, sem sentido algum, constróem a gente e o mundo e pensei na devastação da morte. Não a nossa particular e egoísta, comum, corriqueira, na verdade fugaz quando acontece. Mas na morte dos outros. A morte que nos indica que o nosso mundo está morrendo.
O que fazer quando não tiver mais a Sonia, o George, o Sérgio, o Adilson, a Irene, a Márcia, a Cristina, o André, a Solange. O que fazer quando, pouco a pouco, de modo inexorável, se for toldando o horizonte? Quando esses olhares não mais trouxerem a alegria e a imensidão desse mundo e suas incríveis visões?
Então uma fúria, uma festa, uma irracional alegria silenciosa, como um vulto feroz andando no escuro se apossa de mim e fico saboreando cada partícula de ar que respiro, cada pedacinho de lembrança que tenho e sigo pelo outono, feliz, quase liberto, sabendo que vocês estão por aí.
Beijos, Waldir Martins
segunda-feira, abril 23, 2007
Cartas rubianas - ou o significado de EPW´s
É disso que o Sr. Dr. José Ruben deveria cuidar precipuamente. Uma certa semiologia do inconsciente que identifica nesses troços mal-traçados o perigo de Tânatos travestido de Eros.
O altar moderno, o sítio em que deitamos nosso sémen burramente desperdiçado, caverna de onde é possível divisar, em parte, mui toscamente, os mistérios de Elêusis (e não sabemos o que fazer com isso), eis os motéis modernos! Ou simplesmente EPW´s.
Nossos romances encardidos de certa humanidade, alienada de si mesma pela poeira de silício, se transformam, pela magia erótica, em sublime conjunção. Mysterium conjunctionis. Em átimos de segundos, nossas secretárias, amantes eventuais, companheiras de fainas des-desejantes (em que nos metemos por pura distração patrocinada por la loca de la casa), se transformam em Deméter e Perséfone.
EPW´s. Francamente...
O mais curioso é que os acrônimos ou essa técnica - que haverá de ter um nome, Dr. José Ruben - de extrair as vogais e manter as consoantes, forçando uma leitura que se apóia na memória de significantes, essa acronímia imperfeita resgata nomes estranhos para um motel. Olhe a palavra de soslaio; desdenhe do vocábulo. Trate-o com adrede desprezo (a ver se se abre, como uma flor perfumada de sentidos).
Palavras... estão para nós como as rosas para os sóis de nossos olhos. Revire-a, apalpe-a, boline-a. O que surge, então?
terça-feira, abril 03, 2007
quinta-feira, março 29, 2007
Baca: uma estrela peregrina
Logo pela manhã, já no trabalho, recebi uma ligação de um amigo comum - o Paulo Barreto - que me dava a triste notícia do passamento do Baca.
"Jênkis!" - dizia Sérgio candidamente... ainda o vejo empunhando a bíblia e o violão -, "se prepare... se prepare!" e logo desatava um riso generoso que iluminava o semblante de santo monacal.
Uma estrela da manhã, querido Sérgio, v. foi uma linda estrela da manhã! Prenunciava-nos uma luz que, certa como a noite retinta, se apresenta pontual para cumprir o movimento eterno de mudanças.
Ah! Célia, ambos amamos esse homem, Mas de diferentes maneiras. Eu o queria como um irmão que jamais tive; nutria por ele um indizível amor fraternal. Selamos uma aliança de militares de Cristo. Formávamos uma soldadesca singular, legião estelar, guerreiros do arco-íris, congregados numa Família forasteira. Todos nos saciávamos de um sei-lá-o-quê prometéico, aninhado na sua bolsa de couro, que sempre trazia a tiracolo. Havia algo de divino no Sérgio, que repartia generosamente entre todos nós.
Minha querida Célia, pranteamos a sua partida, é certo. Mas tenha a certeza, contudo, de que o Sérgio cumpriu seu itinerário iluminado de Argonauta das galáxias. Foi-se com uma estrela ligeira, deixando-nos um rastro de luz e sabedoria.
terça-feira, março 20, 2007
Helena Saracotena
Helena Saracotena. De onde será que meu Amor tira esses nomes tão sonoros? O mundo é uma grande palavra. Saborosa, revoluteia entre estrelas no céu da boca.Arvada = bosque
Capibel = carrinho de boneca
Artita = reinação, traquinice
Votita = vovó
Papizerland = papai
Zerland = papai
Moncra = monstra
Defeu = travesseiro
WaWaPa = cachorrinho. Pode se escrever ua-ua-pa.
Paripunga = "Você pula e cai no paripunga". Acho que é algo como um travesseiro que arrefece a queda desde o alto da cama.
Afocrévita. Hein? A-fo-cré-vi-ta! Acredite se quiser: é balanço. A Lelê entrou no quarto e disparou: "Zerland, me empurra na afocrévita?". Ainda arrisquei olhar no Google, pobre de mim!
Quadraquinca - caderno hachurado.
Camícula - cama.
Desobedessura. Ato de desobediência. Parecido com travessura.
Ah! meus queridos filhos. Acho que sou um homem comum. Pleno de sentimentos raros aos quais não lhes posso nomear.
domingo, janeiro 21, 2007
Assomo, logo existo
Um pequeno flagrante - antes de afeitar-me por amor a Blyan. Esse homem que assoma, quem será? Não assumo que seja outro - além ou aquém de outros tantos que desde sempre fomos.
Almas judias, estrelas antigas, peregrinas, que falam a lingua dos anjos e dos homens; pequenas e delicadas criaturas, encardidas do pó e da dor dessa longa jornada.
Chuvas de mau presságio
Esta manhã acordamos no silêncio da profunda fadiga de uma tempestade amainada. Na véspera, as águas chegaram em rodopios impetuosos, surpreenderam os homens, levaram os cães, tragaram os cavalos e as pequenas criaturas da noite.O Rio devorou com raiva e violência a criação assustada e desamparada.
As pontes desabaram, as ruas foram inundadas e Patrocínio Paulista se transformou em uma província de lama, barro e lamentações.
A Lelê dormiu sobressaltada. Testemunhou a família agarrada às telhas de sua casinha miserável, ilhada pelo furor das águas.
Chuvas de maus presságios.
Pepo (by Fernando Passos)
Ao Pedro, com amor.Queria ter o dom dos poetas para dizer que Pedro veio, veio, porque esperado era.
Pássaro que passa e fica, deixa sua marca que já era no todo, a marca que se esperava e que se sabia: viria porque conseqüência lógica da leveza já existente, ali existente e talvez pouco percebida.
Veio, veio para demonstrar a síntese, não passou, pousou, porque ali era seu ninho.
Ali? Não, aqui, em nós mesmos, em cada um de nós e essencialmente em nós. Mas o que é esse nós? Um interior indesbravável, tânico/jacomínico, cuja essência só pode voar para de lá nos ver em nossa insignificância tão esplendorosa que nos faz irradiar luzes para aquilo que do nada voa, mas que do tudo reluz, pois luz própria produz e quando pensamos ser a nossa que nele reflete é na verdade um mero jogo da dialética própria do amor entre os homens.
Eu veio, veio, graças a Deus, eu veio veio continuar a saga de um amor intenso, mami. Eu veio ser eu, ser você, ser papi, ser o mundo, o pássaro e como diz papi ... ser simplesmente um menino.
Mas eu veio também para ver amigos do papi finalmente chorar ... essa emoção boba, ingênua, verdadeiramente brega de me ver pela primeira vez. Já não me conheciam os babacas pela essência?
Chorei...
Fernando Passos
sábado, janeiro 13, 2007
Um pássaro, que nada!
Eu veio!
- "Eu veio, mãmi, ainda bem que eu veio..." - assim o meu Pepo saudava o gesto bem-pensado de buscá-lo no conforto do quarto para ver o buldôzer movimentar a capa barrenta e acidentada das estradas por onde caminhávamos no final da tarde.O Sítio transformou-se num pântano neste verão. As chuvaradas ocorrem mais concentradas, abundantes, caem como cortinas espessas. Parecem querer saciar a sede da terra e dos homens.
A relva virou pasto de anuros. Os grandes sulcos deixados pelas rodas do jeep abriram uma janela para os ínferos - o que deixou a Lelê de sobreaviso, advertida dos grandes seres que se movimentam abaixo da pele frágil e barrenta da terra.
Um sapo ousou chegar até a cozinha, rompendo os domínios de seu reino e se refugiou abaixo da geladeira. De lá coaxava para desespero da vovó e excitação das crianças. As mulheres se escondem fugindo do símbolo, os pequenos saltam excitados e logo aprisionam o rugoso para libertá-lo em seguida a custa de um justo resgate: a acrobacia de saltos desajeitados do bufonídeo em fuga. Ainda nos lembramos de lhe dizer, ao anfíbio, que deveria seguir o seu caminho. Vá!
Na estrada acidentada, o Pepo exulta. Salta como um passarinho que simplesmente não sabe que voa. E canta, canta a plenos, o doce Pepo.
- "Eu veio! Eu veio!" - rejubilava com energia na tarde plúmbea. "Ainda bem que eu veio!", completava, como a nos ensinar que de fato Deus existe, revelado num único, especial e insubstituível ato de amor. Caimos em silêncio, Dona Blá e eu, entreolhando-nos com o respeito que o momento suscitava.
O Pedro nos chegou assim, de mansinho, como o resultado de um lindo sonho do casal, ornado de um bosque, um rio, tesouros e um belo jardim.
Você veio com a missão de encarnar-se Pedro, um menino-pássaro há muito esperado. Tudo se concretizou a seu tempo, meu pequeno Pepo, tudo se cumpriu - como na bela promessa de uma terra dos homens, abundante de leite e mel.
Ainda bem que você veio, Pepo. Ainda bem!
sexta-feira, janeiro 05, 2007
Sincronicidades
Sérgio, quantas estranhas coincidências nos cercam e ainda fingimos que tudo é assim mesmo. Que coisa!Peguei seu recado no celular, quase que acidentalmente, pois nunca ouço recados eletrônicos. Mas essa não seria a primeira coincidência estranha que acontece entre nós. V. me faz ter engraçadas e surpreendentes reações, como as emoções adolescentes, pois fiquei ouvindo e re-ouvindo sua mensagem. Reconhecendo sua voz e isso me transportou a outro tempo. Assim como a foto que recebi por email. Lembro-me que era seu aniversário, em Franca. V. recebia vários amigos. Pensar que já se vão nove anos... Tempo, tempo, tempo, tempo...
Ele pode mudar tudo, assim como pode trazer toda emoção vivida em outra época com a mesma intensidade intocada. Recordar, como diz Galeano, é passar duas vezes pelo coração.
Mas me achei tão menina na foto. Estou mudada, por dentro e por fora. Dez anos são sempre transformadores. Estranhei minha imagem. Achei enfants. Mas que bom que v. eu reconheci. Achei o mesmo amigo guardado na memória, o mesmo rosto de santo renascentista, com barba (só te reconheço de barba), é essa a imagem que guardo.
Curiosamente, em meados de novembro retrasado eu também estava na Bienal de Artes e também quase nos falamos... Novembro é um mês que nossa estranha sincronicidade se reveste de nostalgia. Uma saudade frágil, cultivada e sábia. Mas é sempre nesse mês que tentamos romper esse cordão de isolamento, de proteção silenciosa.
Muitas vezes penso que v. é um amigo imaginário. Desse que as crianças conversam para intrigar os que se limitam ao que enxergam. Muitas vezes converso com v. e imagino as respostas. Quase sei o que diria nesses diálogos internos. Quase nunca concordo, mas são sempre assuntos que gostaria de compartilhar, em tantos temas que gostaria de ouvir sua opinião e sua aguçada percepção que fico imaginando as respostas como em um jogo de adivinhação.
Completamos em dezembro cinco anos sem nos encontrarmos, nem casualmente. O que é estranho. Mas algumas situações na vida são inexplicáveis. Acho que escolhemos essa ausência física, muito embora sinta que emocionalmente nunca houve um desligamento entre nós. Mesmo que muitas vezes tenhamos desejado isso.
Por que nunca conseguimos esconder do outro nossa essência, nossa interioridade. E isso muitas vezes era incômodo.
Mas, sempre carreguei você comigo. Sempre. Nem sempre de forma leve e nem sempre conscientemente. Mas sempre inevitavelmente.
De certo modo, acompanhei de longe sua trajetória e fiquei feliz com cada criança que chegava em sua vida. Porque eu sabia que teria outros filhos e quando te dizia isso, v. ria e dizia que não era possível. Lembra-se?
E v. hoje tem quatro filhos... Isso parece mágica. Quando penso fico intrigada com esse mistério da vida. O mistério fundamental, intocado. A reprodução da vida. A continuidade. Isso é muito forte.
Novembro é mesmo um mês especial, sobretudo dia 13. E esse é mais um mistério, pois é aniversário do meu pai e do meu irmão. Duas pessoas tão fundamentais em minha vida. Por isso, embora tenha ficado muito feliz com seu convite, com o cuidado que percebi em sua voz translúcida de uma emoção verdadeira, o mesmo cuidado que tenho ao escrever para você. Não poderei ir ao aniversário do seu filho Pedro, pois estarei com meu pai.
Mesmo assim fiquei feliz em ouvir seu recado. Fiquei feliz com o convite. Mas não iria, embora queira muito te rever e conhecer seus filhos. Não seria em uma festa, porque só sei ser íntima. Ficaria deslocada no tempo e na circunstância.
Preciso, antes de conhecer os seus, te reencontrar, retomar o fio da nossa amizade, reconviver. Entender alguns processos e assim depois conhecer seus filhos: Helena, a chilli pepper, com toda sua energia exuberante e sua aguda percepção que herdou de v. Ela é um espírito inquieto e questionador. Também ao Pedro, calmo e introspecto, sutil e desconfiado como todo bom escorpiano e Thiago que ainda não sei ler.
Antes de conhecê-los queria ouvir v. falar deles. Queria compartilhar as melhores histórias...
E conhecê-los em uma ambiente informal, cotidiano. Em uma cozinha, ou em um quintal, num dia bonito.
Muitas vezes penso em te visitar em sua sala de trabalho, passar pelo seu gabinete e te convidar para tomar uma chuva pelo quarteirão. Ou para conversarmos sobre nossas vidas, nossos amores, nossos caminhos,vocações, decepções, buscas, projetos. Enfim, nossos rascunhos e resumos.
Porém, sempre desisto, pois quando idealizamos algo o risco de decepção é grande. Não conviveria bem com a sua indiferença, não saberia lidar se no lugar do meu querido amigo eu pudesse te encontrar num dia que v. estivesse sendo outro. Por isso sempre preferi não arriscar. Por cuidado. Cuidado em manter intacta a imagem e a lembrança de uma pessoa especial que quero muito reencontrar.
Mas teremos outro dia. Assim espero.
Um beijo.
D.
terça-feira, janeiro 02, 2007
Moncra
A Lelê esteve à busca de um conforto essencial nesses dias de implacável detergência espiritual.A cada tanto, com o rostinho aflito, me questionava: "pápizi, v. conta uma historinha?".
Percebi que essa era a maneira que encontrava para ligar-se à profunda fonte cristalina que um dia foi o nosso refúgio e que olvidamos nalgum lugar do jardim.
Já no acalanto do quarto, aninhou-se no colo e se pôs a descrever Moncra, um formidável ser que brotou de sua fantasia inesgotável e alcançou o papel alvo de intenções.
- "A Moncra engole pessoas...", explica.
- "O quê?" - replico perplexo.
- "Não, não... Só se ela quiser".
Ufa! menos mal. É sempre reconfortante saber que existe uma vontade que se dobra sabe-se lá a que razões imponderáveis.
Diz-me que ao cavalo não aborrece - pois o cavalo pode tirar um pedaço do monstro... "E ela fica morta". Ela, a Moncra.
- "Veio da terra do gelo e chega até o céu". Diz, ainda, que a Moncra veio da noite tenebrosa:
- "Uma noite tão escura, tão escura, mas tão escura... que fez sol!".
O desenho mostra a Moncra expandindo-se e roçando a lua, o céu, a árvore, a estrela. Os cães ladram. Os filetes que se vêem abaixo da cabeçorra não são mais que seus dentes afiados, cravados na relva transfigurada.
- "Pápizi... No céu tem céu?" - dispara, mudando aparentemente de assunto.
Fico em silêncio e emocionado, acompanhando o paciente desenrolar dos anéis que compõem o formidável arco da Moncra.
[Os cães e a árvore de frágil penugem foram esboçados pelo pápizi. A relva e os pequenos frutos vieram a seu tempo por insistência, diligência e apuro da Lê. "Toda boa árvore dá frutos"].
domingo, dezembro 31, 2006
E o concreto... é abstrato!
Vi o seu blog, lindo. Sabe, você sofre de um mal incurável: poesia.Coitado do meu amigo cartorário imobiliário! Apaixonado por palavras, elas se deixam enlaçar por você, fluem lépidas e fagueiras por seus dedos... Drummond sofria mais - "lutar com palavras é a luta mais vã, enquanto lutamos, mal rompe a manhã".
Tentei deixar um recado no seu blogue, mas não consegui; tentei, tentei, desisti e pedi para o Marco Aurélio dizer para você que estive lá e achei lindo, as crônicas perfeitas.
Fiquei pensando: como pode uma pessoa que lida com coisas tão concretas (imóveis) sofrer de poesia? Ter alma de poeta? Isto não tem cura, não tem jeito não...
É isso que me encanta em você: sua sensibilidade, sua coragem em voltar à época das jabuticabas, da criançada de pé no chão. Agora as crianças gostam? Você precisa escrever um ensaio sobre isto. Sugiro um título "De como um concreto e abstrato provou que os antigos tinham razão."
Mirtes Crosara.
domingo, dezembro 17, 2006
Lugar no coração
Dona Paula,
chegamos ao encerramento de mais uma etapa de nossas vidas, e somos gratos por termos tido você em nosso caminho. Sua missão, que cumpriu com doação, nos adotou a todos que temos essa mágica lembrança da primeira professora. Muito obrigado por tornar cada momento em que nos encontramos em momentos de fantasia e amor. Um grande beijo. Segue o poema que a Laiz entregou em suas mãos.
Lugar no coração
Há um lugar em nossos corações
Que por fora parece pequeno
Mas por dentro é imenso
E nessa imensidão
Guarda tesouros valiosos
Tesouros de amores inesquecíveis
De mãos de fadas
Sorrisos generosos
As primeiras e eternas lembranças
Guarda alguém que se doa
Se entrega
Multiplica a dimensão materna
Sem se dar conta
Abre as portas do mundo
E distribui amor que se multiplica profundo
Divide a vida em duas partes
Uma de lembranças
Outra que renasce
Das coisas mais importantes da vida
Nunca esqueceremos da primeira professora de nossa filha
--
Com muito amor da familia Motta
sábado, dezembro 16, 2006
Sol da terra
quinta-feira, dezembro 14, 2006
Um estranho dia desses...
Peewoods, meu amor, Você é o pai que eu sempre quis ter. Aliás, nessa vida v. é meu pai, noutras já trocamos tanto os papéis... Já fomos irmãos, viajantes, fotógrafos, desenhistas, músicos, poetas, monjes, advogados... e nos amamos tanto!Às vezes eu me sinto uma estranha no ninho, daí lembro de v., um estranho no ninho, da mãe, uma bruxa no ninho (rs rs rs)... o bom é que não somos estranhos um para o outro... E toda vez que as pessoas me olham como se eu fosse um alien, eu me lembro que sou fruto de uma combinação de alienígenas... Sérgio e Solange... desceram à Terra por alguns momentos... Ainda enganam muita gente, passando por respeitáveis pais e mães normais... Eu amo v., amo a mãe e amo os dois, por terem me emprestado esse corpitcho estranho! E por terem me passado tanta referência de vida. Sem vcs eu não seria nada. Somos todos um só, não é possível ser diferente.
te amo te amo te amo,
um beijo na alma,
íris
Don ratón se esconde-esconde
Na cena ao lado, Don Ratón, em suas perambulações esquivas e manhosas pela casa, se apresenta entre cores e rabiscos.Saía de mansinho, pela manhã, quando a Lelê me alcança, ágil e lépida, e me entrega um inexcusável regalo.
- Pápsi! É para levar pro cartório... Lembra de mim!
Eis-me aqui agora, diante da enigmática personagem. Ele e eu, eu e ela. Esse Don Ratón, essa Dona Lelê!
segunda-feira, dezembro 11, 2006
Avoantes e depois
A manhã rumora nos alvores. Despertamos com o feroz bramido de monstros que se agitam furiosos nos angares. O caos aeroportuário nos chega por acordes intestinos.
As crianças estão despertas e imediatamente entram em consonância com essa zoada matutina. Consonância? Talvez fosse melhor dizer que, às vezes, a casa se torna uma concha de complexas dissonâncias. Tempos modernos.
O Pedro é pássaro e é sobre as metáforas aviárias que me sustento nas alturas da labuta diuturna. Querido Pepo, deixo-o à míngua, perdido no quintal.
Disse-lhe - e à irmã que teve uma noite de trânsitos - que estaria saindo alçado por uma corte de pássaros verdes, vermelhos e laranjas que ruidosamente tomariam a mim pelas axilas e me transportariam pelos ares, mundão afora. Mas para isso era preciso ficar em silêncio; escondidinhos na casa. Afinal - explico - "os pássaros são seres assustadiços...".
Dito e feito. Os pequenos se refugiaram embaixo da mesa e aquietaram-se num mutismo de expectativas e curiosidade. Os olhinhos distraídos postos na porta entreaberta. Assim dei a meia-volta no corredor lateral da casa, ultrapassei o canteiro de hortelãs e por trás agora diviso confortavelmente a cena: A Lelê se esforça para ver para além das nuvens o pai sustentado pelas aves da manhã. O Pedro chora.
"Meu Deus! Como posso fazer isso?" - penso. Não resisto e recolho meus preciosos no colo e ainda ensaio uma explicação - "o pápi tem que trabalhar"...
O Pedro chora. A Lelê quer ver o táxi à porta. O NiNi, saliente e sorridente, diz: "Eeeeehh!".
quarta-feira, novembro 08, 2006
Narciso e o perfume de Platão
Tenho acompanhado com vivo interesse a sucessão de postagens em determinado blogue, a que se chega com aplicação, engenho e alguma sorte, versando sobre um tema que há muito me instiga a curiosidade intelectual: o amor e seus vários sentidos.
Empreendi por esses dias uma excursão curiosa às paragens insólitas desse sítio cujo signo cifrado, lavrado provocativamente em seu frontispício, é ordo amoris. E mais não digo, que a diligência para encontrá-lo é sua, caro leitor; trata-se de responsabilidade pessoal e inalienável. O que lhe posso adiantar é que a recompensa é alvissareira!
Preleciona ali o nosso Mestre sobre uma espécie de amor emulativo do verdadeiro Amor (captativo, dirá com erudição), "dobrado sobre si próprio, ignorante de uma projeção para o ente amorável", portanto um amor estéril, "amor que se nutre e devora a si mesmo". E remata: "falseamento do amor. Eis aí, por antonomásia, o amor platônico".
A idéia desse amor captativo, tornado cativo de si mesmo pelo engano essencial acerca do objeto amorável, dobrado sobre si próprio, encontra um desdobramento interessante no mito de Narciso. A idéia central desse amor eutrópico, aventura de perdição nas cadeias do endopsiquismo, é, como o meu mestre bem registrou: amor dobrado sobre si mesmo, vale dizer, o amor de reflexão (: reflectere, re- [novamente] e flectere [curvar-se]). No caso de uma representação narcisista, que se projeta no falso ente amorável, é um amor solipsístico. Os fumos platônicos também aqui se percebem.
Intriga-me a idéia recorrente em todo o mitologema: o tema da reflexão. Narciso (: Nárkissos, do grego nárke, entorpecimento, torpor, donde narcótico) era filho de Cefiso e da ninfa Liríope. A mãe, tomada de fundados receios pela fato de a beleza desmesurada do filho poder representar uma démesure (hýbris: ultrapassagem do métron, descomedimento), e com isso podendo atrair a ira dos imortais do Olimpo e a mobilização de Némesis, irá consultar o vate Tirésias. "Narciso viverá muitos anos?", questiona. O mántis simplesmente lhe responde: si non se uiderit.
Será Ovídio (Metamorfoses, 3, 414-28) quem registrará a tragédia desse encontro refletido:
"Deitou-se e tentando matar a sede,
Outra mais forte achou. Enquanto bebia,
Viu-se na água e ficou embevecido com a própria imagem.
Julga corpo, o que é sombra, e a sombra adora.
[...]
É uma chama que a si própria alimenta.
[...]
A sombra que vês é um reflexo de tua imagem.
Nada é em si mesma: contigo veio e contigo permanece...
O Prof. Junito de Souza Brandão (onde encontrei farta indicação bibliográfica e excelente indicação mitológica) comenta a natureza do amor de Narciso, que se apaixona pela própria imagem refletida na fonte de Téspias: "o engano fatal do jovem tebano foi a escolha errada do objeto do amor", diz.
Quando se diz no blogue festejado que "o conhecimento platônico é um reingresso na alma do sujeito cognoscente, alma em que reside, numa suposta inatidade" estamos diante de um espelhismo fantasmagórico. Trata-se de uma relação fatal com a própria imagem, refletida embora no outro.
Borges colocou na boca de Bioy Casares a fala de um dos heresiarcas de Uqbar que declarara que os espelhos e a cópula são abomináveis "porque multiplicam o número dos homens". (Está em Ficções, na tradução de Carlos Nejar, Porto Alegre: Globo, 1970, p. 1).
Volto ao assunto.
[A morte de Narciso (1623-1626), pintura de Nicolas Poussin, Museu do Louvre, Paris].
domingo, novembro 05, 2006
Cyrimin
O bus é um veículo descolado. Micro-ônibus, MicroBus, deu no bus e pronto! É a única palavra em inglês que os meus filhos sabem e é justamente no bus que as aventuras noturnas começam - e os colóquios surrealistas ocorrem.Sempre saímos à noite para um lugar insólito, na verdade um lugar-nenhum, nonada. Embarcamos nesta nau mágica tomando o rumo certo de Cyrimin, uma lendária farmácia a que nunca se chega.
Alguns quarteirões adiante (logicamente muito aquém do local onde poderia ser Cyrimin) a Helena já está nos braços de Morfeu e o Pedro, bem, o Pedro está quieto e observando tudo, o meu pequeno Pepo.
Mas nesta noite a Helena está excitada, não dormiu logo de saída. Vai tagarelando e resistindo, descrevendo as cenas da rua projetadas no vidro escuro do bus. Lá pelas tantas, dispara:
- Mâmi, o que é mente?
A mãe já enfadada do percurso ocioso de uma Cyrimin que já tarda responde rapidamente:
- É cabeça, Helena, é o que está aqui dentro, ó - e aponta o cocoruto. Passam-se alguns segundos e a pequena pondera e emenda:
- O ônibus tem mente, mâmi?
- Não! O ônibus não tem mente, Helena.
- A bruxa tem mente?
- ?!
E a sucessão de entidades candidatas à posse da mente desfilam na língua desperta da Lelê e a mãe atônita ainda objeta:
- Dorme, Helena, vamos ficar quietinhos até chegar à Cyrimin.
domingo, setembro 03, 2006
Muito além do jardim
Judith Levine deixou de ir às compras e colocou em pauta o tema do consumismo e suas implicações econômicas e sociais. Por 1 ano ela deixou de consumir - exceto Internet e vinho, que ninguém é de ferro.Lendo uma pequena matéria na Veja dessa semana, não pude deixar de me lembrar de nossa decisão familiar de abandonar, já há mais de 1 ano, a televisão. A decisão ainda não está livre de censuras e perplexidades. Mas veio de forma suave.
Casa nova, vida nova, resolvemos estimular em nossos filhos a busca de novos prazeres, animá-los a novas descobertas. Era a fé no achamento de um admirável mundo novo que poderia existir muito além da diáfana cortina de elétrons.
"Vida à vista!" - poderia muito bem ter sido a síntese de nossa descoberta a bordo da nau familiar. Aranhas, pequenos lagartos, insetívoros e artrópodes que apavoram a vovó e fazem o gáudio do papi. Nas praias sempre virgens da infância, ali estava o primitivo balanço colorido, a árvore carregada de amoras, o espinheiro silvestre que não se dobra às blandícias domésticas, o escorregador, a piscina de bolinhas, a bananeira arcada de frutos e pêndulos amorosos. Diviso a terra escandida desde a preguiçosa rede abóbora que banha de ouro as paredes caiadas nessa manhã radiosa de domingo. E isso é tudo no mundo?
A casa não veio equipada com o altar comum da família brasileira, relicário pós-moderno, onde se deposita a preciosa manta eletrônica de sonhos e ilusão. Quando já arquitetava uma mudança espacial, pensei que essa falta essencial - nos interiores domésticos - representava algo realmente assustador. Oráculo laicizante, seqüestra o locus do Sagrado, profana o Santo dos Santos e transmuta nossos anseios profundos, nossos impulsos mais essenciais, em desejos travestidos. Rumora initerruptamente as verdades que se tornam, pela repetição e padrão, simplesmente indestrutíveis; plasma simulacros para as realidades interiores.
Resumo da ópera: essa sede essencial nos torna dóceis consumidores.
quarta-feira, agosto 30, 2006
Nini
Atibaia foi um enlace harmonioso entre uma semana desgastante e um porvir misterioso e instigante. Um interregno pleno de significados.Saimos na sexta-feira, às 4 da tarde, o bus lotado de crianças e agregados, enfrentando uma longa e penosa peregrinação na Marginal Tietê infestada de ambulantes, paulistanos azafamados, bueiros, carros e rios.
A Lelê logo se impacienta. É muito próprio dela impacientar-se. Quer chegar logo à piscina, mas quer ao mesmo tempo experimentar a montanha russa ao lado; quer afagar o gatinho à margem oposta do Tietê, mas quer também caminhar no interior do bus; quer ouvir historinhas e quem sabe bulir com o pai - a esta altura já aborrecido com o trânsito e a poluição.
Mas logo despenca como uma estrela distraída na boca da noite e adormece.
O Pepe cruza as pernas. Aguarda com estilo e paciência. O Nini dorme tranqüilo um sonho de anjos azuis e dourados.
Navegamos. Atravessamos o trecho infernal e alcançamos enfim a rota direita rumo a Atibaia.
A única coisa que não foi possível vencer (ainda) é essa estranha sensação de que algo termina e algo mal começa. Me ocorre simplesmente que 7 x 7 = 49 e que algo haverá de significar a combinação tão justa de setênios.
O amanhã
Meu amor. Quantas coisas realizamos juntos! Quantos sonhos concretizamos, quanta vida repartimos, quanto Amor! Nossa família é um quadro de perfeita harmonia e amor.Olhando atentamente para essa foto, me vem a certeza de que o mundo se fez de verdade, bondade e amor, num claro sinal de que Deus existe e que nos toma a todos, generosamente, num movimento de graça e beleza.
Justiça, Amor & Arte.
Ali está a luz. Logo ali o nosso futuro. Esse momento é sublime.
Quero registrar que sou um homem realizado e profundamente feliz.
Pedro-pássaro
Meu querido Pedro.Vê-lo correndo, com tanta graça e harmonia, faz-me lembrar que um dia, há muito tempo, também tinha o gosto de voar. Sonhando meus sonhos mais preciosos, tinha a certeza de que sabia voar, sempre soube!
- Papi, olha meu corridão!
E lá vai o Pepo, voando sobre o prado sem outro obstáculo que não meus olhos incréus. Ainda penso por instantes que não voe. Mas "pensar é estar doente dos olhos", não é mesmo?
Ah! Pepo, nossos sonhos são misteriosos. De repente despertamos num mundo estranho sabendo que somos essencialmente diferentes, que recuperamos um conhecimento que é em si mesmo um poder eficaz de realizar as coisas impossíveis. Voar, por exemplo.
- Papi, olha meu corridão!
E lá vai o Pepo, cerzindo o real com o indizível, entretecendo nossos tempos imemoriais.
Leão da Verdade
Diz a lenda urbana que um certo dia, há muito tempo, um caçador destemido abateu um grande leão dourado, decepando-lhe a cabeça rutilante.Desprezado o corpanzil, o troféu foi logo pendurado na parede da grande mansão do cavaleiro, ornando os costados da rica morada.
A carcaça infundia medo. Todos conheciam a cabeça do Leão da Verdade e evitavam-na, principalmente nas noites claras.
Ocorre que aquele leão era um animal sagrado. Ao cair da noite, quando o silêncio deita seu manto aveludado sob as estrelas, e a lua descansa um lençol de prata sobre as ruas desertas, o Leão desperta, perguntando a quem quer que passe sob sua juba de ouro e nácar:
- aonde você vai?
E era necessário responder à pergunta, sem medo nem falsidades. O leão exigia que se dissesse sempre a verdade.
- Pápzi, o que é verdade? - fulmina a Lelê interrompendo a história.
- Bem, verdade é o que não muda. Por exemplo, seu nome é Helena, não é? E ele não muda, certo? Esse é seu nome verdadeiro - respondi sem medir muito as palavras e querendo logo reatar a história. Ela atalha:
- Mas... E se eu morrer, como vou me chamar então?
Alguns segundos se passaram - pareciam toda uma eternidade - até que finalmente pude balbuciar que todos nós temos um nome secreto e verdadeiro - "e está guardado bem aqui", apontei o peitinho protegido de flanela e ursinhos coloridos.
Apalpando cuidadosamente com a ponta do dedinho o local indicado, comentou:
- Ah! Sei...
sábado, agosto 05, 2006
círculos
O tempo nos envolve em círculos e nos leva a uma viagem sem volta e sem fronteiras. A roda infantil leva meus melhores anos e me arrasta entre sonhos e pesadelos.A íris tão pequenina experimenta essa força que parece nascer do nada e de repente nos toma de assalto, arremesando-nos sabe-se lá a que o qual dimensão ou ordem. Então agarramo-nos a qualquer coisa, aqui uma barra, mas bem pode ser uma imagem, um perfume, uma palavra bendita, posta no mundo como uma flor sem forma, gosto ou cor.
Ah querida íris, minha querida filha. Agarro-me a qualquer coisa para tentar compreender essa estranha viagem que nos tem a todos. Eu a amo!
segunda-feira, julho 24, 2006
Pepo
Querido Pepo,
Meu pequeno cantor não cantou.
Lamentou a dor no abdômen e eu estou aqui, no escritório, aborrecido com tantas coisas, mas lembrando-me de seu gesto delicado e tão amoroso.
Eu te amo, Pepo!
sexta-feira, junho 30, 2006
Árvore da vida
Tinha medo de dentista. A imagem terrífica do boticão me assaltava — como sempre há de apavorar um pesadelo diurno. A mulher de branco, com sua voz melíflua e suas tenazes diabólicas, aterrorizava o pequeno que se escondia na copa das grandes árvores.Mas me deixem contar melhor essa história.
Aconteceu no velho e eterno Parque D. Pedro II. O consultório ficava na última saleta à esquerda, debaixo da grande varanda que se estendia para além do bebedouro e da relva. Local a ser evitado: hic sunt leones!
Um belo dia — contava com uma ponta de orgulho D. Amélia —, um dia de verão, ela veio pontualmente às cinco da tarde buscar o seu amor no parque. Mas cadê o guri? Busca daqui, corre dali, olha de lá, pergunta acolá: onde terá se metido o menino?
Já quase às seis da tarde, diz ela — que não me lembro absolutamente de nada disso — na hora da Ave Maria, eis que aparece atravessando o lusco-fusco, o petiz, vagueando solitário, desconcertado e com uma estranha marca vermelha estampada do lado esquerdo do rosto.
O que seria essa mácula? — o coração materno dispara. Tomamos o bonde e as pessoas perguntavam para a mãe ressabiada: O que tem esse menino? Nossa! O que lhe aconteceu para ficar assim?
Dizia a D. Amélia que eu, fugindo apavorado da dentista, subi na mais alta árvore do Parque e ali adormeci, expondo uma das faces às intempéries da tarde radiosa e calorenta. Não havia percebido, mas o tempo passou, o sol se pôs e a marca ficou como uma medalha de dor e medo.
Hoje, quando o sol se posta na tarde dourada de minha vida, olho para o espelho e vejo tantas marcas forjadas na alma desde aqueles tempos viçosos do Parque Dom Pedro II.
No fundo, no fundo, o que me conforta é saber que esses estigmas representam muito pouco, perto das pinças diabólicas da mulher de branco!
segunda-feira, junho 19, 2006
Falar a língua dos homens
Ah! São Bernardo. Lembro-me de seus instantâneos, de cenas esparsas, situações isoladas, episódios de uma trama sem começo nem fim. Não há um script, um enredo. Não retenho de ti — ó céu em metalurgia! — uma história com um bom começo, meio e fim.Mas há uma passagem que resiste num cadinho da memória e que não quer se desfazer na poeira comum das reminiscências. Ali vive um menino negro e obeso com sua bicicleta branca e verde-água. Um menino acastanhado que amava uma linda garota loira. Um pequeno-grande guri posto em cadeias de silêncio obsequioso, encastelado na torre solitária da rádio na colina.
O que foi feito daquele menino?
A pequena bicicleta verde e o corpanzil do garoto formavam um quadro frágil e delicado. Denunciava o petiz como no fundo ele sempre foi: uma pequena e sutil criatura. Uma chama que luzia timidamente o puro cristal.
Era, contudo, um gentil cavaleiro, com gestos largos, voz mansa e aveludada, um Lancelot fulminado pelo amor impossível de sua Guinevere de rútilas madeixas. Tão intenso, profundo e nobre era o seu amor, que não lhe restava outra coisa senão pedalar, pedalar, pedalar.
E assim, pedalando e equilibrando-se com desalinho e surpreendente perícia sobre um fio tênue, assim passou sobre mim, sobre todos nós, ultrapassando enfim o Jardim Antares, resvalando as antenas espinha-de-peixe, galgando as alturas imponderáveis de seus sonhos e idealizações.
Dele tive notícias há muito tempo. Dizem que foi visto com sua bicicleta marina sobrevoando as franjas bordadas de manacás e quaresmeiras da serra do Mar. Foi saudado por um grupo de paturis que seguia ruidoso rumo ao seu grande destino.
Esse menino alimentou uma chama de amor que era pura nostalgia das estrelas. Pobre Rúbem, o que podia fazer com isso? Era um amor tão delicado. Esse sentimento doía num coração rúbeo. E o coração humano não tem cor!
Sempre me emociono quando lembro que Rúbem ficava em silêncio na torre de transmissão da rádio. Era de certo modo um duro contraste: a rádio nunca cansou de palrar as suas mil-vozes, e ele ali, solitário e silente, pouco a pouco esvaía-se de todas as palavras, esgotava-se de todo o verbo até que, finalmente, já exangue de todo e qualquer sentido, pouco lhe restou que não fosse amar tão intensamente como não se diz nem se fala.
Ah! meu querido amigo! Deve ser assim o puro Amor. O jovem de coração rubente falava enfim a língua dos anjos.
segunda-feira, maio 29, 2006
Eu poderia fazer tanta coisa...
Eu poderia fazer tanta coisa...Poderia sair e ver um filme fosse lá bom ou ruim, poderia tocar guitarra para os amigos fosse lá músico ou não, sair com esses mesmos amigos e tomar um porre, sentar na soleira da porta e ver a chuva cair. Fazer um curso na Europa. Ficar quieto. Poderia ficar quieto, imóvel e de olhos fechados. Quieto, imóvel e de olhos fechados durante uma hora inteira. O dia todo. Não, a semana toda. Mas, às vezes, eles tossem à noite. Ou melhor, um tosse e a outra chora. Outra vezes é ele que tem pesadelo e ela acorda com o choro. Muita coisa para deixar só a cargo da mãe. E não é só durante a noite. Basta pensar em sair para o trabalho e vem uma vozinha: Volta logo...
Poderia visitar Istambul, descobrir Constantinopla, desvendar os mistérios do Oriente, mas teria que esquecer que sou o herói que põe o mundo em harmonia, o pégaso que ganha as estrelas com dois cavaleirinhos na garupa — upa, upa, cavalinho —, a ponte que flutua sobre o nada, apenas para ser atravessado por pezinhos que afundam na minha barriga e provocam risadinhas intermináveis nos seus pequenos donos.
Poderia estudar a fundo a história dos povos da Mesopotâmia: babilônios, caldeus, sumérios e assírios. O código de Hamurabi, a arte e cultura dos mesopotâmicos, tudo isso é muito importante, mas teria que dizer não a criaturinhas que pensam que sou o céu sem limites. Teria que ignorar a sedução daqueles olhares e sorrisos, teria que resistir bravamente ao aperto urgente daquelas mãozinhas minúsculas: vamos brincar?
Bem, eu poderia fechar a porta e ouvir Schoenberg ou Mahler, assim não ouviria ainda que eles batessem muito. Talvez pudesse sair de cavalete e tintas em punho para pintar umas aquarelas. Puxa, eles iam gostar dos pincéis! Não, não, esse seria o meu momento, esqueci que não estariam comigo. Também poderia visitar amigos e sentar calmamente para conversar sem ter que interromper o pensamento a cada minuto com — não mexe aí.;Cuidado, você vai cair. Tenho até um amigo cujo jardim eles adoram. É, mas desta vez não brincariam no balanço porque não estariam lá, seria o meu momento. Tudo bem, entendo que começaria tendo que reaprender a pensar sem topar com as artimanhas daquelas carinhas cândidas a cada vacilo do cérebro. Não sei como fazem isso, são tão pequenos para dominar um metro e noventa de treinado autocontrole! Não tenho a menor idéia de como conseguem, tão pequenos, mas parecem posseiros instalados em posse legítima — eu — ainda que ninguém lhes tenha outorgado qualquer título.
Poderia andar de bicicleta, descer novamente a ladeira em desabalada carreira, sentir o vento e a liberdade. Mas teria que me desprender daqueles bracinhos ao redor do pescoço, daqueles risos no pensamento, daquele calor no coração. E na volta, então? Na volta seria o diabo, teria que encarar um par de olhões azuis: V. disse que ia voltar logo. Pior e direto no alvo: Eu não gosto de você.
Eu poderia fazer tanta coisa...
... se eles já me não tivessem aliciado com engenhosos planos de amor a longo prazo e eterno querer bem. Como fizeram isso? Eu estava lá e não sei como se desvencilharam dos meus projetos mais secretos, como invadiram o recôndito dos meus pensamentos, como dominaram meus quereres mais íntimos. E, mesmo um pouco envergonhado, devo confessar: as únicas armas que usaram foram uns passinhos miúdos e incertos em minha direção, alguns poucos centímetros de perninhas bambas atravessando meu caminho e aqueles bracinhos abertos para mim.
a) O pai
Esse texto não é de um pai concreto, logo se vê. É de uma mulher. Uma linda mulher. Alguém que soube bordar com delicadeza e sensibilidade os contornos de um pai essencial, primordial, quase arquetípico. Sempre me emociono com crianças e com bons textos. E com os amigos, cujo olhar atento e generoso vê e nos revela os pequenos mistérios de nossa vida.
domingo, maio 28, 2006
Olhinho, doisolhinhos, tresolhinhos...
Faz uns 20 anos. Minha filha Íris tinha então seus tenros três, quatro anos. Por essa altura da vida, trabalhando num registro público na periferia, aproveitava as viagens ao centro de São Paulo para ir à busca de uma coleção que vocês provavelmente conhecerão — Contos e Lendas do Irmãos Grimm, uma linda coleção editada pela Edigraf, com tradução de Íside M. Bonini.Sempre a buscava pelos sebos paulistanos — que então freqüentava com gosto e regularidade à caça de livros de Direito. Era um jovem estudante de Direito que amava os livros e os Rolling Stones.
Numa das travessas da Praça da Sé, havia — e ainda há — um alfarrabista tradicional que dispunha suas coleções em bancas generosas, com os livros espalhados à própria sorte. Havia estantes lotadas de romances baratos, história das civilizações, enciclopédias ilustradas, dicionários e tratados de filosofia perene. Era preciso paciência e diligência naquele mar de letrinhas e poeira.
Entrei na livraria como sempre fazia e de repente, estranhamente, meu coração disparou. Experimentei uma sensação numinosa, prenunciando um encontro singular. Com os olhos embaciados perpassei paredes repletas de lombadas multicores e títulos dourados, caminhando às tontas até um enorme armário de livros de história, sabendo que os livros têm, eles mesmos, sua própria história.
Por um instante pensei que os livros permanecem num limbo, numa dimensão em que não há qualquer sentido revelado. Despalavram-se. Enovelam-se. Ensimesmam-se. Permanecem em silêncio absoluto até o exato dia em que nos escolhem. Sim, somos eleitos por certos livros! Sabem-nos. Aguardam-nos. Velam-nos. Vêm aos sebos como nós à terra: para renascer. Recebem o dom maravilhoso de se revelar ao coração de um novo leitor. Adquirem — como posso lhes dizer? — uma nova alma. Manifestam-se para certos leitores, acompanham-no até a morte — ou o abandono, quando então se fecham novamente num mutismo obscuro e misterioso e retornam discretamente ao sebo, à espera de um novo dia, um novo leitor.
Tratados de filosofia, teologia e história, amor e ódio, tragados pelo silêncio de um livro cerrado. O drama da vida registrado em milhões de letrinhas garamound, glosados pela mão trêmula que resiste aos séculos, tudo se liga a um fio dourado que se perde no inconsciente coletivo em intrincados círculos de conhecimento.
De repente, divisei a coleção de oito livros que imediatamente alcancei com as mãos ansiosas e o coração aos saltos. Não sei de onde tiro esta certeza — de que dou fé! Mas naquele instante mágico soube, com a certeza absoluta de um adotado, que aquela coleção, uma linda edição de 1961, era a mesma obra que a professora manuseava nas tardes douradas do Parque D. Pedro II, lendo-nos, à sombra de guapuruvus e jacarandás, as histórias de Olhinho, doisolhinhos, tresolhinhos...
Aberto ao acaso o primeiro volume, das páginas amareladas saltaram redivivas as palavrinhas: Linha cabrinha, põe a mesinha!
Uma chama iluminou-me as entranhas e o sentido da vida se fez novamente.
domingo, maio 07, 2006
Mundo pênsil
Um dia instalaram uma roda, um brinquedo de girar, na vasta relva que existia nos interiores do Parque D. Pedro II.Cimentaram a base, calçaram a haste, ancoraram o bólido que ameaçava alçar vôo com um mundo de crianças excitadas a bordo.
As professoras advertiam: Não subam na roda! É preciso secar o cimento! — repetiam numa linguagem incompreensível.
Qual o quê! Era impossível ver a roda estática. Tão natural quanto o desejo de voar era a vocação da roda de rodopiar, ora bolas!
E assim os meninos embarcaram no admirável disco que pendia manco, adejante, carregando para cima e para baixo, em movimentos irregulares, os pequenos passageiros e seus sonhos.
Fecho os olhos e tudo gira, revoluteia, volta, e na circularidade desses movimentos chego a acreditar que aquelas manhãs cristalinas no Parque D. Pedro II serão mesmo para todo o sempre eternas!
sábado, maio 06, 2006
Parque Dom Pedro II
Lá pelos costados do Parque D. Pedro II, onde os torrões bordavam os delicados xadrezes achocolatados deixados pela chuva, havia uma relva juncando um tapete de pequenas flores amarelas e brancas.Ali imperava um silêncio absoluto, singular, essencial.
Pensando bem, acho que naquele sítio se achava um portal que me permitia transpor as dobras do tempo e do espaço.
Sempre retornava àquele ponto. Buscava um reencontro com os elementos arcaicos que ainda tingiam de eternidade a alma do pequeno menino que colecionava moedas.
Aprendiz de numismatógrafo, tinha uma especial, de bronze, que a prima ruiva havia me presenteado.
Não sei bem por que permiti a moeda rolar no tapete fresco de ervas. Não caiu de minhas mãos inadvertidamente. Não! Deixei-a experimentar o solo úmido, aninhar-se na terra que recendia a chás e cortiça.
Traído naquele instante magnífico, me dei conta, de repente, de que amava aquela moeda e que era preciso recuperá-la imediatamente, custasse o que custasse. Minha vida se resumia simplesmente em reconquistá-la, tomá-la de volta de quem a detinha de modo tão perito e solerte.
Mas as moedas se perdem na relva... Esse parece ser o seu destino.
Eu não pude encontrar em toda a minha vida razões suficientes que me permitissem afirmar que para outra coisa existissem!
sábado, abril 22, 2006
Patrocínio Paulista, luar, crianças e cachorros às baciadas
A Lela na rede mundial da preguiçaPatrocínio Paulista ficará para sempre gravada nas teias da minha memória. As crianças esparramadas pela sacada, misturadas às galinhas, limoeiros, mangueiras, pitangas, carambolas, cães, pintinhos, Elizetes, Terezas, Cremildas, que invadem o espaço para uma singular e harmoniosa convivência.
Esta viagem foi muito particular. Andamos de Jipe pelas estradas esburacadas, cantando a plenos — o rio tem cachoeira, e a cachoeira é um barato... ô, ô, ô!.
O Pedro é o cantor da trupe, com sua vozinha desafinada soletra cada palavra com gosto e satisfação.
Tudo-ao-mesmo-tempo-agora: descemos ao rio, rolamos pedrinhas às águas, a Bilé enfim concertou-se com a Helena, o Pedro chorou e o Nini riu. Enquanto isso, a mãe deita um doce olhar complacente e certifica-se que a prole é mesmo uma generosa dádiva da Vida.
À noite, esparramados na rede xadrez tingida de tons violeta e púrpura, divisamos uma coroa de luzes iridescentes furtadas há pouco ao grande astro. Eis que irrompe sobre o Sítio, soberana, indisputada, a lua plena, hóstia de prata e madrepérola servida ao olhar desarmado no altar de seda nanquim.

A sua repentina chegada nos encheu de um certo temor arcaico. A Helena enrosca-se, aninhada ao meu colo. Sem tirar os olhos do espetáculo, comenta baixinho:
— Pápi, na lua moram o dragão e São Jorge, né? E o ratinho que come o queijo... e a minhoca!
— Minhoca, filha? Só se for a minhoca selenita! — emendo, os olhos vidrados no prato magnífico.
— Minhoca selenita? — interrogou-me. Seus olhos buscam os meus no lusco-fusco. Logo torna, fisgada pelo disco nácar que flutua na sala escura do prado. Fez-se um silêncio de perfeita compreensão.
Ali ficamos apreciando a revolução de luzes e nomes que a Helena repetia e repetia e repetia...
— Minhoca selenita! — ainda a ouvi concluindo antes de varrer a lua com sua lanterna mágica amarela.
sábado, abril 08, 2006
Eliana, serpentes e galáxias
Ela morava na Vivaldi. Seu andar era suave e silencioso. O olhar oblíquo divisava a luz rebatida, furtava a alma de pobres mortais desatentos.Acho que era selenita; aborrecia a nitidez estúpida das formas. Parava num outro centro de gravidade, agarrava-se em qualquer lugar imponderável. Imperava o princípio da incerteza.
A Eliana era misteriosa. Acho que tinha uma alma antiga, tingida de traços incompreensíveis. Fazia lindos desenhos como mosaicos, figuras espiraladas, lembravam galáxias, serpentes e cabelos.
Acho que ainda caminha sobre a superfície do planeta.
À sua moda, é claro.
Fonte: Arte bizantina. Mosaico. Convento de S. Adriano, S. Demétrio Corone, Cosenza.
segunda-feira, abril 03, 2006
Mundo macaco
Minha querida macaca de fogo.O mundo é lindo de qualquer maneira, eu sei.
Conhecer, revirar, cheirar, tocar, saborear, essa ação contínua e inesgotável de assomar-se não nos deixa tempo para pensar.
Mas, para que cogitar, não é mesmo?
Experimentar os tamancos no assoalho de madeira é bom.
Pula-pular na cama do papai é bom.
Apavorar-se do lobo na boca-de-lobo é bom.
Olhar a coruja na árvore à noitinha é muito bom.
O som de pedrinhas no pneu é bom.
A água que corre e canta é bom.
Ouvir histórias de fadas é bom.
A chuva copiosa na tarde de sábado é boa.
O colo da D. Paula é bom.
Dormir quando se tem sono é sempre bom.
Ah! minha macaca de fogo. Como posso deixar de admirá-la o tempo inteiro? Subverte-me! Revira-me o mundo concertado! Toca-me a alma empedernida de pai avoado e me consuma em fogos de alegria e amor!
Eu te amo, Helena!
quarta-feira, março 29, 2006
Café Íris Jacomino

Os cafés que a minha querida Íris tanto aprecia de habituais têm somente a promessa inadimplida.
É um fato incontroverso, Lila! Contra fatos não há argumentos. Não, não me venha com a sua frase predileta! (diz ela que facts are stupid things, parafraseando Ron Reagan). Tollitur quaestio!
Hoje vivi uma aventura hilária com essa moça atrasada.
Já falei do aguaceiro que dissolve em dramas a cidade de São Paulo. Meti-me num táxi encharcado e desci a tumultuada Higienópolis para um breve encontro com a Íris no Ráskal. Afinal, tantas vezes descumprido o compromisso do café, quem sabe num almoço acertaríamos o eterno descompasso de nossos ponteiros?
O prazo era exíguo, o trabalho nos espera, engolimos a ração e acredite: nem um café foi possível. Ela me pede (e eu não nego) "acompanhe-me até o estaciô...", assim mesmo, parecendo ganhar tempo encurtando as palavras.
E lá vamos nós. Descendo no cubículo atulhado de gente úmida e aborrecida pergunto bem baixinho: "v. sabe o setor"?. Responde-me com impaciência: "Claro! Setor P".
Muito bem, saindo do caixote freqüentado por cães & cia. fomos à cata da tal alameda "P".
Foi só ver as pilastras, uma após outra, às centenas sucedendo-se, e eu me dei conta instantaneamente de que o "P" gravado nos costados das colunas era simplesmente a marca universal de parking.

Ainda tardando alguns segundos para compreender exatamente o que ocorrera, minha apressurada guria deixou-se cair em perplexidade, os olhos vazados e as chaves tilintando na mão.
Os caminhos de Santiago

A manhã abriu-se em chuva colhendo os meninos mal dormidos. A noite de estrondos e luzes os aninhou no conforto da grande cama dos pais - mãozinhas entrelaçadas, pés descalços e frios, os narizinhos apontando para o alto, escapando das cobertas de algodão branco. Olhando muito bem, somos uma linda família sonolenta.
Como é lindo vê-los de pijaminhas coloridos, a Lelê enlaçada com o seu cachorrinho laranja (Bilu, presente da PAC), o Pê confortável com o travesseiro nos pés e o Thiago na sua diáfana nau de véu, algodão e lã.
Despertei com a chuva generosa tamborilando no telhado. Pensava que era uma sinfonia complexa, um contraponto atonal. A mãe, deitada ao lado, recupera as energias gastas pelas mamadas pontuais da madrugada. A Lelê recostou-se aos pés da cama e se nega a abrir os olhos; o Pê se esconde no algodão alvo e o Thiago, bem, o Thiago vocaliza uma língua de anjos que só as mães e os loucos compreendem.
Antes de sair para as ruas alagadas dessa Paulicéia que se afoga em dramas e lama, resolvo flagrar o Thiago ao lado da janela - ele que é tão pouco comentado aqui.
Meu lindo Thiago, hoje vendo as fotos recém sacadas percebi que v. é muito parecido comigo. Pela primeira vez enxerguei-me com nitidez em você, projetado em seu rostinho de frade franciscano - no que pesem os comentários da madrinha, sempre respeitáveis, que vê em sua face os traços do Pê.



