Vlademir Ferrer Martines - ou Vlad, como atualmente é conhecido pela tribo juvenil que constela o artista. Para mim, simplesmente Mi - uma nota precisa, um signo, é assim que a minha memória aprisionou em suas cadeias o nome e a figura.Verdade seja dita: Vlad parece nome de bárbaro eslavo que migra em hordas, faminto e determinado. Como é difícil decalcar a imagem retida no Orkut sobre a outra, que cintila na lâmina de um lago profundo e tranqüilo!
Mi, um cara doce, elegante, quase um Mi Bemol na suavidade e nos gestos. Lembro-me de seus desenhos - estes sim, arrojados, grafismos enérgicos, epígrafes de letras atiladas, feitas como se quisessem decolar, sobrepairando o oceano alveado, imprimindo matizes firmes, jogos violentos de contrastes, luz, sombras, dimensões. Acho que as letras daquele jovem advertiam já o firme caráter do homem!
A Internet nos dá a derradeira chance de revolver o tempo, recolher cacos, formar um mosaico que de certa maneira nos estrutura, reconforta, dá sentido à nossa biografia. Mas... tudo isso será verdade? É mentira? Pelo contrário? Isso me lembra o comentário da pequena Helena, resistindo heroicamente ao sono:
- "Papai, a madrugada ainda é de dia?", questiona na sua tagarelice interminável.
- "Não, Lelê; lá fora está escuro". Procurando evocar os rituais do sono, falo baixinho: "dorme, meu amor, é hora de dormir!".
- "Não, papai!" - retruca enérgica. "A madrugada é noite... mas é dia também. Noite e dia!".
Chego à exasperação com a sensação de que simplesmente não existi para as pessoas que escrevem nessa comunidade da Internet. "Ei, você aí, será que se lembra de mim?" foi a postagem mais desesperada que me permiti nos últimos tempos. Ouvia como resposta somente as minhas próprias perguntas.
Eis que num belo dia (ou noite) reencontrei o Mi, perdido numa dessas paragens insólitas da rede. De quebra o achado dá de iluminar algumas sombras tenebrosas.

Toda vez que tento, lembro-me do Mi em flashs intermitentes. Diz o velho koan: se quiser entender, não tente! Fulgurações vigorosas, arrebentos instantâneos, sumiços fugazes, relâmpagos em noites de verão...
O ginásio me assalta agora, com suas Normas e Veras, Alices e Mitiés, Jones & Saletes, Cidas pícnicas, doces Maurílios, loucos Maurícios. Ariel com sua inventividade insustentável. Dizem que depois de arremessar artifícios explosivos sobre o Segundão, inscreveu em tábulas rasas os detalhes de sua história. Em sânscrito...
Logo me assombra uma noite mercurial, os guarda-pós que nos tornavam, a todos nós, perfeitos chineses. Rostos sem nome, nomes sem rostos, restos da memória que a Rua Universal tragou na aventura do tempo.
O Segundão estava fincado na Praça Paul Harris. Lembro-me de que grafaram o nome do cara errado na carteirinha: Baul Harris. A secretaria do Segundão perdeu a rota, com o perdão do trocadilho. Embora a construção se debruçasse ao norte, servindo-se do busto rotariano como alicerce, era pelos fundos do colégio que tudo bulia. Houve um tempo em que chegava sempre a tempo de me entreter com os alunos que saíam a retro no final da tarde - por aquela porta verde explodia um jato generoso de jovens ruidosos indo ao encontro de seus amores e do ônibus que vinha de um Riacho Grande longinquo e misterioso. Tesão, alegria, chuva, pipocas. E Alice. O meu namoro com a misteriosa Alice durou exatamente o giro anti-horário nos costados do Ginásio. Não preciso lhes dizer que aquele amor tarda em mim uma eternidade!
Meu caro Vlademir. Não sei como o conheci, nem sei como nos despedimos nesta vida de tantos encontros e partidas. Olhando fixamente as suas fotos, vejo um outro que talvez suceda o Mi, agora alguns sustenidos acima. Quem saberá em que altura esteja eu mesmo, nessa partitura absurda, nesse contraponto imponderável?
Sei, contudo, que nalgum tempo, nalgum lugar, existi. Acho que realmente existi e resisti, confirmadas as minhas suspeitas. Nosso encontro foi o meu crisma. Obrigado!
PS: Axis: bold as love é um disco de Jimi Hendrix. Posso qualificar o trabalho como "a trilha sonora de minha vida". As fotos acima foram feitas a partir de um vinil uruguaio que foi presentado ao amigo em 1974 e por ele conservado até hoje. Po-se dizer: high fidelity!
Um comentário:
Sergio, é surpreendente a sua capacidade de traduzir sentimentos em palavras.
Lendo, regresso aos bem vividos tempos de nossa juventude; Numa época de dúvidas,rebeldia, medos,indecisões, confrontos, erros, incertezas, paixões, amores, toda pureza que se desvirginava para o que somos hoje.
Me expressava desenhando, desenhava a liberdade.
Obrigado amigo, voce sempre existiu em minhas lembranças e hoje estamos próximos de nos reencontrar. Obrigado por me transportar no tempo, o melhor de todos os tempos. Abraço, Mi
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