quarta-feira, novembro 08, 2006

Narciso e o perfume de Platão

Tenho acompanhado com vivo interesse a sucessão de postagens em determinado blogue, a que se chega com aplicação, engenho e alguma sorte, versando sobre um tema que há muito me instiga a curiosidade intelectual: o amor e seus vários sentidos.

Empreendi por esses dias uma excursão curiosa às paragens insólitas desse sítio cujo signo cifrado, lavrado provocativamente em seu frontispício, é ordo amoris. E mais não digo, que a diligência para encontrá-lo é sua, caro leitor; trata-se de responsabilidade pessoal e inalienável. O que lhe posso adiantar é que a recompensa é alvissareira!

Preleciona ali o nosso Mestre sobre uma espécie de amor emulativo do verdadeiro Amor (captativo, dirá com erudição), "dobrado sobre si próprio, ignorante de uma projeção para o ente amorável", portanto um amor estéril, "amor que se nutre e devora a si mesmo". E remata: "falseamento do amor. Eis aí, por antonomásia, o amor platônico".

A idéia desse amor captativo, tornado cativo de si mesmo pelo engano essencial acerca do objeto amorável, dobrado sobre si próprio, encontra um desdobramento interessante no mito de Narciso. A idéia central desse amor eutrópico, aventura de perdição nas cadeias do endopsiquismo, é, como o meu mestre bem registrou: amor dobrado sobre si mesmo, vale dizer, o amor de reflexão (: reflectere, re- [novamente] e flectere [curvar-se]). No caso de uma representação narcisista, que se projeta no falso ente amorável, é um amor solipsístico. Os fumos platônicos também aqui se percebem.

Intriga-me a idéia recorrente em todo o mitologema: o tema da reflexão. Narciso (: Nárkissos, do grego nárke, entorpecimento, torpor, donde narcótico) era filho de Cefiso e da ninfa Liríope. A mãe, tomada de fundados receios pela fato de a beleza desmesurada do filho poder representar uma démesure (hýbris: ultrapassagem do métron, descomedimento), e com isso podendo atrair a ira dos imortais do Olimpo e a mobilização de Némesis, irá consultar o vate Tirésias. "Narciso viverá muitos anos?", questiona. O mántis simplesmente lhe responde: si non se uiderit.

Será Ovídio (Metamorfoses, 3, 414-28) quem registrará a tragédia desse encontro refletido:

"Deitou-se e tentando matar a sede,
Outra mais forte achou. Enquanto bebia,
Viu-se na água e ficou embevecido com a própria imagem.
Julga corpo, o que é sombra, e a sombra adora.
[...]
É uma chama que a si própria alimenta.
[...]
A sombra que vês é um reflexo de tua imagem.
Nada é em si mesma: contigo veio e contigo permanece...


O Prof. Junito de Souza Brandão (onde encontrei farta indicação bibliográfica e excelente indicação mitológica) comenta a natureza do amor de Narciso, que se apaixona pela própria imagem refletida na fonte de Téspias: "o engano fatal do jovem tebano foi a escolha errada do objeto do amor", diz.

Quando se diz no blogue festejado que "o conhecimento platônico é um reingresso na alma do sujeito cognoscente, alma em que reside, numa suposta inatidade" estamos diante de um espelhismo fantasmagórico. Trata-se de uma relação fatal com a própria imagem, refletida embora no outro.

Borges colocou na boca de Bioy Casares a fala de um dos heresiarcas de Uqbar que declarara que os espelhos e a cópula são abomináveis "porque multiplicam o número dos homens". (Está em Ficções, na tradução de Carlos Nejar, Porto Alegre: Globo, 1970, p. 1).

Volto ao assunto.

[A morte de Narciso (1623-1626), pintura de Nicolas Poussin, Museu do Louvre, Paris].

domingo, novembro 05, 2006

Cyrimin

O bus é um veículo descolado. Micro-ônibus, MicroBus, deu no bus e pronto! É a única palavra em inglês que os meus filhos sabem e é justamente no bus que as aventuras noturnas começam - e os colóquios surrealistas ocorrem.

Sempre saímos à noite para um lugar insólito, na verdade um lugar-nenhum, nonada. Embarcamos nesta nau mágica tomando o rumo certo de Cyrimin, uma lendária farmácia a que nunca se chega.

Alguns quarteirões adiante (logicamente muito aquém do local onde poderia ser Cyrimin) a Helena já está nos braços de Morfeu e o Pedro, bem, o Pedro está quieto e observando tudo, o meu pequeno Pepo.

Mas nesta noite a Helena está excitada, não dormiu logo de saída. Vai tagarelando e resistindo, descrevendo as cenas da rua projetadas no vidro escuro do bus. Lá pelas tantas, dispara:

- Mâmi, o que é mente?

A mãe já enfadada do percurso ocioso de uma Cyrimin que já tarda responde rapidamente:

- É cabeça, Helena, é o que está aqui dentro, ó - e aponta o cocoruto. Passam-se alguns segundos e a pequena pondera e emenda:

- O ônibus tem mente, mâmi?

- Não! O ônibus não tem mente, Helena.

- A bruxa tem mente?

- ?!

E a sucessão de entidades candidatas à posse da mente desfilam na língua desperta da Lelê e a mãe atônita ainda objeta:

- Dorme, Helena, vamos ficar quietinhos até chegar à Cyrimin.

domingo, setembro 03, 2006

Muito além do jardim

Judith Levine deixou de ir às compras e colocou em pauta o tema do consumismo e suas implicações econômicas e sociais. Por 1 ano ela deixou de consumir - exceto Internet e vinho, que ninguém é de ferro.

Lendo uma pequena matéria na Veja dessa semana, não pude deixar de me lembrar de nossa decisão familiar de abandonar, já há mais de 1 ano, a televisão. A decisão ainda não está livre de censuras e perplexidades. Mas veio de forma suave.

Casa nova, vida nova, resolvemos estimular em nossos filhos a busca de novos prazeres, animá-los a novas descobertas. Era a fé no achamento de um admirável mundo novo que poderia existir muito além da diáfana cortina de elétrons.

"Vida à vista!" - poderia muito bem ter sido a síntese de nossa descoberta a bordo da nau familiar. Aranhas, pequenos lagartos, insetívoros e artrópodes que apavoram a vovó e fazem o gáudio do papi. Nas praias sempre virgens da infância, ali estava o primitivo balanço colorido, a árvore carregada de amoras, o espinheiro silvestre que não se dobra às blandícias domésticas, o escorregador, a piscina de bolinhas, a bananeira arcada de frutos e pêndulos amorosos. Diviso a terra escandida desde a preguiçosa rede abóbora que banha de ouro as paredes caiadas nessa manhã radiosa de domingo. E isso é tudo no mundo?

A casa não veio equipada com o altar comum da família brasileira, relicário pós-moderno, onde se deposita a preciosa manta eletrônica de sonhos e ilusão. Quando já arquitetava uma mudança espacial, pensei que essa falta essencial - nos interiores domésticos - representava algo realmente assustador. Oráculo laicizante, seqüestra o locus do Sagrado, profana o Santo dos Santos e transmuta nossos anseios profundos, nossos impulsos mais essenciais, em desejos travestidos. Rumora initerruptamente as verdades que se tornam, pela repetição e padrão, simplesmente indestrutíveis; plasma simulacros para as realidades interiores.

Resumo da ópera: essa sede essencial nos torna dóceis consumidores.

quarta-feira, agosto 30, 2006

Nini

Atibaia foi um enlace harmonioso entre uma semana desgastante e um porvir misterioso e instigante. Um interregno pleno de significados.

Saimos na sexta-feira, às 4 da tarde, o bus lotado de crianças e agregados, enfrentando uma longa e penosa peregrinação na Marginal Tietê infestada de ambulantes, paulistanos azafamados, bueiros, carros e rios.

A Lelê logo se impacienta. É muito próprio dela impacientar-se. Quer chegar logo à piscina, mas quer ao mesmo tempo experimentar a montanha russa ao lado; quer afagar o gatinho à margem oposta do Tietê, mas quer também caminhar no interior do bus; quer ouvir historinhas e quem sabe bulir com o pai - a esta altura já aborrecido com o trânsito e a poluição.

Mas logo despenca como uma estrela distraída na boca da noite e adormece.

O Pepe cruza as pernas. Aguarda com estilo e paciência. O Nini dorme tranqüilo um sonho de anjos azuis e dourados.

Navegamos. Atravessamos o trecho infernal e alcançamos enfim a rota direita rumo a Atibaia.

A única coisa que não foi possível vencer (ainda) é essa estranha sensação de que algo termina e algo mal começa. Me ocorre simplesmente que 7 x 7 = 49 e que algo haverá de significar a combinação tão justa de setênios.

O amanhã

Meu amor. Quantas coisas realizamos juntos! Quantos sonhos concretizamos, quanta vida repartimos, quanto Amor! Nossa família é um quadro de perfeita harmonia e amor.

Olhando atentamente para essa foto, me vem a certeza de que o mundo se fez de verdade, bondade e amor, num claro sinal de que Deus existe e que nos toma a todos, generosamente, num movimento de graça e beleza.

Justiça, Amor & Arte.

Ali está a luz. Logo ali o nosso futuro. Esse momento é sublime.

Quero registrar que sou um homem realizado e profundamente feliz.

Pedro-pássaro

Meu querido Pedro.

Vê-lo correndo, com tanta graça e harmonia, faz-me lembrar que um dia, há muito tempo, também tinha o gosto de voar. Sonhando meus sonhos mais preciosos, tinha a certeza de que sabia voar, sempre soube!

- Papi, olha meu corridão!

E lá vai o Pepo, voando sobre o prado sem outro obstáculo que não meus olhos incréus. Ainda penso por instantes que não voe. Mas "pensar é estar doente dos olhos", não é mesmo?

Ah! Pepo, nossos sonhos são misteriosos. De repente despertamos num mundo estranho sabendo que somos essencialmente diferentes, que recuperamos um conhecimento que é em si mesmo um poder eficaz de realizar as coisas impossíveis. Voar, por exemplo.

- Papi, olha meu corridão!

E lá vai o Pepo, cerzindo o real com o indizível, entretecendo nossos tempos imemoriais.

Leão da Verdade

Diz a lenda urbana que um certo dia, há muito tempo, um caçador destemido abateu um grande leão dourado, decepando-lhe a cabeça rutilante.

Desprezado o corpanzil, o troféu foi logo pendurado na parede da grande mansão do cavaleiro, ornando os costados da rica morada.

A carcaça infundia medo. Todos conheciam a cabeça do Leão da Verdade e evitavam-na, principalmente nas noites claras.

Ocorre que aquele leão era um animal sagrado. Ao cair da noite, quando o silêncio deita seu manto aveludado sob as estrelas, e a lua descansa um lençol de prata sobre as ruas desertas, o Leão desperta, perguntando a quem quer que passe sob sua juba de ouro e nácar:

- aonde você vai?

E era necessário responder à pergunta, sem medo nem falsidades. O leão exigia que se dissesse sempre a verdade.

- Pápzi, o que é verdade? - fulmina a Lelê interrompendo a história.

- Bem, verdade é o que não muda. Por exemplo, seu nome é Helena, não é? E ele não muda, certo? Esse é seu nome verdadeiro - respondi sem medir muito as palavras e querendo logo reatar a história. Ela atalha:

- Mas... E se eu morrer, como vou me chamar então?

Alguns segundos se passaram - pareciam toda uma eternidade - até que finalmente pude balbuciar que todos nós temos um nome secreto e verdadeiro - "e está guardado bem aqui", apontei o peitinho protegido de flanela e ursinhos coloridos.

Apalpando cuidadosamente com a ponta do dedinho o local indicado, comentou:

- Ah! Sei...

sábado, agosto 05, 2006

círculos

O tempo nos envolve em círculos e nos leva a uma viagem sem volta e sem fronteiras. A roda infantil leva meus melhores anos e me arrasta entre sonhos e pesadelos.

A íris tão pequenina experimenta essa força que parece nascer do nada e de repente nos toma de assalto, arremesando-nos sabe-se lá a que o qual dimensão ou ordem. Então agarramo-nos a qualquer coisa, aqui uma barra, mas bem pode ser uma imagem, um perfume, uma palavra bendita, posta no mundo como uma flor sem forma, gosto ou cor.

Ah querida íris, minha querida filha. Agarro-me a qualquer coisa para tentar compreender essa estranha viagem que nos tem a todos. Eu a amo!

segunda-feira, julho 24, 2006

Pepo


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Querido Pepo,

Meu pequeno cantor não cantou.

Lamentou a dor no abdômen e eu estou aqui, no escritório, aborrecido com tantas coisas, mas lembrando-me de seu gesto delicado e tão amoroso.

Eu te amo, Pepo!


sexta-feira, junho 30, 2006

Árvore da vida

Tinha medo de dentista. A imagem terrífica do boticão me assaltava — como sempre há de apavorar um pesadelo diurno. A mulher de branco, com sua voz melíflua e suas tenazes diabólicas, aterrorizava o pequeno que se escondia na copa das grandes árvores.

Mas me deixem contar melhor essa história.

Aconteceu no velho e eterno Parque D. Pedro II. O consultório ficava na última saleta à esquerda, debaixo da grande varanda que se estendia para além do bebedouro e da relva. Local a ser evitado: hic sunt leones!

Um belo dia — contava com uma ponta de orgulho D. Amélia —, um dia de verão, ela veio pontualmente às cinco da tarde buscar o seu amor no parque. Mas cadê o guri? Busca daqui, corre dali, olha de lá, pergunta acolá: onde terá se metido o menino?

Já quase às seis da tarde, diz ela — que não me lembro absolutamente de nada disso — na hora da Ave Maria, eis que aparece atravessando o lusco-fusco, o petiz, vagueando solitário, desconcertado e com uma estranha marca vermelha estampada do lado esquerdo do rosto.

O que seria essa mácula? — o coração materno dispara. Tomamos o bonde e as pessoas perguntavam para a mãe ressabiada: O que tem esse menino? Nossa! O que lhe aconteceu para ficar assim?

Dizia a D. Amélia que eu, fugindo apavorado da dentista, subi na mais alta árvore do Parque e ali adormeci, expondo uma das faces às intempéries da tarde radiosa e calorenta. Não havia percebido, mas o tempo passou, o sol se pôs e a marca ficou como uma medalha de dor e medo.

Hoje, quando o sol se posta na tarde dourada de minha vida, olho para o espelho e vejo tantas marcas forjadas na alma desde aqueles tempos viçosos do Parque Dom Pedro II.

No fundo, no fundo, o que me conforta é saber que esses estigmas representam muito pouco, perto das pinças diabólicas da mulher de branco!

segunda-feira, junho 19, 2006

Falar a língua dos homens

Ah! São Bernardo. Lembro-me de seus instantâneos, de cenas esparsas, situações isoladas, episódios de uma trama sem começo nem fim. Não há um script, um enredo. Não retenho de ti — ó céu em metalurgia! — uma história com um bom começo, meio e fim.

Mas há uma passagem que resiste num cadinho da memória e que não quer se desfazer na poeira comum das reminiscências. Ali vive um menino negro e obeso com sua bicicleta branca e verde-água. Um menino acastanhado que amava uma linda garota loira. Um pequeno-grande guri posto em cadeias de silêncio obsequioso, encastelado na torre solitária da rádio na colina.

O que foi feito daquele menino?

A pequena bicicleta verde e o corpanzil do garoto formavam um quadro frágil e delicado. Denunciava o petiz como no fundo ele sempre foi: uma pequena e sutil criatura. Uma chama que luzia timidamente o puro cristal.

Era, contudo, um gentil cavaleiro, com gestos largos, voz mansa e aveludada, um Lancelot fulminado pelo amor impossível de sua Guinevere de rútilas madeixas. Tão intenso, profundo e nobre era o seu amor, que não lhe restava outra coisa senão pedalar, pedalar, pedalar.

E assim, pedalando e equilibrando-se com desalinho e surpreendente perícia sobre um fio tênue, assim passou sobre mim, sobre todos nós, ultrapassando enfim o Jardim Antares, resvalando as antenas espinha-de-peixe, galgando as alturas imponderáveis de seus sonhos e idealizações.

Dele tive notícias há muito tempo. Dizem que foi visto com sua bicicleta marina sobrevoando as franjas bordadas de manacás e quaresmeiras da serra do Mar. Foi saudado por um grupo de paturis que seguia ruidoso rumo ao seu grande destino.

Esse menino alimentou uma chama de amor que era pura nostalgia das estrelas. Pobre Rúbem, o que podia fazer com isso? Era um amor tão delicado. Esse sentimento doía num coração rúbeo. E o coração humano não tem cor!

Sempre me emociono quando lembro que Rúbem ficava em silêncio na torre de transmissão da rádio. Era de certo modo um duro contraste: a rádio nunca cansou de palrar as suas mil-vozes, e ele ali, solitário e silente, pouco a pouco esvaía-se de todas as palavras, esgotava-se de todo o verbo até que, finalmente, já exangue de todo e qualquer sentido, pouco lhe restou que não fosse amar tão intensamente como não se diz nem se fala.

Ah! meu querido amigo! Deve ser assim o puro Amor. O jovem de coração rubente falava enfim a língua dos anjos.

segunda-feira, maio 29, 2006

Eu poderia fazer tanta coisa...

Eu poderia fazer tanta coisa...

Poderia sair e ver um filme fosse lá bom ou ruim, poderia tocar guitarra para os amigos fosse lá músico ou não, sair com esses mesmos amigos e tomar um porre, sentar na soleira da porta e ver a chuva cair. Fazer um curso na Europa. Ficar quieto. Poderia ficar quieto, imóvel e de olhos fechados. Quieto, imóvel e de olhos fechados durante uma hora inteira. O dia todo. Não, a semana toda. Mas, às vezes, eles tossem à noite. Ou melhor, um tosse e a outra chora. Outra vezes é ele que tem pesadelo e ela acorda com o choro. Muita coisa para deixar só a cargo da mãe. E não é só durante a noite. Basta pensar em sair para o trabalho e vem uma vozinha: Volta logo...

Poderia visitar Istambul, descobrir Constantinopla, desvendar os mistérios do Oriente, mas teria que esquecer que sou o herói que põe o mundo em harmonia, o pégaso que ganha as estrelas com dois cavaleirinhos na garupa — upa, upa, cavalinho —, a ponte que flutua sobre o nada, apenas para ser atravessado por pezinhos que afundam na minha barriga e provocam risadinhas intermináveis nos seus pequenos donos.

Poderia estudar a fundo a história dos povos da Mesopotâmia: babilônios, caldeus, sumérios e assírios. O código de Hamurabi, a arte e cultura dos mesopotâmicos, tudo isso é muito importante, mas teria que dizer não a criaturinhas que pensam que sou o céu sem limites. Teria que ignorar a sedução daqueles olhares e sorrisos, teria que resistir bravamente ao aperto urgente daquelas mãozinhas minúsculas: vamos brincar?

Bem, eu poderia fechar a porta e ouvir Schoenberg ou Mahler, assim não ouviria ainda que eles batessem muito. Talvez pudesse sair de cavalete e tintas em punho para pintar umas aquarelas. Puxa, eles iam gostar dos pincéis! Não, não, esse seria o meu momento, esqueci que não estariam comigo. Também poderia visitar amigos e sentar calmamente para conversar sem ter que interromper o pensamento a cada minuto com — não mexe aí.;Cuidado, você vai cair. Tenho até um amigo cujo jardim eles adoram. É, mas desta vez não brincariam no balanço porque não estariam lá, seria o meu momento. Tudo bem, entendo que começaria tendo que reaprender a pensar sem topar com as artimanhas daquelas carinhas cândidas a cada vacilo do cérebro. Não sei como fazem isso, são tão pequenos para dominar um metro e noventa de treinado autocontrole! Não tenho a menor idéia de como conseguem, tão pequenos, mas parecem posseiros instalados em posse legítima — eu — ainda que ninguém lhes tenha outorgado qualquer título.

Poderia andar de bicicleta, descer novamente a ladeira em desabalada carreira, sentir o vento e a liberdade. Mas teria que me desprender daqueles bracinhos ao redor do pescoço, daqueles risos no pensamento, daquele calor no coração. E na volta, então? Na volta seria o diabo, teria que encarar um par de olhões azuis: V. disse que ia voltar logo. Pior e direto no alvo: Eu não gosto de você.

Eu poderia fazer tanta coisa...

... se eles já me não tivessem aliciado com engenhosos planos de amor a longo prazo e eterno querer bem. Como fizeram isso? Eu estava lá e não sei como se desvencilharam dos meus projetos mais secretos, como invadiram o recôndito dos meus pensamentos, como dominaram meus quereres mais íntimos. E, mesmo um pouco envergonhado, devo confessar: as únicas armas que usaram foram uns passinhos miúdos e incertos em minha direção, alguns poucos centímetros de perninhas bambas atravessando meu caminho e aqueles bracinhos abertos para mim.

a) O pai

Esse texto não é de um pai concreto, logo se vê. É de uma mulher. Uma linda mulher. Alguém que soube bordar com delicadeza e sensibilidade os contornos de um pai essencial, primordial, quase arquetípico. Sempre me emociono com crianças e com bons textos. E com os amigos, cujo olhar atento e generoso vê e nos revela os pequenos mistérios de nossa vida.

domingo, maio 28, 2006

Olhinho, doisolhinhos, tresolhinhos...

Faz uns 20 anos. Minha filha Íris tinha então seus tenros três, quatro anos. Por essa altura da vida, trabalhando num registro público na periferia, aproveitava as viagens ao centro de São Paulo para ir à busca de uma coleção que vocês provavelmente conhecerão — Contos e Lendas do Irmãos Grimm, uma linda coleção editada pela Edigraf, com tradução de Íside M. Bonini.

Sempre a buscava pelos sebos paulistanos — que então freqüentava com gosto e regularidade à caça de livros de Direito. Era um jovem estudante de Direito que amava os livros e os Rolling Stones.

Numa das travessas da Praça da Sé, havia — e ainda há — um alfarrabista tradicional que dispunha suas coleções em bancas generosas, com os livros espalhados à própria sorte. Havia estantes lotadas de romances baratos, história das civilizações, enciclopédias ilustradas, dicionários e tratados de filosofia perene. Era preciso paciência e diligência naquele mar de letrinhas e poeira.

Entrei na livraria como sempre fazia e de repente, estranhamente, meu coração disparou. Experimentei uma sensação numinosa, prenunciando um encontro singular. Com os olhos embaciados perpassei paredes repletas de lombadas multicores e títulos dourados, caminhando às tontas até um enorme armário de livros de história, sabendo que os livros têm, eles mesmos, sua própria história.

Por um instante pensei que os livros permanecem num limbo, numa dimensão em que não há qualquer sentido revelado. Despalavram-se. Enovelam-se. Ensimesmam-se. Permanecem em silêncio absoluto até o exato dia em que nos escolhem. Sim, somos eleitos por certos livros! Sabem-nos. Aguardam-nos. Velam-nos. Vêm aos sebos como nós à terra: para renascer. Recebem o dom maravilhoso de se revelar ao coração de um novo leitor. Adquirem — como posso lhes dizer? — uma nova alma. Manifestam-se para certos leitores, acompanham-no até a morte — ou o abandono, quando então se fecham novamente num mutismo obscuro e misterioso e retornam discretamente ao sebo, à espera de um novo dia, um novo leitor.

Tratados de filosofia, teologia e história, amor e ódio, tragados pelo silêncio de um livro cerrado. O drama da vida registrado em milhões de letrinhas garamound, glosados pela mão trêmula que resiste aos séculos, tudo se liga a um fio dourado que se perde no inconsciente coletivo em intrincados círculos de conhecimento.

De repente, divisei a coleção de oito livros que imediatamente alcancei com as mãos ansiosas e o coração aos saltos. Não sei de onde tiro esta certeza — de que dou fé! Mas naquele instante mágico soube, com a certeza absoluta de um adotado, que aquela coleção, uma linda edição de 1961, era a mesma obra que a professora manuseava nas tardes douradas do Parque D. Pedro II, lendo-nos, à sombra de guapuruvus e jacarandás, as histórias de Olhinho, doisolhinhos, tresolhinhos...

Aberto ao acaso o primeiro volume, das páginas amareladas saltaram redivivas as palavrinhas: Linha cabrinha, põe a mesinha!

Uma chama iluminou-me as entranhas e o sentido da vida se fez novamente.

domingo, maio 07, 2006

Mundo pênsil

Um dia instalaram uma roda, um brinquedo de girar, na vasta relva que existia nos interiores do Parque D. Pedro II.

Cimentaram a base, calçaram a haste, ancoraram o bólido que ameaçava alçar vôo com um mundo de crianças excitadas a bordo.

As professoras advertiam: Não subam na roda! É preciso secar o cimento! — repetiam numa linguagem incompreensível.

Qual o quê! Era impossível ver a roda estática. Tão natural quanto o desejo de voar era a vocação da roda de rodopiar, ora bolas!

E assim os meninos embarcaram no admirável disco que pendia manco, adejante, carregando para cima e para baixo, em movimentos irregulares, os pequenos passageiros e seus sonhos.

Fecho os olhos e tudo gira, revoluteia, volta, e na circularidade desses movimentos chego a acreditar que aquelas manhãs cristalinas no Parque D. Pedro II serão mesmo para todo o sempre eternas!

sábado, maio 06, 2006

Parque Dom Pedro II

Lá pelos costados do Parque D. Pedro II, onde os torrões bordavam os delicados xadrezes achocolatados deixados pela chuva, havia uma relva juncando um tapete de pequenas flores amarelas e brancas.

Ali imperava um silêncio absoluto, singular, essencial.

Pensando bem, acho que naquele sítio se achava um portal que me permitia transpor as dobras do tempo e do espaço.

Sempre retornava àquele ponto. Buscava um reencontro com os elementos arcaicos que ainda tingiam de eternidade a alma do pequeno menino que colecionava moedas.

Aprendiz de numismatógrafo, tinha uma especial, de bronze, que a prima ruiva havia me presenteado.

Não sei bem por que permiti a moeda rolar no tapete fresco de ervas. Não caiu de minhas mãos inadvertidamente. Não! Deixei-a experimentar o solo úmido, aninhar-se na terra que recendia a chás e cortiça.

Traído naquele instante magnífico, me dei conta, de repente, de que amava aquela moeda e que era preciso recuperá-la imediatamente, custasse o que custasse. Minha vida se resumia simplesmente em reconquistá-la, tomá-la de volta de quem a detinha de modo tão perito e solerte.

Mas as moedas se perdem na relva... Esse parece ser o seu destino.

Eu não pude encontrar em toda a minha vida razões suficientes que me permitissem afirmar que para outra coisa existissem!

sábado, abril 22, 2006

Patrocínio Paulista, luar, crianças e cachorros às baciadas

A Lela na rede mundial da preguiça

Patrocínio Paulista ficará para sempre gravada nas teias da minha memória. As crianças esparramadas pela sacada, misturadas às galinhas, limoeiros, mangueiras, pitangas, carambolas, cães, pintinhos, Elizetes, Terezas, Cremildas, que invadem o espaço para uma singular e harmoniosa convivência.

Esta viagem foi muito particular. Andamos de Jipe pelas estradas esburacadas, cantando a plenos — o rio tem cachoeira, e a cachoeira é um barato... ô, ô, ô!.
O Pedro é o cantor da trupe, com sua vozinha desafinada soletra cada palavra com gosto e satisfação.

Tudo-ao-mesmo-tempo-agora: descemos ao rio, rolamos pedrinhas às águas, a Bilé enfim concertou-se com a Helena, o Pedro chorou e o Nini riu. Enquanto isso, a mãe deita um doce olhar complacente e certifica-se que a prole é mesmo uma generosa dádiva da Vida.

À noite, esparramados na rede xadrez tingida de tons violeta e púrpura, divisamos uma coroa de luzes iridescentes furtadas há pouco ao grande astro. Eis que irrompe sobre o Sítio, soberana, indisputada, a lua plena, hóstia de prata e madrepérola servida ao olhar desarmado no altar de seda nanquim.


A sua repentina chegada nos encheu de um certo temor arcaico. A Helena enrosca-se, aninhada ao meu colo. Sem tirar os olhos do espetáculo, comenta baixinho:

— Pápi, na lua moram o dragão e São Jorge, né? E o ratinho que come o queijo... e a minhoca!
— Minhoca, filha? Só se for a minhoca selenita! — emendo, os olhos vidrados no prato magnífico.
— Minhoca selenita? — interrogou-me. Seus olhos buscam os meus no lusco-fusco. Logo torna, fisgada pelo disco nácar que flutua na sala escura do prado. Fez-se um silêncio de perfeita compreensão.

Ali ficamos apreciando a revolução de luzes e nomes que a Helena repetia e repetia e repetia...

— Minhoca selenita! — ainda a ouvi concluindo antes de varrer a lua com sua lanterna mágica amarela.

sábado, abril 08, 2006

Eliana, serpentes e galáxias

Ela morava na Vivaldi. Seu andar era suave e silencioso. O olhar oblíquo divisava a luz rebatida, furtava a alma de pobres mortais desatentos.

Acho que era selenita; aborrecia a nitidez estúpida das formas. Parava num outro centro de gravidade, agarrava-se em qualquer lugar imponderável. Imperava o princípio da incerteza.

A Eliana era misteriosa. Acho que tinha uma alma antiga, tingida de traços incompreensíveis. Fazia lindos desenhos como mosaicos, figuras espiraladas, lembravam galáxias, serpentes e cabelos.

Acho que ainda caminha sobre a superfície do planeta.
À sua moda, é claro.

Fonte: Arte bizantina. Mosaico. Convento de S. Adriano, S. Demétrio Corone, Cosenza.

segunda-feira, abril 03, 2006

Mundo macaco

Minha querida macaca de fogo.

O mundo é lindo de qualquer maneira, eu sei.

Conhecer, revirar, cheirar, tocar, saborear, essa ação contínua e inesgotável de assomar-se não nos deixa tempo para pensar.

Mas, para que cogitar, não é mesmo?

Experimentar os tamancos no assoalho de madeira é bom.

Pula-pular na cama do papai é bom.
Apavorar-se do lobo na boca-de-lobo é bom.
Olhar a coruja na árvore à noitinha é muito bom.
O som de pedrinhas no pneu é bom.
A água que corre e canta é bom.
Ouvir histórias de fadas é bom.
A chuva copiosa na tarde de sábado é boa.
O colo da D. Paula é bom.
Dormir quando se tem sono é sempre bom.

Ah! minha macaca de fogo. Como posso deixar de admirá-la o tempo inteiro? Subverte-me! Revira-me o mundo concertado! Toca-me a alma empedernida de pai avoado e me consuma em fogos de alegria e amor!

Eu te amo, Helena!

quarta-feira, março 29, 2006

Café Íris Jacomino


Os cafés que a minha querida Íris tanto aprecia de habituais têm somente a promessa inadimplida.

É um fato incontroverso, Lila! Contra fatos não há argumentos. Não, não me venha com a sua frase predileta! (diz ela que facts are stupid things, parafraseando Ron Reagan). Tollitur quaestio!

Hoje vivi uma aventura hilária com essa moça atrasada.

Já falei do aguaceiro que dissolve em dramas a cidade de São Paulo. Meti-me num táxi encharcado e desci a tumultuada Higienópolis para um breve encontro com a Íris no Ráskal. Afinal, tantas vezes descumprido o compromisso do café, quem sabe num almoço acertaríamos o eterno descompasso de nossos ponteiros?

O prazo era exíguo, o trabalho nos espera, engolimos a ração e acredite: nem um café foi possível. Ela me pede (e eu não nego) "acompanhe-me até o estaciô...", assim mesmo, parecendo ganhar tempo encurtando as palavras.

E lá vamos nós. Descendo no cubículo atulhado de gente úmida e aborrecida pergunto bem baixinho: "v. sabe o setor"?. Responde-me com impaciência: "Claro! Setor P".

Muito bem, saindo do caixote freqüentado por cães & cia. fomos à cata da tal alameda "P".

Foi só ver as pilastras, uma após outra, às centenas sucedendo-se, e eu me dei conta instantaneamente de que o "P" gravado nos costados das colunas era simplesmente a marca universal de parking.


Ainda tardando alguns segundos para compreender exatamente o que ocorrera, minha apressurada guria deixou-se cair em perplexidade, os olhos vazados e as chaves tilintando na mão.

Os caminhos de Santiago


A manhã abriu-se em chuva colhendo os meninos mal dormidos. A noite de estrondos e luzes os aninhou no conforto da grande cama dos pais - mãozinhas entrelaçadas, pés descalços e frios, os narizinhos apontando para o alto, escapando das cobertas de algodão branco. Olhando muito bem, somos uma linda família sonolenta.

Como é lindo vê-los de pijaminhas coloridos, a Lelê enlaçada com o seu cachorrinho laranja (Bilu, presente da PAC), o Pê confortável com o travesseiro nos pés e o Thiago na sua diáfana nau de véu, algodão e lã.

Despertei com a chuva generosa tamborilando no telhado. Pensava que era uma sinfonia complexa, um contraponto atonal. A mãe, deitada ao lado, recupera as energias gastas pelas mamadas pontuais da madrugada. A Lelê recostou-se aos pés da cama e se nega a abrir os olhos; o Pê se esconde no algodão alvo e o Thiago, bem, o Thiago vocaliza uma língua de anjos que só as mães e os loucos compreendem.

Antes de sair para as ruas alagadas dessa Paulicéia que se afoga em dramas e lama, resolvo flagrar o Thiago ao lado da janela - ele que é tão pouco comentado aqui.

Meu lindo Thiago, hoje vendo as fotos recém sacadas percebi que v. é muito parecido comigo. Pela primeira vez enxerguei-me com nitidez em você, projetado em seu rostinho de frade franciscano - no que pesem os comentários da madrinha, sempre respeitáveis, que vê em sua face os traços do Pê.

A trovoada


Quantos anos faz que eu não testemunho uma tempestade elétrica? Que não me assusto com os estrondos de uma vigorosa trovoada?

Esta noite a forja celeste pôs em pânico o pequeno Pedro.

A madrugada metalúrgica, varrida por rajadas de vento e chuvarada, nos atemoriza com sonhos arcaicos. Colho o Pê em seu berço navegante, resgato essa pequena lanterna do mar de procela repentinamente tornado ignoto. Aninho seu corpinho trêmulo, protejo-o no acalanto de nossa cama. Enlaçado ao pai, seus olhinhos assustados encontram os meus. "Acalme-se meu pequeno menino, fique tranqüilo meu querido homenzinho. A manhã tarda, mas a noite e os trovões passarão".

Adormeceu nos meus braços. Talvez fiquem gravadas no fundo da alma desse pequeno a fortaleza e o conforto de um colo amigo e seguro. O colo do seu pai.

segunda-feira, março 27, 2006

zanzando pela cidade zanni

Domingo é dia de circo.

O Pê acordou febril, a Lê a mil. E o Thi dormiu...
Como fazer?

Zarpei pela Rubem Berta tranqüila, zunindo pelos costados do Ibirapuera com a dobló grafite riscando certeira a 23 de maio... Putz, vou passar diante da horrorosa estátua do cassino... Tudo bem! A cidade e suas fealdades.

Tinha que chegar pontualmente às 11.

Sim. Pontualmente às 11h. a banda desafinada do Circo desborda suas notas frouxas.

O Circo Zanni está fundeado num terreno de muitas árvores - um bosque repleto de figuras misteriosas que a imaginação da Lela criou. São lobos, bueiros, sombras. O cenário compõe o medo essencial de bocas-de-lobos que tragam violentamente águas da chuva, gravetos e o valente soldadinho de chumbo.

Diante do picadeiro, ela mira desconfiada a lona vermelha pendente de lanças cravadas nos céus. Impressiona-se com as flâmulas medievais. Silenciosamente penetramos no interior do espaço mágico e ela se aninha calada no meu colo, observando tudo, atenta.

O espetáculo tem início com seus ritos. O apresentador sentencia: "Senhoras e senhores, o Circo! o maior espetáculo da terra!". (Que bom ouvir terra. Temia ouvir globo...).

A banda se empertiga e com seus naipes estridentes ensaia uma coreografia descompassada. Ah! meu Deus, que saudade dos palhaços de minha infância. Tão genuinamente arrebatados. Tão humanamente patéticos. A idiotia sem foros de suficiência, sem sombranceria, ingênua, ferida pela aguda fragilidade humana.

Fui tragado por essas lembranças, transido de uma nostalgia de um tempo de arrebatamentos. Como se pudesse recuperar a visão sem jamais perceber que ficara cego, fui transportado para uma pequena cadeira fincada na serragem úmida dos costados do Tietê. Me vem o vôo da trapezista cruzando as estrelas incrustradas na lona encardida. Prendo a respiração: ela voa!


Nesse devaneio, sou fisgado pela coreografia das equilibristas e acróbatas que rodopiam vertiginosamente seus vestidos e bantás profanos, feitos só para os meus olhos. As pupilas se engastam nas cores em movimento, circulando, remexendo, insinuando-se por todas as janelas da alma. Volto sob varas ao Zanni.

Já agora flutuando no centro do picadeiro se acha uma linda bailarina. Radiada e pega da corda tesa, a bela acróbata rodopia, construindo uma frágil coreografia sobre o abismo, ligando a quietude absoluta que é o centro de todo movimento e o circo constelado de crianças algaraviadas. De repente, do coração da bailarina explodem pequenos relâmpagos de cores e brilhos, purpurinas e confetes, lançados na contra-dança dos ares, banhando a lona de uma fina chuva de pequenas lanternas fugidias.



Olho para a Lê e vejo um fio de lágrimas marcando o rostinho enlevado. Demoro para interpretar e compreender a emoção que parece brotar tão-só do maravilhar-se de uma bela imagem.

Certamente a minha pequena é uma generosa nascente de sentimentos puros, intensos e sadios!
Eu te amo, Lê.

Acima: Jacques Callot, Le Zani Ou Scapin (Zanni or Scapino) c. 1619. From the three Pantalons (Three comedians). Etching and burin Auckland Art Gallery Toi o Tāmaki Mackelvie Trust Collection.

segunda-feira, fevereiro 20, 2006

O fato

O velhote encarquilhado ao lado, com o fato de corte quadrado e algo deselegante, nessa figuração trópica (generosidade calculada ou desequilíbrio essencial?), a barbica que viceja na pouca carne dos lábios - "bigode ciliar", diria um amigo - esse velho homem que me olha pelo olho de minha filha, quem sou?

Dependendo da sorte, meu caro leitor, pode calhar de ser o outro - esse que amanhece ao meu lado, obstinado, impaciente, azafamado pelas urgências e solicitudes esquecidas. Um historiador, portanto!
Sou qualquer um. Na infinita certeza de que tudo calha num fato.

sábado, fevereiro 11, 2006

Axis: bold as love

Vlademir Ferrer Martines - ou Vlad, como atualmente é conhecido pela tribo juvenil que constela o artista. Para mim, simplesmente Mi - uma nota precisa, um signo, é assim que a minha memória aprisionou em suas cadeias o nome e a figura.

Verdade seja dita: Vlad parece nome de bárbaro eslavo que migra em hordas, faminto e determinado. Como é difícil decalcar a imagem retida no Orkut sobre a outra, que cintila na lâmina de um lago profundo e tranqüilo!

Mi, um cara doce, elegante, quase um Mi Bemol na suavidade e nos gestos. Lembro-me de seus desenhos - estes sim, arrojados, grafismos enérgicos, epígrafes de letras atiladas, feitas como se quisessem decolar, sobrepairando o oceano alveado, imprimindo matizes firmes, jogos violentos de contrastes, luz, sombras, dimensões. Acho que as letras daquele jovem advertiam já o firme caráter do homem!

A Internet nos dá a derradeira chance de revolver o tempo, recolher cacos, formar um mosaico que de certa maneira nos estrutura, reconforta, dá sentido à nossa biografia. Mas... tudo isso será verdade? É mentira? Pelo contrário? Isso me lembra o comentário da pequena Helena, resistindo heroicamente ao sono:

- "Papai, a madrugada ainda é de dia?", questiona na sua tagarelice interminável.
- "Não, Lelê; lá fora está escuro". Procurando evocar os rituais do sono, falo baixinho: "dorme, meu amor, é hora de dormir!".
- "Não, papai!" - retruca enérgica. "A madrugada é noite... mas é dia também. Noite e dia!".

Chego à exasperação com a sensação de que simplesmente não existi para as pessoas que escrevem nessa comunidade da Internet. "Ei, você aí, será que se lembra de mim?" foi a postagem mais desesperada que me permiti nos últimos tempos. Ouvia como resposta somente as minhas próprias perguntas.

Eis que num belo dia (ou noite) reencontrei o Mi, perdido numa dessas paragens insólitas da rede. De quebra o achado dá de iluminar algumas sombras tenebrosas.

Toda vez que tento, lembro-me do Mi em flashs intermitentes. Diz o velho koan: se quiser entender, não tente! Fulgurações vigorosas, arrebentos instantâneos, sumiços fugazes, relâmpagos em noites de verão...

O ginásio me assalta agora, com suas Normas e Veras, Alices e Mitiés, Jones & Saletes, Cidas pícnicas, doces Maurílios, loucos Maurícios. Ariel com sua inventividade insustentável. Dizem que depois de arremessar artifícios explosivos sobre o Segundão, inscreveu em tábulas rasas os detalhes de sua história. Em sânscrito...

Logo me assombra uma noite mercurial, os guarda-pós que nos tornavam, a todos nós, perfeitos chineses. Rostos sem nome, nomes sem rostos, restos da memória que a Rua Universal tragou na aventura do tempo.

O Segundão estava fincado na Praça Paul Harris. Lembro-me de que grafaram o nome do cara errado na carteirinha: Baul Harris. A secretaria do Segundão perdeu a rota, com o perdão do trocadilho. Embora a construção se debruçasse ao norte, servindo-se do busto rotariano como alicerce, era pelos fundos do colégio que tudo bulia. Houve um tempo em que chegava sempre a tempo de me entreter com os alunos que saíam a retro no final da tarde - por aquela porta verde explodia um jato generoso de jovens ruidosos indo ao encontro de seus amores e do ônibus que vinha de um Riacho Grande longinquo e misterioso. Tesão, alegria, chuva, pipocas. E Alice. O meu namoro com a misteriosa Alice durou exatamente o giro anti-horário nos costados do Ginásio. Não preciso lhes dizer que aquele amor tarda em mim uma eternidade!

Meu caro Vlademir. Não sei como o conheci, nem sei como nos despedimos nesta vida de tantos encontros e partidas. Olhando fixamente as suas fotos, vejo um outro que talvez suceda o Mi, agora alguns sustenidos acima. Quem saberá em que altura esteja eu mesmo, nessa partitura absurda, nesse contraponto imponderável?

Sei, contudo, que nalgum tempo, nalgum lugar, existi. Acho que realmente existi e resisti, confirmadas as minhas suspeitas. Nosso encontro foi o meu crisma. Obrigado!

PS: Axis: bold as love é um disco de Jimi Hendrix. Posso qualificar o trabalho como "a trilha sonora de minha vida". As fotos acima foram feitas a partir de um vinil uruguaio que foi presentado ao amigo em 1974 e por ele conservado até hoje. Po-se dizer: high fidelity!

segunda-feira, janeiro 30, 2006

Murilando o indizível


Murilo Mendes registrou em Poliedro (1972) que os meninos gostam mais de desmontar do que montar coisas.

Acho que tem razão.

A montagem sempre foi algo muito aborrecido. É como se caminhássemos a ré, recompondo tudo o que a curiosidade desvelou, com sua arte perita de insinuar-se delicadamente nos mistérios de todas as coisas.

Quando criança gostava de desmontar os velhos rádios a válvulas. Cheguei a ter uma coleção apreciável de quinquilharias imprestáveis - rádios que não radiam, eletrolas que não oram, televisores míopes, receptores distraídos, transmissores ensimesmados, amplificadores tímidos. Abria excitado as velhas caixas de madeira empoeirada, delicadamente esventrava o corpo inanimado de cátodos, resistores, bobinas, ímãs. Selva de cobre e estanho, quantos mistérios não encerra?

Não me importava o funcionamento ordinário de todas essas coisas - afinal é para isso que existem, ora bolas! Jamais consegui consertar qualquer uma delas. Muito mais excitante, isto sim, era o deslumbre com as minúcias, subtrair pequenas peças de um jogo inexpugnável, acomadá-las em caixinhas de charuto, cada qual integrando uma família, um gênero, um ente enfim, despojos para a derradeira decifragem que tarda afortunadamente.

Assim foi com as palavras. Desde muito pequeno deitava-me com uma coleção de revistas emboloradas, escritas em vários idiomas - que isso, sabido que era, eu sabia, embora não soubesse ainda ler. Ou passava horas folheando um livro que até hoje permanece inextrincável para mim: hagerups illustrerede konversations leksikon. Ainda o tenho às mãos; ele me flerta agora, sombranceiro, em silêncio obsequioso. Eu o amo por conter os desenhos e garatujas de minha infância. Carreguei-o por toda a minha vida.

Lembro-me de palavras soltas, de sons desmembrados, seccionados, segregados, desgarrados, e ainda assim como eram lindos! Recordo-me de "cãs de um lente", uma história que dorme nalgum livro aborrecido de gramática e cujo contexto ignoro solenemente. Palavrar fúcsias, sebes rosáceas, dobra inconsútil, irisado, crisálida, pipoca era uma aventura arriscada.

Assoviava com todos os dedos, com cada um, aos pares, sem eles, e me parecia bom que cada silvo sibilasse de um jeito ou de outro. Mais interessante do que a função do assovio era o som do atito. E cantava a plenos pulmões em "outras línguas", o que sempre municiava de receios irracionais o meu tio kardecista.

Um dia, uma bela manhã, tendo saído mais cedo da escola, armei-me de um velho gravador portátil de rolo e, apetrecho em punho, pleno de coragem, saí a campo. Posicionei a geringonça no ponto exato de vociferar qualquer coisa em inglês - uma palavra rara (bem sei qual era!) que me soava especialmente agradável. Ali quedei-me, gravador em riste, à espreita da criatura mais apavorante, mais aterradora, mais irresistivelmente linda e sedutora... Sim, a palavra me vem fácil... Márcia!

Ah! pequena Márcia, quis dar-te um regalo inefável, um pequeno bouquet sonoro, um objeto que fizesse vibrar suas cordas interiores, tão concreto e instantâneo como terá sido o meu indizível amor.

Murilo Mendes - ora pro nobis!


Poesia ou prosa - o que é superior? Nem o amor, nem a amizade, nem os nomes, nem os pronomes: Murilo Mendes, ora pro nobis!

Murilo Mendes me foi apresentado formalmente pelo Zé Ruben. Entregou-me cuidadosamente um exemplar de Transístor e logo deitou falação sobre as qualidades que eu já pressentia no poeta. O Zé é assim: simplesmente categórico. Seu discurso envolvente, sua sabedoria e intuição profundas, a erudição de um médico que se dedica aos livros, o Zé tem o dom de arrancar-nos dessa terra ignota e nos depositar seguros nas culminâncias. (Meu querido Zé Ruben, suas etimologias ilustradas me despertaram para os segredos inscritos desde sempre no coração das palavras).

Verdade é que o livro dormitou na biblioteca, esperando-me sábia e pacientemente. Os livros sabem o mistério do Tempo.

Falando de Tio Lucas, o médico das almas e dos povos, Murilo Mendes evoca uma idéia que me toca profundamente. "As pessoas e os fatos são contagiosos". Pois Zé, tu me contagiastes de uma encardida humanidade! Homem que se dedicou ao Homem (e aos livros) esse meu amigo médico realiza generosamente o talento da multiplicação do verbo. E de quebra me presenteia com as Confissões, de Agostinho. Medicina anima acabou sendo meu ex-libris...

A obra muriliana é aberta. Ilumina e dá sentido às minhas ruminações. Uma prosa que toca a gema preciosa da poesia. Lembra que o "reino de Deus pertence aos que consentem na sua própria morte", como se acha na Epístola Jacobi. O Bonfim é o senhor dos bons fins e dos melhores começos. Talvez resida aí o segredo do Zé. Ele traz gravado nas entranhas de sua verba generosa uma sabedoria indestrutível.

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Nesses dias chuvosos de Patrocínio Paulista, entre o choro essencial do Thiago e o desaforo do Pedro, me vêm essas lembranças entremeadas com as inovações e invenções da Helena.

- "Eu entendo a língua dos grilos", garantiu-me ao ouvir a cantoria de um ortóptero apaixonado.

- É mesmo? E o que dizem os grilos?

- "Cri-cri-cri...".

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A pintura acima é de Flávio de Carvalho. Retrato de Murilo Mendes, 1951, óleo sobre tela,100 x 70, Coleção Gilberto Chateaubriand



domingo, janeiro 29, 2006

sp-lisboa-amsterdão-alcobaça-lisboa-sp

sp-lisboa-amsterdão-alcobaça-lisboa-sp, post by Íris Jacomino.

A viagem em quatro shots:


1. Voando: sin city - lisboa. PRATiCAMENTE carreguei esse avião capenga da TAP, a única companhia aérea que passa novela de época pra gente assistir.

2. Viajando nos campos devastados de Van Gogh. Ele quase me deu um tiro na orelha...

3. Íris het rembrandt´s daughter. At the rembrandt´s plein = a praça onde tudo acontece...

4. Finalmente de volta a Portugal em Alcobaça, chacoalhando a Inês no bar da nana (foto)

Bjo, Íris

Obs. Fotografias pb de Miro Svolík

segunda-feira, janeiro 16, 2006

Uma visita ao poeta


Abro um parêntese para revelar a visita da historiadora Adriana Gianvecchio.

Eu recebi a carta na altura em que tentava romper a parede de água que caia sobre a Quinta da Regaleira, em Sintra. Há tantos mistérios nesse encontro quantas foram as gotas caídas na relva.

Querida amiga, sua prosa está deliciosamente pontilhada de referências pessoais; o texto se abre como um fruto maduro. Eu a conheço e confirmo. Agradeço a visita da poetiza. (SJ)

~~~~~~~~~~~*~~~~~
Recebi a chave de um templo, uma senha de memória para visitar um tempo em suspenso. Um tempo em mim que não se desfaz.

Um código de Alice, Clarice, ou será de Borges? Talvez Quintana ou Poe, ou essas ‘buscas proustianas’ que nos levam aos recônditos de nossa alma. Nossos porões. Ou seja, ao lugar- nenhum de todo abismo da reflexão que nos faz constatar o vazio.

Espelhos. Portas. Entremundos.

No início, tive receio de voltar a esse tempo. Até deixar o olhar passear pelos espaços da memória e encontrar uma nave que me levaria ao poeta.

O medo (dos fantasmas), se desvaneceu naquele sentimento de quando se reconhece a imagem de alguém tão querido que nunca mais se viu. Deixei-me levar pelas linhas claras, dissipando as nuvens de esquecimento cultivadas pelo olhar apressado e pela ilusão de tempo. No caminho encontrei um menino de alma antiga e olhos translúcidos que olham com curiosidade sobre todas as coisas. Criança hiperativa, hipersensível, perceptiva. Criança que cria mundos e brinca com o som e com o vazio. Silêncio...

Eis que surge o homem. Ele tem pressa. O homem cartesiano que não tem tempo, não tem hora, só tem razões. Homem hiper-eficiente, hipertenso, a colecionar papéis, letras mortas e inventários. Coisas dos homens. Legados. Lacunas. Labaredas...

Fez-se noite.

Um ser passeia por nós: anima/animus. O ser invade o Ser e revela constelações. O menino adormece. O homem procura lógicas. Procura sílfides. O poeta procura revelações. O homem dorme pouco, pois tem medo de encontros.

Estamos em um templo de pedras frias, antigas, cheias de poeira e versos. O velho sábio adverte que na República Ideal os poetas não podem entrar...Solidão.

O menino desperta do sonho acalentado por uma nota fina. Consciente da transição que virá pela necessidade da superação.

A Revelação

- Os políticos são os homens do presente, mas os artistas são os homens do retorno... Diz o profeta ao menino. E o homem encarcera o poeta e desperta. Ilusão.

O poeta gosta da água doce e de flores grandes e amarelas com gosto de quintal com terra molhada, gosta de doces frutos e de mato. O homem não. Não tem tempo para esses gostos.

Dorme o poeta por imensos setênios de exclusão na alma abandonada. Mas não morre, não. Vive na esguelha de um olhar que escapa ao trágico, da memória de uma paixão, de uma curiosidade, de um acorde. Soul. Vive nas coisas simples, na rede de dormir, naquela rua de paralepípedos, no barulho dos cascos dos cavalos do leiteiro, na casa pobre, na cortina de flores gastas, na colcha de retalhos coloridos. Vive no céu aberto, na chuva fria, nos pés cansados, nas lembranças proibidas, na dor cultivada. Jazz. Dessa dor que chora a seco, porque se esconde na seca árvore do longínquo quintal para onde o menino corre quando alguém se vai.

Mas é o poeta que não consegue verter lágrimas. O homem apenas acha que não chorou. Exclui memórias, escolhe os caminhos certos, as pessoas ideais. Mas o poeta não, prefere os duvidosos, os insensatos e escolhe os cantos e passagens que o homem não recomenda. O homem queima os diários que revelam o poeta. O homem é sério, tem pressa. Não pode se perder com delírios...

Já o poeta escolhe outros caminhos, ruas antigas, histórias poeirentas de velhos livros folheados por outros tantos poetas... Busca o poeta a aura mágica do toque que partilha a emoção retida no desvelar da alma feminina. Mas o homem não. O homem tem responsabilidades, contas, agendas, horários. O poeta tem um pôster de um músico com um rosto árabe, uma caixa de fotografias amarelecidas de outros poetas que está perdida no canto de um armário ao lado de um velho guarda-chuva e de um relógio parado. Testemunha ocular desse tempo que o homem acordou e fez adormecer o poeta.

Mas, o poeta resiste e desperta no espaço sideral em silêncio porque o homem acorda cedo.

O homem do retorno – ou, percepções desérticas.

Choro em cada parágrafo de lagrimas secas. Choro sem verter lágrimas, choro num silêncio que evoca o que não mais se atinge. Num abismo-eco. Árido. Desértico.

Um choro em pó, pasteurizado, introjetado. Choro sem chorar e dessas não-lágrimas produzo palavras. Choro letras, memórias, imagens desvanecidas, esquecimentos programados. Mas não assumo o choro. Quero verter o pranto mas não consigo. Retenho a água, salgada, sofrida, a expressão corpórea, a emoção na fonte.

E por não verter é que verbalizo a dor que para tantos não tem palavras não tem não tem... Choro pelo avesso. Cintilo perdas, petrifico, calcifico distâncias e negações. Mas não choro porque não posso ou será que não derramo a perda por que contê-la é ainda ter a dor? Não a deixo...

Por isso, retorno aos filhos, fragmentos, pedaços, pais, projetos, desafios, confrontos, completude, fractais, continuum, ancestralidade, múltiplos, entendimentos, dissonâncias, ciclos.

Agora sim: plural.

Sabendo que “procurava a inteira” como nas veredas de Rosa ***

Um convite à memória do poeta,

Chá de tília em tardes de chuva rala. Memórias cultivadas em caixas de uvas vermelhas e terra úmida nos pés. Pirilampos. Experiência metafísica. Meta-carne. Tempo.

Não pára, não pára, não pára....

E ainda me escondo naquele quintal, atrás de pés de conhecimento, silêncio e perdas cultivadas pelo não chorar. E empilho velhos livros para que me protejam dessa insana guerra.

Mas, onde estão aqueles dias nossos? Ah, ainda estão Lá... No percurso que leva ao não-lugar, no entremeio, na fresta, no abismo em que descobrimos que existe mais além do que podemos (queremos) perceber.

Nos vaga–lumens, nas vagas horas de nossas vagas lembranças.

Mensagens (de)cifradas – ou, te devoro.

Reconheço sua alma – dos lugares de outrora. Mas com os olhos bem abertos choro pelo poeta.

Mas saiba, procuro perder-te todas as manhãs. Só que não posso. E não entendo.

Sei que um dia encontrarei o poeta, quando ele superar o homem. Nesse dia, poderemos chorar em vidros, colecionar conchas, flores, árvores e estrelas. E escrever segredos para enviar em garrafas ao mar sem fim de nossas almas antigas e inquietas. (Adriana Gianvecchio)

quinta-feira, janeiro 12, 2006

serraia & amor de mãe



Vez por outra serviam uma comida intragável no ICC. Vocês se lembram de uma tal serralha ou serraia? Uma verdura amarga, plantinha de uma textura áspera, verde escura, parece com a danada ao lado. Ainda me vem o seu amargor que trava.

Eu me lembro de não tolerar esse complemento alimentar - que algum valor nutricional haverá de ter e parece mesmo que era da predileção daqueles cozinheiros da alma.

Minha mãe, querida Dona Amélia, contava uma história triste. Dizia que num belo dia, um ensolarado domingo de visita, dia de ritual, em que o mundo nos vinha em quanta pela voz fanha do falante metálico, pois meu amor me encontrou com as bochechas arroxeadas. Investiga daqui, pergunta dali, questiona um pouco mais... e eis que descobre que a tal verdura me foi socada goela abaixo, sob os protestos veementes e a resistência heróica do órfão revoltado. O grande algoz foi o empedernido Molhão! Sempre o Mo´Leão.

Fiquei revoltado. Deus meu! Ouvirei essa palavra pelos outros 40 anos que se seguiram - revoltado... francamente! Que outra coisa poderia ser, no calor de uma luta afinal vencida pela afirmação corajosa num mundo hostil e entristecido?

Essas e tantas outras palavras ficaram pelo caminho. Serraia, paquinha, Barroca, Molhão... A luta contra a ração diária de serralha é já passado. Um passado que me pesa, às vezes, e me visita com movimentos incontroláveis. Volta como um soluço de montanhas e vales profundos... me assombro com algo que se movimenta lentamente nas entranhas! Que raro descobrir que esse amontoado de carbono se estremeça com uma inesperada epifania!

Manuseando uma caixinha de madeira em que estão depositados fotos e outros estranhos seres, deparo-me com uma cartinha que este pequeno que me olha assustado enviou à sua querida mamãe.

Tudo ocorreu num longinquo dia das mães - um tempo esquecido do qual a única prova visível é uma carta amarelada guardada ao longo dos anos numa caixinha de madeira. Por que terá guardado isso por tanto tempo, mamãe?

Dizia a letrinha miúda e sofrida: Mamãe hoje dia das mães ofereço minha glória hoje neste dia glorioso ofereso com tando o amor e fé esta carta que quero a senhora, dizia o menino. E continua: Mehor eu no possa que se compre esta promesa que eu tanto amei por tanto... mamãe uma grande lembrança e uma grande felisidade ofereço esa carta e essa emensa gloria e maus coisas quero quando sair deste colegio uma sempre lembrança que eu fiz todas todas mais todas que eu feiz lembro lá em casa e na rua e que tanto fiz perdõe todas as coisas e de todos amores que tanto gostei da senhora que tanto amei que tanto gostei um coração sempre aberto. Mamãe desejo essa grande felizidade a senhora que tanto quiz que esta marcado no meu coração então mostra a emesa gloria que tanto amei que ofereço esta mamãe quero oferecer tudo iso que lhe gatanhar e resa o maior o maior que tanto amei a Deus que abençoe eu e a senho e nossa familia ajudai me a ler ea escrever.

Hoje não choro a passagem da D. Amélia neste terra de degredo. Tenho saudades vendo as suas fotos, minha querida mamãe. Aquietou-se em mim um choro miúdo que não se ouve no coro desafinado da multidão. Se eu pudesse dizer alguma coisa a respeito dessa cartinha seria certamente que o tempo verbal denuncia uma profunda irresignação e incompreensão. Apartado de minha amada, só podia lamentar o tanto que amei...

Mamãe, eu a amo verdadeira e integralmente. Com todas as forças de minha vida!

de seu filho, SJ.

domingo, janeiro 01, 2006

5th dimension


V. percebeu que anda esquecendo aquele telefone importante de uma pessoa querida? Percebeu que não se lembra mais do nome daquele filme... qual era mesmo? E o nome de um amigo da infância? O número de sua casa lá em Santana? O número da placa do primeiro carro?

Pois é. Tenho vivido situações semelhantes. Esse apagamento está associado com a destruição ou obsolescência de setores de minha memória afetiva. Como assim? Vamos lá, obsolescência: com o surgimento das agendas eletrônicas, "transferi" para os bancos de dados externos esse tipo de informação. As redes neuronais já se estendem para além dos limites físicos do meu cérebro. E a destruição? bem, voltemos ao ICC.

Outro dia estive no Instituto. Entrei por uma de suas portas, entre outras... sei lá, no mundo do ICC há tantas... E dei de caras com O Pátio. Aquele Pátio que todos vocês um dia conheceram. Aquele que, ao centro, disputando eternamente em importância e dignidade, estão Mo Leão e o velho ficus - ambos fincados no centro dos nossos corações.

Mas será mesmo aquele Pátio que os meus olhos agora divisavam?

Duvido!

De alguma forma a arquitetura de uma cidade, com suas praças, árvores, ruas e edifícios, são como células de uma incrível, variada e multiforme base de dados, à qual se liga a nossa memória afetiva. Nossas redes neuronais alcançam a cidade e estabelecem com ela vínculos profundos de reconhecimento e certeza e nela fixam elementos tão próprios e singulares, como é a essência de nossa memória. Destruída, puft!, somem, como que por encanto, as emoções que as paredes e edifícios guardavam.

E aí, então, tornamo-nos fantasmas. E passamos a sonhar...
Sonhei que percorria aqueles corredores do ICC e reencontrava os caminhos da minha infância nas câmaras e vestíbulos que se acham ainda mantidos. Quem são aquelas pessoas com quem me encontro nos sonhos? Estranho... a arquitetura se transformou, mas ainda reconheço cada caminho, cada recanto daquela formidável construção, o grande Instituto Cristóvão Colombo!

As imagens me vêm e me tomam de assalto. O ICC transluz. Suas paredes, o pátio, o ficus secular plantado no centro de nossa alma, em cujas profundas raízes as paquinhas dormiam, tudo isso me vem agora como um mar voluptuoso e irresistível. Ah! tudo está projetado nalguma inaudita dimensão. Uma vida que se mantém intocada com os sentidos próprios, em infinitas combinações. Tenho certeza que está lá, onde algo não está!

Lembro-me que um dia, num domingo ensolarado, deitei-me numa roda infantil instalada defronte ao Pátio. Os olhos postos no teto, pus-me a rodar, rodar e rodopiando, vestiginosamente, num sobrevôo de reconhecimento de uma terra incognita, vi abaixo de mim as coisas inatingíveis: me tornava afinal impossível às coisas impossíveis... E num relâmpago azul e luminoso, vi um velho pensativo, os olhos embaciados postos em mim, o que quer de mim, esse velho?

E logo acordo. Deus meu! O que quer de mim essa criança que não dorme?

A imagem: Next Stop: Immortality: http://www.futurehi.net/docs/RAW_Immortality.html.

segunda-feira, dezembro 26, 2005

nau de garotos tristes


Ao lado direito do pequeno claustro havia uma sala de TV. Sim, me lembro de concertos para juventude, não sei como me recordo, mas havia uma arena, lá pros fundos, em que treinávamos luta-livre inspirados nos telecatchies da TV Excelsior.

Ah! o tempo voou nas tesouras e voadouras de Ted Boy Marino, deixando lá pra trás Fantomas, o Tigre Paraguaio, Aquiles, Hércules, Múmia, Índio Saltense e Rasputin...

Um dia longinquo, numa manhã festiva - fim de ano, sei lá! - o ICC armou-se em comemorações e resolveram projetar um filme na dita sala de TV. Não me recordo o nome da película, lembro-me vagamente de algumas cenas.

Era um filme dos três patetas. O projetor instalado lá atrás de nós e sua maquinação ruidosa furtava a atenção. À frente, uma enorme tela branca de plástico, descerrada e enfunada de sonhos e fantasias, movia uma nau de crianças alegres que deixava lá fora, no claustro, todas as tristezas e angústias.

Lembro-me de uma enorme aranha perseguindo os palhaços. Fulminava os traseiros com um jato certeiro de fogo. Ríamos à solta. Uma alegria sincera, verdadeira. O tempo parava suas rodas implacáveis, penetrávamos nos mistérios de uma alegria essencial. Jamais pude regozijar-me com tamanha plenitude.

O ICC nos deixou marcas indeléveis.

quinta-feira, dezembro 15, 2005

Íris - return again


Fiquei realmente impressionado com as questões que permeiam as aventuras filosóficas que alimentaram o TCC da minha filha. Espaçotempo - como reduzir essa complicadíssima discussão filosófica e conceitual a uma obra concreta de arte?

Ela tentou, a corajosa Íris! E conseguiu resultados muito surpreendentes.

Em primeiro lugar, optou pelo discurso fragmentado. Ou seja, contou uma história que se desencadeia com apoio no recurso da fragmentação multifária - uma explosão de sentidos com objetivos muito claros de desnudar a visão traída, essa pobre enganada, obnubilada pelo embotamento de nossas experiências ordinárias.

Como superar o véu - aquele famoso véu da consciência? Uma viagem no tempo nos libertaria?

A percepção de um homem comum é fruto de uma visão integradora e reordenadora de sentidos. Não gostaria de fazer aqui referência ao filme Matrix, mas me ocorreu justamente isso: agente e paciente desse fenômeno de reprodução de sentidos, a realidade se lhe apresenta como um tecido primorosamente urdido pela consciência coletiva. Indestrutivelmente construída. Afinal, é a realidade!

Ok, ok, ok. Os realistas dirão que nunca viram alguém transpor as paredes ou sair pelas janelas voando... Talvez não fosse possível mesmo - ainda que se considere que as experiências da física contemporânea estejam chegando bem perto disso!

Pois é a isso mesmo que a Íris se propõe - apresentar-nos um estranho mundo onde as coisas mais comuns perdem o sentido. E com isso nos causa um incômodo, uma certa vertigem, e o faz quando realiza a multiplicação e superposição de imagens naquelas salas de ambiência. Sua experiência é perturbadora justamente por induzir a concomitância de fenômenos, por fazer avançar e retrogradar a experiência do personagem, como se pudesse, com a deliberada fragmentação, despedaçar também a idéia de pessoalidade e singularidade. Caindo já nos domínios da transpessoalidade, destrói habilmente a idéia de personagem. De quantas personas estamos tratando nessas salas? Se radicalizarmos as idéias que se acham no núcleo da física quântica, qualquer resultado seria possível. Somos um e vários!

Outro recurso muito interessante foi abandonar o foco posto na estrita "objetividade", de modo que não só em relação às "coisas" poderíamos intentar subverter a regra do tempo - por outra: não só em relação à famosa experiência das bolas de bilhar que partem e já estamos antes do golpe - mas pricipalmente em relação aos sentimentos envolvidos.

As coisas têm alma? Será possível que os ambientes guardem a memória dos fatos? Os sentimentos das pessoas ficam gravados nas paredes? É possível o sentimento desencarnado? Essas coisas estranhas se tornam pertubadoramente próximas quando experimentamos abandonar, ainda que como mero exercício especulativo, a firmeza de nossas certezas arraigadas e construídas a partir de nossa percepção média. Sonhos, coincidências significativas, as experiências místicas e o arrebatamento pela expansão da consciência. Enfim, esses temas estão ali como um jogo de dados.

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Lila, não pude surrupiar um exemplar do TCC das suas mãos. Quero ler atentamente o que expôs e comentar aqui. Espero um exemplar!

Íris, eu fiquei muito emocionado com a sua apresentação. Senti-me realizado de certa e muito particular maneira. Vê-la completando esse ciclo tão importante, percebi que nossas vidas estão repletas de significados e maravilhosos sentidos. Espero que esses sentimentos cristalinos sejam realmente indestrutíveis, como o mais puro, raro e perfeito diamante.

Minha querida filha. Ainda que não mais existisse, que as paredes pudessem dar o testemunho desse meu grande amor!

quarta-feira, dezembro 14, 2005

Isso são outros treze

Mais um 13 na minha vida!

Foi no dia 13/12/2005 que a minha filha Íris superou um importante desafio: terminou o curso de design gráfico, que ela fez com muito gosto e aproveitamento.

Ali estava ela, linda, com aquele seu ar de "distraídos venceremos", jogando um jogo de dados para uma platéia cativa, os olhos postos na profusão de imagens fragmentadas da exposição. A sorte estava lançada! Um Rubicão a mais - entre tantos outros obstáculos afinal superados.

A Íris retém o detalhe. Com as pinças agudas de uma inteligência vigorosa, descerra aqueles estranhos mistérios que calham na trama ordinária de nossas experiência cotidianas.

A sua procura é pungente. Revisita a sua própria experiência, busca chegar no limiar do seu instante zero - quando os mistérios afinal se revelariam pela superação das cadeias espaço-temporais.

A Íris terá chegado afinal antes mesmo de partir.

Prigogine, Eistein, Zappa. Simultaneidades. Volto ao assunto, pois a série de pensamentos que o seu trabalho desencadeou é fato digno de registro e nota.

Íris, por hora: parabéns! Além de me ter emocionado às lágrimas - "velho chorão", os professores terão pensado - deixou-me a certeza de que, afinal, entre tantos erros e acertos, entre alegrias e canseiras, afinal "distraídos vencemos".

sábado, dezembro 03, 2005

as fadas habitam o coração dos que amam

Hoje tive uma experiência assaz interessante com a Helena, minha querida Lelê. E merece ser contada.

Fui a uma livraria na sexta-feira; tinha um compromisso mais à tarde e resolvi espiar as prateleiras infantis nas vésperas de um encontro chato e burocrático. Remexendo a montanha de livros, à cata de ilustrações deslumbrantes como as de Gustave Doré (ao lado), encontrei dois lindos volumes de contos dos Irmãos Grimm, ilustrados pela artista russa Anastassija Archipowa.

Belíssimos! Fui imediatamente transportado para aquelas paragens mágicas, enlevado pelo traço elegante, delicado e absorvente de Archipowa.

Comprei num impulso os dois volumes, traduzidos por Maria Heloisa Penteado. Imaginei que seriam lindos presentes para a pequena Helena, que já se interessa por contos de fadas.

À noite, naquela horinha de passagem, em que os bichos do dia se recolhem e os da noite põem as patinhas prá fora - horário em que a Lelê já está embarcando à Terra do Pirlim-pim-pim -, resolvi ler as histórias e comecei logo pela sua predileta: chapeuzinho vermelho.

A história é uma síntese bem-feita da original e se mantém relativamente fiel àquela que conheço, traduzida por Íside M. Bonini e que foi publicada pela Edigraf, de São Paulo, em 1961, sob o título Contos e lendas dos irmãos Grimm, em 8 volumes. "Coletânea essencial", na avaliação de Karin Volobuef em sua página. O final difere um pouco. Mas não é disso que quero tratar aqui.

Já havio lido e decorado a história e sempre a contava de memória à Lelê - que a ouvia antentamente e temerosa da parte do lobo-mau. Quando chegava àquela passagem, cobria os olhos com suas mãozinhas, como se pudesse com isso deixar de "ver" o que só os olhinhos do coração enxergavam.

Certa noite, na passagem citada, quando Chapeuzinho se dirigia pelos caminhos da floresta rumo à casa da Vovó, pouco antes do encontro com... vocês sabem quem! Lelê, de um salto acrobático, escorregou para baixo da cama, carregando o lençol e o ursinho debaixo do braço. Eu ouvia a vozinha assustada, pedindo-me que continuasse a história - que esta não deve nunca parar!

E assim tem sido. As histórias dos irmãos Grimm nunca param.

Mas a novidade trazida da livraria mostrou-se um desacerto. O pai se encantou com as imagens de Archipowa, realmente magníficas - como havia se encantado com as majestosas ilustrações de Doré. Mas essas imagens oníricas e arquetípicas se por um lado têm a virtude de despertar a fantasia neste velho pai, evocando imagens arcaicas e infantis, por outro lado parecem limitar a imaginação da Helena, que passou a enxergar uma redução inaceitável dos entes que a sua imaginação criara (ou percebera).

- "A boca desse lobo é pequena! Como vai comer a vovó?" - perguntou intrigada, analisando escrupulosamente as proporções do maxilar do lobo. Cara à cara com a representação do ente malévolo de sua imaginação, o medo essencial que nutria, sabe-se lá de que figuração fantástica, se esvaiu diante dessa empobrecida caracterização.

- "Onde está a pia?" - disparou, apreciando a imagem que orna o frontespício. (A imagem retrata chapeuzinho e sua mamãe diante de uma mesa onde se acham o vinho e o bolo da vovó).

- "Que pia, meu amor?" - fiquei sem entender bem a pergunta.

- "A da cozinha, oras! Está aqui, ó..." - apontando com o seu dedinho um quadrante da página em branco. "Embaixo do branco", explicou enfadada, declarando o óbvio para este pai desatento.

Embaixo do branco? Francamente... A imaginação ultrapassa sombraceiramente os limites materiais do livro e alcança o inusitado, o livre, o incontido, transitando um universo mágico. Olhando para o nada do continente que acolhe delicadamente letrinhas e figuras, mergulhou novamente para dentro de si mesma. No branco do livro cabe tudo! E logo deixou de lado o volume e se entrincherou debaixo das cobertas. "Vem para o 'círculo', papai!". (Ah! ela se nega a considerar o picadeiro e seus personagens como integrantes do "circo". O palhaço, a equilibrista, a macaca Monga representada pelo bilheteiro que ela logo identificou, todos esses personagens fazem parte de outra dimensão que não a do mero circo. São habitantes do "círculo").


Há um livro imaterial muito mais importante. Existe em nossa alma um poderoso conjunto de imagens e símbolos que os livros, quando genialmente ilustrados, conseguem recuperar de modo muito imperfeito. Já não temos, muitos de nós, a pureza de coração para ver como vêem os pequenos. Descobri que os livros são muito importantes para nós, pais dedicados, mas não servem, ainda, para estimular a fantasia que nessa idade se forra às duras reduções. Capazes de tocar o ouro puro, oferecemos, em substituição, a palheta imperfeita de nossas representações. "She’s walking through the clouds / with a circus mind that’s running round"... (Jimi Hendrix).

Minha Lelucha. Estou nesta noite depositando os ricos exemplares num setor secreto da biblioteca, com a esperança de que amanhã de manhã, quando os bichinhos do dia saudarem o sol, sejam esquecidos. Por ora, somente por ora. À noite, aboletadados na caminha com véu, e sob a luz titubeante da vela de cera de abelhas que você tanto ama, voltaremos à terra mágica das histórias de fadas, percorrendo o caminho do conto, embalado pela voz calorosa deste pai que te ama profundamente e repete as histórias que você já conhece desde sempre.