De: íris Jacomino
Para: Sérgio Jacomino
Data: Quarta-feira, 25 de Fevereiro de 1998 22:47
Assunto: Fase Barroca
Oi pai,
Quanto tempo não nos falamos. Agora mesmo, escutando Hendrix lembrei-me de vc (por que será, né?). Saudades. Como estão as coisas aí? Em SP tudo está bem. A escola senti que será puxada, mas enfim, consigo acompanha-la. Vc não sabe, estou começando a me interessar por desenhos, não consigo mais parar de desenhar, todos falam que ando com a cabeça nas nuvens, mas acho que é uma fase. Eu não sei, fiquei muito chateada por não ter entrado no Teatro, mas as possibilidades não favoreceram. Aquele sentimento confuso e angustiante me perturba, mas não é algo anormal, talvez seja "carne que tá crescendo". O sentimento exato é de impotência, não tem nada mais triste em não saber o que se quer na vida, ficar a mercê de Deus. Sinceramente não acredito em destinos, sabe. O futuro se faz hoje, mas tem tanta coisa legal, tanta coisa que acho interessante, que gostaria de absorver.
Ando me interessando por filosofia, sociologia, feminismo, história, e por ai vai. Sabe aquela vontade tremenda de ler, se informar, de absorver conhecimentos. O único problema é falta de tempo, 24 horas não é o suficiente, conciliar tudo escola, desenhos, leituras não é fácil. É uma fase muito difícil. Ah, estou lendo agora Ensaios de Amor, Allan de Button, conhece? Outra escritora que me identifiquei bastante é a Fernanda Young, escreveu Vergonha dos pés, e Sombra das vossas asas. Vou comprar os dois
Entrei naquele programa de amigos virtuais, na uol, conheci muita gente legal. Bom é assim que se encontra minha vida atualmente, poderia chama-la de fase Barroca. Dualidade, razão e emoção, carpe diem, conflito espiritual, morbidez. gosto pelo mórbido e raciocínios complexos, intrincados ... AAHHH!!!
A Brevidade dos gostos da vida
E a inconstância dos bens do mundo
Nasce o sol; e ñ dura mais que um dia,
Depois da luz se segue a noite escura,
Em tristes sombras morre a formosura,
Em contínuas tristezas e alegria.
Porém, se acaba o sol, por que nascia?
Se é tão formosa a luz, por que não dura?
Como a beleza assim se transfigura?
Como o gosto da pena assim se fia?
Mas no sol, e na luz, falta a firmeza,
Na formosura não se de constância,
E na alegria sinta-se tristeza.
Começa o mundo, enfim pela ignorância,
E tem qualquer dos bens, por natureza,
A firmeza somente na inconstância.
Gregório de Matos
Beijos pai
Iris Jacomino
irisgj@mandic.com.br
26/02/98
