segunda-feira, novembro 28, 2005

Gus in the sky with diamonds

Rememorando as passagens maravilhosas vividas com o meu querido amigo Gustavo Pena, El Principito, achei que deveria publicar algo que somente pude compartilhar com alguns poucos amigos. Render uma sincera homenagem ao grande amigo - esse era o desejo que sempre alimentei ainda quando ele estava entre nós. Talvez me reste publicar as fotos que tenho em meu arquivo... sei lá! Quem sabe editar as músicas produzidas na década de 70 e que também conservei em grandes rolos de fita. Acho que sou um conservador mesmo. Pura vocação. Aqui vão, ao menos, as notas, com um adendo de um homem peregrino.

Acho que agora - somente agora - descobri porque passei a esquecer o nome do homem.Por incrível que pareça, a minha resistência às perdas (o olhar demorado de abismo que todos experimentamos na vida) é tão grande e tão presente em mim que por contaminação de sentidos acabei por fazer com que o nome do homem fosse para o fundo do lago plácido da alma.

Gustavo é um grande amigo. Irmão, pai, filho, espírito que me animou às belas coisas da vida.

Jazz? Digamos que "ouvi" pela primeira vez acompanhando seu gesto elegante no movimento de suas mãos inteligentes. Gizava no ar um complexo fraseado de John Coltrane; ou então tocava delicadamente o ar com a ponta dos dedos e assim me traduzia o fraseado de El mar. Assim compreendi a profunda arquitetura da música.

A Frank Zappa fui formalmente apresentado nas ruas eternas de Montevidéu. Quantas vezes nos embrenhamos em infindáveis jam sessions, madrugada adentro, percorrendo os caminhos musiciais que foram abertos por Hendrix, Almendra, Pescado Ravioso, Led Zeppelin e Zappa... Coltrane, Benson, Wes Montgomery,Jean-Luc Ponty, la salsa maravillosa de centro-america y... El blues deCris.

Sim, one size fits all, little wing!

Sua incessante procura, sua loucura, sua alucinada busca de si mesmo, nos mobilizava a todos, seus amigos e discípulos, numa urgência de delicadas solicitudes.

De alguma forma nos achávamos num mundo estranho. Reconhecíamos, um pouco assustados, os contornos familiares agora transfigurados pela magia da música. Como eu o amo! Como levo em minha alma as suas delicadas preces! Meu querido niño de Dios, principito de las alturas, deixa-me embalar-te em minhas orações, confortá-lo no seio generoso da vida eterna.

Deixe-me beijá-lo com todo o meu Amor e agradecimento!


Essas mutações em nossas vidas, tão abruptas, tão profundas, tão definitivamente definitivas... Como lidar com isso?Lembro-me de uma tarde - uma tarde como tantas outras tardes; todas ignoradas simplesmente - sentado nesta cela confortável quando, de repente, alguém irrompe em prantos e me informa que mamãe havia partido.

Nunca vou esquecer a Eliane com a rosto transfigurado em dor, uma dor reflexa, dizendo-me que tinha uma notícia grave. Não chorei, não desesperei, não sofri uma dor profunda e inconsolável. Não. O que aconteceu foi que a minha resposta à morte foi a vida. Note: na noite da partida de Dna. Amélia a Helena foi gerada. Não sei como pude. Nem sei como aconteceu. Nem sei se deveria... Se eu te falar que não pude chorar, ainda, até hoje, a morte de minha mãe, v. me acreditaria? Somente agora, passados tantos anos, a sua imagem me vem inesperada, forte, como uma grave notícia da alma. Não sei como lidar com isso!

Meus sentimentos implodiram como estrelas negras, com fagulhas centrípetas, recolhendo para si cada migalha, cada lágrima, absorvendo definitivamente cada pensamento, como se fosse possível exaurir-me de toda a humanidade em silêncio, até não restar mais nada.

Não pude chorar a partida de Nadir. Não pude chorar. Não pude chorar a partida da Bete. Não pude chorar. Não pude chorar a partida do Sérgio Santos, do Mário. Não pude chorar. A partida do Gustavo. Não pude chorar. Talvez não tenha querido ou podido chorar a partida de meu pai.

Todos se foram e eu, aqui, reúno os cacos para reformar o sentido da minha própria vida.

Às vezes me sinto como a alma do deserto, varrido pelos ventos frios das lembranças, numa noite sem sonhos. Um deserto que não é de desesperança, mas instruído da profunda compreensão do nada, da insignificância de nossas existências; um deserto cuja única substância é a certeza de que afinal já não resta nada. Pulva et umbra.

As minhas alegrias são só passageiras. Vejo a tarde com os olhos de quem já partiu. Observo a graça, que se manifesta nos meus filhos, nos lampejos que denunciam a eternidade em dança e movimento; transpassa-nos, com fluidez sublime, imponderável, fugidia. Ali está a Verdade! Mas já se me escapa, não está ali; estará acolá? Mais adiante? Que fez Deus de nós, seres frágeis e indefesos? Que esperança nos alimenta? E no entanto, continuamos a viver e a reviver, como se pudéssemos, afinal, vencer a última, a mãe das batalhas. Mas que derradeira peleja poderá existir quando já não há lembrança essencial da primeira?

Não tenho nome, não tenho idade, não tenho cidade, não tenho lágrimas.

"Mas quando mais nada subsistisse de um passado remoto, após a morte das criaturas e a destruição das coisas - sozinhos, mais frágeis porém mais vivos, mais imateriais, mais persistentes, mais fiéis - o odor e o sabor permanecem ainda por muito tempo, como almas, lembrando, aguardando, esperando, sobre as ruinas de tudo o mais, e suportando sem ceder, em sua gotícula impalpável, o edifício imenso da recordação"Proust, No Caminho de Swann.

Para o Sérgio, homem de cujo nome eu me lembro, com o carinho. Londres, 15 de julho de 2004El mar.

domingo, novembro 27, 2005

Tanto faz quanto se desfaz


É por isso que eu gosto tanto da Vi. Ela não se importa com estereótipos. Por que não aceitaria ser 21 no HotMail, quando se sabe que só ali somamos, os humanos, aos milhões?

Certo! Como as estrelas, não nos contamos pela mão. E no entanto, uma mão pode tocar outra, e outra, e este círculo se fecha. Ou não? Ah! que importam certos detalhes dessa geometria inútil?
O importante é que dois e dois são João. Ou Maria? Tanto faz quanto se desfaz. O certo mesmo é ser feliz! Por um triz, enfiar o nariz no chafariz... O que me diz?

Vi, é preciso ter olhos para ver e eu Vi. Eu vi você, menina. Eu vi, sim, mocinha. Eu vi a mulher que desperta entre espinhos e algodão (que estamos debaixo do sol).

Vi seu blog; e a blague. Sinceramente... enquanto duro? Mas às vezes é preciso ser dúctil! Por nós passam os camelos e os cabelos. Ficam os rabichos de letrinhas: http://www.quesejaeternoenquantoduro.flogbrasil.terra.com.br/

Beijos desde sempre e até (muito) mais!

sábado, novembro 26, 2005

ICC de novo - Pó de estrelas

Estive lá, quase não acredito. Acho que foi o ano 64, 65. Não sei. Sentíamos uma nova e estranha onda, as mensagens nos chegavam em garrafas, despertavam uma euforia inexplicável. Admirável mundo novo aquele que se anunciava.

Lembro-me das descidas ao pátio no intervelo das aulas, pela manhã, onde convivíamos com os alunos do externato - uma zuada de crianças correndo e comendo. Uma convivência digamos... desejante. Eles nos traziam notícias do front - uma revista com a foto do John Lennon, ou um brucutu, uma calça saint-tropez... Que era aquilo, meu Deus, que era aquilo que anunciava um novo tempo? Eu me aboletava nos cubos de ferro e desejava os acepipes dessa legião quase-estrangeira. Como o mundo era estranho lá fora... mas como o desejava! Ele nos vinha como soluços intermitentes.

Numa daquelas tardes eternas - essa luz dourada ainda tarda na memória - lembro-me de que os alunos atearam fogo numa planta e excitados diziam, "é peido de velha, é peido de velha"... e todos nos púnhamos a rir deliciosa e despreocupadamente. Éramos livres... Isto é, mais ou menos; sempre nos rondava a ameça da visita compulsória ao grande-dormitório-grande onde nos esperava, depois das orações de praxe, o velho Molhão.

Não é incrível que só agora, muito recentemente, vim a descobrir que o santo nome do Molhão era León? Irmão Leão = Mo Leão = Molhão. O velho leão rugia e se assentava ao trono de vime solenemente, com pompa e circunstância, a batina desbotada mas digna, o discreto sinal clerical no pescoço, repartindo a justiça e distribuindo as bênçãos de um domingo eterno que ainda embala a molecada ruidosa e travessa que habita minha memória.

Aquele pó de estrelas douradas, vermelhas, amarelas, ocres, polvilhadas pelo chão de ladrilhos corais, de onde vinha? A serragem úmida penetrava as narinas tenras do menino e encardia a alma com uma fragrância indelével. Quantas vezes não empunhei heroicamente uma vassoura levando adiante aquele pó de estrelas castanhas?

Por falar em estrelas, havia um telecópio. Eu não me lembro quem o trazia de alguma sala misteriosa, instalava o instrumento, ajustava, mirava, focava e nos oferecia o espetáculo do firmamento. Acho que era o Padre Pedro Zamberlan. Estranho objeto! A noite nos cobria com seu manto de mistérios. As estrelas, tão distantes, que segredos guardavam? Via à direita o cruzeiro iluminado por uma covarde luminiscência. Quantas vezes não pedíamos que o Padre Pedro desviasse o foco para lá, para resdecobrir as formas conhecidas da torre, tornadas estrangeiras pela luz fugidia; à esquerda advinhavámos o galpão e suas oficinas abrigados pelo manto da dama noturna. E fazíamos fila, os olhos arregalados, as pupilas dilatadas, nervosas como tímidas dançarinas.

Assim como as estrelas eram arrancadas de seu caldo escurecido, tragadas por aquele instrumento poderoso, assim éramos arremesados a um mar de aventuras arcaicas, embalados num carrossel de galáxias espiraladas e luzes fugidias.

Ah! essas estrelas meus filhos ainda as vêem em meus olhos!

Norma fundamental

[Mosaico em Hagia Sophia, Christus Pantokrator e Imperador Leão VI, O Sábio (886-912)] . Detalhe.

Norma fundamental! Nada mais, nada menos do que isso. E pronto!

Norma Wimmer foi um anjo em minha vida. Desde o primeiro momento que a vi na escola, logo naquele instante essencial - flagrado pela lâmina da alma -, imediatamente me apaixonei. Um amor terno, delicado e sincero, um sentimento raro, idílio - imagino-o dourar o coração de crianças quando são capturadas pelo encanto do verdadeiro Conhecimento.

Assim foi. Vejo-a claramente transitando entre as carteiras dos alunos - quase diria flutuando, com uma leveza indizível, diáfana, sempre elegante... Sustentava os olhares e corações aflitos. Alunos que éramos uma nova era, uma raivosa geração de work class heroes, expulsos da família, degredados do convívio dos pequenos compatriotas da infância, nós que logo seríamos aproveitados nas engrenagens do sistema.

Norma foi o meu esteio emocional. Disse-o, ela mesma, ainda ontem, quando nos debruçamos diligentes sobre velhos alfarrábios de antigos reis. [Ela trata de traduzir o Livro do Eparca, provavelmente um édito de Leão VI, O Sábio, vertido ao francês em 1846 por Jules Nicole, o erudito suíço].

Disse mais, que recebia a delegação diretamente de outra gema preciosa do Amor: Mitie Konishi, minha querida Mestra de Vida (e de língua portuguesa também). Esta teria recebido a delegação em primeira mão de minha própria mãe. (Minha mãe: sobre esta entidade misteriosa de poder e graça me calo em reverência e respeito).

O coração apertado, os sentimentos em revoluteio, vejo que o caminho do coração se perdeu nas brumas, prisioneiro da tirana, dissimulada e distraída, "la loca de la casa"... Eis que surge um fio dourado, a fita enovelada de minha própria história que parece desenrolar-se e expandir-se com a fúria duma galáxia que desperta de um sono sem sonhos. Sua luz banha as câmaras e reentrâncias desse labirinto que se contrói de muros e portas que se abrem e fecham para cada um de nós. A memória da Norma dá-me sentido. Nesse trânsito de sentidos, me reconstrói. Liga o futuro com o meu passado - e com isso ilumina esse instante mágico de reecontros.

Enfim, meus pais, minhas mães - Arys, Normas, Mities, Rubens - parece que vivi unicamente para reconstruir um estado de harmonia essencial, lá longe perdido, e que agora, depois de Franca e chegado afinal ao ponto de partida - minha Paulicéia Desvairada -, posso dizer que reencontro já meus frutos, amados rebentos simbólicos e naturais, os funcionários do Segundo de Franca e do Quinto em São Paulo, além de meus queridos Íris, Helena, Pedro e Thiago.

Flores partidas

Não posso terminar sem antes contar-lhes que ontem fomos ao cinema - eu e minha filha Íris. Fomos ao cine ao que parece tão-somente para cumprir o desígnio de me ver confrontado com mais um perturbador signo. Uma entre tantas estranhas e mágicas coincidências, como terá dito Jung.

Don Johnston, já no final do filme, declara para o jovem candidato a filósofo que não há trânsito possível entre as portas do futuro e do passado: "o passado já passou, o presente está aí e o futuro... ainda não chegou!”.. Talvez aí a chave. Don foi um bem-sucedido empresário de computadores. Mas nada mais se sabe desse cinqüentão vazio, vizinho de Winston - um etíope que se dedica a descobrir os laços de uma trama complexa e é simplesmente incapaz de resolver um pequeno problema de conexão na Internet. Não deixa de ser curioso o fato de que a procura de Don, que revolve os relacionamentos mal-resolvidos do passado, seja guiado pelas mãos imperitas de Winston - que lhe proporciona, de quebra, a trilha sonora dessa busca, o som exótico de Mulatu Astatke.

Winston, um etíope-americano será o contraponto essencial de Don. O negro que emprestará ao cinqüentão um sentido que ele próprio é incapaz de apanhar. E o faz por caminhos tortuosos, como a música africana, que pulsa como um coração poderoso sob a sucessão de imagens de uma América alucinada e perdida. Aliás, tudo pulsa na casa ao lado - a mulher negra, graciosa e sensual, cozinheira alquímica daquela calderada de filhos, sentimentos e música afro, o marido que fuma um baseado diante da filha e sinceramente se justifica e se absolve dizendo não se tratar de cigarros...

Os pontos de contato entre o meu encontro com Norma e o filme são pouco evidentes, já advinho o desconforto de quem me leu até aqui. Mas o que quero registrar, afinal, é que para mim se abrem as portas do conhecimento; minha biografia torna-se perfeitamente nítida. Há um passado e um futuro e entre essas culminâncias, retesado sobre o abismo, existe um presente, que se constrói com equilíbrio e elegância.

domingo, novembro 20, 2005

Este que fala por mim, quem sou?


Que estranho fascínio exerce a Internet nos espíritos inquietos. O que nos inspira a lançar garrafas nesse mar eletrônico? Inscrever nas estrelas, deixar um fio de ouro neste labirinto sem portas... Mensagens grafando nossos sonhos, apreensões, reflexões insones, perplexidades... Nótulas lavradas para tão poucos, quem sabe quem? Para quê?

Falamos para nós mesmos na esperança de que nossa voz sobreviva na memória dos outros? Potência de cognoscibilidade? Publicidade organizada de sonhos?

A Internet é o registro que gera presunção de conhecimento de nossa existência. Afinal, quod non est in retes non est in mundo, diria um amigo querido, recuperando os sinais da tradição.

Essa presunção de vida e sonhos é relativa, como sei! Quantos de nós não perambulamos pelas paragens eletrônicas exauridos de espírito - fastasmagorias, simulacros de vida projetados em bilhões e bilhões de elétrons zunindo em redes pós-neuronais, pocurando, à imagem e semelhança de seu criador, recriar-se e armar-se de espírito e virtude... Este que fala por mim, quem sou?

"Por acaso, surpreendo-me no espelho:
Quem é esse que me olha e é tão mais velho que eu? (...)
Parece meu velho pai - que já morreu!"

(...)

Como pude ficarmos assim?
Nosso olhar - duro - interroga:
O que fizeste de mim?! "

[a imagem é do Dr. Julien Clinton Sprott - http://sprott.physics.wisc.edu/sprott.htm, Professor de Física da Universidade de Wiscosi. O Excerto do poema Espelho é de Mário Quintana]

sexta-feira, novembro 18, 2005

Pedro - velvet note


Este blog tomou um rumo inesperadamente intimista. Acabei confidenciando a amigos que isto parece um diário. Acho que é mesmo! Estou aqui exercitando a postagem de mensagens em garrafas, na esperança de que os olhares não ultrapassagem a bruma deliberada que pretende distrair a vista nesta viagem.

Gostaria de registrar um depoimento sobre o Pedro, já que sobejam fotos da Helena e agora também do Thiago - além de algumas imagens que os meus poucos leitores consideraram um tanto quanto extravagantes.

O Pedro era esperado há muito tempo. Posso dizer com certeza que fui um homem de muitos sonhos. Encontrei uma mulher que me acompanhou em todos e hoje, numa mirada retrospectiva, vejo que realizamos muitos de nossos desejos sinceros de alegria e felicidades. Foi assim com o próprio relacionamento - algo impensável nos inícios. Afinal, a diferença de idade, de temperamento, de experiências, tudo apontava para uma aventura sem conseqüências.

Mas não foi assim. Achamo-nos nesta busca intensa e os frutos vieram, um após o outro.

Não posso deixar de apresentar-lhes o Pedro, meu querido Pepo. Com sua suavidade foi conquistando aos poucos o coração do pai e hoje tem um lugar só seu, com garantias reais.

quinta-feira, novembro 17, 2005

Helena & Pedro


Esta pequena nota é para justificar a minha ausência ontem. Terminava de escrever o texto e o caos se instaurou em casa. Deixei prá depois...

A Dra. Patrícia Ferraz registrou severamente que eu sou complacente com a Helena - estaria "mimando a menina...". Hum... Será? Duvido.

A chegada do Thiago tumultuou a casa, já disse. Mas o fez de uma maneira distinta, muito particular, dependendo da perspectiva dos envolvidos.

O Pedro parece ignorar o colega de teto. Parece... Na verdade está ligadíssimo nos movimentos suaves do Thiago. Ele se parece muito com a mãe: introspectivo, silencioso, suave, observador... coleciona sentimentos e os entesoura sabe-se lá onde. Quando irrompem, se torna enérgico, quase colérico, para logo aquietar-se, vergando-se timidamente. Sempre que chegava do serviço, estivesse onde estivesse, era o Pedro que primeiro me flagrava, o atento Pepucho.

Já a Helena é o inverso. Escancara o bocão e desfralda os sentimentos; dilacera cada situação, elevando dramaticamente o tom,ateando fogo às vestes e grita, chuta, irradia uma energia envolvente e quando menos esperamos, estamos já todos vibrando naquela mesma freqüência de estridências.

Eu mimo a Helena? - me pergunto sinceramente. Não sei... Ontem, pela madrugada, experimentei uma situação delicada. Ela enfrenta a mim e à Tânia e eu compreendi que não há luta que valha a pena, não há combate que se justifique, não há contenda que se mantenha. E aí, no paroxismo do ciúme, compreendendo seu drama, me recolho em oração, esperando que tudo se recomponha com a manhã que ainda tarda.

quarta-feira, novembro 16, 2005

cada estrela é todas as estrelas

O tempo escorre pelas mamas generosas da mãe. Cada segundo corre à caça do outro; este se foi... e logo outro vem. É a dança dos sentidos que distraem a consciência. Mas as dobras do tempo não são uniformes para nós dois - Thiago e eu - que convivemos esse instante mágico do nascimento.

A chegada desse menino coincide com a irrupção de sentimentos raros. E de sonhos. As imagens me vêm assim, inesperadamente. Lembro-me que foi uma prima - acho que foi a Elza - que pela primeira vez descerrou-me a largueza do abismo. Uma simples pergunta levou-me a uma sucessão de angustiantes paradoxos. "Quantos anos você tem?" - perguntou-me diretamente. Cinco, seis... sei lá! Devo ter apelado para os dedos de uma só mão. Ela replicou: "tão pouco... e no entanto parece que é muito... Não é?".

De fato. Nunca mais pude me esquecer do triste episódio. Realmente, parecia-me ter já vivido muito tempo, um tempo incontável, indizível, intratável, irredutível, tanto faz para um pequeno ser humano sem passado e sem futuro...

Aliás, a casa da Tia Dirce, com seu abacateiro, sua triste figueira, e a pessegueira seca no fundo do quintal, foi o meu refúgio nos momentos mais tristes da perda de meu pai.

O Thiago chegou e logo pôs os termos de nosso relacionamento: compreenda-me! A fragilidade de estrelas em gema. Ser testemunha de sua chegada, dar-lhe o primeiro banho, emocionar-me com o peitinho armando-se com os fogos do ar, encheu-me de uma alegria incontível. Por que choramos nessas ocasiões de pura alegria?

Aprender a respirar parece ter sido tão simples... e no entanto aquele instante representou o momento mais decisivo daquela vidinha que pulsava no colo da mãe.

Ah! Thiago... Já não sou o mesmo e agora me pergunto: o que fazer da minha própria vida? Compreenda-me! Aspira a um novo homem! Logo eu, um velho homem, tão antigo como cada estrela é todas as estrelas...



Registro de autoria: "cada estrela é todas as estrelas" é um rabicho de um discurso onírico gravado nas paredes da estância de Francisco Brennand (http://www.brennand.com.br/). Caminhar naqueles amplos espaços, átrios misteriosos, pontilhados de figuras arcaicas e arquetípicas, é, também esta, uma experiência de arrebatamento. "Não interrompam este silêncio,não interrompam este sonho", FB.

segunda-feira, novembro 14, 2005

rês pública

Ao historiador SJ e ao Thiago J

Nasceu o THIAGO, filho de meus amigos Dr. SÉRGIO J*** e Dra. TÂNIA.

É um fato que me deixa feliz e, assim, me faz suportar um pouco menos amargo a idéia de que o Brasil pára todo dia 15 de novembro (e amanhã pára mais um pouco) com o escopo oficial, assim se diz, de comemorar a proclamação da forma republicana de governo.

E a pretexto de superar o amargor do dia, vou dar-me o gosto de algum ócio e pôr-me a reler trechos de “Os Bestializados –O Rio de Janeiro e a República que não foi”, de JOSÉ MURILO DE CARVALHO (ed. Companhia das Letras), e, da mesma editora, freqüentar as competentes páginas de “As Barbas do Imperador”, de LILIA MORITZ SCHARCZ.

Ao Dr. SÉRGIO J***, que, tendo apurada vocação de historiador, não pode por agora entregar-se a símile ócio (ao menos enquanto é de seu dever embalar o THIAGO), sugiro com o devido respeito que aproveite a ocasião para uma visita sumária e nada confortante à permanente crise desta enfadonha república: a tanto, basta folhear os jornais de amanhã, os de depois de amanhã, os de depois de depois de amanhã, ou incorrer nos semanários desta semana, da semana que vem, da semana depois da semana que vem etc. Isso só está assim desde 1889. Que são cento e quase vinte anos de rotineiras crises numa Terra tão abençoada?

Confira o blog de Vítor Pradera (neto): http://uni.zip.net/

nasce uma estrela!



Thiago chegou. Só para registro (afinal, quod non est in retes non est in mundo).

Thiago, 51 centrímetros e 3,400k., veio ao mundo às 7:18h. aterrisou no colo da mamãe, sob o olhar atônito do pai, que a tudo acompanhou com castra determinação. Cabelos castanhos-claros, tez clara e altura jacomina: : sette ginocchia, como diria a Tia Marucha Jacomino.

Tânia Mara Correa de Andrade, prontuário 968395, passagem 1935770, leito N812-1. Esse o registro hospitalar.

O pai imaginava não poder chegar a tempo na maternidade. A mãe, com a tranqüilidade serena (e uma leitura desaconselhável para essa novel cidadina paulistana - do ventre ao berço - parto sem dor em casa...) já estava com 8 centrímetros de dilatação e em pleno trabalho de parto, com contrações regulares. Surfando na dobló alucinada, cruzando o Pinheiros na manhã cinzenta, irrompemos no Einstein tresloucadamente, à busca de uma maca para acomodar a mãe-em-fruto. Ufa!

O Thiago só poderia chegar no dia 13. A mãe pode se gabar de ter planejado, com semanas de antecedência, o dia exato do parto natural. O médico não acreditava... Quem nos conhece sabe o valor dessa data (que traz outra curiosidade: 1+3+1+1+2+0+0+5=13!) Santo Deus!

A primeira visita foi dos padrinhos Ricardo e Regina Dip. Bênção para todos, a conversa fluida, as comadres falando dos filhos, os padrinhos de livros...

À noite o Pedro e a Helena visitaram o irmão. O Pedro a uma distância pra lá de cautelosa; a Helena tocando e experimentando com o toque e um beijo furtado o gosto da novidade. Na volta o Pedro se encantando com as estrelas e a Helena chorando a falta da mãe.

Ah! o bebê marrudo e chorão, só quer saber de mamar... e de colo! Quantas diferenças entre os rebentos, que se tornam ainda mais nítidas com a maternidade (e paternidade) sucessivas em tão pouco espaço de tempo. Cada um dos filhos é um mundo de particularidades.

Este é um registro histórico, com abonação e a fé pública de George Takeda e Francisco Ventura de Toledo.

sábado, novembro 12, 2005

A chegada do Thiago


Dizem que os selvagens salvaram-se do tsunami arrasador porque os membros de algumas tribos, de cultura milenar, apercebem-se da iminência do perigo por meio de indicações e sinais observados no canto das aves e alterações no padrão de comportamento dos animais marinhos.

É possível que nós estejamos perdendo a capacidade de ver e ouvir. Afinal, vivemos um século de congestionamento de informações. Abrimos um plexo de canais, procurando apreender o output do sistema, e nos distanciamos com isso dos pequenos sinais, das coisas simples do coração.

Mas nem todos nós, com certeza! Alguns poucos ainda não fazem parte dessa estranha civilização que pouco a pouco se desumaniza. Falo especificamente do Pedro e da Helena, meus anjos que ainda têm olhos e ouvidos para ver - "bem-aventurados os vossos olhos, porque vêem, e os vossos ouvidos, porque ouvem" (Mt. 13:16).

Digo-lhes isso porque a casa amanheceu diferente. Os objetos implicavam, as crianças acordaram indóceis, era possível identificar alguns sinais de desordem e caos. Mas o que quer significar essa mudança nas tramas interiores de nossas vidas? Os elementos revelam o desacordo: a noite mal-dormida, o trânsito na madrugada, os pequenos acidentes, a precipitação de sonhos tumultuados... O que querem revelar?

Sonhei que a minha querida Helena - a inventora da casa, meu anjo acróbata - se equilibrava perigosamente num cabo altíssimo. Cabo de alta-tensão. Acordei aflito, o coração apertado... Noutra seqüência onírica eu despencava de uma montanha de seixos e me surpreendia com a queda segura, em pé, firme e rijo. O que descerram esses símbolos?

Gostaria de escusar-me da obviedade dessa psicologia analítica ligeira. Claro está que todos nós estamos percebendo a chegada do Thiago e cada um, à sua maneira, procura equilibrar-se como pode, numa reacomodação da nossa complexa orquestra familiar. E isso envolve riscos. Toda transformação sempre representa oportunidades e riscos.

Ah! Lelê, V. faz o que pode... equilibra-se perigosamente. Mas segue corajosamente, e eu te amo por isso. O Pedro, os olhos postos na aventura aérea, enamorado de seu pai, simplesmente chora. Meu Pepo, o seu choro haverá de ser compensado com muitas alegrias que seu irmão haverá de lhe proporcionar. Eu estou ao seu lado nessa quadra, lindo menino.

Já eu, em plena queda, me sustento e me admiro que nesta altura da vida, em que ultrapassamos há pouco o cúspide (de novo!), já encaro o descenso. É possível, contudo, descer firmemente e amparar a mim mesmo e a todos que de mim dependem. A queda envolveu sabedoria e compreensão. Uma sabedoria que se sabe sabida e que nessas horas se revela como renascimento. Chegar ao chão firme e seguramente, na viagem desde as alturas, é pouco mais pouco menos do que simplesmente voar. Desses paradoxos é preciso tirar algumas lições que põem em xeque os cânones que recomendam uma vida esterelizada pelos padrões médios. Certamente, como os pequenos, é preciso estar unplugged.

Por fim, impassível nisto tudo estava a Tânia, meu amor. Transitando soberana, doadora de um fruto maduro a este mundo tumultuado e intranqüilo, segue sua trajetória de generosidade, alegria e bem-aventurança. Eu te amo, minha querida. Sou o seu parceiro nessa maravilhosa caminhada, Dei Gratia!

Eu saúdo meu pequeno Thiago, homologando o nome na etimologia que descerra um mistério familiar, eu te dou as boas vindas, meu anjo, desejando que possa chegar tranqüilo e saudável.

sexta-feira, novembro 11, 2005

Cúspide & cusparadas


Aqui conto uma história incrível. Vivi-a no Instituto Cristóvão Colombo, no Ipiranga. Pena que não me recorde do nome dos envolvidos. Mas não importa. Foi assim... em algum momento daquele tempo - agora uma dimensão perdida da memória, encravada num profundo vale que parece não ter início nem fim -, comecei a participar do grupo coral.

Havia me esforçado bastante, esganiçando notas incertas, como impoderáveis são os registros pueris, exercitando-me nas fileiras que se faziam para o concurso vocal e para a escolha dos melhores (ou menos piores, suspeito).

Havia algumas vantagens em fazer parte do coral - como ensaiar nas horas das aulas, por exemplo.

Muito bem, um dia, depois de vários ensaios (eu fazia a segunda voz), fomos todos à frente do Instituto para receber uma autoridade religiosa, que além de trazer a sua aura inconsútil de autoridade, traria também medalhinhas do Papa. Suponho que voltasse de Roma.

Estávamos à frente da entrada principal, ansiando a chegada, quando alguém nos advertiu que lá do alto, nas alturas aeronáuticas e azuladas, de dentro do avião, nossa autoridade teria saudado aqueles meninos ansiosos por sua chegada.

Sim! Ele nos teria mandado um sinal, uma marca, um aviso, enfim, uma prova inequívoca de seu carinho e generosidade: a autoridade cuspiu! Havia nos mandado uma saraivada de saliva da aeronave e todos nós começaríamos a procurar as provas espraiadas no jardim.

Ah! como nos esvaíamos em delírios e fantasias esperando em pé toda uma tarde modorrenta de verão. Voávamos muito além de Roma, Nairóbi, passando pela Barroca, resvalando os sinos de uma igreja, o cúspíde do edifício em chamas, superando os eucaliptos desta e de outras paragens.
Essa história é adornada com as roseiras que ainda perfumam minhas tenras lembranças infantis.

O ICC foi uma viagem, com tudo de apavorante, triste, deslumbrante, e definitivo que uma verdadeira viagem proporciona.

Volto um dia com as lembranças de outros dias.

Por um fio...

O Instituto Cristóvão Colombo era uma microcosmo, um continente encravado num ponto qualquer do Ipiranga, entre a barroca - soberana, única, indisputada referência! - e um seminário carlista misterioso, enovelado em ondas de roseiras, rosários e rostos de figuras tristes, aos fundos limitado pelos altos muros que nos separavam de uma terra incógnita. Como os marinheiros grafaram em suas cartas marítimas: hic sunt leonis!

Pois havia ali, perdido no quadrante localizado entre lavanderias, refeitório e cozinha, um espaço místico, habitado por duendes, coelhos, fadas, pássaros, gafanhotos e uma infinidade de pequenas e delicadas plantas que vicejavam à sombra de um arvoredo.

Abel reinava em seus domínios: cidadela fortificada de madeira, guarnecida por galinhas, porcos e cachorros, fazendo costada com o prédio dos dormitórios.

Lembro-me que certa noite, tomado pelo medo, atormentado pela solidão e ferido por um sentimento que jamais me abandonaria - a perda do calor materno - caí em um transe profundo, esvaindo-me, perdendo completamente o sentido de mim mesmo.

Havia ao lado da cama um armarinho de madeira, onde minha roupa e alguns poucos pertences - a pasta de dentes, a escova, o par de sapatos Verlon - ainda confirmavam minha existência. As coisas clamam por seu dono! E só isto me bastaria para me recobrar e aí resistir, eu e minhas pequenas propriedades. Tão cedo compreendia que a propriedade tem, ela mesma, certas propriedades...

Tinha nos bolsos da calça um carretel de linha Corrente e rapidamente, antes que me esgotasse em transes e ondas de medo, engastei a pasta de dentes no fio da linha e fiz descer pela janela esse estranho pedido de socorro. E ali fiquei, imóvel, ligado ao exterior por um tênue fio de linha Corrente, experimentando que o mundo pesava exatamente o peso de um tubo de pasta de dentes.

Lá fora os cães ladravam na noite perturbadora. Eram as feras de Abel. À porta assomava um vulto escuro, cuja silhueta se conformava pela luz tíbia que preguiçosamente lambia os ladrilhos. Quem seria? Quem me visitava na noite?

E assim adormeci, com a certeza de que enfim despertava de um pesadelo! SJ

A tabeliã curte Janis... e o registrador imobiliário só se acalma com Frank Zappa e Jimi Hendrix.

Ah! adorei a história contada aqui: http://acontrariosensu.blogspot.com/2005/10/culpa-do-cartrio.html. Bem sei como é esse troço de concurso. Eu mesmo enfrentei um e agora sei o porquê das neuroses profissionais que acometem esses peculiares profissionais do direito que só se acalmam com rock´n´roll.

Sabe, direto do subúrbio paulistano, fui aterrisar nas franjas de São Paulo, às margens pantanosas do grande Rio Grande, entre paturis, restingas, paus-santos (ôpa!) gabirobas, sucupiras et coetera.

Na praça alguns lunáticos; um carro de som anuncia vez por outra o falecimento de um cidadão. Vai ziguezagueando pela cidade numa impressionante reminiscência da publicidade registral de proclamas.

E este escriba foi se instalar no único hotel da cidade, disputando com as baratas um lugar ao sol na fechada sociedade local...

Nada me consolava! A não ser as modorrentas tardes que faziam arder as cercas em tons rosáceos e fúcsias, purpúreas gemas, rubis ensangüentados que explodiam em festa e alegria.

No velho roadstar do Jeep rolava purple haze e o bom, velho e imbatível Frank Zappa.

Afinal, o que faz um registrador arder ao sol da restinga e uma tabeliã enfronhar-se na comunidade quatrilha? "We`re only in it for the money", poderia dizer e disse nosso blogger.

Sei não... Acho que rola vocação na parada! SJ

sábado, maio 22, 2004

Ser Padrinho, Ser Madrinha


Que coisa é ser padrinho e ser madrinha?

Padrinho é pequeno pai; madrinha, mãe pequena; pequena e pequeno mãe e pai porque são pais em sentinela, são pais ao lado dos maiores.

Não é coisa pouca ser padrinho ou ser madrinha.

Sinal disso e que a gente boa sempre muito cultivou, outrora, é que, no batismo, se nomeasse Madrinha a própria Mãe de Jesus e Nossa Mãe.

Um exemplo fala melhor do que tudo: a Helena, sim, a Helena que vimos logo ao nascer e vemos crescer. Ela conta para nós ao modo de uma filha. Acho que ela não sabe de uma coisa: num canto aqui de casa, onde reunimos fotos da família –dos que ainda somos por aqui e dos que foram nossos Maiores–, ali, juntinho a essas fotos, pusemos uma foto da Helena.

A Helena é nossa afilhada. É nossa pequena filha. Nós somos seus pequenos pais. Ela mora aqui em casa: numa foto e em corações.

Regina e Ricardo Dip

sábado, março 01, 2003

Seu nome é mais que um signo


Blainha, Lambrusca, Cuitelinha, Lelê, Nena, Lilica, Nenusca. Lela e Lelusca, Kenza, Kenzolina, Giuliquenza,.. tantos nomes, sons, rios significantes que desaguam neste imenso Mar de Helena.
Lampejo rubro, chama acobreada, você arde como um fogo secreto em busca de substância. Aqui estamos, querida Helena, aqui estamos!
Estrela fugidia! Você é a rubrica da nossa vida!
Seu nome é mais do que um mero signo. É testemunha de seu espírito. Expressa e significa o ser que anima esse corpo.
Seu nome se liga a antigas tradições. Indica uma história muito antiga. Sua eleição, dentre os outros tantos nomes gregos, aponta para o real significado de sua história. A chave se acha muito além desse mar de aparências.
V. é Helena. Tocha ardente, ser resplandecente, ente brilhante e reluzente. Lâmpada que ilumina a Terra dos Homens!

sábado, setembro 21, 2002

O sonho das Linhas Correntes

O sonho.

Era uma manhã no longo corredor que liga as casinhas da minha infância pobre e valorosa.

Na porta da casa 2, de minha tia Teresa, há um jovem (mais tarde vou verificar que um jovem com longa história) em infrutífero colóquio com mais duas pessoas – uma delas, seguramente, meu tio Antônio.

Quando me apercebi do que se tratava, interferi no assunto.

O jovem era representante de uma tradicional empresa, hoje já extinta. Mas ele o representava com uma interessante inquirição. Estava, justamente, fazendo uma pesquisa sobre os antigos clientes da empresa. Mas a nota característica de sua empresa é que não estava buscando informações de qualquer cliente. Buscava, exclusivamente, de alguns clientes – no caso aqueles que utilizavam a linha correntes.

Interferi no assunto. “Sim, a minha tia era cliente, mas não muito satisfeita”. E pus-me a dar o testemunho de quanto a minha Tia Teresa usava das linhas e carretéis da Correntes.

(Agora me vem à memória que a Tia Teresa trabalhava à época da Rua dos Estudantes numa camisaria e me trazia grandes cones que eram retrós de linha).

Na cena seguinte, já estávamos falando animadamente sobre as linhas, e o rapaz retirou de sua pasta uma revista que já havia sido editada com os resultados da mesma pesquisa – feita anteriormente com os mesmos fins e propósitos. A empresa retomava agora a mesma entrevista.

Falando e falando, retirava da pasta retrós gigantes, um dos quais trouxe às minhas mãos, quando notei que nele havia várias pontas de linhas coloridas, cada qual assentada em seu sulco-guia. Ao manipular o retrós, todos os fios caíram em minhas mãos. Ainda tentei reatá-los, em cada guia, mas foi impossível.

Logo em seguida, conduzi o homem-memória à casa de minha mãe (ou de minha tia, já não sei, mas não importa: O sentido do comunitarismo da minha infância era nítido. Lá encontrei minha tia Teresa, mas encontrei, bela e jovem, minha mãe.

Estava na cozinha. Disse a todos (havia mais gente) que havia trazido alguém (o homem-memória) para passar a noite, e logo fui adentro as dependências da casa. Minha mãe, agora enérgica e opiniosa, exatamente como a conheci na infância,  já me negava a execução da idéia. Mas entrei à casa e percorri as dependências e já não me lembro se o homem-memória me acompanhou ou não.

O interior da casa

Dentro da casa havia utensílios conhecidos. Mas alterados. Por exemplo, meu velho gravador de rolo estava tocando uma linda música do Yes, interpretada pelo Frank Zappa. Diz a letra da melodia que ainda soa na minha mente-coração:

Heart of sunrise 

Love comes to you and you follow
Lose one on to the Heart of the Sunrise

SHARP-DISTANCE
How can the wind with its arms all around me
Lost on a wave and then after
Dream on on to the Heart of the Sunrise
SHARP-DISANCE
How can the wind with so many around me
Lost in the city
Lost in their eyes as you hurry by
Counting their broken ties they decide
Love comes to you and then after
Dream on on to the Heart of the Sunrise
Lost on a wave but you're dreaming
Dream on on to the Heart of the Sunrise
SHARP-DISTANCE
How can the wind with its arms all around me
SHARP-DISTANCE
How can the wind with so many around me
I feel lost in the city
Lost in their eyes as you hurry by
Counting their broken ties they decided
Straight light moving and removing
SHARPNESS of the colour sun shine
Straight light searching all the meanings of the song
Long last treatment of the telling that
Relates to all the words sung
Dreamer easy in the chair that really fits you
Love comes to you and then after
Dream on on to the Heart of the Sunrise
SHARP-DISTANCE
How can the sun with its arms all around me
SHARP-DISTANCE
How can the wind with so many around me
I feel lost in the city

Nesse mesmo gravador – eu próprio o tratei de examinar – havia superpostas várias fitas, das quais uma só, naquele momento, estava sendo executada.

Fazia frio no interior da casa e meu tio Ary, já falecido, passa por nós para prover-nos de calor com uma aquecedor singular. Ao vê-lo passar pelo corredor ao lado, fui ao seu encalço e com um objetivo no coração, de manifestar uma palavra amiga e de reconciliação, cumprimentei-o e ele logo deu seguimento ao seu intento. Desencavou de um cômodo um porta-retrato-aquecedor, cuja foto não era de minha família. Disse-lhe que já conhecia o utensílio, mas a foto era de meu pai. Dei-me conta, logo em seguida, que cada família teria um porta-retrato-aquecedor próprio.

Voltei às dependências da casa, e foi ao encontro de minha mãe. Ela estava ocupada (como sempre esteve ao longo de seus anos de vida) e eu a vi transfigurada. Linda. Cristalina. Jovem e com seu cabelo corte channel, enérgica e vital, plenipotente para as pequenas coisas da casa e da vida.

Naquele momento eu a abracei. Não havia palavras. E num jato, veio-me um choro e um gemido pleno de infinitas perguntas e respostas, como se tudo fosse a mesma e a única coisa e minhas palavras já não bastariam.

Acordei com o choro pleno de perguntas e repostas de minha Helena.

Algumas reflexões

Corri ao computador para escrever o sonho – antes que suas imagens vívidas se esvaíssem nesse ambiente detergente.

O sonho é retrospectivo. Uma mirada ao passado. Uma busca do passado. O homem-memória é detentor dos retrós que suportam os fios da vida. Ali, enovelados, há um fio-conduzente de cada vida, de cada um de nós que, circunstancialmente, naquele momento histórico, convivíamos.

O homem-memória queria saber da história de cada um. Não era a minha história que estava no questionário. Era a de minha tia. (Talvez por esse motivo, minha mãe tivesse verberado contra a idéia de abrigar o homem-memória na mansarda dos mortos. Possivelmente, porque minha tia ainda é viva. E de fato, o homem não me acompanhou à casa). Lembro-me de que todos nós expressamos as restrições que a Tia Teresa tinha em relação ao dono (patrão) do homem-memória.

Nessa dimensão não é necessário percorrer cada fio para conhecer. Todos os fios caíram sobre minhas mãos, numa espécie de completude que se vai insinuar por todo o sonho. Quando tentei repor cada fio em seu lugar, já não era possível. Como não me tivesse assustado, suponho que não era mesmo necessário. Cada fio tinha um colorido especial. Ficaram depostos, num amontoado informe de fio enovelados.

O gravador também abrigava fitas superpostas. Várias trilhas sonoras. Ali, especificamente, o que tocava era a trilha sonora de minha própria vida. Mas havia outras, seguramente.

A minha mãe me fez pensar numa ideia que pode ser expressa em cápsulas. Sementes. Fetos. Deixe-me tentar expressar – ainda que toscamente. O gemido é a pergunta essencial. É também a resposta que se vai buscar ao longo da vida. De várias vidas.

Lembrei-me imediatamente do choro aparentemente imotivado da pequena Helena. Não está com fome, nem necessita de outra coisa que não integrar-se no corpo-origem de sua mãe. Acalma-se com o contato físico, com o pulsar sereno e generoso do coração materno. Matrix.

A ideia que me persegue depois desse sonho é que o meu soluço-gemido é tão essencial e tão necessário que se não esgotará numa só vida.  Compreender tudo isso.

sábado, agosto 24, 2002

A hora do Brasil

Cravamos exato 1 mês de vida e todas as noites, exatamente às 20h, começava um baita chororô.

Existe algo mais misterioso do que cólica de bebê? Ela vem e vai e os pais perplexos se perguntam a razão dos espasmos e querendo saber o que fazer. Chá? Paninho quente? Embalos de todo dia à noite...

Em Brasília 20 horas! e todos se punham a correr: a mãmi desesperada, dava suave balançada; Vó Tita corria a esquentar um paninho e o Papi a deixar escurinho o pequeno quartinho da Nena, que não parava de chorar.

Para tornar menos gravosa a situação, que nos colocava todos à beira de um ataque de nervos, eu costumava pensar que as cólicas dos nenês são tão pontuais como os gêisers ou os quasares. E logo pensava no som das estrelas, na música das esferas - que certamente em um bom rock´n´roll!

Sem outra razão que a própria regularidade misteriosa, a cólica vem e vai e não poupa os pequenos daqueles espasmos dolorosos e chorosos.

Ufa! A Nena "chorava ardido". Essa expressão - "chorar ardido" - ganhou relevo no repertório familiar.

Nos exatos 2 meses de vida e a tal da dor de barriga lá se foi. Graças a Deus! Ficou só o "choro ardido".

quarta-feira, julho 24, 2002

O nascimento é LÉ

40 semanas e nada da Lelê chegar.

Tudo pronto, casa arrumada, bercinho decorado com ursinhos e estrelinhas e nada da Helena!

Todos estavam ansiosos.

A mãmi fazia caminhada 3 vezes ao dia. O pai perguntava pelos sinais. Os amigos indagavam da pequena Blainha (que ainda não tinha o nome de Helena). Telefonavam todos os dias para o apartamento e depois de várias chamadas, o Papi acabou registrando na secretária eletrônica:

- “Olá! V. ligou para 3721-0497. A Helena ainda não nasceu. Deixe o seu recado e em breve entraremos em contato”.

Passadas mais de 40 luas cheias, num dia em que o sol brilhava e no céu e não havia sequer uma nuvem, a pequena Helena deu sinais de sua chegada.

Veio ao mundo em silêncio. A mamãe, sempre preocupada, logo perguntou ao médico:

- “Mas ela não vai chorar?”

E sem esperar a resposta, adiantou-se em recomendações à enfermeira:

- “Cuidado para não trocar o meu bebê, heim?!”

Depois de um tempinho, a pequena Helena não chorou; emitiu o que seria a primeira nota musical de sua vida nesta terra: “lé, lé, lé”!

Na sala de espera, o Papi esperava ansiosamente por notícias. Quando finalmente a pequena saiu da sala de parto, enovelada numa chusma de nuvens, estrelas e lã, vi o rostinho alvo do bebê, com os olhinhos apertados e uma penugem laranja, ralinha, ralinha, com um chorinho tão singular – “lé, lé, lé”... Não me contive: é uma menina ruiva! Era uma surpresa. Uma menina ruiva!

A primeira coisa que o papi fez foi alterar o recado na secretária eletrônica:

- “Olá. A Helena nasceu no dia 24.7.2002, às 17h03, 3.300Kg e 50 cm. Ela é linda, ruiva, é diz ‘lé, lé, lé’. Obrigado por sua ligação!”.

sábado, abril 27, 2002

Um passo atrás

Passavam-se os dias e quando chegamos à 37ª semana, rumamos a Franca, cidade escolhida para ser o seu porto seguro, querida Helena.

Havia vários motivos para a escolha dessa cidade.

Primeiro, era a cidade natal da mãmi. Depois, era a cidade onde o papi havia conhecido a mãmi, cidade que o havia acolhido com carinho e consideração. A Vó Tita mal se continha para receber o primeiro neto que vinha dar nesta abençoada “ninhada”! Por fim, o papi ainda conservava o apartamento em que morara no Prédio da ACIF, no 12º andar, um lindo apartamento com vistas para a praça e para os arredores verdejantes de Franca.

A escolha da cidade foi acertada. Afinal, todos ficaram muitos satisfeitos e a sua chegada foi uma alegria para todos nós e de certo modo para toda a cidade!

E Franca foi verdadeiramente uma só "feliz cidade"!

quarta-feira, março 27, 2002

Gravidez

Entre tantos preparativos – compra de enxoval, exames laboratoriais, exercícios, natação etc. – e o trabalho exaustivo no Tribunal, ao final do dia havia um pequeno descanso. Era quando o papi tocava o violão todas as noites para a nossa pequena Helena.

Dentro do seu mundinho, fazia suaves movimentos e respondia ao som das cordas em vibração harmônica.

O papi a chamava carinhosamente de “nossa Blainha” – em alusão ao nome que o casal adotou como apelido. (Tanto a mãmi, quanto o papi, se chamam até hoje, reciprocamente, de Blyan. Um dia nós vamos lhe contar o porquê desse nome).

Nossa “Blainha”. Os nomes eram vários: Blainha, Lambrusca, Cuitelinha... Esperávamos o dia da sua chegada com amor, trabalho e música. Muita música!

quarta-feira, agosto 04, 1999

Padre Adolfo Romano Codini

Dia 4/8/99, dia do padre.

A saída de Franca foi tumultuada. O corre-corre típico de afazeres de última hora. A mala, os telefonemas inadiáveis, o azáfama de decisões derradeiras. Enfim, desgaste desnecessário. Ou não.

Mas, o dia prometia. Logo após exercitar o ritual diário do pé direito no chão, de experimentar a firmeza do cosmo pela certeza do Cascolac frio, veio a primeira grande descoberta.

Ainda embaciado pelas brumas do símbolo e do sonho, dei-me de cara com o livro árabe Histórias da tradição Sufi, disposto distraidamente sobre a cômoda.

Tesouro presenteado pelas mãos abençoadas de Petelinkar. Logo deixei-me levar pela história de Zadig.

Inesperadamente, de maneira definitiva e fugaz, fui atingido por um raio!

Transfigurada a certeza em plena incerteza, a clareza pelo seu contraste, pude então percorrer cada linha, experimentar cada sentido, recuperando a posse de um código há muito perdido.

O livro iluminava velhos caminhos da alma. O escrito verberava em cada canto de mim! Por mais estranho que possa parecer, aquele texto agora me examinava, sobranceiro, decifrava-me, deliciava-se do meu assombro. A sua personalidade se manifestava no vivo de sua voz. O mapa de meu coração estava decifrado. Tudo então se fez compreensão, absoluta e perfeita. Tão perfeita, que poderia jurar que a alcançaria com as próprias mãos.

Ou com o coração. Chorei.

Como resposta à minha angústia, a pequena história do ermitão desarmou a dura cerviz. A indignação que assomava, a resistência que se articulava contra as duras injustiças, incompreensíveis e inaceitáveis desmandos, tudo foi sendo superado por uma compreensão superior e ativa, por paradoxal, na aceitação dos fatos. Mas, estava agora convencido de que esses fatos não são mais do que meras representações. Uma em várias. Várias em Milhões. Mas há uma certa tessitura, urdida nos misteriosos caminhos do espírito, que aponta numa justa direção: o vento sopra onde quer, e ouves a sua voz. É preciso ter paciência e humildade. Fico sempre agradecido por ser introduzido nos mistérios da compreensão.

Um sábio sacerdote, esse Petelinkar.

Foi o Padre homenageado nesse grande dia.

Cenóbio.

O claustro é apavorante. O silêncio emoldura a algaravia interior. Amplifica a desordem. Magnifica o vozerio desafinado dos pensamentos desencontrados. Caos.

5/8

Mas o silêncio nos coloca diante de uma premente necessidade: agir. Sim, agir. A vida contemplativa dos mosteiros é ação em harmonia. É concentrar-se para o equilíbrio. É o trabalho da transformação. Caminhadas solitárias na manhã fria e escura.

Os salmos se alternam nas vozes que buscam. O que buscam? Sei o que busco: sentido e harmonia. Disciplina e coragem. Despi-me diante do altar e a minha busca está em busca de si mesma. Como buscar? Fixei-me em cada palavra, haurindo todo o sentido que pudesse oferecer, em diligente busca de cada idéia que pudesse desentranhar. Mas, não há respostas. Só o palavrório, palavras despidas de ânimo. Mas há sua contraparte: o silêncio. E a música maviosa das palavras em louvor. O som, o som que ecoa pelas reentrâncias do templo, no tempo. O som. Reverbera um longínquo sentido, verbo da alma, sua linguagem ancestral é ruínas da alma, clara, calma, suave, salmo. O verbo. Sua ação acústica faz vibrar cordas secretas, abrem-se as portas da cidadela fortificada.

Pela manhã, o cochilo. Havia algo de muito sério para resolver. Sei lá o quê! Cai num sono entrecortado de sustos e suspiros.

À tarde o sol lambe gostosa e preguiçosamente os bancos do jardim. Como o tempo parece correr lentamente nas tardes de Claraval!

É noite. Desci as escadas na escuridão. Sinto o pulso alterado. O medo é tão antigo quanto o luar.

10/8 – Dei famulus.

Meu confrade. Suas mãos instruídas guiam-me, seguras, na descoberta de formas essenciais entranhadas na madeira bruta. Minha idéia tosca, meus parvos projetos, esbarram nas formas que se fazem concretas, pouco a pouco, inesperadamente. A madeira se transforma, de dura indeterminação, potência essencial, descerram-se belas formas: compreendo, então, que todas as obras louvam e encaminham-se a Deus – quod omnia intendunt assimilari Deo. Toda a matéria está impregnada do Altíssimo. A lavra na madeira bruta é um ato de amor e louvor. E de sabedoria. Revelam, nos detalhes, os mistérios da criação.

Sinergia.

Senti o coração do torno. Tomei-lhe o pulso de energia abundante e generosa. Auscultei seus intestinos. Vi o seu centro tranqüilo e poderoso, onde tudo é repouso e movimento. E soube que já sabe de mim.

Notarius – sub brevitate scribere.

O que se sabe de Santo Ambrósio, além das precárias fontes gregas, chegou até nós pelo zelo de Santo Agostinho, que desde a África, encarregou Paulino, antigo notário da Igreja de Milão, de redigir-lhe a biografia. Mais ainda. Segundo nos informa Schuster, faziam parte da vida quase conventual dos clérigos que cercavam S. Gregório, dois notários: Emiliano e Patério, todos notáveis, distintos pela cultura e pela excelência de virtude, sendo que este último publicou, sancionado pelo escrupuloso rigor crítico do Papa, uma antologia de comentários bíblicos de Gregório.

Tudo isso me remete, novamente, à madeira informe, grávida de cálices e malgas. Tanger a Verdade e dela haurir os atributos de fidelidade, exatidão, constância, firmeza, e plasmar a afirmação fidedigna: testemunho de fatos e atos da vida. Eis o meu ofício! Ars notarie.

11/8/99

Isaías e a brasa do altar

"Vê, isto tocou os teus lábios,
a tua iniqüidade está removida,
o teu pecado está perdoado". (Is. 6)

Tarde única. Borrada de sanguinolência solar. Outeiros alaranjados de Claraval, cimos tingidos de matizes de fucsinas. As colinas ardendo em bandeiras rosáceas e carmim. Os elementos são testemunhas do meu arrebatamento.

Não pude deixar de pensar em entropia. Nem no seu reverso complementar: o enguiço cósmico emoldurou uma nova aliança. A absolvição de meus pecados.

Dei gratia!

quarta-feira, abril 15, 1998

A arte popular em pessoa

Não é muito fácil compreender os complexos processos da produção cultural em tempos bicudos de globalização. A indústria cultural provê o mercado com infinitas variações sobre o mesmo tema: há um pouco de tudo para todos na repartição generosa e cada vez mais qualificada desse Mercado Transcendente - esse mesmo ser mítico que decreta e sanciona o gosto para o desgosto dos descontentes. Neste fim de século, poderíamos muito bem parafrasear o filósofo: “consumo, logo existo”! Pois bem, consumimos, a que será que se destina?

Discutíamos intensamente, no CHOPP SHOW DA AEC, o tema candente da indústria cultural. Estamos sempre a reboque do mercado, que nos impõe, goela abaixo, um padrão cultural cada vez mais proteiforme? Estaria o todo-poderoso pautando nossos costumes, sonhando nossos sonhos, desejando nossos desejos? Ou simplesmente estaríamos diante de um fenômeno de eficiente recuperação da formidável diversidade cultural,  diligentemente  informada e realimentada pelos produtores da indústria?

Essas dúvidas e especulações sempre nos assaltam quando nos vemos confrontados com o volumoso output da indústria cultural. Consumimos Axé Music, Rock’n’Roll e pagode, nos perguntando se consumimos porque apreciamos, ou simplesmente apreciamos porque consumimos. Nesse complexo processo de produção, o que vem antes? Nós ou “eles”?

O show do Pessoa nos revela a mesma questão, renova os termos do mesmíssimo problema. Apresentado com despojamento e sensibilidade, seu trabalho nos remete à idéia de que a arte popular passa mesmo por caminhos que nem sempre nos são nítidos, acostumados que estamos ao consumo inocente dos produtos culturais ou confortados pelas referências cristalizadas do bom gosto sancionado. Mas o artista está ali, em pessoa, aborrecendo a nitidez das certezas, incomodando o bom tom dos escolados, insinuando com sua música uma nova percepção, uma nova suavidade.

Essa constatação nos vem da memorável terça-feira do último carnaval, passado em Claraval. A cena é singular: bar do mineiro assaltado por uma trupe de artistas mambembes, a bateria aninhada na brasília voadora do tiete, o clarinete generosamente azeitado pelo Mazola do bodegueiro. Lá pelas tantas, quando o legítimo seria pensar numa raivosa execução de marchinhas momescas, a sensibilidade do escriba e dos rurícolas é suscitada pela maviosa melodia de Ravel. Mas, você perguntaria, Ravel & Cachaça, bateria, jazz,, clarinete e violão? Em Claraval? No carnaval?

Pois é. Os olhos atentos dos circunstantes logo perceberam o que realmente importa: entre nós não há diferenças. Somos um justo acorde. Enfim, somos todos brasileiros!

Seremos capazes de ouvir o Pessoa em pessoa? Ainda seremos capazes de perceber o que desvela e resgata da cultura popular?

Pequeno artigo escrito em 1998 no Chopp Show da AEC, em Franca, SP. Na roda de amigos, Ana, Fernando Dias Andrade, Renata Braz de Farias a respeito do clarinetista Pessoa.

sexta-feira, março 27, 1998

Justiça, Amor & Arte

O lema que o papai e a mamãe adotaram desde o dia em que se conheceram – justiça, amor e arte – esperaria ainda muito tempo até que o seu verdadeiro sentido se revelasse plenamente pelo advento dos fatos guardados no futuro.

Na altura em que nos conhecemos, sabíamos que os grandes valores da vida, em seus aspectos mais importantes, se realizam com Justiça, com Amor e com Arte. Queríamos e buscamos um amor verdadeiro, que se estabelecesse com base na Justiça e que se revelasse, sempre, como uma verdadeira obra de arte.

Assim foi e tem sido a nossa vida, querida Helena.

Buscamos realizar o nosso Amor em bases de Justiça - com trabalho, respeito, dedicação. E com beleza e arte.

O mais curioso, meu amor, é que os nossos três filhos expressam, de certa maneira, essas dimensões da natureza humana. Com um acento mais ou menos característico, todos vocês encarnaram esses valores - Justiça, Amor e Arte.

Pequena Helena: não deixe nunca de voltar-se ao lema familiar. Que esses valores possam se constituir numa firme referência para toda a sua vida.

sexta-feira, fevereiro 27, 1998

Todos os caminhos levam ao Amor


Às vezes nos perguntamos como tudo acontece como acontece quando acontece. Tudo parece ocorrer ao seu modo e ao seu tempo.
E se fizéssemos diferente? Ou antes? Ou num lapso pequeno de tempo depois?

Um segundo de hesitação e tudo se desfaria como um futuro para sempre esquecido...

Não estaria aqui escrevendo sobre você, pequena Helena.

A foto que v. vê ao lado é significativa e expressa um pouco do sentimento que temos – eu e a mamãe – sobre o nosso encontro e os desafios que chegariam até nós do futuro.

O registro foi feito pela Tia Renata Braz de Faria, na Serra da Canastra, num dia qualquer de 1998.

Naquele exato instante, parecia se desenhar um lindo futuro no qual v. se faria presente.

Hoje, visto em perspectiva, vejo que o meu passado estava já grávido deste lindo presente da vida: você!

Às vezes me flagro pensando que, afinal, descontados os erros humanos, as nossas vidas são movimentos de uma grande sinfonia: acordes perfeitos, justa harmonia, profundo silêncio, tudo no tempo certo. Nossos caminhos se cruzam no exato instante em que as notas se combinam em originais desenhos, tessituras, em tramas complexas, misteriosas, insondáveis.

Vim ter a Franca em busca de mim mesmo. Era então um homem vocacionado em busca de sua plena realização – não só profissional, mas afetiva e emocionalmente, como perceberia muito tempo depois.

Não me tendo desviado um só milímetro do exercício de meu nobre ofício, acabei por realizar uma obra que haveria de se concretizar e irradiar em todas as outras dimensões pessoais.

Aportei nesta cidade em busca de Justiça, Amor e Arte. Ao cabo de sete anos, cumprida essa importante etapa profissional de minha vida, volto a São Paulo completamente transformado. Trazia comigo a certeza de um grande amor, revelado em um sem-número de sinais maravilhosos, confirmado pelas estrelas e pelos elementos.

Meu coração já se achava preparado para a sua vinda, pequena Helena.

A etapa francana se encerrou, os portais se desfizeram ao cabo de uma impressionante sucessão de coincidências cuja razão, sentido e significado se revelariam nítidos ao meu coração.

Outras portas se abriram e no momento certo realizamos o exato acorde. Despertamos a pequena Helena de seu berço de estrelas.

A pequena sementinha confirmava que os caminhos do coração nos conduzem, sempre, ao tempo certo, ao verdadeiro Amor.

Querida Helena. Você é o fruto de um grande Amor.

quinta-feira, fevereiro 26, 1998

Carta a meu pai


De: íris Jacomino
Para: Sérgio Jacomino
Data: Quarta-feira, 25 de Fevereiro de 1998 22:47
Assunto: Fase Barroca

Oi pai,

Quanto tempo não nos falamos. Agora mesmo, escutando Hendrix lembrei-me de vc (por que será, né?). Saudades. Como estão as coisas aí? Em SP tudo está bem. A escola senti que será puxada, mas enfim, consigo acompanha-la. Vc não sabe, estou começando a me interessar por desenhos, não consigo mais parar de desenhar, todos falam que ando com a cabeça nas nuvens, mas acho que é uma fase. Eu não sei, fiquei muito chateada por não ter entrado no Teatro, mas as possibilidades não favoreceram. Aquele sentimento confuso e angustiante me perturba, mas não é algo anormal, talvez seja "carne que tá crescendo". O sentimento exato é de impotência, não tem nada mais triste em não saber o que se quer na vida, ficar a mercê de Deus. Sinceramente não acredito em destinos, sabe. O futuro se faz hoje, mas tem tanta coisa legal, tanta coisa que acho interessante, que gostaria de absorver.

Ando me interessando por filosofia, sociologia, feminismo, história, e por ai vai. Sabe aquela vontade tremenda de ler, se informar, de absorver conhecimentos. O único problema é falta de tempo, 24 horas não é o suficiente, conciliar tudo escola, desenhos, leituras não é fácil. É uma fase muito difícil. Ah, estou lendo agora Ensaios de Amor, Allan de Button, conhece? Outra escritora que me identifiquei bastante é a Fernanda Young, escreveu Vergonha dos pés, e Sombra das vossas asas. Vou comprar os dois

Entrei naquele programa de amigos virtuais, na uol, conheci muita gente legal. Bom é assim que se encontra minha vida atualmente, poderia chama-la de fase Barroca. Dualidade, razão e emoção, carpe diem, conflito espiritual, morbidez.  gosto pelo mórbido e raciocínios complexos, intrincados ... AAHHH!!!

A Brevidade dos gostos da vida
E a inconstância dos bens do mundo

Nasce o sol; e ñ dura mais que um dia,
Depois da luz se segue a noite escura,
Em tristes sombras morre a formosura,
Em contínuas tristezas e alegria.

Porém, se acaba o sol, por que nascia?
Se é tão formosa a luz, por que não dura?
Como a beleza assim se transfigura?
Como o gosto da pena assim se fia?

Mas no sol, e na luz, falta a firmeza,
Na formosura não se de constância,
E na alegria sinta-se tristeza.

Começa o mundo, enfim pela ignorância,
E tem qualquer dos bens, por natureza,
A firmeza somente na inconstância.
Gregório de Matos

Beijos pai

Iris Jacomino
irisgj@mandic.com.br

26/02/98

sexta-feira, setembro 12, 1997

Carta a Íris Jacomino

Querida Íris.

Estou aqui, sentado e quieto no meu gabinete, descansando os pés sobre a mesa de trabalho, depois de um dia extremamente agitado e tumultuado. Imagine a cena: o Sr. Registrador, de paletó e gravata, com os pés descalços sobre a mesa, cuidando de esmiuçar diligentemente a caixinha de charutos que acolhe lembranças, caracóis, pedrinhas da Serra da Canastra, mapas, estrelas, ventos e cartas antigas, muitas cartas e fotos.

O agito da semana não foi suficiente para eliminar você da minha caixinha de atenções. Nunca é. Ultimamente a tenho resgatado da minha caixinha de charutos. Quantos detalhes encontro, espalhados de forma desorganizada. São nossas fotos, CDs, cartas e uma saudade inenarrável! A saudade eu a tenho ali, cuidadosamente assentada num dos cantos da caixinha. Vez por outra se manifesta e a sua voz é como uma melodia de uma flauta antiga, que não sei se me acalma ou entristece.

Ainda agora, repassando os olhos sobre todas essas coisas (que permanecem “aqui do meu ladinho”, como um claro sinal do vínculo que nos une) ainda agora, como dizia, fiquei extremamente emocionado com as palavras ternas e amorosas que me dedicou no encarte do CD de Alanis Morissette: “fico feliz por ter conhecido meu pai”.

O que mais pode querer um pai? O que pode neste mundo ultrapassar o amor expresso em palavras tão ternas?

Ainda recentemente, alguém me lembrou que há poucas coisas na vida, pouquíssimas mesmo, que valem a pena tanto quanto o amor das pessoas que amamos. Um gesto delicado, uma palavra suave, uma intenção – quanto valor espiritual agregado! Às vezes fico amarfanhado e azafamado por tantas atribulações, turbações, aflições no dia a dia e simplesmente me esqueço que sou feliz! Sou feliz porque te amo. Sou feliz porque me ama. Sou feliz porque tenho pessoas sinceras e delicadas ao meu lado - meus amigos, meus irmãos. É isto o que preciso lhe dizer, minha querida filha – e o digo com todas as letras: eu te amo, Íris. E muito!

Não sei se por causa da idade, ou mesmo porque tenha crescido um pouquinho mais espiritualmente, mas, o fato é que a cada dia que passa, fortaleço em mim a convicção de que as pessoas que amamos devem saber, por gestos e por palavras, o quanto são importantes e necessárias para nós. Devemos alardear o nosso amor, comunicar a nossa amizade, multiplicar a nossa inspiração divina de vida.

Queria que soubesse que os meus melhores dias passei ao seu lado. Você é minha estrela preciosa, meu justo diamante, chuva e sol, a palavra certa, a certeza de ser.

Sou o seu pai e me orgulho muito de sê-lo. Conte comigo, sempre.

Franca, 12 de setembro de 1997.

Sérgio Jacomino.

íris Jacomino

Querida Íris:

Estou aqui, sentado e quieto no meu gabinete, descansando os pés sobre a mesa de trabalho, depois de um dia extremamente agitado e tumultuado. Imagine a cena: o Sr. Registrador, de paletó e gravata, com os pés descalços sobre a mesa, cuidando de esmiuçar diligentemente a caixinha de charutos onde se acham, inesperadamente, lembranças, caracóis, pedrinhas da Serra da Canastra, mapas, estrelas, ventos e cartas antigas, muitas cartas e fotos!

O agito da semana não foi suficiente, contudo, para eliminar você do horizonte de minhas atenções. Nunca é. Ultimamente tenho resgatado você da minha caixinha de charutos! Quantos detalhes eu encontro ali, espalhados de forma desorganizada. São nossas fotos, CDs., cartas e uma saudade inenarrável! A saudade eu a tenho ali, cuidadosamente assentada num dos cantos da caixinha. Vez por outra se manifesta e a sua voz é como uma melodia de uma flauta antiga, que não sei se me acalma ou me entristece.

Ainda agora, repassando os olhos sobre todas essas coisas (que permanecem “aqui do meu ladinho”, como um claro sinal do vínculo que nos une) ainda agora, como dizia, fiquei extremamente emocionado com as palavras ternas, amorosas, carinhosas que me dedicou no encarte do CD de Alanis Morissette.

“Fico feliz por ter conhecido o meu PAI.”!

O que mais pode querer um pai? O que pode neste mundo ultrapassar o amor expresso em palavras tão ternas?

Ainda recentemente, alguém me lembrou que há poucas coisas na vida, pouquíssimas mesmo, que valem a pena tanto quanto o carinho das pessoas que amamos. Um gesto delicado, uma palavra, uma intenção – quanto valor espiritual agregado! Às vezes fico amarfanhado e azafamado por tantas atribulações, turbações, aflições no dia a dia e simplesmente me esqueço que sou feliz! Sou feliz porque te amo. Sou feliz porque me ama. Sou feliz porque tenho pessoas sinceras e delicadas ao meu lado – meus amigos, meus irmãos. É isto o que preciso lhe dizer, minha querida – e o digo com todas as letras: EU TE AMO! Íris. E muito.

Não sei se por causa da idade, ou mesmo porque tenha crescido um pouquinho mais espiritualidade, mas o fato é que a cada dia que passa, fortaleço em mim a convicção de que as pessoas que amamos devem saber, por gestos e palavras, o quanto são importantes e necessárias para nós. Devemos alardear o nosso amor, comunicar a nossa amizade, multiplicar a nossa inspiração divina de vida.

Queria que soubesse que os meus melhores dias passei ao seu lado. Você é minha estrela preciosa, meu justo diamante, chuva e sol, a palavra certa, a certeza de ser.

Sou o seu pai e me orgulho muito de sê-lo. Conte comigo, sempre.

Com amor,

SÉRGIO JACOMINO
Franca, 12/9/97

domingo, julho 06, 1997

NO-SAY-QUE-S'ES

Pesam-lhe as fundas raízes?

Que história é essa que se perdeu na noite dos tempos? Uma velha nova amiga, nos encontramos agora desde a ancestralidade.

Ontem foi o terror das arcadas consteladas de gárgulas, demônios e radiais entretecidos de um signo perene. Ainda me recordo do resplendor aterrador das catedrais góticas, das gentes empoeiradas e das videiras.

Que viagem, cara, que viagem!

Hoje buscamos nossos retratos na internet, naquele exato sítio. Locus situ, diríamos.

O gótico tão improvável quanto Lucy in the Sky with Diamonds!

Então só nos resta fazer história. Vamos fazer história. E nos lançamos num indecifrado anelo de resgate e depuração que nos faz perturbadoramente conhecidos, cúmplices, anjos peregrinos, almas parelhas. Ainda a alquimia.

Limbus. Mysterium magnum.

quarta-feira, março 12, 1997

Jam Galáxias

É o vento que se insinua pelas frestas das janelas, são os sonhos que esboroam o frágil sentido de minha vida, são os sobressaltos, os sustos, o transir-me pelo inesperado, que se anuncia inominado.

Estamos já no domínio daquelas coisas que não têm nome. As minhas orações são como tocha tímida diante dos portais majestosos, e quando ilumina, bruxuleante, descerra mistérios, signos indecifrados, tem o condão de operar uma transubstanciação alquímica que altera fundamente a natureza de todas as coisas, principalmente daquelas que me são familiares.

Tudo agora é certeza e dúvida, pusilanimidade e destemor, claro e turvo, suave e tosco.

Na primeira noite, estive em um terreno acidentado, mal postas as barracas e as precárias cabanas, eram todos japoneses que afoitamente disputavam sabe-se lá o quê. Estive com a Jam nesse cenário, e estávamos resfolegantes, excitados e principalmente concertados numa solidariedade e cumplicidade que eram a perfeita expressão do nosso amor, algo assim como a restauração do melhor sentido que imperava nossas vidas. Mas, havia mais do que isso no sonho, havia a certeza dormida, que trazia na algibeira, inconfessa, de que já não me era possível atravessar o Grande Hades.

Na segunda noite preparei-me para a jornada. Orei pela saúde e alegria, minhas e da Jam, suspeitando que o noite seria de viagens, vez de lançar-me novamente às ondas perturbadoras do Mar.

Antes de acostar-me, message in a bottle, lançada na internet:

FRANCA - AEC Chic Chopp

Zanzando pela city,
jantar na balbúrdia,
o rei do gado imperando sobre o frango à passarinho...
e a cerveja:
titties'n beer

Olhares furtivos flagram
os modelitos que se insinuam assim,
abolerados!
(Sexualidade brejeira,
olhares-mísseis),

Observo o encanto suburbano dos
aeroportos, paineiras, dermínios,
das vilas tião & leporace.

O desejo fabril das operárias:
sexualidade febril de mulheres faber
tesão maquinado... fulgurações,
tontas reminicências da chuva:
rain dog

SÃO BERNARDO

São Bernardo é minha república,
minha eterna terra-à-vista:
milenes multifárias,
na chuva em metalurgia.
Carona no tesão de Lula, ABC e Valencise.

A terra amarrotou-se em desejos,
em Janes no outono,
Lennon, Ella & Rolling Stones:
send me a letter Negrita,
send me a letter!

Margaridas brotam sorrateiras no MP,
cecílias (que são Lizt & Simply Red)
Mastroiani, (seus olhos negros)
e o vento,
sempre o vento,
sempre o vento!

Oh minha rainha de Aeolia,
que impera solitária
como um cristal na chuva!

Nem me importam as portas
nem as janelas
nem os trincos,
pois que me abri
como um guarda chuva às avessas
e suporto
a saudade das
estrelas!

TELÉSFORO

Tudo é muito claro prá mim, baby... 

Saiba que a mim também incomodam: o entusiasmo, a intimidade, a clandestinidade.

O entusiasmo porque é a voz de Deus — e sempre resistimos, anjos caídos, ao sopro do vento que nos orienta e conduz - "o vento sopra onde quer, e ouves a sua voz..." (Jo 3:8) - e, afinal, não sabemos qual é o caminho dos ventos (Ec. 11:4).

A intimidade. A nós dois aborrece. Mas por motivos opostos: A você, porque lhe parece que a minha voz reverbera velhas cantigas, tange alaúdes e cítaras. A intimidade que você denuncia (e renuncia) para mim tem o nome de História. Uma história plural, contada e recontada milhões de vezes, amalgamada no íntimo de cada célula, explodindo no interior de cada átomo: diz com galáxias, pérgulas e vaga-lumes ao pôr-do-sol. Mas diz também com John Lennon, ainda com Warat, com Oswald, com estrelas cadentes sobre os céus em metalurgia. Diz com o que é — sempre foi, sempre será! — after all it is written in the stars...E por tudo isso me incomoda também. Como uma "dor elegante".

Já a clandestinidade é botão em flor. Encerra os encantos de um fruto maduro. É clandestinidade de jacarandás no inverno. Minha querida, tudo a seu tempo se mostra exato como uma pequena flor de jacarandá.

E depois, não há traição maior do que aquela cometida contra o próprio coração.

Não há direitos em amor, como assegura Arnaut Daniel. Não há, meu amor! Descansa.

Apresentei-me aos besouros, às aranhas e aos delicados fios que tecem, entretecem, insuperáveis vezes, ao ocaso... Às rochas, aos pequenos fetos, riachos, prímulas e ao lilás ardendo sob os sóis de minhas retinas... Ao vinho e sua espiritualização, flamejante ÍRIS, metáforas e o som de JAMES BROWN.

Ah! Como me dei conta de você, minha querida... como te reconheci nas galáxias — você que é tão especial na valorização desses detalhes importantes: afinal, o que pode ser mais importante para dilucidar nossas existências do que vaga-lumes ao pôr-do-sol?

Fica de nós dois uma espécie de conhecimento fundamental.

É como se esse conhecimento essencial, desentranhado agora pela dor, tomasse a forma de um mito, de um poderoso arquétipo, como se esse conhecimento ultrapassasse até mesmo os limites da minha própria existência e se consolidasse numa vasta e infinita teia de relações essenciais.

Sinto que atingimos, enfim, a Humanidade!

Wipping Post

Girassóis e vagalumes

"(...) Eu a preferi a cetros e tronos e avaliei a riqueza como um nada ao lado da sabedoria. Não comparei a ela a pedra preciosa, porque todo ouro ao lado dela é apenas um pouco de areia e porque a prata diante dela será tida como lama. Eu a amei mais do que a saúde e a beleza e gozei dela mais do que da claridade do sol, porque a claridade que dela emana jamais se extingue (...) Há nela, com efeito, um espírito inteligente, santo, único, múltiplo, sutil, móvel, penetrante, puro, claro, inofensivo, inclinado ao bem, agudo, livre, benéfico, benévolo, estável, seguro, livre de inquietação, que pode tudo, que cuida de tudo os inteligentes, os puros, os mais sutis..."( Sabedoria 6.7)

Nem Narcisos,
muito menos as ansiosas rosas...
Apenas girassóis & vagalumes
E não sabemos ao certo o que nos une.
Mas temos a certeza
de que não é
vento.

Meu amigo,

Visitei sua galáxia e reconheci em cada frase sua dor e seu amor.

Brilhante como as estrelas, essa iniciativa tão bela de fazer poesia da poeira do passado.

Você tem o dom da transformação. (12 Mar 1997 18:30:47 -0300 - Adriana Gianvecchio)

De volta para as estrelas

Atentamente sorvi seu trabalho ou quem sabe, prazer. Como um vento vindo das galaxias, aponta sua vida, sua dor, seu passado e a inquietude de seu futuro.

Estrelas,
pontos distantes num emaranhado
celestial
a revelar que o amigo tem
liberdade e intimidade
com os astros e, também, com as
estrelas.
Não apenas aquelas ali do ponto distante mas também aquelas que assim se chamam cá na terra. No silêncio, no lamento, a alegria de um momento, de um período, de uma vida. A lembrança do som, do aroma da presença ainda que fugidia e distante. (13 Mar 1997 09:19:07 -0700 Elcio Trujillo)

Galáxias

It was written in the stars, você ia ter tudo a ver com "escrituração". A sua fórmula encanta e despista: Viver poeticamente ou poetizar a vida? Se não é uma rima parece uma solução, como talvez preferisse aquele grande poeta.

Porque não há poesia maior do que a vida,
só a recriação dela em poemas
(poetizar a vida?)
pode proporcionar tão essencial espelho
para vivermos poeticamente?

Então é isso, descobri a sua fórmula: você vive poeticamente e poetiza a a vida com um `a vontade de causar a doce inveja dos espíritos menos agraciados. (Que coisa: São Bernardo já tem o seu "Samba" e nem suspeita disso!) (Sat, 15 Mar 1997 18:53:24 -0300, Fátima Rodrigo

Poeiras: Não eram cacos de dentes no chão, eram reflexos das poeiras do céu...saudades...saudades...saudades!!!

Não consegui ler, as palavras são tantas e eu tão dividido, fragmentado. Sempre à cata de estrelas, vi o resto, vi os mortos, vi a vida fugindo desesperada; distante três dias de qualquer esperança que pudesse me resgatar e furei os olhos e quebrei todos os dedos e movimentos e dentes e desejos. Não eram cacos de dentes no chão, eram reflexos das poeiras do céu... saudades... saudades... saudades!!!

Depois fui acordando entre tantas bocas e beijos lascivos, olhos de vidro e luzes refletidas (nas vitrines, nas poças d`agua, nos olhos da saudade) e assim cheguei mais distante de qualquer lugar que  poderia ter imaginado chegar e, talvez por isso, me vi livre de tudo o que poderia ter sido por
mim mesmo antes pensado: O Jogo da Amarelinha, as saudades, os eternos significados, eu sou eu atravessando a rua comigo, contigo, repleto de saudades e sabendo que talvez nunca mais aconteça o encontro, quando meus olhos olharem os teus, ficaremos como dois idiotas tentando colocar (entre nós) um monumental passado que por isso mesmo não significa nada, ou melhor: somos nós! Eu sou o que melhor recebi de ti e de você mesmo não restou nada apenas em mim esta busca equivocada pela poesia, pela vida: plena, inteira, absoluta: muito mais que as palavras... Como no próximo encontro será possível agenciar os mesmos afetos e despir-nos de anos e anos de ausência que ficam tão grandes imensos como os prédios dos desenhos futuristas da MTV e os meus ficando brancos cabelos e o coração ainda sem temer ( quase desejando) o cataclisma cardíaco e as palavras vão
todas amontoando-se e eu desesperadamente em fuga de tudo o que já sei: o novo é sutil, o novo é febril, o novo é o meu desejo desesperado de estar vivo: mordendo as mãos para tentar algum sentido. (Waldir Arnaldo Martins)


Apontamento

A minha alma partiu-se como um vaso vazio. Caiu pela escada excessivamente abaixo. Caiu das mãos da criada descuidada. Caiu, fez-se em mais pedaços do que havia loiça no vaso.

Asneira? Impossível? Sei lá! Tenho mais sensações do que tinha quando me sentia eu. Sou um espalhamento de cacos sobre um capacho por sacudir.

Fiz barulho na queda como um vaso que se partia. Os deuses que há debruçam-se do parapeito da escada. E fitam os cacos que a criada deles fez de mim.

Não se zanguem com ela. São tolerantes com ela. O que era eu um vaso vazio?

Olham os cacos absurdamente conscientes, Mas conscientes de si mesmos, não conscientes deles.

Olham e sorriem. Sorriem tolerantes à criada involuntária.

Alastra a grande escadaria atapetada de estrelas. Um caco brilha, virado do exterior lustroso, entre os astros. A minha obra? A minha alma principal? A minha vida? Um caco. E os deuses olham-o especialmente, pois não sabem por que ficou ali.

Fernando Pessoa (poesias de Álvaro de Campos)

Meu bom amigo Sérgio,

Somos todos seres em movimento,
na suave dança cósmica,
Podemos nos encontrar, de repente,
na dança da precisão do acaso.
E nos reconhecemos, apesar de "estranhos"
Que grande galáxia nós vivemos!!

Renata Braz de Faria (Sun, 27 Apr 1997 13:53:14 -0200.