O sonho.
Era uma manhã no longo corredor que liga as casinhas da minha infância pobre e valorosa.
Na porta da casa 2, de minha tia Teresa, há um jovem (mais tarde vou verificar que um jovem com longa história) em infrutífero colóquio com mais duas pessoas – uma delas, seguramente, meu tio Antônio.
Quando me apercebi do que se tratava, interferi no assunto.
O jovem era representante de uma tradicional empresa, hoje já extinta. Mas ele o representava com uma interessante inquirição. Estava, justamente, fazendo uma pesquisa sobre os antigos clientes da empresa. Mas a nota característica de sua empresa é que não estava buscando informações de qualquer cliente. Buscava, exclusivamente, de alguns clientes – no caso aqueles que utilizavam a linha correntes.
Interferi no assunto. “Sim, a minha tia era cliente, mas não muito satisfeita”. E pus-me a dar o testemunho de quanto a minha Tia Teresa usava das linhas e carretéis da Correntes.
(Agora me vem à memória que a Tia Teresa trabalhava à época da Rua dos Estudantes numa camisaria e me trazia grandes cones que eram retrós de linha).
Na cena seguinte, já estávamos falando animadamente sobre as linhas, e o rapaz retirou de sua pasta uma revista que já havia sido editada com os resultados da mesma pesquisa – feita anteriormente com os mesmos fins e propósitos. A empresa retomava agora a mesma entrevista.
Falando e falando, retirava da pasta retrós gigantes, um dos quais trouxe às minhas mãos, quando notei que nele havia várias pontas de linhas coloridas, cada qual assentada em seu sulco-guia. Ao manipular o retrós, todos os fios caíram em minhas mãos. Ainda tentei reatá-los, em cada guia, mas foi impossível.
Logo em seguida, conduzi o homem-memória à casa de minha mãe (ou de minha tia, já não sei, mas não importa: O sentido do comunitarismo da minha infância era nítido. Lá encontrei minha tia Teresa, mas encontrei, bela e jovem, minha mãe.
Estava na cozinha. Disse a todos (havia mais gente) que havia trazido alguém (o homem-memória) para passar a noite, e logo fui adentro as dependências da casa. Minha mãe, agora enérgica e opiniosa, exatamente como a conheci na infância, já me negava a execução da idéia. Mas entrei à casa e percorri as dependências e já não me lembro se o homem-memória me acompanhou ou não.
O interior da casa
Dentro da casa havia utensílios conhecidos. Mas alterados. Por exemplo, meu velho gravador de rolo estava tocando uma linda música do Yes, interpretada pelo Frank Zappa. Diz a letra da melodia que ainda soa na minha mente-coração:
Heart of sunrise
Love comes to you and you follow
Lose one on to the Heart of the Sunrise
SHARP-DISTANCE
How can the wind with its arms all around me
Lost on a wave and then after
Dream on on to the Heart of the Sunrise
SHARP-DISANCE
How can the wind with so many around me
Lost in the city
Lost in their eyes as you hurry by
Counting their broken ties they decide
Love comes to you and then after
Dream on on to the Heart of the Sunrise
Lost on a wave but you're dreaming
Dream on on to the Heart of the Sunrise
SHARP-DISTANCE
How can the wind with its arms all around me
SHARP-DISTANCE
How can the wind with so many around me
I feel lost in the city
Lost in their eyes as you hurry by
Counting their broken ties they decided
Straight light moving and removing
SHARPNESS of the colour sun shine
Straight light searching all the meanings of the song
Long last treatment of the telling that
Relates to all the words sung
Dreamer easy in the chair that really fits you
Love comes to you and then after
Dream on on to the Heart of the Sunrise
SHARP-DISTANCE
How can the sun with its arms all around me
SHARP-DISTANCE
How can the wind with so many around me
I feel lost in the city
Nesse mesmo gravador – eu próprio o tratei de examinar – havia superpostas várias fitas, das quais uma só, naquele momento, estava sendo executada.
Fazia frio no interior da casa e meu tio Ary, já falecido, passa por nós para prover-nos de calor com uma aquecedor singular. Ao vê-lo passar pelo corredor ao lado, fui ao seu encalço e com um objetivo no coração, de manifestar uma palavra amiga e de reconciliação, cumprimentei-o e ele logo deu seguimento ao seu intento. Desencavou de um cômodo um porta-retrato-aquecedor, cuja foto não era de minha família. Disse-lhe que já conhecia o utensílio, mas a foto era de meu pai. Dei-me conta, logo em seguida, que cada família teria um porta-retrato-aquecedor próprio.
Voltei às dependências da casa, e foi ao encontro de minha mãe. Ela estava ocupada (como sempre esteve ao longo de seus anos de vida) e eu a vi transfigurada. Linda. Cristalina. Jovem e com seu cabelo corte channel, enérgica e vital, plenipotente para as pequenas coisas da casa e da vida.
Naquele momento eu a abracei. Não havia palavras. E num jato, veio-me um choro e um gemido pleno de infinitas perguntas e respostas, como se tudo fosse a mesma e a única coisa e minhas palavras já não bastariam.
Acordei com o choro pleno de perguntas e repostas de minha Helena.
Algumas reflexões
Corri ao computador para escrever o sonho – antes que suas imagens vívidas se esvaíssem nesse ambiente detergente.
O sonho é retrospectivo. Uma mirada ao passado. Uma busca do passado. O homem-memória é detentor dos retrós que suportam os fios da vida. Ali, enovelados, há um fio-conduzente de cada vida, de cada um de nós que, circunstancialmente, naquele momento histórico, convivíamos.
O homem-memória queria saber da história de cada um. Não era a minha história que estava no questionário. Era a de minha tia. (Talvez por esse motivo, minha mãe tivesse verberado contra a idéia de abrigar o homem-memória na mansarda dos mortos. Possivelmente, porque minha tia ainda é viva. E de fato, o homem não me acompanhou à casa). Lembro-me de que todos nós expressamos as restrições que a Tia Teresa tinha em relação ao dono (patrão) do homem-memória.
Nessa dimensão não é necessário percorrer cada fio para conhecer. Todos os fios caíram sobre minhas mãos, numa espécie de completude que se vai insinuar por todo o sonho. Quando tentei repor cada fio em seu lugar, já não era possível. Como não me tivesse assustado, suponho que não era mesmo necessário. Cada fio tinha um colorido especial. Ficaram depostos, num amontoado informe de fio enovelados.
O gravador também abrigava fitas superpostas. Várias trilhas sonoras. Ali, especificamente, o que tocava era a trilha sonora de minha própria vida. Mas havia outras, seguramente.
A minha mãe me fez pensar numa ideia que pode ser expressa em cápsulas. Sementes. Fetos. Deixe-me tentar expressar – ainda que toscamente. O gemido é a pergunta essencial. É também a resposta que se vai buscar ao longo da vida. De várias vidas.
Lembrei-me imediatamente do choro aparentemente imotivado da pequena Helena. Não está com fome, nem necessita de outra coisa que não integrar-se no corpo-origem de sua mãe. Acalma-se com o contato físico, com o pulsar sereno e generoso do coração materno. Matrix.
A ideia que me persegue depois desse sonho é que o meu soluço-gemido é tão essencial e tão necessário que se não esgotará numa só vida. Compreender tudo isso.
sábado, setembro 21, 2002
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