terça-feira, janeiro 06, 2015

Crepuscular

Acabei de chegar das montanhas e já me preparo para a praia - província que me fustiga o corpo e a alma.

Estou numa correria só. O só pensar no sol da Bahia sombreia-me a alma. O duro é aguentar a fitinha de Nosso Senhor do Bonfim. Não sou bom-fã do Bonfim-colorau, atavio de cobras-corais enrodilhadas no punho feito galáxias de boa morte.

Muitos problemas neste início de ano. Restos de sombra num coração quarado - feito manta de inverno no varal. Ah... estes varais ensolarados. São mantras ao vento. Pequenas cortinas postas diante de olhos cansados das sendas partidas de sol a sol. "Acenda, Senhor, esta alma peregrina com o santo remédio das lâmpadas eternas! Anjo, derrama em caldas os mantos diáfanos de dobras indefectíveis". Mantra dos mantras, a oração de um menino há de se converter no pleito das águas rumo ao oceano. 

Sempre chegamos ao termo final. Quintal das almas: que seja - assim seja! - um bom fim. Senhor do Bonfim, bom-bom fino do fim, faz-me a fineza de estreitar o abismo entre o não e o sim. Consintas a síntese curativa de mim.

Cruzamento de todas as estradas, encruzilhada dramática, és cerzido de histórias, de dores e de alegrias. Carma primordial, meu trabalho de parto haverá de ser a partida tardia, compartida por anjos e demônios. Livrai-me, Senhor, com a inteira liberdade que me confiastes.

Enfim, não me resta mais que abismar. Abrumar. Abespinhar-me feito pinhão cravejado em cachos dourados de inverno - oh versão de verões! bordados frágeis de pétalas topázio e de bafio crepuscular. 

segunda-feira, agosto 25, 2014

Outras estações para o pequeno Thiago Jacomino

Thiago.


Neste comecinho de segundo semestre de 2014, a professora Almut Lenk nos confiou uma tarefa muito bonita: confeccionar um pequeno caderno de poemas e desenhos sobre a passagem das estações do ano para lhe presentear.

Durante toda uma semana, o papai acordava pela madrugada e ficava cofiando a barba, pensando, pensando, pensando... O que poderia fazer para tocar suavemente essa pequenina alma de artista na véspera da primavera?

Sou mal poeta. Um historiador distraído. Quiçá um diligente escrivão do feito, do confeito e do desfeito. Confesso que mal reparo no raro e ainda me desamparo nesta angústia de árvores que se dobram como cobertores numa tarde de outono.

Pensei num poema. O primeiro deles está ali, logo embaixo. Perdido, pobre; sem rima, sem rumo. É a revolta dos meninos algaraviados que se apruma na declamada primavera-outono das idades e das gramáticas. 

A Mâmi logo torceu o nariz. "Humm... Coisas Jacominianas!" - sentenciou.

Ela tinha razão. Sempre tem!

Pensei, então, em haikais. Perguntei-me: seria capaz de resgatar como que pequenas cápsulas de imagens fugidias, lembranças da minha infância no Parque D. Pedro II?

Sabe, Nini, um dia fui menino. Arrebatei-me com o tapete de chocolates do Parque depois da chuvarada de verão; deixei-me estar ao rés do chão, quieto, entre besouros, aranhas e moedas perdidas por gente esquecida. Fui visitado por estranhos sentimentos que não têm nome. Coisas de que já não se lembram os velhos. 

Mas eis-me aqui, filhinho! Um velho-menino, cofiando, cofiando, desconfiado. Mas sempre fiado na sabedoria dos anjos.

Seu pai.



I

Primavera

A madrugada
lança gotas e alcança
a primavera.

~~~~*~~~~

Jacarandás bordados.
Mimosos lilás,
Sol desnuda e revela.

~~~~*~~~~

A alameda fia,
a lã na teia suave,
aquarelada.


II
Verão

As cigarras encantam,
olhos se incendeiam.
campânulas ao vento.

~~~~*~~~~

O rio trasvasa -
terra achocolatada.
Sol-chuvarada.

~~~~*~~~~

Essências sobem,
são as gotas que descem.
Chuvas de verão.



III
Outono

Estrela d´alva,
no céu logo desmaia
no espelho d´água.

~~~~*~~~~

Desde o céu se anuncia,
cor fugidia.
Olhos de adoração.

~~~~*~~~~

Nini, pequeno.
Velhas árvores dobram
Sombras e sonhos.



IV
Inverno

Ventou na noite
lágrimas de topázio.
Quintal de cristais.

~~~~*~~~~

É madrugada.
O céu embaça e passa.
Lua caiada.

~~~~*~~~~

Neblina desce
sobre o parque invisível.
Não vi e visse!

V
Natal

Gotas na calha,
um tamborim suave.
Natal sonhado.

Casa no parque.
A parede encarnada,
vela o menino.

Escadas de luz.
A cidade em gala.
Pobre menino.

~~~~*~~~~

VI
Páscoa

Ovos sortidos,
No recanto de cores.
Tantos coelhos?

Ovos ocultos,
desdobras de sol a sol.
Sítio da Tita.

Avôs e avós,
doce cordão entre nós.
Ovos de páscoa.

~~~~*~~~~

VII
São João

A lamparina
rebrilha, só, esquiva.
Quem sobe, desce.

Balão-almofada
baila na noite infinda.
Estrela farta.

Garoa fina,
lã no casaco cinza.
Fogueira finda.

~~~~*~~~~
VIII
Micael

É luz divinal
que traduz e revela.
Claro mistério.

domingo, agosto 24, 2014

Primavera

A primavera dos meninos
foi um dia a primavera dos seus pais.
Vendo-o, meu pequeno botão,
revejo as alamedas de um grande parque,
bordadas de imensas árvores,
generosas: deitam pétalas lilases
sobre a trama de pedras orvalhadas,
no chão úmido e cravejado de luzes.

A primavera dos meninos,
foi um dia a primavera de seus pais.
Em que as moedas rolavam sobre a relva,
desapareciam como que por milagre
e ressurgiam misteriosamente sob o travesseiro.
Que aventura era subir às árvores,
no ponto mais alto em que as camélias,
brotavam como nomes e perfumes
brancas, rosas e fúcsias.

A primavera dos meninos,
Foi um dia a primavera de seus pais.
A roda que nos levava em rodopios,
às estrelas, às borboletas na árvore,
às trepadeiras, brincos-de-princesa e jacarandás.
O balanço que nos arremessava aos céus,
Soltos como pássaros, livres para ir e voar
E retornar
à primavera dos meninos,
Que um dia foi a primavera dos seus pais.

segunda-feira, dezembro 23, 2013

NINI e suas histórias

O Nini deitou-se comigo à tardinha e perguntou à queima-roupa: de onde vem e para aonde vai o dinheiro que todos entregam comprando e todos recebem vendendo?

Sem esperar a resposta: o que tem dentro do dinheiro?

Ainda na rede, contei-lhe a história do pequeno Pierre.

Pierre era um menino que o papai conheceu ainda quando criança.

Pela manhã, logo cedo, o pequeno saía ao quintal e logo se punha de cotovelos a vigiar o imenso tesouro que a noite lhe trazia - pequenos diamantes incrustados nas folhas da relva e que brilhavam intensamente sob a luz do sol.

Era rico e sabia guardar seu tesouro com seus olhos cristalinos.

Ao meio-dia esquecia-se de todo o resto e era só um menino vadio - ele e o vento que lhe acariciava o rosto sob a sombra das mangueiras carregadas.

Perdia-se sem um único fio de pensamento.

À tarde, dizia a mamãe, era preciso acudir os rubis que ardiam sob a luz violácea que cariciava pencas de alamandas e ipomeias com pétalas e folhas cravejadas de besouros iridescentes.

Ah... Pierre era um menino feliz.

sábado, dezembro 10, 2011

D. Anéris

Na sexta-feira estive na saída das aulas. Era o último dia da D. Anéris à frente do nosso jardim.

Disse para a Blyan (para quem não sabe, a Tânia), parafraseando Milton Nascimento: "o trem que chega é o mesmo trem da partida"...

Cumpria dizer algo para nós mesmos. Como vocês sabem, ela, a Blyan, chora na chegada, na partida... e se bobear, soluça mesmo no percurso, dependendo da paisagem!

Compreendemos, naquele momento, que a vida é um contínuo movimento. Chegamos e partimos, sempre. Se é possível dizer-se isso, chegamos e partimos et pour cause, continuamos, cada vez mais, nós mesmos! Uma partida é sempre a chegada a nós mesmos por intermédio do outro que parte...

D. Anéris amorosamente insinuou-se em nossas vidas com a tranquilidade de um grande rio que avança sobre a planície.

Nosso primeiro contato foi logo na entrevista. Nunca vou me esquecer daquele olhar profundo, atento, suave, que logo revelaria a vocação deste historiador distraído. (Trazia um livro de história antiga no colo. Nunca se sabe quão "emocionante" vai ser uma entrevista escolar... Ela logo percebeu e registrou que havia lido aquele autor quase esquecido). Bingo! A partir dali, nunca mais deixaria de me encantar com a sabedoria daquela mestra. D. Anéris foi a face revelada dos anjos que guarnecem aquela província do Espírito.

Há certos detalhes que elevamos à categoria de verdadeiros signos na tentativa desesperada de emprestar um sentido humano a essas estranhas coincidências da vida. Nossos encontros nunca são vazios - ainda que não consigamos penetrar no mistério que fundamenta cada chegada e cada partida. Um bom livro de história clássica sempre poderá ser um bom motivo!

D. Anéris segue serena e tranquila a trajetória de um grande Rio. Penso que já não importam quantas chegadas e partidas, tantas idas e vindas. Nossa humanidade se confirma nessa troca essencial que há de durar até quando deva durar.

E já sobre isso me calo.

domingo, março 13, 2011

Tocoveleiras

O pequeno Nini estreia a sua nova bici, azulíssima, brilhante, como devem ser todas as coisas do Nini. Ele tem uma especial capacidade para gostar das coisas belas.

Ele não se continha. Queria sair às ruas para curtir a nova magrela, mas a chuva parecia não arrefecer neste final de semana de chuvas estivais.

Depois de descer a Duarte Moniz Barreto a toda velocidade o pequeno se deu conta de que o papi o divisava com um olhar de censura.

- Papi, esqueci das tocoveleiras...
- O quê?
- ... esqueci das tocoveleiras.

Ele queria certamente dizer "cotoveleiras" mas o que saiu foi essa palavra engraçada, dentre tantas outras que eu ainda vou registrar aqui.

quarta-feira, janeiro 05, 2011

Guintor, el perro pampero


Guintor. Isso é nome de cachorro? É sim!

Começou assim: a Lelê encontrou um cão vagando pelas alamedas do Hotel. Com sua especial capacidade para lidar com os animais, atraiu-o para perto de todos nós e lá estava ele, folgando como se nos conhecesse desde pequeninos, o Guintor.

quinta-feira, dezembro 23, 2010

Vésperas

Hoje fomos ao mercado sem os meninos.

Era necessário comprar os últimos apetrechos para a viagem que se aproxima.

Fará frio? Vai nevar? Em Buenos Aires faz calor - a Blyan viu no weather report.

Nós vamos partir em breve para uma viagem inesperada. Não programada. Não planejada.

O que nos espera?

sábado, maio 01, 2010

Pedro e nós


Este foi um dia importante. O Pepo descobriu como dar nós em cadarços.

Lembro-me do meu primeiro nó. A mágica das mãos ágeis e sapientes, dígitos prestimosos, conduzindo o olhar desconfiado, essa imagem ficará como uma lembrança indestrutível.

Ver o Pedro percorrer os mesmos caminhos leva-me a compreender que a humanidade caminha sobre os passos dos que lhes antecederam. E assim, somente assim, as crianças podem atingir o que se acha mais além, onde jamais sonhamos pisar.

O dia foi 29 de abril de 2010.

Meu Pepo, eu também caminho certo e seguro sobre os seus passos. Venho do futuro acolher você, meu pequeno Pedro, com meu amor e carinho. Bem sei aonde levam os seus passos!

quarta-feira, março 10, 2010

Eu, ela, ele: nós

Nós - mais do que górdios mistérios
que se encerram bem antes
do nó, do novelo, do novíssimo:
sempre fomos de mil formas;

Nós - que nos amamos,
entre anônimos errantes,
antes dos entes e das formas,
antes mesmo de informados;

Nós - que emprestamos sem-sentidos
como estrelas que despedaçam
pétalas, pólux:
Nós em si mesmos;

Nós - que descendemos
em altares velados e esquecidos
e nos encontramos nas paralelas,
na quadratura dos círculos;

Nós - hoje somos voz.
Oração em silêncio.

Nós, antes de todos vós,
ultrapassamos o tempo verbal!

(a propósito de Amélia, Armando e Sérgio Jacomino).

domingo, março 08, 2009

Encolhendo-me

Revolta a manhã iridiscente! 

A Botica se fechou
em séculos de mistérios. 
A torre transubstanciou
suas entranhas. 
Pedras rumoram um código indecifrável. 
Encontrei-me por aí!

Algo ocorre nas esferas de El Escorial
D. Felipe II dorme um sonho de perros negros
Sofre no azufre!

Algo de nós fica quando partimos: 
nos outros, nos campos frios, na Botica, 
na biblioteca que se ordena ao revés.

Chego a nascer, chego a nascer. 
Uma estrela sempre brilha antes de nascer!

Sou um livro sendo escrito desde a minha morte.

Volto valente para diante 
e recolho o diamante
que brilha e significa.

Dialógico:
- Quem sabe nos encontremos ontem? 
- Para você está bem às 8h?

Leio-me desde o futuro 
e encontro o passado imprevisível.

No início era o vírus. 

Própolis e enclisópolis.

Um grande felino se acomodou na garganta. 
Própolis é próprio da cidade gutural!

Madri se acende com candeias tímidas. 

A noite se fecha 
como a barriga de um burro.


segunda-feira, março 02, 2009

D. Martina

D. Martina clamou o seu nome solenemente – “Helena Corrêa de Jacomino”.

Aquele chamamento fez vibrar as minhas cordas interiores; quase diria que, por um breve instante, se produziu em mim um poderoso acorde, tríade perfeita. Sim, v. estava escolhida e acolhida! Meu coração soube antes mesmo que pudesse entender inteiramente o movimento.

D. Martina - este ser abençoado - haverá de conduzi-la na estrada da vida. Soube, no mesmo instante, que um encontro verdadeiro ocorrera. Meu coração descansou.

Penso que o mais significativo desse encontro, querida Nena, é que v. foi escolhida e acolhida, sim, mas, de certa forma, creio que também elegeu e acolheu à D. Martina.

O sentimento que ainda hoje tenho desse formidável encontro é que você possui a chave que pode abrir as portas daquele coração e dali extrair o que só um verdadeiro encontro de almas pode oferecer. Algo que somente ela pode lhe ofertar.

Os encontros nesse mundo imenso de coisas e de gente são, no fundo no fundo, a oportunidade de uma grande reconciliação!

Escolhendo-me

Para quem entende com o plexo:
esqueci-me do que não se (esquece e lembra)
como uma só nota grávida de todas as soltas.

Cármen lembra carma que lembra calma
que lembra o que não se lembra
e me põe assim:
cálmico.

Madri me espera fria.
Deus sabe como sou homem o suficiente para respeitá-la.
Mas haverá de se abrir
como uma flor carmim.

Estrela carmela,
erra entre os muros tardios.
Madri nasce
como uma pequena estrela carmelita.

Meus filhos clamam: canção da cansação.
Minhas cãs resistem!

Rudolf Steiner me tem pelo suspensório da alma.
Ressuscitando velhos temas.

Sucinto, eu?
Sinto muito: estou suspenso no ar...
errar é a maior empresa humana!
Melhor que errar é ser rarefeito.

Suscitando dúvida.
Termo equívoco.
Melhor seria:
ressuscitando o Amor!

A manhã metalúrgica me pesa como as entranhas da terra.
A manhã nasce e não diz a que veio.
Vejo o velho que me vê e diz:
que cara de nenê!

Saio às ruas.
O que mete medo
é a sombra
que
medra.

terça-feira, fevereiro 03, 2009

Portal

A passagem pelo portal do 1º ano foi uma experiência tocante para toda a família – especialmente para o papi e para a mãmi.

Saímos de bicicleta pela manhã em direção à escola. Nessa época, o cesto da bici ainda acolhia com certo conforto a minha pequena Nena.

Mas aquele dia era especial e mal podia saber as grandes emoções que ainda me esperavam...

A cerimônia da passagem pelo portal é uma experiência simplesmente inesquecível. Algo que deveria ser vivido e experimentado inteiramente por você, querida Helena.

Estávamos, eu e a mãmi, como que paralisados, em estado de suspensão, aguardando ansiosamente o chamamento, a vocação de seu nome.

Quando afinal foi chamada, eu também, inesperadamente, me senti arrancado do conforto da cadeira, abalado em minha vida sem surpresas, e me vi ultrapassando os limites daquele termo mágico, rememorando, emocionado, os ritos de passagem que eu mesmo experimentei ao longo de toda a minha vida.

Fincado como poderosos eixos no tablado, descerrando as portas para um espaço inefável, ali estava o portal à sua espera - soberbo, majestoso, impassivo.

V. estava pronta, meu amor. Desgarrou-se de nós e subiu as escadas lépida e segura, pronta para enfrentar mais uma etapa de sua pequena vida. Fiquei profundamente emocionado pela maneira como soube ultrapassá-lo com grandeza, coragem e dignidade. Vi como lançou-se rumo ao desconhecido com energia e determinação.

Quedei-me em silêncio. Uma estranha onda de nostalgia me invadiu. V. partia para uma nova etapa da viagem mágica e misteriosa neste mundo dos homens.

domingo, dezembro 14, 2008

Sombra branca


A Casa Amarela tem alguns lances de escada que nos alça à parte mais aconchegante e menos iluminada da casa.

Sempre subo a escadaria apressurado.


Toc, toc, toc, toc - ouço passinhos que me alcançam numa graciosa dança imitativa. Buscam-me na penumbra do quarto.

Espio de soslaio e vejo que me olha desconfiado - o meu pequeno Nini.

Está escuro. Seus olhinhos brilham e como que para afastar seus temores essenciais pergunta:

- Pappi, a luz é sombra branca, né?

Respondo que sim e o tomo nos braços com todo o carinho e amor. Meu precioso Nini.

Aquidance

Não sei de onde vem o fascínio da Lelê pelas águas.

Ainda muito pequenina, íamos freqüentemente à fonte que se acha no costado do lindo Hotel Maksoud Plaza, na São Carlos do Pinhal.

Ali ficávamos completamente absorvidos, encantados pela revolução contínua das águas que brotavam generosas entre jatos e borbotões.

Era um espetáculo que me furtava as palavras.

"Aquidance" - assim o fenômeno foi logo batizado pela língua afiada da pequena Lelê. Água-que-dança > aqüidança > aquidance; simples assim.

Pensando bem, a palavra é linda. Já esquecida, como tantas outras, dormitou alguns anos, jazendo tranqüila no veio insondável dos aqüiferos da alma.

Hoje, contudo, irrompeu cristalina, como num lance de chafariz, colhendo-nos na cerimônia do banho vespertino da pequena Nena.

Logo fui arrebatado. Sentei-me ao seu lado, senti o piso molhado e assim me deixei lavar, por dentro e por fora, pelas águas que ainda dançam coloridas na infância que se avista nas profundezas do lago.

Lá do fundo, minha mãe me observa tranqüila e serena. Sabe que o seu pequeno haverá de percorrer ainda um longo caminho até o Mar.

segunda-feira, dezembro 08, 2008

Cláudio de Sá


Parece gravidez, mas é charminho. Ou flatulência, sei lá!

Esse cara ao lado é meu irmão. Gosto dele praca.

Devo-lhe a apresentação dos Beatles, do místico Donovan, da alucinação púrpura de Jimi Hendrix e do blues de sotaque insular de John Mayall.

Tudo corria solto nos tardos 60´s.

Esventrei os interiores de uma aphaniptera, conheci o cabelo acobreado ao microscópio, esmiuçei os complexos vitrais modernos da asa de uma mosca-da-fruta.

Casa 2 da Estudantes. Ali tudo acontecia: música, doces, natais, guaranás, crushs, grapettes, cerejinhas, fotografia e teatro.

E humor, muito bom humor!

Antes havia a guitarra gentil de George Harrison. Depois a genialidade de Frank Zappa. Assim caminha a humanidade! (Tá certo, ele apresentou o outro lado do lado B - Nazareth, Genesis, Yes e outras esquisitices de noivas ou de bolos. Ou ambos. Eu o perdoo e absolvo por isso. Não sabia o que fazia).

O que nunca entendi mesmo, um verdadeiro mistério para mim, foi ter mandado construir um contrabaixo à imagem e semelhança do de Paul McCartney. Nunca entendi essa extravagância tipicamente britânica.

Cláudio de Sá, seu humor beira a genialidade, toca a sublime loucura dos Cronópios. V. é do tipo de gente como Quino, Quintana, Quintinos, Gustavo "Principito" Pena, Eric Idle, Oswald de Andrade...

Na verdade, devo-lhe mais do que ter aprendido a assoviar com os dois dedos e de ter riscado o single Help! dos Beatles.

Por tudo isso, e muito mais, devo lhe dizer hoje, ontem e sempre: muito obrigado!

sábado, outubro 25, 2008

Somos tão racionais quanto não se pode ser

Uma foto, um lance de dados, as seis faces refletidas da tarde radiosa. Advinho um número e o rosto de alguém que não existe, revelo o nome que a sorte dispõe ao acaso e perco moedas na relva úmida de hortelãs.

Somos um livro aberto, meu anjo. Mas as páginas solares escondem uma trama inexpugnável, um mundo de pequenas letrinhas mágicas que se armam em galáxias infinitas e inextrincáveis, serpentes espiraladas de fogo e poder.

Deixo-me estar a ser pensado como um livro mágico que nunca se lê e se compreende.

Onde tudo começa e ainda antes termina

Os sonhos começam onde tudo termina.

Mas, qual o lugar dos sonhos, minha pequena?

Tênue lâmina que nos separa do mundo cerzido pela trama da memória, a fronteira final é a palavra que não foi dita, uma foto furtada, um gesto distraído.

Eis-nos aqui, Íris. A nossa tradução nítida e perfeita.

Não busque além dessa manhã perdida: o mundo pode dissolver-se além da linguagem.

Importante nesta noite é dizer que simplesmente te amo.

Amélia Jacomino


Minha querida mamãe.

Faz apenas sete anos que v. partiu. Deus sabe que um setênio pode representar um grande salto.

Neste mesmo ano, faz apenas sete dias, seu sobrinho Pedro partiu.

Partidas e chegadas. Noites de sonhos e manhãs ensolaradas.
Pesa-me a memória, mamãe. Responsabilizo-me por manter acesa a chama do sentido, latente na memória de cada uma de minhas células.

Revisitando os lugares pelos quais nós passamos - na São Bernardo cinza e deformada, nas ruas que um dia conheceram sua caminhada decidida e corajosa, no rosto de algumas pessoas que ainda resistem - em cada um desses lugares sua imagem se dissolve na irrelevância de outros tempos. Seu rastro se perde pouco a pouco na multidão que povoa esse admirável mundo novo, enclave que desconheço e muito menos compreendo.

Novos tempos.

Sei que não significamos para além de nossa memória afetiva.
A cidade é uma grande mãe!

Estou aqui, minha querida mamãe. Com o coração agradecido pela obra que pude concretizar e pelos sonhos que ainda nutrem minha peregrinação nesse grande e cansado mundo.

Epifanias

Íris.
Nada como estar plenamente outonal na primavera!
Já se vão tantos verões e nada se viu, nem se verá o que de fora é somente ton-sur-ton enovelado no desvão da alma.
Ah! As cores têm uma alma, sabia?
Estou dentro e fora.
V. sabe, os pais reconhecem os filhos como um dia a si mesmos se descobrem em pleno mistério.
Beijos nesta tarde de outono de minha vida.

terça-feira, outubro 07, 2008

Íris - seta certeira de cores

De 1990 a 1991, formou-se um arco de pequenas iluminuras bordadas com carinho e esmero no meu coração solar.
Coração paterno, lugar de sobrados ensolarados e espaçosos.
Essas pequenas gravuras, eu as carrego diligentemente por toda a parte. Acham-se agora depositadas nos escaninhos do scriptorium. Sou um escriba ancestral. Ao lado das penas, sempre tenho os desenhos ao alcance das vistas.
Um talismã? Uma confirmação do Amor Divino? Uma roboração dos pequenos acertos desta trilha cansada?
Uma coisa é certa: v. foi a alma peregrina que conquistou pela primeira vez essa mansão de muitos quartos e recantos.
Eu te amo, minha pequena Íris.


quarta-feira, agosto 27, 2008

Carolina

Essa Carol é doce, como o mel; é delicada como uma folhinha de hortelã. Tem um jeito distraído e displicente, mas esconde uma beleza interior que se irradia pelos olhos tímidos e curiosos.
Mas não é qualquer um que a percebe: é preciso ter olhos para ver!
A pequena e doce menina desabrocha numa manhã como uma formosa mocinha, com seus sonhos e perigos. É preciso estar atenta, amor. O mal espreita!
Quem conquistar seu coração encontrará um tesouro. Nele repousa um lindo arco-íris.
É uma estrelinha peregrina! Ilumina com seu brilho tímido a noite fria e distante. Nela está o futuro e o passado, a tristrza da partida e a alegria da chegada.
Só as estrelas têm luz própria, Carol.

terça-feira, julho 01, 2008

tempo controverso

Salas.

Não pude deixar de me lembrar, instantaneamente, do Leminski:

"um homem com uma dor
é muito mais elegante
caminha assim de lado
como se chegasse atrasado
andasse mais adiante".

A sua prosa está leminskiana.

Ou será bem o reverso? O tempo é controverso!

De seu amigo,

confuso honorário.

segunda-feira, junho 09, 2008

Junia - o relâmpago é azul

A paixão é como um relâmpago azul

Sim, havia as estrelas vespertinas, em eterna disputa no vasto nankin celestial.

Uma delas, por sinal revelado, era uma pequena e tímida guria. Era bailarina. Figurava no corpo de baile do Municipal. Na última vez que a vi, já casada, emprestei-lhe um livro enigmático (O-Que-Sabe: Eclesiastes: = Qohelet, de Haroldo de Campos) e ela mo devolveu com uma pequena, delicada, misteriosa folha em branco.

Até hoje leio em sua alvura a multidão de mensagens cifradas que cabem na pequena folha. Sei que foi um silêncio eloqüente!

Alice

Um pouco antes da bailarina mórmon, havia a Alice.

Meu deus, que foi aquilo? Parece que desço agora, sem peias, nesse transbus da memória que me leva a uma profunda Feira de Ciências.

A madrugada gélida ainda está lá atrás, numa são bernardo que já não existe aqui fora.

"If I were a swan, I'd be gone. If I were a train, I'd be late. And if I were a good man, I'd talk with you more often than I do".

Lembro-me da noite fria que tornava a melodia de Waters penetrante.

Jorge Odara

O Jorge era ator e autor de si mesmo, o que no fundo faz dele um impenetrável mistério.

Conheci-o pelas ruas de São Bernardo, sorrindo para as estátuas, dormindo com as estrelas, sonhando com o amanhã.

Chegando sempre atrasado, ele é que estava à frente!

Partiu como chegou, suave como a brisa de uma tarde esquecida.

Ariel Dennis Denstone

Vim de Pindamonhagaba pensando... rádios velhos, válvulas, som, o quartinho úmido da casa modesta situada nos Antares...

Como ele pode inventariar meu passado num lance de olhar?

O Ariel está muito além dele mesmo. Transpôs o arco das aparências confortáveis e padece no calabouço interior. Seus olhos continuam uma porta aberta à terra do fogo, uma patagônia imemorial que resiste ao tempo nalgum ponto entre a São Bernardo embaciada e as estrelas fulgurantes da segunda galáxia.

Transbus e transístor: transido pela trampa de memória!

Memórias & marmitas

Deitando nomes ao léu: Taquara, seus olhos marinhos não cabem na marmita.

Deus sabe que não estou louco o suficiente.

Mas um dia, quem sabe, alguém lançará uma pergunta ao Google_Universe com as tags - Taquara .AND. Marinho .AND. Marmita - e a minha história será contada. Minha e a de minha mãe também.

Que labirinto minóico! Do Minho ao Minhoca, tudo é terrinha da memória!

terça-feira, fevereiro 12, 2008

Portmanteau



O meu querido Pepo tem um sentido muito particular de realidade.

Está sempre testando os limites, propondo charadas mágicas e dando respostas que são sempre outras perguntas.

É como se o sentido do mundo devesse ser construído pouco a pouco, sem pressa, tranquila e serenamente como serão os eternos vales de São Tomás de Aquino.

O mundo adulto? Ele que se contente com suas pobres metáforas, ora bolas!

Na volta de Juqueí, enfrentando a desconcertante inteligência da Lelê - imbatível do jogo de adivinha e formação de palavras -, o Pepo constrói uma linda palavra que se inicia com "do".

O desafio, na verdade insuperável, era descobrir nomes de animais que se iniciam com "do".

- Do, de domelo, respondeu lesto e lampeiro.

- Domelo? - todos se entreolharam surpresos.

- Os domelos vivem no mar... Abaixo do cavalo marinho - explicou serenamente.

Os domelos desde então passaram a embarcar nas alegres e ruidosas viagens que se sucedem na viatura Cyrimin.

Sétima Sala


Salas, Eu sempre imaginei que pudesse tocar piano sem dever-ser jamais um... pianista!

Pobre de mim, simples mortal, posto em cadeias técnicas, condenado a ser músico em potência!

Às favas a música perfeita das esferas! À quadratura o ouvido obtuso! Aos bicos a terra firme da técnica!

Aborrecia-me, à morte, o Bona compassivo, que me fita agora e sempre de rabo-de-olho, desconfiado de minhas síncopes essenciais.

Para que servirá uma arritmia absoluta para os cânones estabelecidos da música funcional? Rumor cósmico, entropia musical, todas as músicas do universo no ruído informe.

Arrrghh! Sou um ser super-sônico!

Ah! Salas, sou um músico comum. Qualquer um. O que me dá certo conforto é saber que: qualquer um pode! (em resposta ao Blogue do Salas em Ventriloquia).

Descobri que tinha uma cara feia na época da ditadura.

Confirma-o comentário oblíquo de uma ilustre cinéfila, cujo nome não calha, nem lembra. Tempos de chumbo aqueles, lá pelos idos de 73, 74. A ditadura militar nos impunha um manto de terror e ali embaixo, bem quietinhos, nos confortávamos por um código rebarbativo, nos entendíamos e compreendíamos. A bem dizer, sobrevivíamos pela linguagem!

Lembro-me de ter caído bêbado, como um meteoro negro da fala de Neruda, preso à cadeirinha azul do Teatro Cacilda Becker.

Logo me perdi de vista, tragado pelo écran numinoso que explodia a face em preto e branco. Disse a cinéfila que eu correspondia à sucessão de imagens interiores terríficas do Sétimo Selo, de Bergman. Minha cara era horrenda: “como era feio aquele cara estranho que se sentou à minha frente” - confidenciou a um amigo comum.

O amigo ria às largas, seu riso branco e afônico reverbera ainda nalguma câmara secreta.

Sabia-me um lindo feio, um crédulo leitor de Susan Sontag, para quem a doença e a fealdade serão simplesmente metáforas.

terça-feira, janeiro 15, 2008

Saint-Exupéry, oliveiras e o tempo

Em seu aniversário, ofereço-lhe a linda cena de Antoine de Saint-Exupéry, quando o narrador conta, de seu pai o desejo de que os homens sejam como o ramo de oliveira a sentir o balançar de Deus:

"Tal como acontece com a árvore, não podes saber seja o que for do homem se o desdobras pela sua duração e o distribuis pelas suas diferenças. A árvore não é semente, depois caule, depois tronco flexível, depois madeira morta. Para a conhecer, é bom não a dividir. A árvore é essa força que desposa a pouco e pouco o céu. É o que acontece contigo. Deus faz-te nascer, faz-te crescer, enche-te sucessivamente de desejos, de pesares, de alegrias e de sofrimentos, de cóleras e de perdões, até que te faz ingressar de novo n´Ele. E, no entanto, tu não és aquele estudante, nem aquele esposo, nem aquela criança, nem aquele velho. Tu és aquele que se cumpre. E, se sabes ver em ti um ramo que balança, bem pegado à oliveira, nos teus movimentos hás de gozar da eternidade. E tudo à tua volta se tornará eterno. Eterna a fonte que canta e soube matar a sede de teus pais, eterna a luz dos olhos quando a bem-amada te sorrir, eterno o frescor das noites. O tempo deixa de ser uma ampulheta que vai gastando a areia, e faz lembrar um ceifeiro que ata a sua gavela." (Antoine de Saint-Exupery - Cidadela)

Um abraço terno e o desejo de que "se possa cumprir" e que se embeba desta eternidade...
Aline e Thiago

sexta-feira, janeiro 04, 2008

Ainda a árvore genealógica

Minha avó foi ROSA SCAGLIUSI (JACOMINO), filha de Vitor Scagliuisi e Maria Scagliusi.

Pelo post de Heitor Felipe, fiquei sabendo que

"Vitor Scagliusi era irmão de meu avô, José Scagliusi, pai de minha mãe, Maria Scagliusi Felippi.

Sua avó Rosa tem mais dois irmãos: Crescencia e Jacomo.

Infelizmente, com o tempo fomos perdendo contato. agora, com a internet parece que estamos reencontrando alguns parentes.

Realmente seu bisavô veio de Bari, mais precisamente de Polignano Al Mare e sua bisavó tinha o nome de solteira de Maria Carrieri.

Eles moraram durante muitos anos, na Rua Catumby, no Belenzinho, em SP".

Realmente... a Internet reatou alguns fios perdidos...

Scagliusi - os avós paternos

Sempre penso em deixar elementos para os meus filhos conhecerem a origem da sua família. Por parte de pai, minha avó tinha o sobrenome Scagliusi.
No site da Casata Scagliusi no Brasil, retirei o texto abaixo:
Nome de família típico da Região da Apúlia, sul da Itália.
Sua incidência mais expressiva e quase exclusiva se registra na cidade de Polignano a Mare, Província de Bari.
Suas origens etimológicas são controversas.
Alguns recorrem ao termo latino "scala" escada, degrau, com o seu sentido transferido para a conformação do solo, indicando patamar, degrau, terraço em encosta, em escarpa rochosa ou penhasco. Outros invocam o termo germânico "skalja, skalia", vagem, fragmento, escama, lasca, laje, com o mesmo sentido aplicado também à topografia. Com o acréscimo do sufixo latino "-osus", ambos os termos realizam em "scaliosus", que evoluui para "scagliosu, scagliusu", nos dialetos meridionais.
O sobrenome é, pois, um toponímico e indica cidadão residente num terraço de encosta de montanha, de uma escarpa rochosa.
Há um patriarca dos séculos XII-XIII, assim chamado em razão de sua procedência, ao legar este seu cognome como apelativo específico e comum a todos os seus filhos, deu origem à "Casata [família, clã] delli Scagliusi".
O sobrenome recorda a origem geográfica e a figura do fundador desta Casata, o "capostípite Scaliosus, Scaliosu, Scagliusu, Scaglioso".
[O estudo, brasão etc. foi obtido no site de Domenico Scagliusi.

segunda-feira, dezembro 31, 2007

Blyan

Naquele breve período de tempo, conversando intensa e interminavelmente com a amiga Iêda Roberto, procurava desvelar o que intuia e suspeitava ínsito no discurso da amiga.

Ficava assim atento quando relatava, com fidelidade canina, o dia passado juntas; procurava, vamos dizer assim, um sinal, um brilho... na verdade uma incerteza — sim, porque de nada me serviriam aquelas certezas que caem como cansados meteoros negros.

Verifiquei — surpreso de início, já logo inquieto em seguida — que muito antes já me flagrara observando seu trabalho. Proficiente. Competente. Expediente. Mas era muito mais do que isso: o retraço daquele gesto delicado, a eficiência discreta de quem sabe das coisas (“eu / quando olho nos olhos / sei quando uma pessoa / está por dentro / ou está por fora // quem está por fora / não segura / um olhar que demora”), a fina inteligência, que se expressa assim, enevolada, teia delicada e sensível, finamente entretecida de tal arte que meus olhos não decifram a justa mandala: lã na teia! Mas, acima de tudo, sempre e imbatível, o estilo. A Mulher é o seu estilo!

Enfim, procurei, talvez insensatamente, as trilhas, os senderos dilucidados da topografia acidentada dos desejos e afetos. Perscrutar estes caminhos é arqueologia. É pura descida. Vertigem.

Como um estranho fogo que arde e a tudo incendeia tão-só pela força irresistível de seus elementos, este raro sentimento penetra e contamina em mim todos os meus sonhos e desejos: decifra-me para o puro mistério; torna-me desconhecido, selva fechada, fulmina a solidez de minhas certezas tão-só pelo toque diáfano e sutil de seus encantos. “For all that beauty that doth cover thee / Is but the seemly raiment of my heart”.

Já exasperado, constelei-me de livros. Poesias e poetas; filosofia e direito. E dicionários, sempre os dicionários. Tranquei-me naquela sala da UNESP e cai num sono profundo de sonhos em que me via mergulhado nos velhos e inexcedíveis alfarrábios, procurando diligentemente encontrar uma chave que pudesse descerrar algumas daquelas portas. Assim como naquela passagem em que o poeta encontrou um lugar, um sítio insuspeito nas entrelinhas de uma enciclopédia, desesperei-me ao descobrir que os dicionários não registram o seu nome!

Eis-me percucientemente examinando as amareladas páginas daquelas obras imorredouras, à caça de um sentido, um significado, um miserável signo que fosse e que pudesse traduzir um tanto deste mistério que me faz Mérlin, rendido e prostrado diante deste encanto maior, que é ainda mais explêndido que todos os encantos e feitiços deste ou de qualquer outro mundo... Me vem à cabeça a trilha sonora de Bewitched, Ella Fitzgerald interpretando finamente Rodgers & Hart. A caça deste nome, cujo som faz percutir outros tantos, raros acordes em mim, e que além de tudo é o mais belo e gracioso, não me está sendo tarefa fácil.

O seu rastro perdeu-se na algaravia dos dicionários que insistem em azurrar!

Como um cão que fosse colhido de surpresa pela chuva (a apagar e malbaratar todos os sentidos) sinto-me perdido! Dispersaram-se-me todos os rastros, todos os caminhos. Seu rosto já é o semblante de todas as gerações, pesando como um poderoso mito, uma nesga de luz na floresta, um tímido feto, multiplicação multifária de sentidos, constelação de sentidos, explosão de sentidos — como se pudesse reconhecer-me em cada um deles, e verificar paralizado que também meu nome desconheço!

Vestis distinticta aureis stellis
(ou de como pude perceber o quanto meu desejo era complexo !)

Dissipo na cintilação furtiva das estrelas
a fulguração de meu desejo.
Mas, constelar-me de tantos astros
— A que serve ? —
Acaso não pude reconhecer
— ainda (dis)traído —
a flama de teu corpo-vestido
semeado de estrelas de ouro?

sábado, dezembro 29, 2007

Carta ao Waldir

Waldiroso,

respirar como as galáxias,
inspirar como John Coltrane,
transpirar como Mike Tyson,
pirar como hendrix...

Meu caro amigo-menino.

Tantas travessuras
mundo afora,
noves fora,
naves fora
nessa louca viagem
bem aqui:
dentro.

Tanta poesia
a concretizar
nessa encruzilhada da vida.

Meu amigo.

Como a palavra fere os sentidos
e anima o coração cansado do argonauta!

Saiba que a coalhada seca na marechal deodoro
embaciada de vapores e frio
ficará como um som dos beatles.

4 ever!

sexta-feira, dezembro 21, 2007

O hipopótamo e a fome do infinito


Oliveira Vianna me cai às mãos nesta tarde chuvosa de verão por expressa indicação de RD. O descerrar cuidadoso de suas páginas amaralecidas, dobradas há décadas sobre si mesmas, causa-me uma alegria inocente de descobertas.

Que novidade haverá neste alfarrábio ocluso? Como resistiu até a sua chegada na Medicina Anima?

Diz o historiador e sociólogo n´O occaso do império que seu método, para colmatar as lacunas e buscar as razões da sideração e queda do último Gabinete, tal empresa o levaria às causas primeiras projetadas na larga praia do passado. Diz que a lógica do historiador é como o hipopótamo de Machado: "tem a fome do infinito e tende a procurar a origem dos séculos".

Descubro-me nas apreensões de Vianna. Busco o fio condutor que nos ampara desde a Reforma Pombalina até o Regulamento Hipotecário de 1846. Que percurso! Está lá na summa hipothecaria.

O texto de Oliveira Vianna fala-me desde a Teresópolis de 1925 e repercute nesse instante em que o ano se dissolve na irrelevância das imagens que já não apontam para os seus objetos, nem necessitam. Os signos furtam a substância dos entes.

quarta-feira, outubro 17, 2007

Klempsberger

O meu amor em Madrid, com o olhar que me vê tão fora de foco quanto o resto da cidade tomada por liberdades, drogas e caça aos curas.

Ela logo dirá que estou klêmps. Ou Bergulino. Tanto faz. Algumas pérolas de neologismo que fazem parte de nosso particular vocabulário sentimental.

Caminhamos céleres para um longo valle, onde os caídos somos todos nós que acreditamos um dia no sonho.

segunda-feira, julho 23, 2007

O céu, a terra e o não-é

A história que vou relatar aqui não aconteceu. Mas tentarei ser fiel ao fato em seus impressionantes e significativos detalhes.

Foi assim: num post anterior, nos comentários que fiz sobre ascendência e ritos de passagem, anotei o terrífico sonho que tive com a Lê e a minha mãe. Mal poderia imaginar que o sonho era de alguma forma premonitório.

Estávamos em Lins. Vocês sabem, a Lelê é artista. Artista do circo. Está confiada que é exímia acróbata. Eu estupidamente consenti que se lançasse a um exercício de arvorismo seguido de uma descida vertiginosa na tirolesa. Deus meu! Minha linda macaca de fogo despencou de uma altura absurda, sem freios e anteparos, vindo a chocar-se violentamente com um poste de madeira. Um duro e estúpido poste de madeira.

Estarrecido com a cena, caí de joelhos e clamei aos céus. Naquele instante decisivo não pude mais do que rogar clemência e chorar convulsiva e desesperadamente. Senti meu coração ser transpassado por um dardo certeiro, imediatamente fiquei tomado por uma dor lancinante, transido de um sentimento de perda que mal consigo superar até hoje. Parece que minha alma ainda pranteia.

Fomos parar no hospital de Lins com suspeita de traumatismo craniano. A Lelê ficou em observação por 7 horas consecutivas, horas de aflição e angústia que passamos a mãe, a Lê e eu.

Ainda não entendi muito bem o sucedido; mais importante ainda, não pode compreender o que realmente não ocorreu - se é que me podem entender. Digo-lhes tão-somente que a Lelê não sofreu um único arranhão. Inexplicavelmente saiu ilesa do episódio.

O fato é que, naqueles bilionésimos de segundos, onde a trajetória de um se torna inapelavelmente irreversível para tudo e todos, em que o futuro se toldaria numa triste sina, de alguma maneira pude compreender que também o passado se transforma e se torna tão imprevisível quanto o futuro. Nessa passagem dos tempos algo significativo ocorreu. Nesse precioso momento, em que tudo pára e se suspende numa vacuidade inexprimível, fez-se uma ponte em que os fatos simplesmente não são.
Um dia, quem sabe mais à frente, volto ao assunto. Se puder. Basta que termine dizendo que os peixinhos da Lê, que se achavam no escritório nas férias, entre eles havia um, que se fez inexplicavelmente torcido, revoluteando pelo aquário como se padecesse de uma paralisia mortal. Fiquei horas a fio observando o peixe e procurando debalde controlar os pensamentos absurdos que me assaltavam e ainda assaltam nas noites insones.
Dei gratia!

domingo, julho 01, 2007

Mamãe e papai juntos

Nesta última sexta-feira, dia 29 (Dia de S. Pedro) concretizei um desejo que minha mãe alimentou ao longo de seus 40 anos de viuvez: unir-se enfim ao papai falecido no longinquo ano de 1961.

Ambos estão depositados agora num lindo jardim.

Não sei exatamente o motivo interior, mas tocado por essa idéia, procedi à exumação de ambos e os levei para um cemitério em São Paulo (da Paz), onde foram sepultados numa tarde radiosa, iluminada por uma cerimônia discreta e solitária. Deitei vinho sobre a relva e orei agradecido.

A viuvez de minha mãe foi um celibato. Ter podido realizar esses traslados, poder ver o esgotamento das virtudes que o corpo sumido anuncia e ter a certeza de que lhes devo a minha vida, com a graça de Deus, fez desse ritual um marco de respeito, amor e dedicação familiar.

Que descansem em paz.

segunda-feira, junho 25, 2007

Perguntas que calam II

A Blyan às vezes é surpreendida naquele momento mágico em que nos encolhemos para uma expansão ainda mais maravilhosa. É a hora das histórias infantis, contadas com a doçura e encanto que só a mãmi tem.

Nestes últimos dias a Estrelinha entregou, para ser repartida entre os pequenos, a história de Rapunzel. Todas as noites nos encontramos com os desejos da mamãe pelos rapôncios proibidos. E sempre o mesmo interesse se renova pela história que se repete e não tem fim. (Os contos infantis são eternos).

Certa noite, tendo conseguido ultrapassar o arco do conto, debaixo do edredón de lã, a Lelê pergunta bem baixinho:

- Mãmi, quem cuidou da primeira criança que houve no mundo?

A mamãe logo cuidou de depositar a magna responsabilidade nas mãos do Grande Papai do Céu, que tudo provê.

- Mas... e quem ficou cuidando do céu?.

Sem dar tempo à aflita mamãe, dispara:

- E quem deu de mamá ao nenê?

domingo, junho 24, 2007

Perguntas que calam

Na volta da Festa da Lanterna, de onde recortei as lindas fotos, viajando a bordo da bicicleta tripulada pelos meninos, provavelmente impressionanda com o itinerário feito às escuras, a Lelê nos colhe em perplexidades. Mirando o firmamento, dispara:

- Pápzi, por que o céu na cai na terra?

A única coisa que me ocorre nestas horas é fechar os olhos e confiar na intuição. Logo devolvo desajeitadamente:

- É por que tudo tem uma ordem natural. Foi o Papai do Céu que pôs as coisas em seus lugares.


Olhando a noite estrelada emenda:


- E por que as estrelas não caem?


O silêncio nos envolve a todos. Conto-lhe a história de uma linda estrelinha que pergunta ao seu papai:

- Pápzi, por que a terra não cai nas estrelas?


Ficamos um longo tempo em silêncio debaixo do firmamento.


domingo, junho 10, 2007

segunda-feira, maio 14, 2007

Uma noite de 2006 (ou manhã de 2007)

Meu amor, são tantas as incertezas, tão grandes as dúvidas que me assaltam quando o silêncio nos colhe na boca da noite.

Estou aqui, bem ao seu lado, tocando de leve sua mão, abraçado ao Pepo, ouvindo atento a voz maviosa da Mami que entoa canções de ninar. Vêm de muito longe as cantilenas recebidas do pai querido e pranteado. Penso que ainda lhe pode ouvir, bem no fundo de seu despenhadeiro, a voz tranqüila e serena que ultrapassa as franjas da serra, se esparrama preguiçosamente pelas reentrâncias de uma São Tomás de Aquino que brota num cantinho da cama forrada de algodão e amor.

Repasso no écran da alma o dia vivido às voltas com atribulações mundanas, preocupações ociosas, sobressaltos, temores, apreensões. Todas as coisas estão cheias de cansaço. Tudo passa, tudo sara, socorre-me a idéia de que já logo não haverá lembranças, nem noites, nem dias. E no entanto, outras lembranças virão, outros dias e noites, maiores ou menores certezas... O rio segue sempre seguro ao encontro do mar.

Aqui de longe, advinho as belezas do caminho e a minha alma se enche de alegrias e esperanças. Feliz natal a cada novo dia!

terça-feira, maio 01, 2007

Beth Gotto

Sérgio.
Eu acho que você não vai me responder....

Mas eu preciso te dizer uma coisa. Eu não te entendo bem. Sabe, quando a gente era criança você era especial, um vulcão de sentimentos, de paixões, capaz de chorar, de rir, de ser muito gentil... Foi por isso que eu guardei as tuas fotos e a tua carta com muito carinho.

Porém, hoje eu não te entendo, parece que tua vida é o cotidiano. Mas, e a tua poesia? O que você escreve é forte, parece ser a reflexão de um viver cheio de coisas boas, mas (espero conseguir me exprimir bem), o teu relacionar é cauteloso, reservado a poucos.

Mesmo que não te lembres de mim, não quer dizer que eu não tenha sido importante em tua vida. De tua formação eu também participei, do que é hoje também... Os nossos papos, a tua música, os discos de Alice Cooper que você me deu de presente, quando você não tinha nada e um presente era mais do que você podia... Eu, como você para mim, fomos bases pequenas, que se refletiram no nosso presente, mesmo que a gente não as percebamos.

Eu sei que você hoje é um homem muito importante. Mas, o que isso quer dizer? Que você não é mais o Sérgio? Pena eu não ter uma grande capacidade de traduzir as minhas sensações com um português perfeito, mas estou tentando entender o que lhe ocorre: você usa a lembrança como uma história que não mais te pertence, isso para se defender do tempo distante demais?

Sabe, quando te deixei, rezei tanto para que você vencesse na vida, pois o que você era não deixava um bem esperar. Graças a Deus você é o máximo do que podemos desejar para um irmão!
Mas, é que sinto falta do Sergio... Aquele que sabia ser gentil, mesmo quando uma pessoa não fosse do seu interesse. Betty Gotto

sábado, abril 28, 2007

Sr. Lupus e a toponímia portuguesa

No closet da casa há o desdobramento de um mundo misterioso. Muito antes das Crônicas de Nárnia profanarem o sentido mais profundo dos mistérios que se aninham nas reentrâncias de um bom armário, já explorávamos os fantásticos seres que habitam o móvel lotado de roupas e coisas do pápzi e da mámi.

No closet vive um habitante que é conhecido de todos nós aqui de casa, um antigo amigo da Lelê. Trata-se do Sr. Lupus, um velho e tranqüilo lobo solitário, que tem hábitos noturnos e, ao que parece, freqüenta todas as noites a biblioteca do pápzi, lendo compulsivamente os livros de filologia dispostos na estante superior. (Suspeito que agora se dedique aos substanciosos volumes de Etnografia Portuguesa, de José Leite de Vasconcelos).

Como foi que o encontrei? Bem, um certo dia deparei-me com a cauda do Sr. Lupus estirada, despontando de uma gaveta escura, alçada à altura do meu rosto. Levei um enorme susto! A Lelê saiu aos berros pela casa, os cabelos acobreados agitando-se ao vento, a espantar o pequeno Pepo.

Refeito, pensava ter encontrado um chapéu antigo, regalo de um registrador do interior da Bahia - inúteis lembranças dos encontros registrais do Irib. Qual o que! Tratava-se do Sr. Lupus, o velho lobo tímido que distraidamente agitava a sua calda solta no ar.

Hoje sabemos de sua faina intelectual e de seus silenciosos hábitos de leitura. Ainda agora o vi, obsequioso e esquivo, entretido com a etimologia de Espiche, onde se acharam algumas lápides que atestam a passagem dos judeus na Península na alta idade média portuguesa.

Lavradio de estrelas

Ainda agora há pouco participei da cerimônia noturna que nos tem a todos, família e anjos, diante dos misteriosos portais de Hypnos. É a hora de dormir, tempo de recolhimento e silêncio. Acende-se o candeeiro sagrado da família, as palavras sussuram os segredos profundos das histórias infantis e se faz um momento de profunda compreensão. Lá fora sopra um vento outonal.

Meus pequenos embarcam na caminha aconchegante. A Helena enovela-se em meus braços e se prende à história com os olhinhos cerrados. Sinto o toque cálido de seu hálito nos meus braços e compreendo que a vida é uma grande bênção. O Pepo, meu querido soldadinho de Têmis, senta-se num canto da cama e contempla na penumbra a mãe, deusa magnífica que nos inspira e reconforta.

Para muitos, ainda é muito cedo para se recostar. São quase oito horas da noite, a casa aquieta-se, os cantos se tornam difusos, a luz reflete complexos arabescos no jardim sombrio. Não há televisão, nem a zoada caótica de um mundo que se desfaz em fragmentos de sentidos. Há somente a voz maviosa da mãe que nos diz os mistérios da infância.

O lavradio insinuante de palavras suaves vai iluminando o caminho de volta às estrelas. Depois dos Sete Cabritinhos, Blyan entoa tranquila: "Senhor / quem entrará / no santuário / pra te louvar? Quem tem as mãos limpas / e o coração puro / quem não é vaidoso / e sabe amar".

E lá vai a nave de anjos azuis, desliza suave e tranqüila numa longa estrada cravejada de pequenas luas, sereias e estrelas.

sexta-feira, abril 27, 2007

Mais do Cândido Sérgio


Outono

Acordei com o outono batendo em gotas da minha janela e senti saudades do eu que ainda há em mim: são bernardo toda nublada e fria e eu ainda aqui, firmando os pés no chão e dizendo: sim, estou vivo!

Uma história dentro da outra. E pensei no dom das palavras que, sem sentido algum, constróem a gente e o mundo e pensei na devastação da morte. Não a nossa particular e egoísta, comum, corriqueira, na verdade fugaz quando acontece. Mas na morte dos outros. A morte que nos indica que o nosso mundo está morrendo.

O que fazer quando não tiver mais a Sonia, o George, o Sérgio, o Adilson, a Irene, a Márcia, a Cristina, o André, a Solange. O que fazer quando, pouco a pouco, de modo inexorável, se for toldando o horizonte? Quando esses olhares não mais trouxerem a alegria e a imensidão desse mundo e suas incríveis visões?

Então uma fúria, uma festa, uma irracional alegria silenciosa, como um vulto feroz andando no escuro se apossa de mim e fico saboreando cada partícula de ar que respiro, cada pedacinho de lembrança que tenho e sigo pelo outono, feliz, quase liberto, sabendo que vocês estão por aí.
Respirem, respirem e respirem!

Beijos, Waldir Martins

segunda-feira, abril 23, 2007

Cartas rubianas - ou o significado de EPW´s

Dos mistérios dos acrônimos.

É disso que o Sr. Dr. José Ruben deveria cuidar precipuamente. Uma certa semiologia do inconsciente que identifica nesses troços mal-traçados o perigo de Tânatos travestido de Eros.

O altar moderno, o sítio em que deitamos nosso sémen burramente desperdiçado, caverna de onde é possível divisar, em parte, mui toscamente, os mistérios de Elêusis (e não sabemos o que fazer com isso), eis os motéis modernos! Ou simplesmente EPW´s.

Nossos romances encardidos de certa humanidade, alienada de si mesma pela poeira de silício, se transformam, pela magia erótica, em sublime conjunção. Mysterium conjunctionis. Em átimos de segundos, nossas secretárias, amantes eventuais, companheiras de fainas des-desejantes (em que nos metemos por pura distração patrocinada por la loca de la casa), se transformam em Deméter e Perséfone.

EPW´s. Francamente...

O mais curioso é que os acrônimos ou essa técnica - que haverá de ter um nome, Dr. José Ruben - de extrair as vogais e manter as consoantes, forçando uma leitura que se apóia na memória de significantes, essa acronímia imperfeita resgata nomes estranhos para um motel. Olhe a palavra de soslaio; desdenhe do vocábulo. Trate-o com adrede desprezo (a ver se se abre, como uma flor perfumada de sentidos).

Palavras... estão para nós como as rosas para os sóis de nossos olhos. Revire-a, apalpe-a, boline-a. O que surge, então?

terça-feira, abril 03, 2007

Rainbow bridge


quinta-feira, março 29, 2007

Baca: uma estrela peregrina

Querida Célia, certa feita, estava eu já em Franca, numa noite sem estrelas, uma daquelas madrugadas de sobressaltos no grande Edifício da Acif, despertei após um sonho tumultuado com o Sérgio Baca Cândido. Fiquei estático e em silêncio. Nessa semiconsciência, vinham em graves soluços imagens partidas, vertidas nesse caleidoscópio da alma. A pele eriçada por um vento que não havia... sei lá! Era uma sensação muito estranha. Custei a ferrar no sono.

Logo pela manhã, já no trabalho, recebi uma ligação de um amigo comum - o Paulo Barreto - que me dava a triste notícia do passamento do Baca.

"Jênkis!" - dizia Sérgio candidamente... ainda o vejo empunhando a bíblia e o violão -, "se prepare... se prepare!" e logo desatava um riso generoso que iluminava o semblante de santo monacal.
Hoje a frase ganha uma nitidez profética. A barba, o cabelo, um blâiser caramelo que era sempre menor que o manequim, tudo se harmonizava naquele homem singular. Era como se aquela alma peregrina jamais tivesse se acomodado no corpo e tendia, como uma estrela trânsfuga, à partida repentina.

Uma estrela da manhã, querido Sérgio, v. foi uma linda estrela da manhã! Prenunciava-nos uma luz que, certa como a noite retinta, se apresenta pontual para cumprir o movimento eterno de mudanças.

Ah! Célia, ambos amamos esse homem, Mas de diferentes maneiras. Eu o queria como um irmão que jamais tive; nutria por ele um indizível amor fraternal. Selamos uma aliança de militares de Cristo. Formávamos uma soldadesca singular, legião estelar, guerreiros do arco-íris, congregados numa Família forasteira. Todos nos saciávamos de um sei-lá-o-quê prometéico, aninhado na sua bolsa de couro, que sempre trazia a tiracolo. Havia algo de divino no Sérgio, que repartia generosamente entre todos nós.

Minha querida Célia, pranteamos a sua partida, é certo. Mas tenha a certeza, contudo, de que o Sérgio cumpriu seu itinerário iluminado de Argonauta das galáxias. Foi-se com uma estrela ligeira, deixando-nos um rastro de luz e sabedoria.

Bye, bye, Baca! distribua esse fogo sagrado entre os povos daqui e de acolá. E até breve!

(E a você, querida Célia, meu agradecimento pela oportunidade de (re) conhecê-la. Cumprimos assim nosso destino naquele encontro imponderável. Desate os nós que ainda possam tê-la presa ao pó das estrelas e mergulhe no coração da luz, onde tudo é. E não é).

Com meu amor, SJ

terça-feira, março 20, 2007

Helena Saracotena

Helena Saracotena. De onde será que meu Amor tira esses nomes tão sonoros? O mundo é uma grande palavra. Saborosa, revoluteia entre estrelas no céu da boca.

Arvada = bosque
Capibel = carrinho de boneca
Artita = reinação, traquinice
Votita = vovó
Papizerland = papai
Zerland = papai
Moncra = monstra
Defeu = travesseiro
WaWaPa = cachorrinho. Pode se escrever ua-ua-pa.
Paripunga = "Você pula e cai no paripunga". Acho que é algo como um travesseiro que arrefece a queda desde o alto da cama.
Afocrévita. Hein? A-fo-cré-vi-ta! Acredite se quiser: é balanço. A Lelê entrou no quarto e disparou: "Zerland, me empurra na afocrévita?". Ainda arrisquei olhar no Google, pobre de mim!
Quadraquinca - caderno hachurado.
Camícula - cama.
Desobedessura. Ato de desobediência. Parecido com travessura.

Ah! meus queridos filhos. Acho que sou um homem comum. Pleno de sentimentos raros aos quais não lhes posso nomear.

domingo, janeiro 21, 2007

Assomo, logo existo

Um pequeno flagrante - antes de afeitar-me por amor a Blyan.

Esse homem que assoma, quem será? Não assumo que seja outro - além ou aquém de outros tantos que desde sempre fomos.

Almas judias, estrelas antigas, peregrinas, que falam a lingua dos anjos e dos homens; pequenas e delicadas criaturas, encardidas do pó e da dor dessa longa jornada.

Chuvas de mau presságio

Esta manhã acordamos no silêncio da profunda fadiga de uma tempestade amainada. Na véspera, as águas chegaram em rodopios impetuosos, surpreenderam os homens, levaram os cães, tragaram os cavalos e as pequenas criaturas da noite.

O Rio devorou com raiva e violência a criação assustada e desamparada.

As pontes desabaram, as ruas foram inundadas e Patrocínio Paulista se transformou em uma província de lama, barro e lamentações.

A Lelê dormiu sobressaltada. Testemunhou a família agarrada às telhas de sua casinha miserável, ilhada pelo furor das águas.

Chuvas de maus presságios.

Pepo (by Fernando Passos)

Ao Pedro, com amor.
Queria ter o dom dos poetas para dizer que Pedro veio, veio, porque esperado era.
Pássaro que passa e fica, deixa sua marca que já era no todo, a marca que se esperava e que se sabia: viria porque conseqüência lógica da leveza já existente, ali existente e talvez pouco percebida.

Veio, veio para demonstrar a síntese, não passou, pousou, porque ali era seu ninho.

Ali? Não, aqui, em nós mesmos, em cada um de nós e essencialmente em nós. Mas o que é esse nós? Um interior indesbravável, tânico/jacomínico, cuja essência só pode voar para de lá nos ver em nossa insignificância tão esplendorosa que nos faz irradiar luzes para aquilo que do nada voa, mas que do tudo reluz, pois luz própria produz e quando pensamos ser a nossa que nele reflete é na verdade um mero jogo da dialética própria do amor entre os homens.

Eu veio, veio, graças a Deus, eu veio veio continuar a saga de um amor intenso, mami. Eu veio ser eu, ser você, ser papi, ser o mundo, o pássaro e como diz papi ... ser simplesmente um menino.

Mas eu veio também para ver amigos do papi finalmente chorar ... essa emoção boba, ingênua, verdadeiramente brega de me ver pela primeira vez. Já não me conheciam os babacas pela essência?

Chorei...

Fernando Passos

sábado, janeiro 13, 2007

Um pássaro, que nada!

Mais que tudo, um pássaro.

Um Pedro-pássaro, Pedro-passarinho.

Não passarão os poetas e os passarinhos. Nem os meninos!

Eu veio!

- "Eu veio, mãmi, ainda bem que eu veio..." - assim o meu Pepo saudava o gesto bem-pensado de buscá-lo no conforto do quarto para ver o buldôzer movimentar a capa barrenta e acidentada das estradas por onde caminhávamos no final da tarde.

O Sítio transformou-se num pântano neste verão. As chuvaradas ocorrem mais concentradas, abundantes, caem como cortinas espessas. Parecem querer saciar a sede da terra e dos homens.

A relva virou pasto de anuros. Os grandes sulcos deixados pelas rodas do jeep abriram uma janela para os ínferos - o que deixou a Lelê de sobreaviso, advertida dos grandes seres que se movimentam abaixo da pele frágil e barrenta da terra.

Um sapo ousou chegar até a cozinha, rompendo os domínios de seu reino e se refugiou abaixo da geladeira. De lá coaxava para desespero da vovó e excitação das crianças. As mulheres se escondem fugindo do símbolo, os pequenos saltam excitados e logo aprisionam o rugoso para libertá-lo em seguida a custa de um justo resgate: a acrobacia de saltos desajeitados do bufonídeo em fuga. Ainda nos lembramos de lhe dizer, ao anfíbio, que deveria seguir o seu caminho. Vá!

Na estrada acidentada, o Pepo exulta. Salta como um passarinho que simplesmente não sabe que voa. E canta, canta a plenos, o doce Pepo.

- "Eu veio! Eu veio!" - rejubilava com energia na tarde plúmbea. "Ainda bem que eu veio!", completava, como a nos ensinar que de fato Deus existe, revelado num único, especial e insubstituível ato de amor. Caimos em silêncio, Dona Blá e eu, entreolhando-nos com o respeito que o momento suscitava.

O Pedro nos chegou assim, de mansinho, como o resultado de um lindo sonho do casal, ornado de um bosque, um rio, tesouros e um belo jardim.

Você veio com a missão de encarnar-se Pedro, um menino-pássaro há muito esperado. Tudo se concretizou a seu tempo, meu pequeno Pepo, tudo se cumpriu - como na bela promessa de uma terra dos homens, abundante de leite e mel.

Ainda bem que você veio, Pepo. Ainda bem!