Ah! São Bernardo. Lembro-me de seus instantâneos, de cenas esparsas, situações isoladas, episódios de uma trama sem começo nem fim. Não há um script, um enredo. Não retenho de ti — ó céu em metalurgia! — uma história com um bom começo, meio e fim.Mas há uma passagem que resiste num cadinho da memória e que não quer se desfazer na poeira comum das reminiscências. Ali vive um menino negro e obeso com sua bicicleta branca e verde-água. Um menino acastanhado que amava uma linda garota loira. Um pequeno-grande guri posto em cadeias de silêncio obsequioso, encastelado na torre solitária da rádio na colina.
O que foi feito daquele menino?
A pequena bicicleta verde e o corpanzil do garoto formavam um quadro frágil e delicado. Denunciava o petiz como no fundo ele sempre foi: uma pequena e sutil criatura. Uma chama que luzia timidamente o puro cristal.
Era, contudo, um gentil cavaleiro, com gestos largos, voz mansa e aveludada, um Lancelot fulminado pelo amor impossível de sua Guinevere de rútilas madeixas. Tão intenso, profundo e nobre era o seu amor, que não lhe restava outra coisa senão pedalar, pedalar, pedalar.
E assim, pedalando e equilibrando-se com desalinho e surpreendente perícia sobre um fio tênue, assim passou sobre mim, sobre todos nós, ultrapassando enfim o Jardim Antares, resvalando as antenas espinha-de-peixe, galgando as alturas imponderáveis de seus sonhos e idealizações.
Dele tive notícias há muito tempo. Dizem que foi visto com sua bicicleta marina sobrevoando as franjas bordadas de manacás e quaresmeiras da serra do Mar. Foi saudado por um grupo de paturis que seguia ruidoso rumo ao seu grande destino.
Esse menino alimentou uma chama de amor que era pura nostalgia das estrelas. Pobre Rúbem, o que podia fazer com isso? Era um amor tão delicado. Esse sentimento doía num coração rúbeo. E o coração humano não tem cor!
Sempre me emociono quando lembro que Rúbem ficava em silêncio na torre de transmissão da rádio. Era de certo modo um duro contraste: a rádio nunca cansou de palrar as suas mil-vozes, e ele ali, solitário e silente, pouco a pouco esvaía-se de todas as palavras, esgotava-se de todo o verbo até que, finalmente, já exangue de todo e qualquer sentido, pouco lhe restou que não fosse amar tão intensamente como não se diz nem se fala.
Ah! meu querido amigo! Deve ser assim o puro Amor. O jovem de coração rubente falava enfim a língua dos anjos.
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