Não é muito fácil compreender os complexos processos da produção cultural em tempos bicudos de globalização. A indústria cultural provê o mercado com infinitas variações sobre o mesmo tema: há um pouco de tudo para todos na repartição generosa e cada vez mais qualificada desse Mercado Transcendente - esse mesmo ser mítico que decreta e sanciona o gosto para o desgosto dos descontentes. Neste fim de século, poderíamos muito bem parafrasear o filósofo: “consumo, logo existo”! Pois bem, consumimos, a que será que se destina?
Discutíamos intensamente, no CHOPP SHOW DA AEC, o tema candente da indústria cultural. Estamos sempre a reboque do mercado, que nos impõe, goela abaixo, um padrão cultural cada vez mais proteiforme? Estaria o todo-poderoso pautando nossos costumes, sonhando nossos sonhos, desejando nossos desejos? Ou simplesmente estaríamos diante de um fenômeno de eficiente recuperação da formidável diversidade cultural, diligentemente informada e realimentada pelos produtores da indústria?
Essas dúvidas e especulações sempre nos assaltam quando nos vemos confrontados com o volumoso output da indústria cultural. Consumimos Axé Music, Rock’n’Roll e pagode, nos perguntando se consumimos porque apreciamos, ou simplesmente apreciamos porque consumimos. Nesse complexo processo de produção, o que vem antes? Nós ou “eles”?
O show do Pessoa nos revela a mesma questão, renova os termos do mesmíssimo problema. Apresentado com despojamento e sensibilidade, seu trabalho nos remete à idéia de que a arte popular passa mesmo por caminhos que nem sempre nos são nítidos, acostumados que estamos ao consumo inocente dos produtos culturais ou confortados pelas referências cristalizadas do bom gosto sancionado. Mas o artista está ali, em pessoa, aborrecendo a nitidez das certezas, incomodando o bom tom dos escolados, insinuando com sua música uma nova percepção, uma nova suavidade.
Essa constatação nos vem da memorável terça-feira do último carnaval, passado em Claraval. A cena é singular: bar do mineiro assaltado por uma trupe de artistas mambembes, a bateria aninhada na brasília voadora do tiete, o clarinete generosamente azeitado pelo Mazola do bodegueiro. Lá pelas tantas, quando o legítimo seria pensar numa raivosa execução de marchinhas momescas, a sensibilidade do escriba e dos rurícolas é suscitada pela maviosa melodia de Ravel. Mas, você perguntaria, Ravel & Cachaça, bateria, jazz,, clarinete e violão? Em Claraval? No carnaval?
Pois é. Os olhos atentos dos circunstantes logo perceberam o que realmente importa: entre nós não há diferenças. Somos um justo acorde. Enfim, somos todos brasileiros!
Seremos capazes de ouvir o Pessoa em pessoa? Ainda seremos capazes de perceber o que desvela e resgata da cultura popular?
Pequeno artigo escrito em 1998 no Chopp Show da AEC, em Franca, SP. Na roda de amigos, Ana, Fernando Dias Andrade, Renata Braz de Farias a respeito do clarinetista Pessoa.
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