segunda-feira, dezembro 11, 2006
Avoantes e depois
A manhã rumora nos alvores. Despertamos com o feroz bramido de monstros que se agitam furiosos nos angares. O caos aeroportuário nos chega por acordes intestinos.
As crianças estão despertas e imediatamente entram em consonância com essa zoada matutina. Consonância? Talvez fosse melhor dizer que, às vezes, a casa se torna uma concha de complexas dissonâncias. Tempos modernos.
O Pedro é pássaro e é sobre as metáforas aviárias que me sustento nas alturas da labuta diuturna. Querido Pepo, deixo-o à míngua, perdido no quintal.
Disse-lhe - e à irmã que teve uma noite de trânsitos - que estaria saindo alçado por uma corte de pássaros verdes, vermelhos e laranjas que ruidosamente tomariam a mim pelas axilas e me transportariam pelos ares, mundão afora. Mas para isso era preciso ficar em silêncio; escondidinhos na casa. Afinal - explico - "os pássaros são seres assustadiços...".
Dito e feito. Os pequenos se refugiaram embaixo da mesa e aquietaram-se num mutismo de expectativas e curiosidade. Os olhinhos distraídos postos na porta entreaberta. Assim dei a meia-volta no corredor lateral da casa, ultrapassei o canteiro de hortelãs e por trás agora diviso confortavelmente a cena: A Lelê se esforça para ver para além das nuvens o pai sustentado pelas aves da manhã. O Pedro chora.
"Meu Deus! Como posso fazer isso?" - penso. Não resisto e recolho meus preciosos no colo e ainda ensaio uma explicação - "o pápi tem que trabalhar"...
O Pedro chora. A Lelê quer ver o táxi à porta. O NiNi, saliente e sorridente, diz: "Eeeeehh!".
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