segunda-feira, agosto 25, 2014

Outras estações para o pequeno Thiago Jacomino

Thiago.


Neste comecinho de segundo semestre de 2014, a professora Almut Lenk nos confiou uma tarefa muito bonita: confeccionar um pequeno caderno de poemas e desenhos sobre a passagem das estações do ano para lhe presentear.

Durante toda uma semana, o papai acordava pela madrugada e ficava cofiando a barba, pensando, pensando, pensando... O que poderia fazer para tocar suavemente essa pequenina alma de artista na véspera da primavera?

Sou mal poeta. Um historiador distraído. Quiçá um diligente escrivão do feito, do confeito e do desfeito. Confesso que mal reparo no raro e ainda me desamparo nesta angústia de árvores que se dobram como cobertores numa tarde de outono.

Pensei num poema. O primeiro deles está ali, logo embaixo. Perdido, pobre; sem rima, sem rumo. É a revolta dos meninos algaraviados que se apruma na declamada primavera-outono das idades e das gramáticas. 

A Mâmi logo torceu o nariz. "Humm... Coisas Jacominianas!" - sentenciou.

Ela tinha razão. Sempre tem!

Pensei, então, em haikais. Perguntei-me: seria capaz de resgatar como que pequenas cápsulas de imagens fugidias, lembranças da minha infância no Parque D. Pedro II?

Sabe, Nini, um dia fui menino. Arrebatei-me com o tapete de chocolates do Parque depois da chuvarada de verão; deixei-me estar ao rés do chão, quieto, entre besouros, aranhas e moedas perdidas por gente esquecida. Fui visitado por estranhos sentimentos que não têm nome. Coisas de que já não se lembram os velhos. 

Mas eis-me aqui, filhinho! Um velho-menino, cofiando, cofiando, desconfiado. Mas sempre fiado na sabedoria dos anjos.

Seu pai.



I

Primavera

A madrugada
lança gotas e alcança
a primavera.

~~~~*~~~~

Jacarandás bordados.
Mimosos lilás,
Sol desnuda e revela.

~~~~*~~~~

A alameda fia,
a lã na teia suave,
aquarelada.


II
Verão

As cigarras encantam,
olhos se incendeiam.
campânulas ao vento.

~~~~*~~~~

O rio trasvasa -
terra achocolatada.
Sol-chuvarada.

~~~~*~~~~

Essências sobem,
são as gotas que descem.
Chuvas de verão.



III
Outono

Estrela d´alva,
no céu logo desmaia
no espelho d´água.

~~~~*~~~~

Desde o céu se anuncia,
cor fugidia.
Olhos de adoração.

~~~~*~~~~

Nini, pequeno.
Velhas árvores dobram
Sombras e sonhos.



IV
Inverno

Ventou na noite
lágrimas de topázio.
Quintal de cristais.

~~~~*~~~~

É madrugada.
O céu embaça e passa.
Lua caiada.

~~~~*~~~~

Neblina desce
sobre o parque invisível.
Não vi e visse!

V
Natal

Gotas na calha,
um tamborim suave.
Natal sonhado.

Casa no parque.
A parede encarnada,
vela o menino.

Escadas de luz.
A cidade em gala.
Pobre menino.

~~~~*~~~~

VI
Páscoa

Ovos sortidos,
No recanto de cores.
Tantos coelhos?

Ovos ocultos,
desdobras de sol a sol.
Sítio da Tita.

Avôs e avós,
doce cordão entre nós.
Ovos de páscoa.

~~~~*~~~~

VII
São João

A lamparina
rebrilha, só, esquiva.
Quem sobe, desce.

Balão-almofada
baila na noite infinda.
Estrela farta.

Garoa fina,
lã no casaco cinza.
Fogueira finda.

~~~~*~~~~
VIII
Micael

É luz divinal
que traduz e revela.
Claro mistério.

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