terça-feira, janeiro 06, 2015

Crepuscular

Acabei de chegar das montanhas e já me preparo para a praia - província que me fustiga o corpo e a alma.

Estou numa correria só. O só pensar no sol da Bahia sombreia-me a alma. O duro é aguentar a fitinha de Nosso Senhor do Bonfim. Não sou bom-fã do Bonfim-colorau, atavio de cobras-corais enrodilhadas no punho feito galáxias de boa morte.

Muitos problemas neste início de ano. Restos de sombra num coração quarado - feito manta de inverno no varal. Ah... estes varais ensolarados. São mantras ao vento. Pequenas cortinas postas diante de olhos cansados das sendas partidas de sol a sol. "Acenda, Senhor, esta alma peregrina com o santo remédio das lâmpadas eternas! Anjo, derrama em caldas os mantos diáfanos de dobras indefectíveis". Mantra dos mantras, a oração de um menino há de se converter no pleito das águas rumo ao oceano. 

Sempre chegamos ao termo final. Quintal das almas: que seja - assim seja! - um bom fim. Senhor do Bonfim, bom-bom fino do fim, faz-me a fineza de estreitar o abismo entre o não e o sim. Consintas a síntese curativa de mim.

Cruzamento de todas as estradas, encruzilhada dramática, és cerzido de histórias, de dores e de alegrias. Carma primordial, meu trabalho de parto haverá de ser a partida tardia, compartida por anjos e demônios. Livrai-me, Senhor, com a inteira liberdade que me confiastes.

Enfim, não me resta mais que abismar. Abrumar. Abespinhar-me feito pinhão cravejado em cachos dourados de inverno - oh versão de verões! bordados frágeis de pétalas topázio e de bafio crepuscular. 

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