quarta-feira, novembro 08, 2006

Narciso e o perfume de Platão

Tenho acompanhado com vivo interesse a sucessão de postagens em determinado blogue, a que se chega com aplicação, engenho e alguma sorte, versando sobre um tema que há muito me instiga a curiosidade intelectual: o amor e seus vários sentidos.

Empreendi por esses dias uma excursão curiosa às paragens insólitas desse sítio cujo signo cifrado, lavrado provocativamente em seu frontispício, é ordo amoris. E mais não digo, que a diligência para encontrá-lo é sua, caro leitor; trata-se de responsabilidade pessoal e inalienável. O que lhe posso adiantar é que a recompensa é alvissareira!

Preleciona ali o nosso Mestre sobre uma espécie de amor emulativo do verdadeiro Amor (captativo, dirá com erudição), "dobrado sobre si próprio, ignorante de uma projeção para o ente amorável", portanto um amor estéril, "amor que se nutre e devora a si mesmo". E remata: "falseamento do amor. Eis aí, por antonomásia, o amor platônico".

A idéia desse amor captativo, tornado cativo de si mesmo pelo engano essencial acerca do objeto amorável, dobrado sobre si próprio, encontra um desdobramento interessante no mito de Narciso. A idéia central desse amor eutrópico, aventura de perdição nas cadeias do endopsiquismo, é, como o meu mestre bem registrou: amor dobrado sobre si mesmo, vale dizer, o amor de reflexão (: reflectere, re- [novamente] e flectere [curvar-se]). No caso de uma representação narcisista, que se projeta no falso ente amorável, é um amor solipsístico. Os fumos platônicos também aqui se percebem.

Intriga-me a idéia recorrente em todo o mitologema: o tema da reflexão. Narciso (: Nárkissos, do grego nárke, entorpecimento, torpor, donde narcótico) era filho de Cefiso e da ninfa Liríope. A mãe, tomada de fundados receios pela fato de a beleza desmesurada do filho poder representar uma démesure (hýbris: ultrapassagem do métron, descomedimento), e com isso podendo atrair a ira dos imortais do Olimpo e a mobilização de Némesis, irá consultar o vate Tirésias. "Narciso viverá muitos anos?", questiona. O mántis simplesmente lhe responde: si non se uiderit.

Será Ovídio (Metamorfoses, 3, 414-28) quem registrará a tragédia desse encontro refletido:

"Deitou-se e tentando matar a sede,
Outra mais forte achou. Enquanto bebia,
Viu-se na água e ficou embevecido com a própria imagem.
Julga corpo, o que é sombra, e a sombra adora.
[...]
É uma chama que a si própria alimenta.
[...]
A sombra que vês é um reflexo de tua imagem.
Nada é em si mesma: contigo veio e contigo permanece...


O Prof. Junito de Souza Brandão (onde encontrei farta indicação bibliográfica e excelente indicação mitológica) comenta a natureza do amor de Narciso, que se apaixona pela própria imagem refletida na fonte de Téspias: "o engano fatal do jovem tebano foi a escolha errada do objeto do amor", diz.

Quando se diz no blogue festejado que "o conhecimento platônico é um reingresso na alma do sujeito cognoscente, alma em que reside, numa suposta inatidade" estamos diante de um espelhismo fantasmagórico. Trata-se de uma relação fatal com a própria imagem, refletida embora no outro.

Borges colocou na boca de Bioy Casares a fala de um dos heresiarcas de Uqbar que declarara que os espelhos e a cópula são abomináveis "porque multiplicam o número dos homens". (Está em Ficções, na tradução de Carlos Nejar, Porto Alegre: Globo, 1970, p. 1).

Volto ao assunto.

[A morte de Narciso (1623-1626), pintura de Nicolas Poussin, Museu do Louvre, Paris].

Um comentário:

Sérgio Jacomino disse...

Olá. Enviei seu recado para ele. Vou tentar enviar o seu email. SJ