Norma fundamental! Nada mais, nada menos do que isso. E pronto!
Norma Wimmer foi um anjo em minha vida. Desde o primeiro momento que a vi na escola, logo naquele instante essencial - flagrado pela lâmina da alma -, imediatamente me apaixonei. Um amor terno, delicado e sincero, um sentimento raro, idílio - imagino-o dourar o coração de crianças quando são capturadas pelo encanto do verdadeiro Conhecimento.
Assim foi. Vejo-a claramente transitando entre as carteiras dos alunos - quase diria flutuando, com uma leveza indizível, diáfana, sempre elegante... Sustentava os olhares e corações aflitos. Alunos que éramos uma nova era, uma raivosa geração de work class heroes, expulsos da família, degredados do convívio dos pequenos compatriotas da infância, nós que logo seríamos aproveitados nas engrenagens do sistema.
Norma foi o meu esteio emocional. Disse-o, ela mesma, ainda ontem, quando nos debruçamos diligentes sobre velhos alfarrábios de antigos reis. [Ela trata de traduzir o Livro do Eparca, provavelmente um édito de Leão VI, O Sábio, vertido ao francês em 1846 por Jules Nicole, o erudito suíço].
Disse mais, que recebia a delegação diretamente de outra gema preciosa do Amor: Mitie Konishi, minha querida Mestra de Vida (e de língua portuguesa também). Esta teria recebido a delegação em primeira mão de minha própria mãe. (Minha mãe: sobre esta entidade misteriosa de poder e graça me calo em reverência e respeito).
O coração apertado, os sentimentos em revoluteio, vejo que o caminho do coração se perdeu nas brumas, prisioneiro da tirana, dissimulada e distraída, "la loca de la casa"... Eis que surge um fio dourado, a fita enovelada de minha própria história que parece desenrolar-se e expandir-se com a fúria duma galáxia que desperta de um sono sem sonhos. Sua luz banha as câmaras e reentrâncias desse labirinto que se contrói de muros e portas que se abrem e fecham para cada um de nós. A memória da Norma dá-me sentido. Nesse trânsito de sentidos, me reconstrói. Liga o futuro com o meu passado - e com isso ilumina esse instante mágico de reecontros.
Enfim, meus pais, minhas mães - Arys, Normas, Mities, Rubens - parece que vivi unicamente para reconstruir um estado de harmonia essencial, lá longe perdido, e que agora, depois de Franca e chegado afinal ao ponto de partida - minha Paulicéia Desvairada -, posso dizer que reencontro já meus frutos, amados rebentos simbólicos e naturais, os funcionários do Segundo de Franca e do Quinto em São Paulo, além de meus queridos Íris, Helena, Pedro e Thiago.
Flores partidas
Não posso terminar sem antes contar-lhes que ontem fomos ao cinema - eu e minha filha Íris. Fomos ao cine ao que parece tão-somente para cumprir o desígnio de me ver confrontado com mais um perturbador signo. Uma entre tantas estranhas e mágicas coincidências, como terá dito Jung.
Don Johnston, já no final do filme, declara para o jovem candidato a filósofo que não há trânsito possível entre as portas do futuro e do passado: "o passado já passou, o presente está aí e o futuro... ainda não chegou!”.. Talvez aí a chave. Don foi um bem-sucedido empresário de computadores. Mas nada mais se sabe desse cinqüentão vazio, vizinho de Winston - um etíope que se dedica a descobrir os laços de uma trama complexa e é simplesmente incapaz de resolver um pequeno problema de conexão na Internet. Não deixa de ser curioso o fato de que a procura de Don, que revolve os relacionamentos mal-resolvidos do passado, seja guiado pelas mãos imperitas de Winston - que lhe proporciona, de quebra, a trilha sonora dessa busca, o som exótico de Mulatu Astatke.
Winston, um etíope-americano será o contraponto essencial de Don. O negro que emprestará ao cinqüentão um sentido que ele próprio é incapaz de apanhar. E o faz por caminhos tortuosos, como a música africana, que pulsa como um coração poderoso sob a sucessão de imagens de uma América alucinada e perdida. Aliás, tudo pulsa na casa ao lado - a mulher negra, graciosa e sensual, cozinheira alquímica daquela calderada de filhos, sentimentos e música afro, o marido que fuma um baseado diante da filha e sinceramente se justifica e se absolve dizendo não se tratar de cigarros...
Os pontos de contato entre o meu encontro com Norma e o filme são pouco evidentes, já advinho o desconforto de quem me leu até aqui. Mas o que quero registrar, afinal, é que para mim se abrem as portas do conhecimento; minha biografia torna-se perfeitamente nítida. Há um passado e um futuro e entre essas culminâncias, retesado sobre o abismo, existe um presente, que se constrói com equilíbrio e elegância.
Norma Wimmer foi um anjo em minha vida. Desde o primeiro momento que a vi na escola, logo naquele instante essencial - flagrado pela lâmina da alma -, imediatamente me apaixonei. Um amor terno, delicado e sincero, um sentimento raro, idílio - imagino-o dourar o coração de crianças quando são capturadas pelo encanto do verdadeiro Conhecimento.
Assim foi. Vejo-a claramente transitando entre as carteiras dos alunos - quase diria flutuando, com uma leveza indizível, diáfana, sempre elegante... Sustentava os olhares e corações aflitos. Alunos que éramos uma nova era, uma raivosa geração de work class heroes, expulsos da família, degredados do convívio dos pequenos compatriotas da infância, nós que logo seríamos aproveitados nas engrenagens do sistema.
Norma foi o meu esteio emocional. Disse-o, ela mesma, ainda ontem, quando nos debruçamos diligentes sobre velhos alfarrábios de antigos reis. [Ela trata de traduzir o Livro do Eparca, provavelmente um édito de Leão VI, O Sábio, vertido ao francês em 1846 por Jules Nicole, o erudito suíço].
Disse mais, que recebia a delegação diretamente de outra gema preciosa do Amor: Mitie Konishi, minha querida Mestra de Vida (e de língua portuguesa também). Esta teria recebido a delegação em primeira mão de minha própria mãe. (Minha mãe: sobre esta entidade misteriosa de poder e graça me calo em reverência e respeito).
O coração apertado, os sentimentos em revoluteio, vejo que o caminho do coração se perdeu nas brumas, prisioneiro da tirana, dissimulada e distraída, "la loca de la casa"... Eis que surge um fio dourado, a fita enovelada de minha própria história que parece desenrolar-se e expandir-se com a fúria duma galáxia que desperta de um sono sem sonhos. Sua luz banha as câmaras e reentrâncias desse labirinto que se contrói de muros e portas que se abrem e fecham para cada um de nós. A memória da Norma dá-me sentido. Nesse trânsito de sentidos, me reconstrói. Liga o futuro com o meu passado - e com isso ilumina esse instante mágico de reecontros.
Enfim, meus pais, minhas mães - Arys, Normas, Mities, Rubens - parece que vivi unicamente para reconstruir um estado de harmonia essencial, lá longe perdido, e que agora, depois de Franca e chegado afinal ao ponto de partida - minha Paulicéia Desvairada -, posso dizer que reencontro já meus frutos, amados rebentos simbólicos e naturais, os funcionários do Segundo de Franca e do Quinto em São Paulo, além de meus queridos Íris, Helena, Pedro e Thiago.
Flores partidas
Não posso terminar sem antes contar-lhes que ontem fomos ao cinema - eu e minha filha Íris. Fomos ao cine ao que parece tão-somente para cumprir o desígnio de me ver confrontado com mais um perturbador signo. Uma entre tantas estranhas e mágicas coincidências, como terá dito Jung.Don Johnston, já no final do filme, declara para o jovem candidato a filósofo que não há trânsito possível entre as portas do futuro e do passado: "o passado já passou, o presente está aí e o futuro... ainda não chegou!”.. Talvez aí a chave. Don foi um bem-sucedido empresário de computadores. Mas nada mais se sabe desse cinqüentão vazio, vizinho de Winston - um etíope que se dedica a descobrir os laços de uma trama complexa e é simplesmente incapaz de resolver um pequeno problema de conexão na Internet. Não deixa de ser curioso o fato de que a procura de Don, que revolve os relacionamentos mal-resolvidos do passado, seja guiado pelas mãos imperitas de Winston - que lhe proporciona, de quebra, a trilha sonora dessa busca, o som exótico de Mulatu Astatke.
Winston, um etíope-americano será o contraponto essencial de Don. O negro que emprestará ao cinqüentão um sentido que ele próprio é incapaz de apanhar. E o faz por caminhos tortuosos, como a música africana, que pulsa como um coração poderoso sob a sucessão de imagens de uma América alucinada e perdida. Aliás, tudo pulsa na casa ao lado - a mulher negra, graciosa e sensual, cozinheira alquímica daquela calderada de filhos, sentimentos e música afro, o marido que fuma um baseado diante da filha e sinceramente se justifica e se absolve dizendo não se tratar de cigarros...
Os pontos de contato entre o meu encontro com Norma e o filme são pouco evidentes, já advinho o desconforto de quem me leu até aqui. Mas o que quero registrar, afinal, é que para mim se abrem as portas do conhecimento; minha biografia torna-se perfeitamente nítida. Há um passado e um futuro e entre essas culminâncias, retesado sobre o abismo, existe um presente, que se constrói com equilíbrio e elegância.

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