Thiago.
I
Primavera
A madrugada
Neste comecinho de segundo semestre de 2014, a professora Almut Lenk nos confiou uma tarefa muito bonita: confeccionar um pequeno caderno de poemas e desenhos sobre a passagem das estações do ano para lhe presentear.
Durante toda uma semana, o papai acordava pela madrugada e ficava cofiando a barba, pensando, pensando, pensando... O que poderia fazer para tocar suavemente essa pequenina alma de artista na véspera da primavera?
Sou mal poeta. Um historiador distraído. Quiçá um diligente escrivão do feito, do confeito e do desfeito. Confesso que mal reparo no raro e ainda me desamparo nesta angústia de árvores que se dobram como cobertores numa tarde de outono.
Pensei num poema. O primeiro deles está ali, logo embaixo. Perdido, pobre; sem rima, sem rumo. É a revolta dos meninos algaraviados que se apruma na declamada primavera-outono das idades e das gramáticas.
A Mâmi logo torceu o nariz. "Humm... Coisas Jacominianas!" - sentenciou.
Ela tinha razão. Sempre tem!
Pensei, então, em haikais. Perguntei-me: seria capaz de resgatar como que pequenas cápsulas de imagens fugidias, lembranças da minha infância no Parque D. Pedro II?
Sabe, Nini, um dia fui menino. Arrebatei-me com o tapete de chocolates do Parque depois da chuvarada de verão; deixei-me estar ao rés do chão, quieto, entre besouros, aranhas e moedas perdidas por gente esquecida. Fui visitado por estranhos sentimentos que não têm nome. Coisas de que já não se lembram os velhos.
Mas eis-me aqui, filhinho! Um velho-menino, cofiando, cofiando, desconfiado. Mas sempre fiado na sabedoria dos anjos.
Primavera
A madrugada
lança gotas e alcança
a primavera.~~~~*~~~~
Jacarandás bordados.
Mimosos lilás,
Sol desnuda e revela.
~~~~*~~~~
A alameda fia,
a lã na teia suave,
aquarelada.
II
Verão
As cigarras encantam,
olhos se incendeiam.
campânulas ao vento.
~~~~*~~~~
O rio trasvasa -
terra achocolatada.
Sol-chuvarada.
~~~~*~~~~
Essências sobem,
são as gotas que descem.
Chuvas de verão.
III
Estrela d´alva,
~~~~*~~~~
O rio trasvasa -
terra achocolatada.
Sol-chuvarada.
~~~~*~~~~
Essências sobem,
são as gotas que descem.
Chuvas de verão.
III
Outono
Estrela d´alva,
no céu logo desmaia
no espelho d´água.
~~~~*~~~~
Desde o céu se anuncia,
cor fugidia.
Olhos de adoração.
~~~~*~~~~
Nini, pequeno.
Velhas árvores dobram
Sombras e sonhos.
no espelho d´água.
~~~~*~~~~
Desde o céu se anuncia,
cor fugidia.
Olhos de adoração.
~~~~*~~~~
Nini, pequeno.
Velhas árvores dobram
Sombras e sonhos.
IV
Ventou na noite
lágrimas de topázio.
Quintal de cristais.
~~~~*~~~~
É madrugada.
O céu embaça e passa.
Lua caiada.
~~~~*~~~~
Neblina desce
sobre o parque invisível.
Não vi e visse!
V
Natal
Natal sonhado.
Casa no parque.
A parede encarnada,
vela o menino.
Escadas de luz.
A cidade em gala.
Pobre menino.
~~~~*~~~~
VI
Páscoa
Ovos ocultos,
desdobras de sol a sol.
Sítio da Tita.
Avôs e avós,
doce cordão entre nós.
Ovos de páscoa.
~~~~*~~~~
VII
São João
Balão-almofada
baila na noite infinda.
Estrela farta.
Garoa fina,
lã no casaco cinza.
Fogueira finda.
~~~~*~~~~
VIII
Micael
É luz divinal
que traduz e revela.
Claro mistério.
Inverno
Ventou na noite
lágrimas de topázio.
Quintal de cristais.
~~~~*~~~~
É madrugada.
O céu embaça e passa.
Lua caiada.
~~~~*~~~~
Neblina desce
sobre o parque invisível.
Não vi e visse!
V
Natal
Gotas na calha,
um tamborim suave.
Casa no parque.
A parede encarnada,
vela o menino.
Escadas de luz.
A cidade em gala.
Pobre menino.
~~~~*~~~~
VI
Páscoa
Ovos sortidos,
No recanto de cores.
Tantos coelhos?Ovos ocultos,
desdobras de sol a sol.
Sítio da Tita.
Avôs e avós,
doce cordão entre nós.
Ovos de páscoa.
~~~~*~~~~
VII
São João
A lamparina
rebrilha, só, esquiva.
Quem sobe, desce.Balão-almofada
baila na noite infinda.
Estrela farta.
Garoa fina,
lã no casaco cinza.
Fogueira finda.
~~~~*~~~~
VIII
Micael
É luz divinal
que traduz e revela.
Claro mistério.


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