quarta-feira, novembro 16, 2005

cada estrela é todas as estrelas

O tempo escorre pelas mamas generosas da mãe. Cada segundo corre à caça do outro; este se foi... e logo outro vem. É a dança dos sentidos que distraem a consciência. Mas as dobras do tempo não são uniformes para nós dois - Thiago e eu - que convivemos esse instante mágico do nascimento.

A chegada desse menino coincide com a irrupção de sentimentos raros. E de sonhos. As imagens me vêm assim, inesperadamente. Lembro-me que foi uma prima - acho que foi a Elza - que pela primeira vez descerrou-me a largueza do abismo. Uma simples pergunta levou-me a uma sucessão de angustiantes paradoxos. "Quantos anos você tem?" - perguntou-me diretamente. Cinco, seis... sei lá! Devo ter apelado para os dedos de uma só mão. Ela replicou: "tão pouco... e no entanto parece que é muito... Não é?".

De fato. Nunca mais pude me esquecer do triste episódio. Realmente, parecia-me ter já vivido muito tempo, um tempo incontável, indizível, intratável, irredutível, tanto faz para um pequeno ser humano sem passado e sem futuro...

Aliás, a casa da Tia Dirce, com seu abacateiro, sua triste figueira, e a pessegueira seca no fundo do quintal, foi o meu refúgio nos momentos mais tristes da perda de meu pai.

O Thiago chegou e logo pôs os termos de nosso relacionamento: compreenda-me! A fragilidade de estrelas em gema. Ser testemunha de sua chegada, dar-lhe o primeiro banho, emocionar-me com o peitinho armando-se com os fogos do ar, encheu-me de uma alegria incontível. Por que choramos nessas ocasiões de pura alegria?

Aprender a respirar parece ter sido tão simples... e no entanto aquele instante representou o momento mais decisivo daquela vidinha que pulsava no colo da mãe.

Ah! Thiago... Já não sou o mesmo e agora me pergunto: o que fazer da minha própria vida? Compreenda-me! Aspira a um novo homem! Logo eu, um velho homem, tão antigo como cada estrela é todas as estrelas...



Registro de autoria: "cada estrela é todas as estrelas" é um rabicho de um discurso onírico gravado nas paredes da estância de Francisco Brennand (http://www.brennand.com.br/). Caminhar naqueles amplos espaços, átrios misteriosos, pontilhados de figuras arcaicas e arquetípicas, é, também esta, uma experiência de arrebatamento. "Não interrompam este silêncio,não interrompam este sonho", FB.

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