
Aqui conto uma história incrível. Vivi-a no Instituto Cristóvão Colombo, no Ipiranga. Pena que não me recorde do nome dos envolvidos. Mas não importa. Foi assim... em algum momento daquele tempo - agora uma dimensão perdida da memória, encravada num profundo vale que parece não ter início nem fim -, comecei a participar do grupo coral.
Havia me esforçado bastante, esganiçando notas incertas, como impoderáveis são os registros pueris, exercitando-me nas fileiras que se faziam para o concurso vocal e para a escolha dos melhores (ou menos piores, suspeito).
Havia algumas vantagens em fazer parte do coral - como ensaiar nas horas das aulas, por exemplo.
Muito bem, um dia, depois de vários ensaios (eu fazia a segunda voz), fomos todos à frente do Instituto para receber uma autoridade religiosa, que além de trazer a sua aura inconsútil de autoridade, traria também medalhinhas do Papa. Suponho que voltasse de Roma.
Estávamos à frente da entrada principal, ansiando a chegada, quando alguém nos advertiu que lá do alto, nas alturas aeronáuticas e azuladas, de dentro do avião, nossa autoridade teria saudado aqueles meninos ansiosos por sua chegada.
Sim! Ele nos teria mandado um sinal, uma marca, um aviso, enfim, uma prova inequívoca de seu carinho e generosidade: a autoridade cuspiu! Havia nos mandado uma saraivada de saliva da aeronave e todos nós começaríamos a procurar as provas espraiadas no jardim.
Ah! como nos esvaíamos em delírios e fantasias esperando em pé toda uma tarde modorrenta de verão. Voávamos muito além de Roma, Nairóbi, passando pela Barroca, resvalando os sinos de uma igreja, o cúspíde do edifício em chamas, superando os eucaliptos desta e de outras paragens.
Essa história é adornada com as roseiras que ainda perfumam minhas tenras lembranças infantis.
O ICC foi uma viagem, com tudo de apavorante, triste, deslumbrante, e definitivo que uma verdadeira viagem proporciona.
Volto um dia com as lembranças de outros dias.
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