Hoje tive uma experiência assaz interessante com a Helena, minha querida Lelê. E merece ser contada.Fui a uma livraria na sexta-feira; tinha um compromisso mais à tarde e resolvi espiar as prateleiras infantis nas vésperas de um encontro chato e burocrático. Remexendo a montanha de livros, à cata de ilustrações deslumbrantes como as de Gustave Doré (ao lado), encontrei dois lindos volumes de contos dos Irmãos Grimm, ilustrados pela artista russa Anastassija Archipowa.
Belíssimos! Fui imediatamente transportado para aquelas paragens mágicas, enlevado pelo traço elegante, delicado e absorvente de Archipowa.
Comprei num impulso os dois volumes, traduzidos por Maria Heloisa Penteado. Imaginei que seriam lindos presentes para a pequena Helena, que já se interessa por contos de fadas.
À noite, naquela horinha de passagem, em que os bichos do dia se recolhem e os da noite põem as patinhas prá fora - horário em que a Lelê já está embarcando à Terra do Pirlim-pim-pim -, resolvi ler as histórias e comecei logo pela sua predileta: chapeuzinho vermelho.
A história é uma síntese bem-feita da original e se mantém relativamente fiel àquela que conheço, traduzida por Íside M. Bonini e que foi publicada pela Edigraf, de São Paulo, em 1961, sob o título Contos e lendas dos irmãos Grimm, em 8 volumes. "Coletânea essencial", na avaliação de Karin Volobuef em sua página. O final difere um pouco. Mas não é disso que quero tratar aqui.
Já havio lido e decorado a história e sempre a contava de memória à Lelê - que a ouvia antentamente e temerosa da parte do lobo-mau. Quando chegava àquela passagem, cobria os olhos com suas mãozinhas, como se pudesse com isso deixar de "ver" o que só os olhinhos do coração enxergavam.
Certa noite, na passagem citada, quando Chapeuzinho se dirigia pelos caminhos da floresta rumo à casa da Vovó, pouco antes do encontro com... vocês sabem quem! Lelê, de um salto acrobático, escorregou para baixo da cama, carregando o lençol e o ursinho debaixo do braço. Eu ouvia a vozinha assustada, pedindo-me que continuasse a história - que esta não deve nunca parar!
E assim tem sido. As histórias dos irmãos Grimm nunca param.
Mas a novidade trazida da livraria mostrou-se um desacerto. O pai se encantou com as imagens de Archipowa, realmente magníficas - como havia se encantado com as majestosas ilustrações de Doré. Mas essas imagens oníricas e arquetípicas se por um lado têm a virtude de despertar a fantasia neste velho pai, evocando imagens arcaicas e infantis, por outro lado parecem limitar a imaginação da Helena, que passou a enxergar uma redução inaceitável dos entes que a sua imaginação criara (ou percebera).
- "A boca desse lobo é pequena! Como vai comer a vovó?" - perguntou intrigada, analisando escrupulosamente as proporções do maxilar do lobo. Cara à cara com a representação do ente malévolo de sua imaginação, o medo essencial que nutria, sabe-se lá de que figuração fantástica, se esvaiu diante dessa empobrecida caracterização.
- "Onde está a pia?" - disparou, apreciando a imagem que orna o frontespício. (A imagem retrata chapeuzinho e sua mamãe diante de uma mesa onde se acham o vinho e o bolo da vovó).
- "Que pia, meu amor?" - fiquei sem entender bem a pergunta.
- "A da cozinha, oras! Está aqui, ó..." - apontando com o seu dedinho um quadrante da página em branco. "Embaixo do branco", explicou enfadada, declarando o óbvio para este pai desatento.
Embaixo do branco? Francamente... A imaginação ultrapassa sombraceiramente os limites materiais do livro e alcança o inusitado, o livre, o incontido, transitando um universo mágico. Olhando para o nada do continente que acolhe delicadamente letrinhas e figuras, mergulhou novamente para dentro de si mesma. No branco do livro cabe tudo! E logo deixou de lado o volume e se entrincherou debaixo das cobertas. "Vem para o 'círculo', papai!". (Ah! ela se nega a considerar o picadeiro e seus personagens como integrantes do "circo". O palhaço, a equilibrista, a macaca Monga representada pelo bilheteiro que ela logo identificou, todos esses personagens fazem parte de outra dimensão que não a do mero circo. São habitantes do "círculo").

Há um livro imaterial muito mais importante. Existe em nossa alma um poderoso conjunto de imagens e símbolos que os livros, quando genialmente ilustrados, conseguem recuperar de modo muito imperfeito. Já não temos, muitos de nós, a pureza de coração para ver como vêem os pequenos. Descobri que os livros são muito importantes para nós, pais dedicados, mas não servem, ainda, para estimular a fantasia que nessa idade se forra às duras reduções. Capazes de tocar o ouro puro, oferecemos, em substituição, a palheta imperfeita de nossas representações. "She’s walking through the clouds / with a circus mind that’s running round"... (Jimi Hendrix).
Minha Lelucha. Estou nesta noite depositando os ricos exemplares num setor secreto da biblioteca, com a esperança de que amanhã de manhã, quando os bichinhos do dia saudarem o sol, sejam esquecidos. Por ora, somente por ora. À noite, aboletadados na caminha com véu, e sob a luz titubeante da vela de cera de abelhas que você tanto ama, voltaremos à terra mágica das histórias de fadas, percorrendo o caminho do conto, embalado pela voz calorosa deste pai que te ama profundamente e repete as histórias que você já conhece desde sempre.
Um comentário:
Filho de peixe, de fato, peixinho é! Como seria possível a filha não ser tão terrivelmente intrigante como o pai?
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