
Dizem que os selvagens salvaram-se do tsunami arrasador porque os membros de algumas tribos, de cultura milenar, apercebem-se da iminência do perigo por meio de indicações e sinais observados no canto das aves e alterações no padrão de comportamento dos animais marinhos.
É possível que nós estejamos perdendo a capacidade de ver e ouvir. Afinal, vivemos um século de congestionamento de informações. Abrimos um plexo de canais, procurando apreender o output do sistema, e nos distanciamos com isso dos pequenos sinais, das coisas simples do coração.
Mas nem todos nós, com certeza! Alguns poucos ainda não fazem parte dessa estranha civilização que pouco a pouco se desumaniza. Falo especificamente do Pedro e da Helena, meus anjos que ainda têm olhos e ouvidos para ver - "bem-aventurados os vossos olhos, porque vêem, e os vossos ouvidos, porque ouvem" (Mt. 13:16).
Digo-lhes isso porque a casa amanheceu diferente. Os objetos implicavam, as crianças acordaram indóceis, era possível identificar alguns sinais de desordem e caos. Mas o que quer significar essa mudança nas tramas interiores de nossas vidas? Os elementos revelam o desacordo: a noite mal-dormida, o trânsito na madrugada, os pequenos acidentes, a precipitação de sonhos tumultuados... O que querem revelar?
Sonhei que a minha querida Helena - a inventora da casa, meu anjo acróbata - se equilibrava perigosamente num cabo altíssimo. Cabo de alta-tensão. Acordei aflito, o coração apertado... Noutra seqüência onírica eu despencava de uma montanha de seixos e me surpreendia com a queda segura, em pé, firme e rijo. O que descerram esses símbolos?
Gostaria de escusar-me da obviedade dessa psicologia analítica ligeira. Claro está que todos nós estamos percebendo a chegada do Thiago e cada um, à sua maneira, procura equilibrar-se como pode, numa reacomodação da nossa complexa orquestra familiar. E isso envolve riscos. Toda transformação sempre representa oportunidades e riscos.
Ah! Lelê, V. faz o que pode... equilibra-se perigosamente. Mas segue corajosamente, e eu te amo por isso. O Pedro, os olhos postos na aventura aérea, enamorado de seu pai, simplesmente chora. Meu Pepo, o seu choro haverá de ser compensado com muitas alegrias que seu irmão haverá de lhe proporcionar. Eu estou ao seu lado nessa quadra, lindo menino.
Já eu, em plena queda, me sustento e me admiro que nesta altura da vida, em que ultrapassamos há pouco o cúspide (de novo!), já encaro o descenso. É possível, contudo, descer firmemente e amparar a mim mesmo e a todos que de mim dependem. A queda envolveu sabedoria e compreensão. Uma sabedoria que se sabe sabida e que nessas horas se revela como renascimento. Chegar ao chão firme e seguramente, na viagem desde as alturas, é pouco mais pouco menos do que simplesmente voar. Desses paradoxos é preciso tirar algumas lições que põem em xeque os cânones que recomendam uma vida esterelizada pelos padrões médios. Certamente, como os pequenos, é preciso estar unplugged.
Por fim, impassível nisto tudo estava a Tânia, meu amor. Transitando soberana, doadora de um fruto maduro a este mundo tumultuado e intranqüilo, segue sua trajetória de generosidade, alegria e bem-aventurança. Eu te amo, minha querida. Sou o seu parceiro nessa maravilhosa caminhada, Dei Gratia!
Eu saúdo meu pequeno Thiago, homologando o nome na etimologia que descerra um mistério familiar, eu te dou as boas vindas, meu anjo, desejando que possa chegar tranqüilo e saudável.
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