Domingo é dia de circo.O Pê acordou febril, a Lê a mil. E o Thi dormiu...
Como fazer?
Zarpei pela Rubem Berta tranqüila, zunindo pelos costados do Ibirapuera com a dobló grafite riscando certeira a 23 de maio... Putz, vou passar diante da horrorosa estátua do cassino... Tudo bem! A cidade e suas fealdades.
Tinha que chegar pontualmente às 11.
Sim. Pontualmente às 11h. a banda desafinada do Circo desborda suas notas frouxas.
O Circo Zanni está fundeado num terreno de muitas árvores - um bosque repleto de figuras misteriosas que a imaginação da Lela criou. São lobos, bueiros, sombras. O cenário compõe o medo essencial de bocas-de-lobos que tragam violentamente águas da chuva, gravetos e o valente soldadinho de chumbo.
Diante do picadeiro, ela mira desconfiada a lona vermelha pendente de lanças cravadas nos céus. Impressiona-se com as flâmulas medievais. Silenciosamente penetramos no interior do espaço mágico e ela se aninha calada no meu colo, observando tudo, atenta.
O espetáculo tem início com seus ritos. O apresentador sentencia: "Senhoras e senhores, o Circo! o maior espetáculo da terra!". (Que bom ouvir terra. Temia ouvir globo...).
A banda se empertiga e com seus naipes estridentes ensaia uma coreografia descompassada. Ah! meu Deus, que saudade dos palhaços de minha infância. Tão genuinamente arrebatados. Tão humanamente patéticos. A idiotia sem foros de suficiência, sem sombranceria, ingênua, ferida pela aguda fragilidade humana.
Fui tragado por essas lembranças, transido de uma nostalgia de um tempo de arrebatamentos. Como se pudesse recuperar a visão sem jamais perceber que ficara cego, fui transportado para uma pequena cadeira fincada na serragem úmida dos costados do Tietê. Me vem o vôo da trapezista cruzando as estrelas incrustradas na lona encardida. Prendo a respiração: ela voa!

Nesse devaneio, sou fisgado pela coreografia das equilibristas e acróbatas que rodopiam vertiginosamente seus vestidos e bantás profanos, feitos só para os meus olhos. As pupilas se engastam nas cores em movimento, circulando, remexendo, insinuando-se por todas as janelas da alma. Volto sob varas ao Zanni.
Já agora flutuando no centro do picadeiro se acha uma linda bailarina. Radiada e pega da corda tesa, a bela acróbata rodopia, construindo uma frágil coreografia sobre o abismo, ligando a quietude absoluta que é o centro de todo movimento e o circo constelado de crianças algaraviadas. De repente, do coração da bailarina explodem pequenos relâmpagos de cores e brilhos, purpurinas e confetes, lançados na contra-dança dos ares, banhando a lona de uma fina chuva de pequenas lanternas fugidias.

Olho para a Lê e vejo um fio de lágrimas marcando o rostinho enlevado. Demoro para interpretar e compreender a emoção que parece brotar tão-só do maravilhar-se de uma bela imagem.
Certamente a minha pequena é uma generosa nascente de sentimentos puros, intensos e sadios!
Eu te amo, Lê.
Acima: Jacques Callot, Le Zani Ou Scapin (Zanni or Scapino) c. 1619. From the three Pantalons (Three comedians). Etching and burin Auckland Art Gallery Toi o Tāmaki Mackelvie Trust Collection.
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