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quinta-feira, fevereiro 26, 1998

Carta a meu pai


De: íris Jacomino
Para: Sérgio Jacomino
Data: Quarta-feira, 25 de Fevereiro de 1998 22:47
Assunto: Fase Barroca

Oi pai,

Quanto tempo não nos falamos. Agora mesmo, escutando Hendrix lembrei-me de vc (por que será, né?). Saudades. Como estão as coisas aí? Em SP tudo está bem. A escola senti que será puxada, mas enfim, consigo acompanha-la. Vc não sabe, estou começando a me interessar por desenhos, não consigo mais parar de desenhar, todos falam que ando com a cabeça nas nuvens, mas acho que é uma fase. Eu não sei, fiquei muito chateada por não ter entrado no Teatro, mas as possibilidades não favoreceram. Aquele sentimento confuso e angustiante me perturba, mas não é algo anormal, talvez seja "carne que tá crescendo". O sentimento exato é de impotência, não tem nada mais triste em não saber o que se quer na vida, ficar a mercê de Deus. Sinceramente não acredito em destinos, sabe. O futuro se faz hoje, mas tem tanta coisa legal, tanta coisa que acho interessante, que gostaria de absorver.

Ando me interessando por filosofia, sociologia, feminismo, história, e por ai vai. Sabe aquela vontade tremenda de ler, se informar, de absorver conhecimentos. O único problema é falta de tempo, 24 horas não é o suficiente, conciliar tudo escola, desenhos, leituras não é fácil. É uma fase muito difícil. Ah, estou lendo agora Ensaios de Amor, Allan de Button, conhece? Outra escritora que me identifiquei bastante é a Fernanda Young, escreveu Vergonha dos pés, e Sombra das vossas asas. Vou comprar os dois

Entrei naquele programa de amigos virtuais, na uol, conheci muita gente legal. Bom é assim que se encontra minha vida atualmente, poderia chama-la de fase Barroca. Dualidade, razão e emoção, carpe diem, conflito espiritual, morbidez.  gosto pelo mórbido e raciocínios complexos, intrincados ... AAHHH!!!

A Brevidade dos gostos da vida
E a inconstância dos bens do mundo

Nasce o sol; e ñ dura mais que um dia,
Depois da luz se segue a noite escura,
Em tristes sombras morre a formosura,
Em contínuas tristezas e alegria.

Porém, se acaba o sol, por que nascia?
Se é tão formosa a luz, por que não dura?
Como a beleza assim se transfigura?
Como o gosto da pena assim se fia?

Mas no sol, e na luz, falta a firmeza,
Na formosura não se de constância,
E na alegria sinta-se tristeza.

Começa o mundo, enfim pela ignorância,
E tem qualquer dos bens, por natureza,
A firmeza somente na inconstância.
Gregório de Matos

Beijos pai

Iris Jacomino
irisgj@mandic.com.br

26/02/98

sexta-feira, setembro 12, 1997

íris Jacomino

Querida Íris:

Estou aqui, sentado e quieto no meu gabinete, descansando os pés sobre a mesa de trabalho, depois de um dia extremamente agitado e tumultuado. Imagine a cena: o Sr. Registrador, de paletó e gravata, com os pés descalços sobre a mesa, cuidando de esmiuçar diligentemente a caixinha de charutos onde se acham, inesperadamente, lembranças, caracóis, pedrinhas da Serra da Canastra, mapas, estrelas, ventos e cartas antigas, muitas cartas e fotos!

O agito da semana não foi suficiente, contudo, para eliminar você do horizonte de minhas atenções. Nunca é. Ultimamente tenho resgatado você da minha caixinha de charutos! Quantos detalhes eu encontro ali, espalhados de forma desorganizada. São nossas fotos, CDs., cartas e uma saudade inenarrável! A saudade eu a tenho ali, cuidadosamente assentada num dos cantos da caixinha. Vez por outra se manifesta e a sua voz é como uma melodia de uma flauta antiga, que não sei se me acalma ou me entristece.

Ainda agora, repassando os olhos sobre todas essas coisas (que permanecem “aqui do meu ladinho”, como um claro sinal do vínculo que nos une) ainda agora, como dizia, fiquei extremamente emocionado com as palavras ternas, amorosas, carinhosas que me dedicou no encarte do CD de Alanis Morissette.

“Fico feliz por ter conhecido o meu PAI.”!

O que mais pode querer um pai? O que pode neste mundo ultrapassar o amor expresso em palavras tão ternas?

Ainda recentemente, alguém me lembrou que há poucas coisas na vida, pouquíssimas mesmo, que valem a pena tanto quanto o carinho das pessoas que amamos. Um gesto delicado, uma palavra, uma intenção – quanto valor espiritual agregado! Às vezes fico amarfanhado e azafamado por tantas atribulações, turbações, aflições no dia a dia e simplesmente me esqueço que sou feliz! Sou feliz porque te amo. Sou feliz porque me ama. Sou feliz porque tenho pessoas sinceras e delicadas ao meu lado – meus amigos, meus irmãos. É isto o que preciso lhe dizer, minha querida – e o digo com todas as letras: EU TE AMO! Íris. E muito.

Não sei se por causa da idade, ou mesmo porque tenha crescido um pouquinho mais espiritualidade, mas o fato é que a cada dia que passa, fortaleço em mim a convicção de que as pessoas que amamos devem saber, por gestos e palavras, o quanto são importantes e necessárias para nós. Devemos alardear o nosso amor, comunicar a nossa amizade, multiplicar a nossa inspiração divina de vida.

Queria que soubesse que os meus melhores dias passei ao seu lado. Você é minha estrela preciosa, meu justo diamante, chuva e sol, a palavra certa, a certeza de ser.

Sou o seu pai e me orgulho muito de sê-lo. Conte comigo, sempre.

Com amor,

SÉRGIO JACOMINO
Franca, 12/9/97