Eu poderia fazer tanta coisa...Poderia sair e ver um filme fosse lá bom ou ruim, poderia tocar guitarra para os amigos fosse lá músico ou não, sair com esses mesmos amigos e tomar um porre, sentar na soleira da porta e ver a chuva cair. Fazer um curso na Europa. Ficar quieto. Poderia ficar quieto, imóvel e de olhos fechados. Quieto, imóvel e de olhos fechados durante uma hora inteira. O dia todo. Não, a semana toda. Mas, às vezes, eles tossem à noite. Ou melhor, um tosse e a outra chora. Outra vezes é ele que tem pesadelo e ela acorda com o choro. Muita coisa para deixar só a cargo da mãe. E não é só durante a noite. Basta pensar em sair para o trabalho e vem uma vozinha: Volta logo...
Poderia visitar Istambul, descobrir Constantinopla, desvendar os mistérios do Oriente, mas teria que esquecer que sou o herói que põe o mundo em harmonia, o pégaso que ganha as estrelas com dois cavaleirinhos na garupa — upa, upa, cavalinho —, a ponte que flutua sobre o nada, apenas para ser atravessado por pezinhos que afundam na minha barriga e provocam risadinhas intermináveis nos seus pequenos donos.
Poderia estudar a fundo a história dos povos da Mesopotâmia: babilônios, caldeus, sumérios e assírios. O código de Hamurabi, a arte e cultura dos mesopotâmicos, tudo isso é muito importante, mas teria que dizer não a criaturinhas que pensam que sou o céu sem limites. Teria que ignorar a sedução daqueles olhares e sorrisos, teria que resistir bravamente ao aperto urgente daquelas mãozinhas minúsculas: vamos brincar?
Bem, eu poderia fechar a porta e ouvir Schoenberg ou Mahler, assim não ouviria ainda que eles batessem muito. Talvez pudesse sair de cavalete e tintas em punho para pintar umas aquarelas. Puxa, eles iam gostar dos pincéis! Não, não, esse seria o meu momento, esqueci que não estariam comigo. Também poderia visitar amigos e sentar calmamente para conversar sem ter que interromper o pensamento a cada minuto com — não mexe aí.;Cuidado, você vai cair. Tenho até um amigo cujo jardim eles adoram. É, mas desta vez não brincariam no balanço porque não estariam lá, seria o meu momento. Tudo bem, entendo que começaria tendo que reaprender a pensar sem topar com as artimanhas daquelas carinhas cândidas a cada vacilo do cérebro. Não sei como fazem isso, são tão pequenos para dominar um metro e noventa de treinado autocontrole! Não tenho a menor idéia de como conseguem, tão pequenos, mas parecem posseiros instalados em posse legítima — eu — ainda que ninguém lhes tenha outorgado qualquer título.
Poderia andar de bicicleta, descer novamente a ladeira em desabalada carreira, sentir o vento e a liberdade. Mas teria que me desprender daqueles bracinhos ao redor do pescoço, daqueles risos no pensamento, daquele calor no coração. E na volta, então? Na volta seria o diabo, teria que encarar um par de olhões azuis: V. disse que ia voltar logo. Pior e direto no alvo: Eu não gosto de você.
Eu poderia fazer tanta coisa...
... se eles já me não tivessem aliciado com engenhosos planos de amor a longo prazo e eterno querer bem. Como fizeram isso? Eu estava lá e não sei como se desvencilharam dos meus projetos mais secretos, como invadiram o recôndito dos meus pensamentos, como dominaram meus quereres mais íntimos. E, mesmo um pouco envergonhado, devo confessar: as únicas armas que usaram foram uns passinhos miúdos e incertos em minha direção, alguns poucos centímetros de perninhas bambas atravessando meu caminho e aqueles bracinhos abertos para mim.
a) O pai
Esse texto não é de um pai concreto, logo se vê. É de uma mulher. Uma linda mulher. Alguém que soube bordar com delicadeza e sensibilidade os contornos de um pai essencial, primordial, quase arquetípico. Sempre me emociono com crianças e com bons textos. E com os amigos, cujo olhar atento e generoso vê e nos revela os pequenos mistérios de nossa vida.
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