segunda-feira, janeiro 30, 2006

Murilo Mendes - ora pro nobis!


Poesia ou prosa - o que é superior? Nem o amor, nem a amizade, nem os nomes, nem os pronomes: Murilo Mendes, ora pro nobis!

Murilo Mendes me foi apresentado formalmente pelo Zé Ruben. Entregou-me cuidadosamente um exemplar de Transístor e logo deitou falação sobre as qualidades que eu já pressentia no poeta. O Zé é assim: simplesmente categórico. Seu discurso envolvente, sua sabedoria e intuição profundas, a erudição de um médico que se dedica aos livros, o Zé tem o dom de arrancar-nos dessa terra ignota e nos depositar seguros nas culminâncias. (Meu querido Zé Ruben, suas etimologias ilustradas me despertaram para os segredos inscritos desde sempre no coração das palavras).

Verdade é que o livro dormitou na biblioteca, esperando-me sábia e pacientemente. Os livros sabem o mistério do Tempo.

Falando de Tio Lucas, o médico das almas e dos povos, Murilo Mendes evoca uma idéia que me toca profundamente. "As pessoas e os fatos são contagiosos". Pois Zé, tu me contagiastes de uma encardida humanidade! Homem que se dedicou ao Homem (e aos livros) esse meu amigo médico realiza generosamente o talento da multiplicação do verbo. E de quebra me presenteia com as Confissões, de Agostinho. Medicina anima acabou sendo meu ex-libris...

A obra muriliana é aberta. Ilumina e dá sentido às minhas ruminações. Uma prosa que toca a gema preciosa da poesia. Lembra que o "reino de Deus pertence aos que consentem na sua própria morte", como se acha na Epístola Jacobi. O Bonfim é o senhor dos bons fins e dos melhores começos. Talvez resida aí o segredo do Zé. Ele traz gravado nas entranhas de sua verba generosa uma sabedoria indestrutível.

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Nesses dias chuvosos de Patrocínio Paulista, entre o choro essencial do Thiago e o desaforo do Pedro, me vêm essas lembranças entremeadas com as inovações e invenções da Helena.

- "Eu entendo a língua dos grilos", garantiu-me ao ouvir a cantoria de um ortóptero apaixonado.

- É mesmo? E o que dizem os grilos?

- "Cri-cri-cri...".

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A pintura acima é de Flávio de Carvalho. Retrato de Murilo Mendes, 1951, óleo sobre tela,100 x 70, Coleção Gilberto Chateaubriand



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