A Lela na rede mundial da preguiçaPatrocínio Paulista ficará para sempre gravada nas teias da minha memória. As crianças esparramadas pela sacada, misturadas às galinhas, limoeiros, mangueiras, pitangas, carambolas, cães, pintinhos, Elizetes, Terezas, Cremildas, que invadem o espaço para uma singular e harmoniosa convivência.
Esta viagem foi muito particular. Andamos de Jipe pelas estradas esburacadas, cantando a plenos — o rio tem cachoeira, e a cachoeira é um barato... ô, ô, ô!.
O Pedro é o cantor da trupe, com sua vozinha desafinada soletra cada palavra com gosto e satisfação.
Tudo-ao-mesmo-tempo-agora: descemos ao rio, rolamos pedrinhas às águas, a Bilé enfim concertou-se com a Helena, o Pedro chorou e o Nini riu. Enquanto isso, a mãe deita um doce olhar complacente e certifica-se que a prole é mesmo uma generosa dádiva da Vida.
À noite, esparramados na rede xadrez tingida de tons violeta e púrpura, divisamos uma coroa de luzes iridescentes furtadas há pouco ao grande astro. Eis que irrompe sobre o Sítio, soberana, indisputada, a lua plena, hóstia de prata e madrepérola servida ao olhar desarmado no altar de seda nanquim.

A sua repentina chegada nos encheu de um certo temor arcaico. A Helena enrosca-se, aninhada ao meu colo. Sem tirar os olhos do espetáculo, comenta baixinho:
— Pápi, na lua moram o dragão e São Jorge, né? E o ratinho que come o queijo... e a minhoca!
— Minhoca, filha? Só se for a minhoca selenita! — emendo, os olhos vidrados no prato magnífico.
— Minhoca selenita? — interrogou-me. Seus olhos buscam os meus no lusco-fusco. Logo torna, fisgada pelo disco nácar que flutua na sala escura do prado. Fez-se um silêncio de perfeita compreensão.
Ali ficamos apreciando a revolução de luzes e nomes que a Helena repetia e repetia e repetia...
— Minhoca selenita! — ainda a ouvi concluindo antes de varrer a lua com sua lanterna mágica amarela.
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