sexta-feira, junho 30, 2006

Árvore da vida

Tinha medo de dentista. A imagem terrífica do boticão me assaltava — como sempre há de apavorar um pesadelo diurno. A mulher de branco, com sua voz melíflua e suas tenazes diabólicas, aterrorizava o pequeno que se escondia na copa das grandes árvores.

Mas me deixem contar melhor essa história.

Aconteceu no velho e eterno Parque D. Pedro II. O consultório ficava na última saleta à esquerda, debaixo da grande varanda que se estendia para além do bebedouro e da relva. Local a ser evitado: hic sunt leones!

Um belo dia — contava com uma ponta de orgulho D. Amélia —, um dia de verão, ela veio pontualmente às cinco da tarde buscar o seu amor no parque. Mas cadê o guri? Busca daqui, corre dali, olha de lá, pergunta acolá: onde terá se metido o menino?

Já quase às seis da tarde, diz ela — que não me lembro absolutamente de nada disso — na hora da Ave Maria, eis que aparece atravessando o lusco-fusco, o petiz, vagueando solitário, desconcertado e com uma estranha marca vermelha estampada do lado esquerdo do rosto.

O que seria essa mácula? — o coração materno dispara. Tomamos o bonde e as pessoas perguntavam para a mãe ressabiada: O que tem esse menino? Nossa! O que lhe aconteceu para ficar assim?

Dizia a D. Amélia que eu, fugindo apavorado da dentista, subi na mais alta árvore do Parque e ali adormeci, expondo uma das faces às intempéries da tarde radiosa e calorenta. Não havia percebido, mas o tempo passou, o sol se pôs e a marca ficou como uma medalha de dor e medo.

Hoje, quando o sol se posta na tarde dourada de minha vida, olho para o espelho e vejo tantas marcas forjadas na alma desde aqueles tempos viçosos do Parque Dom Pedro II.

No fundo, no fundo, o que me conforta é saber que esses estigmas representam muito pouco, perto das pinças diabólicas da mulher de branco!

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