segunda-feira, janeiro 16, 2006

Uma visita ao poeta


Abro um parêntese para revelar a visita da historiadora Adriana Gianvecchio.

Eu recebi a carta na altura em que tentava romper a parede de água que caia sobre a Quinta da Regaleira, em Sintra. Há tantos mistérios nesse encontro quantas foram as gotas caídas na relva.

Querida amiga, sua prosa está deliciosamente pontilhada de referências pessoais; o texto se abre como um fruto maduro. Eu a conheço e confirmo. Agradeço a visita da poetiza. (SJ)

~~~~~~~~~~~*~~~~~
Recebi a chave de um templo, uma senha de memória para visitar um tempo em suspenso. Um tempo em mim que não se desfaz.

Um código de Alice, Clarice, ou será de Borges? Talvez Quintana ou Poe, ou essas ‘buscas proustianas’ que nos levam aos recônditos de nossa alma. Nossos porões. Ou seja, ao lugar- nenhum de todo abismo da reflexão que nos faz constatar o vazio.

Espelhos. Portas. Entremundos.

No início, tive receio de voltar a esse tempo. Até deixar o olhar passear pelos espaços da memória e encontrar uma nave que me levaria ao poeta.

O medo (dos fantasmas), se desvaneceu naquele sentimento de quando se reconhece a imagem de alguém tão querido que nunca mais se viu. Deixei-me levar pelas linhas claras, dissipando as nuvens de esquecimento cultivadas pelo olhar apressado e pela ilusão de tempo. No caminho encontrei um menino de alma antiga e olhos translúcidos que olham com curiosidade sobre todas as coisas. Criança hiperativa, hipersensível, perceptiva. Criança que cria mundos e brinca com o som e com o vazio. Silêncio...

Eis que surge o homem. Ele tem pressa. O homem cartesiano que não tem tempo, não tem hora, só tem razões. Homem hiper-eficiente, hipertenso, a colecionar papéis, letras mortas e inventários. Coisas dos homens. Legados. Lacunas. Labaredas...

Fez-se noite.

Um ser passeia por nós: anima/animus. O ser invade o Ser e revela constelações. O menino adormece. O homem procura lógicas. Procura sílfides. O poeta procura revelações. O homem dorme pouco, pois tem medo de encontros.

Estamos em um templo de pedras frias, antigas, cheias de poeira e versos. O velho sábio adverte que na República Ideal os poetas não podem entrar...Solidão.

O menino desperta do sonho acalentado por uma nota fina. Consciente da transição que virá pela necessidade da superação.

A Revelação

- Os políticos são os homens do presente, mas os artistas são os homens do retorno... Diz o profeta ao menino. E o homem encarcera o poeta e desperta. Ilusão.

O poeta gosta da água doce e de flores grandes e amarelas com gosto de quintal com terra molhada, gosta de doces frutos e de mato. O homem não. Não tem tempo para esses gostos.

Dorme o poeta por imensos setênios de exclusão na alma abandonada. Mas não morre, não. Vive na esguelha de um olhar que escapa ao trágico, da memória de uma paixão, de uma curiosidade, de um acorde. Soul. Vive nas coisas simples, na rede de dormir, naquela rua de paralepípedos, no barulho dos cascos dos cavalos do leiteiro, na casa pobre, na cortina de flores gastas, na colcha de retalhos coloridos. Vive no céu aberto, na chuva fria, nos pés cansados, nas lembranças proibidas, na dor cultivada. Jazz. Dessa dor que chora a seco, porque se esconde na seca árvore do longínquo quintal para onde o menino corre quando alguém se vai.

Mas é o poeta que não consegue verter lágrimas. O homem apenas acha que não chorou. Exclui memórias, escolhe os caminhos certos, as pessoas ideais. Mas o poeta não, prefere os duvidosos, os insensatos e escolhe os cantos e passagens que o homem não recomenda. O homem queima os diários que revelam o poeta. O homem é sério, tem pressa. Não pode se perder com delírios...

Já o poeta escolhe outros caminhos, ruas antigas, histórias poeirentas de velhos livros folheados por outros tantos poetas... Busca o poeta a aura mágica do toque que partilha a emoção retida no desvelar da alma feminina. Mas o homem não. O homem tem responsabilidades, contas, agendas, horários. O poeta tem um pôster de um músico com um rosto árabe, uma caixa de fotografias amarelecidas de outros poetas que está perdida no canto de um armário ao lado de um velho guarda-chuva e de um relógio parado. Testemunha ocular desse tempo que o homem acordou e fez adormecer o poeta.

Mas, o poeta resiste e desperta no espaço sideral em silêncio porque o homem acorda cedo.

O homem do retorno – ou, percepções desérticas.

Choro em cada parágrafo de lagrimas secas. Choro sem verter lágrimas, choro num silêncio que evoca o que não mais se atinge. Num abismo-eco. Árido. Desértico.

Um choro em pó, pasteurizado, introjetado. Choro sem chorar e dessas não-lágrimas produzo palavras. Choro letras, memórias, imagens desvanecidas, esquecimentos programados. Mas não assumo o choro. Quero verter o pranto mas não consigo. Retenho a água, salgada, sofrida, a expressão corpórea, a emoção na fonte.

E por não verter é que verbalizo a dor que para tantos não tem palavras não tem não tem... Choro pelo avesso. Cintilo perdas, petrifico, calcifico distâncias e negações. Mas não choro porque não posso ou será que não derramo a perda por que contê-la é ainda ter a dor? Não a deixo...

Por isso, retorno aos filhos, fragmentos, pedaços, pais, projetos, desafios, confrontos, completude, fractais, continuum, ancestralidade, múltiplos, entendimentos, dissonâncias, ciclos.

Agora sim: plural.

Sabendo que “procurava a inteira” como nas veredas de Rosa ***

Um convite à memória do poeta,

Chá de tília em tardes de chuva rala. Memórias cultivadas em caixas de uvas vermelhas e terra úmida nos pés. Pirilampos. Experiência metafísica. Meta-carne. Tempo.

Não pára, não pára, não pára....

E ainda me escondo naquele quintal, atrás de pés de conhecimento, silêncio e perdas cultivadas pelo não chorar. E empilho velhos livros para que me protejam dessa insana guerra.

Mas, onde estão aqueles dias nossos? Ah, ainda estão Lá... No percurso que leva ao não-lugar, no entremeio, na fresta, no abismo em que descobrimos que existe mais além do que podemos (queremos) perceber.

Nos vaga–lumens, nas vagas horas de nossas vagas lembranças.

Mensagens (de)cifradas – ou, te devoro.

Reconheço sua alma – dos lugares de outrora. Mas com os olhos bem abertos choro pelo poeta.

Mas saiba, procuro perder-te todas as manhãs. Só que não posso. E não entendo.

Sei que um dia encontrarei o poeta, quando ele superar o homem. Nesse dia, poderemos chorar em vidros, colecionar conchas, flores, árvores e estrelas. E escrever segredos para enviar em garrafas ao mar sem fim de nossas almas antigas e inquietas. (Adriana Gianvecchio)

Um comentário:

Personagem disse...

Parece-me que o li, contado como uma história. Dessas histórias que nos contam suavemente, em voz baixa e em harmonia com a lua no céu.

Mas a curta noite da beleza incomensurável não é história que se conte impunemente.

No sopé das montanhas, para além dos domínios do ordinário coração humano, a mulher se apressa em sua tarefa de evitar que caia a noite. Ela sabe que pode fazê-lo. Possui o saber das terras distantes e antigas. Tem alma de camponês e de marinheiro, ao mesmo tempo.

A cada doze luas miguantes, sempre na mesma embocadura de rio, pirilampos do crepúsculo se reúnem em sonho. A mulher abre as portas de sua memória narrada e recebe os visitantes noturnos. Alguns, passageiros. Mas há o que espera em silêncio pelas dozes luas minguantes. Conversam. Conversas passadistas, como todas o são. Debates pelo assenhoramento das experiências. Luta contra o perecimento. Lamentos por uma grandeza perdida.

Walter Benjamin dissera que a conversa é o reconhecimento do passado, como se fosse a nossa própria Juventude e Velhice, em batalha, no campo de ruínas de nosso espírito. Porque somente nos damos conta daquilo que, sem saber, já destruímos.

Ao nascer do dia, as flores do jardim ainda estavam úmidas de orvalho. O rio dos pirilampos curara, com palavras, o longo silêncio.

Sorriram, sem "adeus", sem "até mais", pois dali a doze luas minguantes tudo se renovaria.

Aline