Faz uns 20 anos. Minha filha Íris tinha então seus tenros três, quatro anos. Por essa altura da vida, trabalhando num registro público na periferia, aproveitava as viagens ao centro de São Paulo para ir à busca de uma coleção que vocês provavelmente conhecerão — Contos e Lendas do Irmãos Grimm, uma linda coleção editada pela Edigraf, com tradução de Íside M. Bonini.Sempre a buscava pelos sebos paulistanos — que então freqüentava com gosto e regularidade à caça de livros de Direito. Era um jovem estudante de Direito que amava os livros e os Rolling Stones.
Numa das travessas da Praça da Sé, havia — e ainda há — um alfarrabista tradicional que dispunha suas coleções em bancas generosas, com os livros espalhados à própria sorte. Havia estantes lotadas de romances baratos, história das civilizações, enciclopédias ilustradas, dicionários e tratados de filosofia perene. Era preciso paciência e diligência naquele mar de letrinhas e poeira.
Entrei na livraria como sempre fazia e de repente, estranhamente, meu coração disparou. Experimentei uma sensação numinosa, prenunciando um encontro singular. Com os olhos embaciados perpassei paredes repletas de lombadas multicores e títulos dourados, caminhando às tontas até um enorme armário de livros de história, sabendo que os livros têm, eles mesmos, sua própria história.
Por um instante pensei que os livros permanecem num limbo, numa dimensão em que não há qualquer sentido revelado. Despalavram-se. Enovelam-se. Ensimesmam-se. Permanecem em silêncio absoluto até o exato dia em que nos escolhem. Sim, somos eleitos por certos livros! Sabem-nos. Aguardam-nos. Velam-nos. Vêm aos sebos como nós à terra: para renascer. Recebem o dom maravilhoso de se revelar ao coração de um novo leitor. Adquirem — como posso lhes dizer? — uma nova alma. Manifestam-se para certos leitores, acompanham-no até a morte — ou o abandono, quando então se fecham novamente num mutismo obscuro e misterioso e retornam discretamente ao sebo, à espera de um novo dia, um novo leitor.
Tratados de filosofia, teologia e história, amor e ódio, tragados pelo silêncio de um livro cerrado. O drama da vida registrado em milhões de letrinhas garamound, glosados pela mão trêmula que resiste aos séculos, tudo se liga a um fio dourado que se perde no inconsciente coletivo em intrincados círculos de conhecimento.
De repente, divisei a coleção de oito livros que imediatamente alcancei com as mãos ansiosas e o coração aos saltos. Não sei de onde tiro esta certeza — de que dou fé! Mas naquele instante mágico soube, com a certeza absoluta de um adotado, que aquela coleção, uma linda edição de 1961, era a mesma obra que a professora manuseava nas tardes douradas do Parque D. Pedro II, lendo-nos, à sombra de guapuruvus e jacarandás, as histórias de Olhinho, doisolhinhos, tresolhinhos...
Aberto ao acaso o primeiro volume, das páginas amareladas saltaram redivivas as palavrinhas: Linha cabrinha, põe a mesinha!
Uma chama iluminou-me as entranhas e o sentido da vida se fez novamente.
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