
Murilo Mendes registrou em Poliedro (1972) que os meninos gostam mais de desmontar do que montar coisas.
Acho que tem razão.
A montagem sempre foi algo muito aborrecido. É como se caminhássemos a ré, recompondo tudo o que a curiosidade desvelou, com sua arte perita de insinuar-se delicadamente nos mistérios de todas as coisas.
Quando criança gostava de desmontar os velhos rádios a válvulas. Cheguei a ter uma coleção apreciável de quinquilharias imprestáveis - rádios que não radiam, eletrolas que não oram, televisores míopes, receptores distraídos, transmissores ensimesmados, amplificadores tímidos. Abria excitado as velhas caixas de madeira empoeirada, delicadamente esventrava o corpo inanimado de cátodos, resistores, bobinas, ímãs. Selva de cobre e estanho, quantos mistérios não encerra?
Não me importava o funcionamento ordinário de todas essas coisas - afinal é para isso que existem, ora bolas! Jamais consegui consertar qualquer uma delas. Muito mais excitante, isto sim, era o deslumbre com as minúcias, subtrair pequenas peças de um jogo inexpugnável, acomadá-las em caixinhas de charuto, cada qual integrando uma família, um gênero, um ente enfim, despojos para a derradeira decifragem que tarda afortunadamente.
Assim foi com as palavras. Desde muito pequeno deitava-me com uma coleção de revistas emboloradas, escritas em vários idiomas - que isso, sabido que era, eu sabia, embora não soubesse ainda ler. Ou passava horas folheando um livro que até hoje permanece inextrincável para mim: hagerups illustrerede konversations leksikon. Ainda o tenho às mãos; ele me flerta agora, sombranceiro, em silêncio obsequioso. Eu o amo por conter os desenhos e garatujas de minha infância. Carreguei-o por toda a minha vida.
Lembro-me de palavras soltas, de sons desmembrados, seccionados, segregados, desgarrados, e ainda assim como eram lindos! Recordo-me de "cãs de um lente", uma história que dorme nalgum livro aborrecido de gramática e cujo contexto ignoro solenemente. Palavrar fúcsias, sebes rosáceas, dobra inconsútil, irisado, crisálida, pipoca era uma aventura arriscada.
Assoviava com todos os dedos, com cada um, aos pares, sem eles, e me parecia bom que cada silvo sibilasse de um jeito ou de outro. Mais interessante do que a função do assovio era o som do atito. E cantava a plenos pulmões em "outras línguas", o que sempre municiava de receios irracionais o meu tio kardecista.
Um dia, uma bela manhã, tendo saído mais cedo da escola, armei-me de um velho gravador portátil de rolo e, apetrecho em punho, pleno de coragem, saí a campo. Posicionei a geringonça no ponto exato de vociferar qualquer coisa em inglês - uma palavra rara (bem sei qual era!) que me soava especialmente agradável. Ali quedei-me, gravador em riste, à espreita da criatura mais apavorante, mais aterradora, mais irresistivelmente linda e sedutora... Sim, a palavra me vem fácil... Márcia!
Ah! pequena Márcia, quis dar-te um regalo inefável, um pequeno bouquet sonoro, um objeto que fizesse vibrar suas cordas interiores, tão concreto e instantâneo como terá sido o meu indizível amor.
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